sábado, 24 de agosto de 2013

Alegria


Champs de coquelicots, 1907
[Gustav Klimt]





Outside, Silence
[Robin Guthrie & Harold Budd]
Album: Before the Day Breaks


Sentado em meio a penumbra, aquela garrafa, tão tola de si, alumiava.

Diminutas bolhas dispersas na superfície superior de uma garrafa plástica explicam o bastante daquilo que quer em mim. O conteúdo transparente e fresco à altura do pulso. Bebemos a água, um gole apenas. E o desejo salva-se.

Recolocada na posição de outrora, o líquido resvala, movendo bolhas ao fundo.
Espelho d'água, a superfície.
Restolhos do mar, salitre, orla de praia.

Um gole, de novo. O molde adequado da palma da mão no corpo da embalagem, crustáceo maior não há. Entrando pela boca, num buraco orgânico ajustado,
o bocal,
a gustação,
contorna e aprofunda.

Resvala como na garrafa para um dentro só transparente ao sentir. A praia, sendo agora naquele que habitou com os olhos à distância de um deserto. Nota-se bolhas cadenciadas, quase em contato com o limite da fundura. Furta o império do ar, deixando acasos, respingos que respiram Pollock a 3x4. A alegria daquele que os vê é comovente...

O bolo estava bom. A companhia agradável. Sentado em meio a penumbra, aquela garrafa, tão tola de si, alumiava. Estava nela os proveitos das vontades pretéritas e os indícios dos vícios futuros. Por isso bebia sem ter sede. O que tinha e vinha, fazia crer as perplexas galáxias de seu sentir. Mais três goles e sobraria à garrafa a soberania da insignificância, os restolhos de mar, restolhos pollockianos... Por dentro daquele outro contenedor, ondas revoluteavam a lentidão do sono e a fome do amar.

Estar em outra terra.
Alegre
alegria.

Aprofunda
Esvazia.

Doçuradedia;

com a cabeça ao lado da garrafa, trôpego de sonhos.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Germinal

"Perguntas 
 
Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia


(...)"
 Drummond in "Claro Enigma".



No chão, um testemunho cruelmente fiel: três cápsulas ocas abertas e uma sombra obesa acobertando. Consegue se lembrar? As mesmas que o derrubou na noite anterior e o fez pequeno de morte, a remoer o corpo que não te queria deixar. Lembra daquela angústia vociferante? Você acordou pela manhã e disse não reconhecer coisa alguma. Mas é claro que isso não passava de um fingimento. Você sabia muito bem o que o acovardara, ainda que não soubesse o porquê. O tempo, perante um espelho, é cruel como uma bolha na pele. Todo aquele esforço feito no recolhimento das provas e evidências de nada serviram. As pessoas com quem convive podem não ter percebido coisa alguma, mas eu que quase não o encontro, tenho minhas dúvidas sobre você. Você não me esconde o jogo! Seus olhos são minha bandeja. Você naquele risco de sorriso estampado, naquela gula estampada, naquele silêncio estampado....não me engana. Olhe ao seu redor: são eles que respondem pela sua indelicadeza, pela recusa gratuita e escolha ordinária. Você se incrimina antes do tempo, na caverna do seu santuário. Encontra uma fossa onde possa colocar os corpos e então cobri-los com uma técnica minuciosa. A diferença é que o ato permanece dentro de sua memória, como se inoculado na preparação de um novo agir, como aquela frase do Kluge: "o poder do destino de ontem é aquele cujos envolvidos não possuem tempo para refletir".  A gema...sim, bem sei. Mas e os créditos que o alimentam? Que espécie é essa de ventosa que engole até o vento, o sol e as montanhas? Passar-se tão somente é o menos importante. O que assusta é o perdão. E mais ainda a punição dolorosa. Como desfazer o jeito que carrega e proíbe, separando corpos, como se houvesse nascido para isso?, é o que me pergunta. Eu digo: plantar bananeiras. "A recusa de um é a aceitação do outro", mais uma vez Kluge.
Se nem tudo aquilo que carregamos sabemos como levar, tampouco saberemos dos itens mais leves da bagagem, porque o peso nos ocupa. Órfão de céu, carrega a tua nuvem e vem deitar comigo sobre o êmbulo macio. Quem sabe um dia deixe de querer aprender e passe a se divertir também?