sábado, 2 de fevereiro de 2013

Na primeira pessoa

Cansado, a torto e direita, as válvulas a que pertencia não mais prestavam. E ainda que estivessem operando acesas, mal em cor, suspiravam. Aberto o livro, na primeira página do dia, deparava-se com a seguinte pergunta: "o que é o seu nome assim?" Ele já nem sabia que por ali havia quem o escutava, desperto às palavras que de sua verve emergiam, como rimas de pontes. Os tijolinhos lançados ao ar encantavam ela - à maneira dela - e a tal modo que os dois cresciam ramos juntos. O sal do início havia descido. Haviam crescido nas costas de Malabar como dois miúdos na leveza da maré. Pingentes, só nos pingentes diziam. Ela já assinava embaixo o que não sabia ser poema. Ele das palavras se fazia, não em linha reta, mas nas curvas de um prazer sentido e liso. Ela segurava a mão que antes separava a casa do abrigo. Agora, já se deita, como outrora Iracema. Curvas vem do corpo que pede e se entrega em profusão. Ele ainda nas curvas, a querer ainda misturar magia. Não entendia aquele ser desassossegado que andava a segurar o câncer de seu signo. Os poemas sossobravam o tempo todo. Ele estava desatando os nós, quando veio a frase, súbita, de que não entendia de asas, mas de mar que é direto e não faz sombra em nada. Era lógico o que queriam. Percebendo isso, ela turva um pouco o rosto, pondo os olhos em estado semiaberto, levanta e vai embora, comentando acerca de um tal Kairós que ele não sabia e nem considerava. Ela, tão revestida de signos e estrofes comuns, estava saturada dos cordões de suas perguntas que só ela queria ter a satisfação de tê-las feito, isentando-se de si mesma. Os ciclos não se fechavam. Ponto. Ela somava demais e, por isso, as escovações dele a matava, como se a cada verso houvesse um reverso, uma estrutura palindrômica. Vestiu a camisola, agradeceu e foi de costas, em descompasso, como se piscasse para o mundo acender novas válvulas.