segunda-feira, 18 de junho de 2012

O elefante e o caçador ou o porquê a fome é inimiga da incerteza







 Bolinas (2007) para fita magnética e piano
[Juan Reyes]


Era uma vez um elefante que vivia na floresta de Malek, situada numa ilha, no meio do oceano. À distância parecia ser um reles elefante, destes que vivem comendo e dormindo. Um movimento de aproximação atenta bastava para perceber que nada dele parecia corresponder à espécie enorme e opulenta, possuidora de rica carne gordurenta. Assemelhava-se mais a um acordeão murcho e sem viço de algum marinheiro. Era magro, muito magro. As costelas apareciam todas, da primeira à última. Uma coisa só o satisfazia: apalpar a terra com a tromba em busca de alimentos. Pegava, levava-o à boca em livre examinação e, não gostando, devolvia ao lugar de origem. Os animais não compreendiam muito bem o porquê da recusa, pois havia comida em abundância: a mata era de um verde escuro e diversificado, típico de Kipling.  Quando perguntavam, ele dizia não ter tempo para conversas, que estava com fome e precisava comer depressa. Macacos e chimpanzés riam daquela atitude e volta e meia faziam estripulias pulando sobre o elefante ou passando os dedos sobre as imensas costelas do animal que nada fazia senão caminhar em busca de sua alimentação.

Em certa ocasião, aparece um homem naquela ilha, o único depois de tantos anos.
Sustentando, com ambas as mãos, uma espingarda envernizada, pisoteava as plantas e o que viesse no meio do caminho. O cigarro pequeno no canto da boca. Bastava um movimento para receber a bala quente do cano. E para isso, tinha bala de sobra na cintura e quase nunca errava tiro algum.

Caminhava por entre os cadáveres com completo desdém. A barba cerrada acentuando ainda mais a expressão carregada do rosto, olhar de quem sabe o que procura. O cigarro soltando fumaça. Os dedos grossos no gatilho para qualquer incerteza que manchasse sua clara superioridade.

O elefante percebeu a enorme confusão e um silêncio apavorante consumir a floresta. Permaneceu tranquilo, sereno, como alguém que observa de outra superfície. Fazia esforço tremendo para levantar uma zebra caída em sangue, no intuito de continuar apalpando o solo.

O caçador havia circundado a ilha. Nenhum pio. Visitou o farol, os dois estabelecimentos comerciais, a escola, a biblioteca, o fórum legislativo, abandonados há tempos e nada encontrou senão teias e aranhas, reflexos da caça impetuosa.

Estava voltando para o barco a remo amarrado a um toco de árvore na praia da ilha quando percebeu o elefante atrás de si:

- Ahá, você está aí! Seu danado!

Mirou na cabeça do animal com um sadismo incontrolável. Mas já era impossível prosseguir quando a jibóia lhe engolia os pés. A arma caiu sobre a areia fofa. Os braços se agitavam da maneira que podia. A voz articulava da maneira que podia. Mas não podia mais. Não podia nunca mais. Estalos atrás de estalos. Pelas pupilas do elefante,  o reflexo da cena, a boca mastigando o alimento com calma e desinteresse bovino. Pouco a pouco o homem enorme sumiu no estômago do réptil. A jibóia ficou enorme, do tamanho do elefante e permaneceu meses imóvel, tentando digerir aquilo.  Sob um céu estrelado, não conseguiu suportar e desistiu. O elefante também, faminto, de joelhos dobrados.

Inspirado num interessante texto intitulado "O elefante e o medo do escuro" do amigo Mariel Reis.

domingo, 3 de junho de 2012

Ode sonora: Visions de l'Amen: VI. Amen de jugement de Olivier Messiaen




Intérpretes: (???)
                   


É a vez de Pedro. Desnudo da cintura para cima, ergue-se do quarto com o intuito de realizar a obra que tanto quer: ser livre. Para isso, coleta tijolos, suspendendo-os um a um com a força dos punhos. Deste jeito. Maquinalmente a instrução como se fossem meros testes para uma certeza pronta. Livros de causar inveja e espanto. Presta menos atenção à sujeira e ao peso que meteu o corpo, sem se acidentar. Quando completa o prazo de entrega, é reprovado.

Pedro volta com outra estratégia. Os pés na mesma posição como se tivessem amortecido o impacto. Usa a química desta vez, para prender melhor os sólidos. Os óculos na ponta do nariz. Acrescenta, acrescenta, recobrindo a estrutura por cima como um caldo suculento. Entretanto, a mensagem é clara, quando, à altura dos olhos, ela desarma por completo. Novamente ele voltando a ser o que foi, um caco de experiência a mais que o anterior.

Emprega a aritmética, remanejando os espaços que diminuem. Vão sumindo, sumindo até a quase dissolução. "Sólido sólido", descreve, impossível. Chega até a divulgar a inauguração. Todavia ela cede mais uma vez num outro retorno aos pedaços do começo.

Pedro põe a roupa do mago: se reveste como orador, ciceroneia nos grupos fechados, encontra amigos e inimigos como nunca que o ajudam moralmente. À medida que avança, contente, satisfeito, questiona sobre aquilo que o colocou em situação complicada durante os vários anos que passaram. O acréscimo dos caminhos e o mesmo resultado, ele de outro jeito. Vai,então, diminuindo os passos pouco a pouco até mal conseguir avançar, desabando sobre o próprio trabalho. Pedro decide não coletar mais tijolos. Prefere sonhar que realiza essa tarefa. Por pouco tempo, acredita conseguir...mas no prazo de entrega é reprovado.

Rola até o piso gelado.

É obrigado a vender o que pode. Decide, por fim, investir nos homens de negócios, nas aparências da lógica de mercado, com punhos de ferro. Quer rasgar o vestido da moça, algo no qual, por refinamento, nunca optou. Tem sede e fome. Aumenta significativamente a produção de qualquer jeito. Crescem em todo o canto, debaixo das árvores e dentro das usinas, tortos dele. Para fortalecer mais ainda, compra uma gaiola e joga tudo nela, para logo depois se encerrar vazio: pleno, livre e morto!