domingo, 27 de janeiro de 2013

Labo 1: O jogo





Onde há pouco falávamos - Drummond - performance by Unknown on Grooveshark
[leitura performática sobre poema de Drummond]

Fundo musical: Variations sur une valse de Johann Strauss, Op. 23 de Jozéf Koffler, gravação de 1935.





ONDE HÁ POUCO FALÁVAMOS 


É um antigo
piano, foi
de alguma avó, morta
em outro século.

E ele toca e ele chora e ele canta
sozinho,
mas recusa raivoso filtrar o mínimo
acorde, se o fere
mão de moça presente.
Ai piano enguiçado, Jesus!
Sua gente está morta,
seu prazer sepultado,
seu destino cumprido,
e uma tecla
põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
É um rato?
O vento?
Descemos a escada, olhamos apavorados
a forma escura, e cessa o seu lamento.
Mas esquecemos. O dia perdoa.
Nossa vontade é amar, o piano cabe
em nosso amor. Pobre piano, o tempo
aqui passou, dedos se acumularam
no verniz roído. Floresta de dedos,
montes de música e valsas e murmúrios
e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
ele estronda. A poeira profusa salta,
e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
Assim nosso carinho
encontra nele o fel, e se resigna.
Uma parede marca a rua
e a casa. É toda proteção,
docilidade, afago. Uma parede
se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
o medo imemorial, os inspetores
da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
Uma cadeira se renova ao meu desejo.
A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
e confiantes. A casa vive.
Confio em cada tábua. Ora, sucede
que um incubo perturba
nossa modesta, profunda confidencia.
É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
busto e humour. Uma dolência rígida,
o reumatismo de noites imperiais, irritação
de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
e tudo que deixam mudanças,
viagens, afinadores,
experimento de jovens,
brilho fácil de rapsódia,
outra vez mudanças,
golpes de ar, madeira bichada,
tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
meio grotesco também, nada piedoso.
Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
objetos, modo de dobrar o Unho, gosto
de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
a coleção de retratos, também alguns livros,
cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
bem sei, mas e esse piano?
Está no fundo
da casa, por baixo
da zona sensível, muito
por baixo do sangue.
Está por cima do teto, mais alto
que a palmeira, mais alto
que o terraço, mais alto
que a cólera, a astúcia, o alarme.
Cortaremos o piano
em mil fragmentos de unha?
Sepultaremos o piano
no jardim?
Como Aníbal o jogaremos
ao mar?

Piano, piano, deixa de amofinar!
No mundo, tamanho peso
de angústia
e você, girafa, tentando.
Resta-nos a esperança
(como na insônia temos a de amanhecer)
que um dia se mude, sem noticia,
clandestino, escarninho, vingativo,
pesado,
que nos abandone
e deserto fique esse lugar de sombra
onde hoje impera. Sempre imperará?
(É um antigo piano, foi
de alguma dona, hoje
sem dedos, sem queixo, sem
música na fria mansão.
Um pedaço de velha, um resto
de cova, meu Deus, nesta sala
onde ainda há pouco falávamos.)

Carlos Drummond de Andrade in A Rosa do Povo

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O náufrago

- Não quer mais um pouquinho?

O homem arfa o peito semi-nu como se prestes a tomar uma iniciativa muito importante.

- Vai a saidera?

O olhar fazia acompanhar os trajes de pedinte mal fadado. Até a gengiva gelatinosa vinha para compôr aquele estado de mão esticada, tal qual estirada estivesse sobre o cadafalso.


- Mais uma pro doutor aqui!

Estava certo de que se tratava de um magnífico lance de dados sem um fim aparente. A mão meio aberta em formato alfabético era como uma das milhares de mãos meio abertas que existiam.

- Traga outra pro meu amigo!

O proprietário de novo. A toalha branca no ombro direito, o branco avental envolvendo a branca figura que se presta a segurar branco caderno, espesso, contudo, na ponta do lápis. Não se demorava muito. Para que olhar aquilo, afinal, senão enquanto algo que começa a subir pelo vestido e vai se alojando, proliferando sob a efígie incognoscível do medo, a pena de ser uma coisa que existe e faz existir? Uma intensidade maior que as demais, por onde, juntos, transparece água de um lado, terra de outro.

Ele senta em você, te macaqueia de rei enquanto dança aos rodopios que diz ser de cego. Surpresa amorfa essa, a de não saber pra que, nem pra onde.  Você finge entender, ainda que seja outra coisa, ainda que nem ele mesmo saiba qual é. A relação cristã se dá. Você solta algumas guloseimas. Malícias, sim.

- Não se preocupe. Essa fica por conta da casa.

