quinta-feira, 19 de abril de 2012

O roubo e o impresso ou o porquê benzo a linguagem



Confesso: aquele olhar marcou pedaço. Estava passando de azul natural quando ela veio e cortou minha razão. Pinguei chuva de amor. Entretanto, ela olhava para mim como quem vê um repolho ou um nabo. Foi então que roubei sua imagem por alguns instantes. Segui-a de perto. Os vagões, os lugares e minha órbita era outra. Acreditava no que me escapulia. Um grupo de rapazes, meio abutres, meio focas, a cercaram. A moça oscila a cabeça de um lado para outro, desconcertada em timidez alveolar. Eles alvorecem as bochechas, pedinhentos, sedentos de desejo. Querem ela foto, pra ficar mais. Sobre a roupa. Sob a roupa. Mas um sorriso desarmado provavelmente despertou para eles, naquela negação apressada de vime tão dela. Compreenderam logo: eles ali, eles; ela acolá, ela. O solo deixando de ser o mesmo (ou talvez nunca houvesse sido aquela juntura). Talvez daqui a pouco? Amanhã? Ou depois? Retorna a origem ao ancestral silêncio, com uma lasca a mais na superfície.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Pomar

O galho - 1976
[Marc Chagall]








Cavalcade
[Goldmund]



"To see, to catch, to be" [John Banville in 'Athena' p. 228]


Quando a frutinha amadure_ce, a casca intume_ce de frescor palpitante, como se atingisse uma temperatura ideal, um equilíbrio bem aquilatado. Presa ao galho, sua raiz perfaz-se de sedimentos. A camada assentada, por dentro, engessa o esqueleto do caule, por onde florzinhas compactas aquiescem em mundo líquido. A camada assentada, dos foras, estala irrompendo sinais quase nunca entendidos no mar de quem sente. Pinica, sacoleja, sem escapatória. A casa é da casca, somente. A mão que aproxima não basta só de palma. Aquela altura no quase madura, não cai. Está transverjando à cor do sol. As falanges mudam tudo, no encaixe perfeito. Dispostos, fruta e mão, o olho segue o contorno, zelando pela mão que só sabe conhecer memórias: a do corpo-inteiro. A mão sem o fruto dentro de si não pega fruto. O momento da carne na carne é, por isso, precioso, naquele acasalar de desejo e esperança: a fruta, para não cair podre; a mão, para não cair de fome. Juntos, floreScem.

Insólito voraz


Ancião com as Mãos na Cabeça - 1882
[Vincent Van Gogh]











Nikolai Roslavets
[Prelúdio para piano - 1915]

Intérprete: Irina Emeliantseva - piano

Joaquim se apressava. A mão de unhas carcomidas sobre a pasta cor acre, com papéis de hospital assinados. A pressa comendo sua imperfeição. Caminhando pelo viaduto, a noite envolve seu corpo. Joaquim vê apenas o suficiente para não tropeçar nas calçadas ou cair num buraco de uma situação escabrosa. Acelerado, o olhar processa mais rápido: imagens brutas manifestadas, cindidas de adjetivos e infestadas de contaminações gotejantes. Sorrisos, espirros, beijos, escarros, buzinassos, bocejos e lágrimas. Ora rostos ora cabelos; ora cabelos ora rostos, devassados de polutos adereços: gravatas, ternos, gravatas, ternos, piercings, óculos, verrugas, algodão, vitiligo, camisetas polos, hanseníase, t-shirts, estampas de camisas, fones de silêncio, silêncios sem fones. Mais próximo do chão: cores de se ver saltos. Por que aquela dissimetria? Ou talvez fosse mero acaso de impressão falhada?

O cabelo de Joaquim emaranhava-se na realidade, com a ajuda do suor-tinta do corpo. Suas calças jeans, largas, pareciam embrulhá-lo em pele, como um casulo fechado em baixo e aberto em cima. Estavam enpapadas tamanha ligeireza naquele nervosismo seu tão wozzeckiano.

Leva um susto quando, ao atravessar o sinal, é surpreendido por um homem de imensa barriga verminosa, sem camisa, só de pelos e tatuagens cavucadas, arrastando cinco cavalos que se assemelhavam em natureza ao próprio dono, incluindo os idealizados potrinhos. A força concêntrica era a mesma e a tal ponto que se podia evocar a figura de um minotauro.

Maçã suja. Cidade aberta. Sintomática.

Mas foi no entre-sala da avenida que ele azeda até os fusíveis. Um homem de bicicleta acaba de roubá-lo.

Tserrelin tserrelin são os estalos.

Grita com a voz a soltar veias pelo pescoço: "PUUUUUUUUUUUUUUUUTTTTTTTTTTTAAAAAAAAAA QQQQQQQQQQQUUUUUEEEEEEE PPPAAAAAAAARIRRRRRIIUUUU!!!!"

O menino para de morder a pipoca. A moça no ponto das vans, estica o pescoço, em plena curiosidade.

Joaquim corre o máximo que pode e não consegue. A bicicleta desaparece tão súbita quanto apareceu.

E depois para os lados, voz débil: "VVVVVVVVVAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIII TTTTOOOOOOOOOOOOOOMMMMMMMMAAAAAAARRRRRRRRRRR NNNOOOO CCCUUUUU!!!!!" "VVIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAAAADDDDDDDDDDDDDDDDOOOOOOOOOOOOOOOOOOO"

Surta. Aquele seu estar tão catapléxico, finalmente ao fim. Havia chegado ao túmulo quando o seu desespero ultrapassa a barreira da sanidade e o mal-estar vira epígono de ponta cortante, o corpo saindo ao avesso pela boca.

Gritava sem parar. Na frente dos carros, das senhoras indefesas, moças bonitas e meninos inocentes. Estava tudo ali o que nunca soube dizer. Dois rapazes querem ajudá-lo agredindo-o a pontapés e socos. Seus braços caem na total falta de coordenação. As formigas aceleraram os passos, com medo da queda. As baratas voltam ao esconderijo seguro. Grades de ambas as partes, como Olga em Limite.

Um homem segurando duas sacolas pesadas de compra solta a frase: "Deixem ele em paz!" Uma mulher arrepia no mesmo tom: "Covardes!". Dois moleques usando mochilas, trabalhadores do dia-a-dia, se defendendo daquela contra-rotina. Prostitutas olham.
O trânsito para na rua 3x4.

Joaquim no chão, desmaiado. O canto da boca encosta no chão a baba de sua vida.

Só mais um fio. Um fio a mais. Restará?