domingo, 21 de julho de 2013

O retorno


                          [desenhos e manuscrito original de Samuel Beckett para o livro "Murphy]





Quarteto para Oboé e trio de cordas (1994)
[Isang Yun]

Intérpretes:
Heinz Holliger (oboé, english horn)
Thomas Zehetmair (violino)
Ruth Killius (viola)
Thomas Demenga (cello)


Após uma longa e quase vã espera, o ônibus finalmente chegou. Não era o tipo que Heitor esperava encontrar,mas o letreiro acusava o muito no pouco que queria ser lido: aqueles mesmos números ímpares seguidos por palavras uivadas entre vogais e consoantes.
Quem sabe o ônibus houvesse trazido também uma imaginária neblina, um abafamento de cores atravessadas somente pela luz de seus faróis, qual malha fosse.

Lógica perene 
irreproduzível

O interior está mais escuro que o usual, tal qual uma sala de cinema, uma boate ou talvez um recôndido lugar destes onde realizam-se jogos proibidos regados a muito tabaco e bebida.

Buraco de sonho


Não havia nada em especial que tornasse o lugar algo particular, senão aquele nome, aquele adereço pelo qual olhos indóceis esperam apoiados no parapeito da comodidade habitual.


Um
não-lugar,
dirão

Era um dia frio, destes de abaixar os olhos para escapar de poças. As solas geladas, os couros e narizes gelados.

Glaciais 

A ponto de causar alguma estranheza, desconfiança talvez, transida quase que por acaso.

Encantamento 
ou eu estou virando oco?
 
Uma luz lânguida vindo de fora, conduzia a não companhia de cada um ao sono mais profundo do corpo.

Murphy, nu, sentado em sua larga cadeira a girá-la para frente e para trás o corpo 
nenhum 
de um tempo 
qualquer

Em movimento, o mundo fluia para dentro com um ímpeto surpreendente, tal qual irrompessem super-novas naquele instante tão velho. Recortes de pernas, cordões, gestos citadinos esmaeciam com rapidez. A cada freada brusca, mãos inseguras corriam pelas barras metálicas, enaltecendo músculos e tendões.

Escura noite, escuro vento
 
O esmalte vermelho das unhas como se esperneasse contra o azul escuro do esquecimento. Heitor atenta-se para a moça que acaba de se sentar ao lado: a pele alva e limpa em contraste com as vestimentas escuras e elegantes; a boca mais vermelha ainda. Permanecia de cabeça baixa, remexendo a pequena bolsa preta com fivelas de um ouro há muito oxidável.
Quando aquietava-se, relutava a olhar para fora, como se travada ou afastada estivesse. Levava uma das mãos com o esmalte vermelho para a têmpora e assim permanecia querendo (com) o tempo passar. 

Murphy marcando a visita com Célia, a mulher de seus olhos, que não o esperava 
em casa, 
por estar na esquina 
às noites

Pensamentos.
O nariz abaulado parecia apontar para uma beleza de outras proporções, com um certo mistério nos lábios. Foi então como se a rua estivesse repleta de caminhos e nenhum lugar definido. Somente um amontado de faróis e postes remendados na velocidade que os consumiam, colorindo em feixes de miséria o espaço-tempo.

Sem corpo
Nem leito

Amarelos globos candentes nos rostos, nas mãos, no colo da moça. As pernas joviais cruzando o sexo com pudor como se apertasse mais pra si a candura estática de seu ser. Nas vezes em que pousava a mão sobre a bolsa, Heitor observa um anel no quarto dedo. Alguém a espera?

desalojado, feito nudez magra 
calva 
enfim      

E se se manifestasse um acalentado toque nas mãos? E se se a olhasse fundo nos olhos? Exibiria as unhas com rancor? Rasparia o cabelo, mancharia a maquiagem?
Alguém conhecido embaralha Heitor para além da janela e da moça sentada ao lado. Uma fisionomia parecida com alguma memória remota, naquele topete e gengivas ostentados e ridículos. Aquela verruga aristocrática de tempos colegiais...

A quem
desaparecer

Voltava às pernas da moça que agora adquiria uma coloração esverdeada, causado por alguns parcos, porém esfuziantes postes de luz. Círculos concêntricos rematados e insuportáveis em espécie. Iluminavam campos abertos, outdoors pixados e sem anúncios, pontes onde, próximo aos postes, pilastras tingiam-se de amarelo e uma debilitada palmeira acrescentava os detalhes da forma folicular na vividez mais extrema ao verde artificializado.

 como duas passas
um tanto quanto
esquisitas

Cairia por cima da moça, se não fosse o olhar desconfiado daquele rosto conhecido que Heitor forçava por esquecer, ao mesmo tempo em que esforçava por se lembrar o onde e o quando.

A moça com uma das mãos sobre a têmpora, cobrindo o olho. Deveria perguntar se está se sentido bem ou seria por demais ridículo essa aproximação?

Logo seu corpo estaria quieto
logo estaria livre   

Descia no ponto de ônibus. Um jovem muito gordo e de pele tinto circulava com uma longa e desengonçada camisa branca pela calçada. Mais à frente, no muro que a ladeava, uma inseto pairava inerte, como se há muito estivesse morto.