A boca amarga repete o sonho no corpo de outrem. O tempo que passa quase imperceptível e faz ator a quem precisa. Diz que foi assaltado, perdeu o ciso, esbofetearam-no e é francês que sabe pouco. Quer provar que é verdade, que é pobre e bicho e indefeso. Livre para o risco da morte, inventa a devida coreografia na voz quente de um pergaminho esperançoso. Enquanto isso o proprietário segura o lápis com a mesma força do olhar de quem talvez nem precisasse do caderno.

-Agora?
- Agora.

Desfeito o espetáculo maior, bom ator e bom público partem, como se pago o serviço, pudessem sumir duas sombras satisfeitas pelo tempo que os uniu.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Da série "Obras anônimas": Robert Walser



                      Robert Walser
                 [autor desconhecido]




The Plain Of Lavrion
Rosa & Wandering
[Eleni Karaindrou]
1982



"A Primeira e Única

Ela, a cujos poemas eram endereçáveis; ela,cuja importância é notável, que não escreve poemas apesar de servir como significativo poema ao poeta - eu a conheço. Se alguém a lança gracejos, fica atônita. Eu já declamei para ela, mas nada que me satisfizesse. Ela me enxotou; o que fez com que sorrisse, alegremente, como se ela tivesse me dado uma noite com ela, daquelas que causam arrepios no poeta, porque até então era permitido a ele somente imaginar suas pernas. Depois disso, eu jamais amarei novamente. Ela fez de mim uma criança que se maravilha com a terra, é submetida a belas instruções, e reverencia a Deus. Os sapatinhos não são tão charmosos assim. Mas eu amo o jeito como ela brinca com o lencinho. Eu não tenho permissão para vê-la novamente, e ainda assim, estou feliz. Com ela, o meu comportamento era vergonhoso, pois em sua presença eu tremia,apesar de pretender me mostrar seguro de si. Mas terminei tremendo por causa da idiotice do amor, que muito me irritou. Ainda assim, longe dela, eu a acariciei, brinquei com ela, dei cambalhotas como um lunático, um menino bobo. Por quatro anos eu poderia ter sido capaz de esquecê-la, mas tudo voltava de novo. A lembrança dela era encantadora. Eu não fazia ideia do poder que uma garota tinha. Toda a fidelidade, tudo que era bom em mim não era nada páreo às vestes da Primeira e Única. Eu estou animado, como se estivesse diante do início da manhã, apesar de ser meia-noite. Eu escrevo isto, como se estivesse dando para ninguém ler."     

Escrito entre 1924-25 na folha de rosto do seu livro "Poemas" (1919) in "Speaking to the Rose: Writings, 1912-1932" p. 33 
(tradução livre minha)

Original traduzido para o inglês abaixo:

"The One and Only

She to whom poems are addressed, who is significant, who writes no poems but is a poem significant to a poet — I know her. If one is fresh with her, she shows only glorious astonishment. I have sung her,
but not yet to my satisfaction. She chased me off; at which I laughed, happily, as if she'd given me a night with her, such as leaves the poet cold, because he has long since been allowed by his imagination to see her limbs. After that, i'll never love again. She made of me a child who marvels at the earth, is subjected to beautiful instruction, and reveres God. Her shoes are not especially marvelous. But I do love the towel she toys with. I do not have permission to see her again, and yet, if it really should not be so, I'm happy. With her my behavior was shameful, for in her presence I trembled, and I tried to pretend I was superior to her and found this trembling, this love, foolish, and almost detested it. Yet, far from her, I caress her, play with her, caper like a lunatic, a silly boy. For four years I might be able to forget her, then everything would come over me anew. To know this, enchanting. Till then, I had no idea what power a girl has. All fidelity and whatever else is good in me comes to nothing against the vesture of the One and Only. I'm
cheerful, as otherwise only in the early morning; but it is midnight. I write this out, as if giving it to nobody to read"




A rosa amarelo-púrpura


Estava enamorado. Na frente de uma floricultura foi quando se deu conta. Os pés avançavam inevitáveis como se calçassem coração, que de tão tinto o pôs logo entrecortando a emoção no ramo. Havia as brancas, vermelhas, amarelas e azuis, cada uma dotada de um rosto específico. As mais claras sorriam oblongas como se serpenteassem muitas vezes no ar. As vermelhas conseguiam destacar-se diretas e pungentes, como estrelas perenes a bombear uma antiga canção com patetismo.

Definitivamente não parecia estar ali, próximo da empresa funerária e do aterro sanitário dos novos prédios em construção, por onde um murmurinho de passos vagueava pela calçada enlameada de chuva e marrom dos capotes e chapéus, o dia ensimesmando a anoitecer depressa.

Toca os espinhos: todos baixos como a crina de um animal asinino. A fragilidade ressoa tão infensa naquele conjunto de cores e carrosséis que nem juntando todo o luto do asfalto conseguiria redimir o cristalino. Tampouco pareciam encubadas: adormeciam juntas como Branca de Neve na água de um balde, vigiadas por um dono, espécie de carcereiro, gigante mal enfadado, que girava um molho de chaves imaginárias enquanto ocupava o tempo com coisa nenhuma. A voz de noticiário, o travesseiro que tinha.

