segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ode sonora: Prelude in Memory of M.K. Čiurlionis: Kaunas Carillon por Giedrius Kuprevičius


Torre com sino I - 1925
[Oswaldo Goeldi]



Álbum: Viktoras Kuprevičius, Giedrius Kuprevičius ‎– Kauno Varpai
1981

Para visualizar trecho da música, clique aqui e escolha a décima faixa.


A silhueta delineada no vidro fosco anuncia a chegada de alguém naquela pequenina manhã há muito esquecida de Novembro. Dois tímidos toques com a dobra dos dedos na madeira da porta se alastram pelo corredor estreito. Ela se abre em meio ao rangir dos ferrolhos, revelando um jovem rapaz franzino, de lavalliere esfuzuado, cabelos escuros emaranhados e roupa surrada. Ele sorri içando de leve as bochechas e o pequeno bigode para cima enquanto oferece com os olhos a mais tenra e amistosa simpatia. E como se não bastasse, dá mais um passo e, com os pés juntos, cumprimenta educadamente inclinando o corpo para frente, segurando o chapéu nas abas, com nervosismo.

O jeito simples e humilde, porém, não esconde uma competência exemplar. Aprende rápido as técnicas de composição de pintura, ainda que chegando quase sempre atrasado por nenhuma razão aparente. Quando está a sós, examina minuciosamente a tela e, a partir do pincel pressionado entre os dedos, vê a tinta umedecendo-o de maneira diferente. Nas horas vagas, escreve para sua querida prima, a quem espera contrair matrimônio futuramente.

O tempo parecia correr devagar para ele. Entretanto, justo naqueles momentos, corria mais depressa. Eram momentos de violência aqueles aos quais a chuva desentranhava da terra a tonalidade originária do jardim, num amontoado de fisionomias, em diferentes formatos e odores. Quando isso acontecia encostava o ouvido ali, onde mais lhe incomodavam aos olhos, para escutar o fluxo da vida mais perto. Passava as noites daqueles dias em claro trabalhando sobre um esboço, aperfeiçoando aquilo que só mais tarde perceberia ser inimitável, inatingível. Nos finais de semana, ficava em um balcão, a degustar com lassidão um copo de sorvete, para depois caminhar à tarde inteira próximo ao mar e aos bosques.

Ele era sentimento puro. Seu espírito entrava em erupção até o cansaço supremo ocupá-lo e o sono vencê-lo. Quando isso ocorria, percebia que sonhava delírios encantadores; tanto que, ao acordar, corria para registrá-los. Como um iceberg,seu canto ia se desprendendo da forma e invadindo o conteúdo das profundezas abissais até a decomposição plena. No lugar de uma flor, um mosaico de uma igreja secular; uma árvore, as rugas de um idoso. Não mais registra o que vê. Seu compromisso é apenas com a verdade.

O enigma secava a polpa dos olhos. Os dias mudavam de tom com vaguidão: atrasos aqui, distrações acolá. Até o ritmo dos passos se alteraram. Ao receber o comunicado do falecimento de sua prima, morta pela tuberculose, mergulhou em realidades outras. Durante os passeios, julga estar sendo seguido por uma mulher de vestido esvoaçante. Ele se vê consumido por visões. Ninguém o entende, quiçá as galerias e críticos de arte. Quando as tintas acabam, prefere passar dias sem comer apenas para pintar o que lhe assombra.

Num certo dia as cores evadem a forma e as sombras confundem. Os dias não mais existem, apenas aquela velha obstinação que lhe invade a tal ponto de esquecer as palavras e a própria existência. Constantemente vê-se coagido pela polícia a levantar dos bancos nas praças públicas onde dormia abraçado a papéis com nódoas de tinta. A longa barba e os olhos arregalados assustam a quem o encontra. É levado imediatamente ao manicômio após uma crise nervosa. Dali não consegue encontrar caminho algum, senão precipícios ainda mais densos. A debilidade do corpo e desnutrição sela seu destino. Os movimentos reduzem, anulam-se até a brancura plena da conclamação na cerimônia do enterro.