quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Ode sonora: Through Hollow Lands por Brian Eno


[Eugène Atget]




O lugar que surge descolado do não: sem sentido aparente, ele é meio apagado em definição como um grande mosaico desconhecido e que agora jaz esquecido por entre silêncios mal acabados que o transeunte faz saltar sem se dar conta de se tratar de um mirabolante desfecho onde a luz segue rebentando pelo estômago até crescer pelo esôfago e desaguar no espaço das coisas plenas, vísceras e ponte - ainda que a completude nada signifique para ele pois não é de sua compreensão saber tamanho anonimato de vida nas formas cruzantes inacabáveis, em cujas bases o medo sustenta a sua principal ameaça.

domingo, 16 de outubro de 2011

Ode sonora: Prélude Op.12 No. 2 por Arthur Lourié


Rat with Wings
[Brenda Lyons]







"Moderne in Oesterreich. 30 Jahre Musikprotokoll"
1988
Intérpretes: Georg Friedrich Haas - piano 1
                    Karl-Heinz Schuh - piano 2

Pássaro roto

À frente de uma bancada de madeira, uma pomba rombuda de monóculos gesticula pomposamente. Braço ao alto, peito erguido. Mais de perto, percebe-se sua plumagem quase rarefeita em cores, um azul desabrido mesclado a uma leve brancura encardida. Olhos cercados de amarelo.

De um lado para o outro põe-se a mover nas vezes que necessita deixar algumas palavras esvair pelo bico miúdo. Os pombinhos ao fundo a aceitam silentes e com respeito, meneando a cabeça enquanto gorjeiam com educação e interesse.

Mas para aqueles que fugiam da melodia, ela observava enfastiada pelo canto dos olhos. E sem perder um minuto, enquadrava o problema de frente, agarrando o pombinho pela ponta da asa, ameaçando-o lançar sobre o solo, com um sorriso forçado desencavado do rosto e sempre para trás. Os olhos mais agudos e profundos que de costume. Depois tudo retornava ao seu lugar. Bocas ao alto, o som da cordialidade. O tempo voltando a transcorrer sob um lento filete, sem gilete ao lado.

No entanto, percebendo as constantes interrupções ao seu centro, decide abolir de vez o movimento dos pés: basta crescer por fora e aparecer. Aumenta, então, o tom da voz enquadrando cada situação a pesos e medidas específicos. Desde então, a mínima alteração na atmosfera atiça a pomba a abrir o bico de uma maneira mais selvagem que no dia anterior. Seu tom vai se tornando ríspido, suas razões obscuras, sua seriedade inquietante, de modo que até as próprias asas faz bater,iracunda.

Os pombinhos agitam-se olhando um para o outro, amedrontados em suor escorrido. Muitos tentam se aproximar e fingir entendê-la,mas a pomba segue concentrando e enrijecendo até alcançar o lado ferido da realidade. Desaparecem adormecidas de medo e pânico, pombinhos todos. A ela resta sentar na quina da mesa e saborear despreocupada sua geléia com torrada.