A forma nobre e principesca de como feneciam o encantava. Havia de escolher a que mais se aproximava com a amada em gesto, atitude e sabor. Abelhinha veio e procurou, a cada batida do amor, o tampão de sua paixão. Encontrou, como se descarrilhasse, a amarelinha aninhada às vermelhas. Ao aproximar o nariz do botão exalou intimidades, fragrâncias nectarínicas que vinham do centro e se ramificavam nas narinas. O amarelo listrado das espigas. Sim, era a própria.
Paga o sonho e voa pela porta à fora segurando-a com alento junto ao peito. Segurava ainda que se sentisse segurado, como se ela sobrevoasse por si, ele acompanhando ela, apenas. Ao aterrissar, esconde-a imediatamente sobre o casaco puído com um zelo quase maternal. Passa pela recepção. Nada como a força do hábito para vendar o segredo tão seu. Ela se embarasta pela camisa como se deitasse sobre um lençol quente. Seu presente estava ali, naquele lado do corpo.
Um par de olhos cor de rubi salta a cena. Tinha a boca fina e pele de praia salitrada. A sensação de leveza juvenil a qual nenhum vestido conseguia superar e os sapatinhos lilás, como a presença solar. Ele sabia bem daquele arrepio, só não sabia se negociar. De fato, nunca manejou bem as misteriosas transações afetivas, sabendo proferir só os recortes de jornais, sensações consolantes. Lia bastante a respeito, conhecendo estrofes de poemas amorosos de cor e passagens de filmes onde o afeto se fazia presente, no momento da deflagração, como estímulo para o braço da vontade. Mas por fim, nunca viola a fronteira da proteção. É aí que a coisa estanca e faz galhos antes do tempo. Ele e ela, separados, conversando como pessoas que nunca se tocaram sequer em presença. Mesmo quando isolados a dois na copa durante a lavagem dos talheres e louças usadas no almoço, ela poucas palavras desfraldava, remexendo as franjas do vestido que ele,encostado à parede, observava; as pernas mais ao fundo de eriçadas penugens. Mas ela quiçá o olhava. Era capaz de pedir licença para passar quando finalizava o serviço. Quando ocorria de permanecer alguns segundos a mais tête-à-tête, volvia rápido a cabeça ao sentido original, profunda fugitiva. Imaginou, por vezes, Gabriela, aquele nome tão acortinado, permeando os arredores do escritório, salteando palavras doces no ar e ele retribuindo as bênçãos no pescoço, animado com a chama, à revelia da antiga companheira: a melancolia. Ele agarrando com as mãos aquela cintura quando permanecia na copa, num calor serotoniano da abundância imantada. Mas o que amava exatamente nela? Talvez estivesse vendo demais...ou talvez estivesse morrendo demais. Matutava, neurótico, o desejo ás escondidas. A flor debaixo do casaco puído.

No escritório, rega e apronta o jardim para o desvelo imediato que o faz esquecedor do mundo. Gaguejaria naquele instante se a pergunta mais fácil fosse proferida. O amor vive a comer, como um poeta diz.
Débil, sobretudo débil no que tange ao nó górdio dos acortinados, uma poça que não retrocede mesmo que rache, abra cratera.  
A mão da noite se faz presente e a oportunidade, antes adiada, se torna imperiosa a partir da estrutura metálica dos ponteiros que cortam e separam como ninguém.

Está em fuga o tempo. Está em fuga e já lhe falta espaço para simetria.

Ele decide por levantar a aba do instante para, depressa, esgueirar-se sobre a mesa dela um papel minúsculo escrito o mais legível possível.
"Seu admirador secreto. 
P., aquele que não consegue ser rosto, sem deixar de ser coração" 

Seu nome J., mas no entanto P. no papel recortado. A corda se esticando sobre o corredor escuro.
Parte em retirada.
Ao amanhecer, chega e encontra o retrato dela na carteira de um amigo. Diz que se amam, mordendo o lábio inferior.
Ele sorri só as dobras da boca, apesar dos olhos caírem. Levanta de leve o chapéu e sai.
Retira a flor da vasilha e a põe dentro do casaco. E a partir de então passa a observar os dois, como osso de uma mesma carne. Faz isso até a despedida, pétala por pétala.

"...sem saber...que o sempre...sempre acaba", se ouve baixinho.

Mas não havia acabado. Estava decididamente enamorado para qualquer derrisão. A sua satisfação começava logo de manhã cedo ao reencontrar o solo fofo com a sola dos pés. Um salto a mais e isso bastava.

Texto originalmente publicado na revista Estudos Humeanos, no. 79