terça-feira, 2 de março de 2010

Ode sonora: Lietuvos idilijos. Vasaros ryto aidai por K. V. Banaitis


                             Histoire(s) du cinéma
                               [Jean Luc-Godard]





Lietuvos muzikos antologija
1975

À distância, um pequeno barco à vela se configura na linha adormecida do horizonte, com uma brancura esvoaçada entre as rebarbas douradas e o negrume piscoso.
Sobre um rochedo,uma mulher o acompanha em prantos. Na tentativa de recobrar os sentidos, aperta as palmas das mãos uma contra a outra, enquanto a lenta ogiva prossegue o percurso ritmado de pintura bem adornada.
Cada lágrima despejada evidencia as rugas num rosto apagado pela escuridão diária. A seguir, desesperada, pressiona-as contra a face úmida, trazendo à tona a flor de vivíssima brancura que carregava enrodilhada por entre os cabelos crespos. O crepúsculo do sol, ao fundo, reforça nela o brilho necessário.
Solitária, sua beleza é secreta, porém muito precisa. O vento, contudo, logo a arranca do solo materno, despejando-a sobre a água apaziguada do mar. Flor e barco flutuam consonantes.
Ondulações revelam:
No espaço azul uma bailarina cruza debruçada nos andaimes de uma fita. A campainha toca. Um pedido de desculpas é solto no ar, logo após o ritual cavalheiresco do chapéu. Ele entra.
A bailarina cruza novamente a cena em elegantes saltos. De sua mão, grãos de arroz se espalham sobre o solo: uma lagoa avança por onde um cisne passeia, mordiscando os farelos lançados pelo unido casal, ainda envolto por chamas amorosas.
Mais uma vez a delicadeza corta a paisagem com a fita presa entre os dedos; contudo, num dado momento, esta se solta, caindo inerte no chão.
Passos femininos se agitam na calçada. Degrau após degrau, pés aflitos rogam por alguma informação. Pés que circundam, que revezam e se multiplicam.
A bailarina atravessa pela última vez o terreno que segue íngreme,iluminado pela curvatura da lua.
O mar não tardará a subir.

Ode sonora: Le Ciel Étoilé por Charles Koechlin



[Frans Widerberg]








Le Docteur Fabricius IV. Le Ciel Étoilé
Orquestra Sinfônia da Rádio de Stuttgart
Regente: Heinz Holliger
Gravação realizada em 2005


Do ponto fez-se espetáculo: está aberto o incomensurável espaço, aéreo às infusões gráficas de relevo.
Um finíssimo tecido crepuscular degringola-se pela superfície porosa do infinito. O terreno rola na congestura de um gesto longínquo e logo pigmentos petalizam seus confetes como a neve em incansável continuidade até escurecer as veias.
Dispersões paquidérmicas geram fendas de lume prateado. Evola-se então um movimento regado na simplicidade de uma serenata senil.
Duração.
Das agitações soçobrantes, o cosmo envolvedor descola uma gema murcha da casca, em misticismo abrangente, repleto de ímpetos sem beiras. Por detrás, laços triunfais cruzam a fivela ao centro fixando a massa, ainda bastante fina.
Aos poucos as metamorfoses transplantam delirantes infinitudes de parte a parte, prensando-a por fim como gota compacta e sólida.
Comprimida,fecha-se em si. E das linhas desprendidas do núcleo, o relevo se abre trazendo consigo diversas laminações no reboco.
Destas entranhas,agressivas explosões luminosas emanciparão o universo, abaulado e plácido após parto seguido de luz flamorradiante.
Brilha,brilhosa,brilhante diminuta ogiva de extrema dor nova, ainda tão repleta de sussurros e ainda tão perdida nos aventais dos ventres.
Recanto faz-se.
Encanto perfaz-se.
Botões esmerados esboçam logo suas teias, aprontando raízes carregadas de galáxias.
Sentidos pululam lascos da semente. Entornos despejam espelhos de poros vitalícios e conjuntivos no mistério que é todo dor carregada de vida.
A essa semente expansiva, o tempo combina espaço em complexas intensidades.
Quando na calada do açoite Chronos expõe, seus elementos fumegam cores e odores, carruagens partem loucas: desejos em-ta(c)tos; abundâncias por onde dedos arquitetam esperançosos invólucros.
Num cortinado próximo a potência múltipla dos astros torna a desaparecer.
Já estava cozida a salpicada obra do destino,
após largas toneladas de anos.

Em anexo: fonte de inspiração




Intérpretes: Anna Toledo, soprano
                  Carlos Alberto Assis, piano.
                   [Harry Crawl]


SIDERAÇÕES

Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...

Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...

Cruz e Souza