domingo, 29 de janeiro de 2012

Ode sonora: Révelátions - La mort por Nikolai Obukhov



Terra - 1931
[Alexander Dovzhenko]







Intérprete: Jay Gottlieb



O leito de estático cinza seca o último adeus ao mundo, naqueles dois vasos com flores ao redor do caixão. As mãos depositadas sobre o peito, o rosto perdido em eterna serenidade.

De repente, uma pétala se desgarra do fruto escuro e, como se a imagem fosse um espelho d'água, interrompe a sua materialidade límpida por onde uma outra se sobrepõe em sentido contrário. Não mais corpo, mas vaso de boca estreita e garganta larga que se espatifa no chão. Pés percorrem o local, velozes em pressa máxima, até a curva do corredor. Um grito irrompe, grito de desespero cáustico. O pavor embalado no cume das íris. Por trás da escuridão, a porta de madeira decalca os contornos da sombra de um homem, ombros largos e barba farta, que avança com um machado na mão. Ela se encolhe como um bicho num canto entre as paredes, debaixo da grande mesa de jantar. A tensão redobra. O medo sobressaindo pelos poros. Ele vê a sombra dela. Ela percebe e foge.

Uma das janelas manejada pelo vento do lado de fora, bate com força, indecisa. As trincas estremecem acompanhando o uivo do vento. No outro cômodo, uma finíssima cortina se agita. Ao fundo, algo ocupa o pedaço do chão. Olhos abertos, mãos e cabelos empapados de sangue. A ferida aberta no pescoço. Um urubu se aproxima e permanece pousado sobre um galho nu da árvore. A lâmina do metal ainda fria, uma das mãos segurando o cabo. Descama a imagem.
A sombra do galho sobre o rosto do morto. Mais uma pétala desaba. A noite começa a ser real.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ode sonora: Two dialogues with an epilogue: I. Hochzeitswalzer por Valentin Silvestrov


Jazz Dancer - 1954
[Roger Tilton]




Munchener Kammerorchester.
Regente: Christoph Poppen
Piano: Alexei Lubimov
2007




Silêncio inaugurando corpo. O primeiro passo sendo o último. Todos os demais acompanhando. Movimento encantatório ligeiro de não se conhecer pressa, pelo qual arqueaduras vão costurando direção nenhuma, em efeito de ponto só. Do Tzrak ao Tzrok, um Tzrik ocasional surge impulsionando a moção para um retorno circular. E é da flor deste terceiro passo que flutuações luminosas passam a irradiar nas muitas pontas do salto, o profundo que não se vê. A mão pinça a leveza com os dedos até o vento afastar folhas secas do nó górdio do galho. Quando se desprendem, ameaçam adormecer a todo instante de queda caída no chão, mas então não: seguem correndo enquanto se misturam em cores, espalmadelas serenadas, por onde vão e vem numa constância de quem (re)pousa somente para se lançar mais adiante. A vida lá no centro movendo tudo, primavera eterna. Os colares que por baixo servem não conseguem ocultar a inocência que o olhar quer cada vez mais. Ah, essa luz que me cala e expande o coração!