domingo, 9 de setembro de 2012

Aprendizagem






Der unterbrochene Gedanke (1988) para quarteto de cordas
[Krzysztof Penderecki]

Na véspera da semana, quando nada mais parece acontecer de verdade, seu siri aparece articulando com lentidão, para um lado e para outro, três patas dianteiras na frente do rosto. É o modo como costuma se envolver com as coisas: a pata do meio oscilando entre as outras duas. Passa o jornal, o filme, a estréia, a revista semanal, o livro, tudo passa, só seu siri fica, estalando a fruição pessoal. O relógio vai deixando seus pertencentes pelo caminho, o dia vai trocando de roupa, e seu siri permanece acariciando um algo que consiga amarrar o gonzo do tempo junto.
Um menino abre o berro no lado da noite, choro tão efêmero quanto um chuvisco numa tarde ensolarada. Seu siri percebe o quanto deve ao cansaço e continua os ponteiros cosendo à sua devoção.
Chorasse um outro horário e ele tampouco perceberia, pois a devoção pela qual inscreve-se tem limites, sob pena de se ver sozinho no mundo. Seu siri jamais pensava na possibilidade de estar só. Tinha obrigações diárias o bastante para afixar-se a elas com correias e algemas. A cada lugar e fisionomia revisitado, o hábito trocando o sujeito pela permanência, o espaço pelo tempo até a opacização numa ação afunilante, magra de carnes. Pelo menos era tranquila, segura, podendo resguardar o passado e, de algum modo, o futuro, naquilo que o obrigava a ser como costumava ser: um siri mais acrescentado para o dia-a-dia, afinal qual justificativa haveria para os anos de envelhecimento?
O menino depois aprenderia também o caminho da devoção do seu siri, de maneira a regrar o sustento e a mesura do tempo. E assim ia sendo até que o berro de um outro menino se fizesse ouvir eruptivo, com lavas que queimassem como nenhum outro coração, inclusive as papeladas remissivas trazidas pelo seu siri. Conheceria a curva do vento, a timidez das formigas, o grão quente por onde o lixo se acumula aos borbotões e a indiferença se aninha às vespas. A sombra do seu siri ficaria por baixo, examinando e tilitando moedas à distância. Todavia a tempestade não duraria muito quando, sozinho e entregue, provasse a ânsia lhe escapando a cada minuto e a força do menos acumulada num mais erguido sobre um lado contrário: a impotência fremente de um mais que não podendo retornar, é inútil e emurchece. Logo se cansaria de toda aquela experiência que o seu siri apenas imaginava nas vésperas das semanas e feriados quando punha o pêndulo do braço médio em circulação, deitaria o ouvido no chão para passar o calor fremente do corpo aos murmúrios da terra e dela se fazer húmus, bolhas que ascendem ao estouro límpido e sereno.