segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Pedra-pome



Sorriso moderno esmalte que abate escuro entrincadamente saliva soçobra o algoz necessário ardor de nós enceta franco olhar de contas na carne de se meter corpo à vez das cores selvagens estrondos em tempo algum torcicolo gato listrado sorrindo branca simpatia de fruta romã o rosto fulminando caroço de melancia restingas nas orlas paredes nas praias pulsantes enchentes insones

De bruço, Vênus se mostra serena.


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amarelo odor
da casa 7
batom de mãe
ensombreada
passado água
amor que não

pendido olhar
roupa para secar
a calça apertada
em nós intrincados

cuidada para saber
de quando
mesmo que
por quanto fosse
e nada

à espera cansejam
carretéis desalinham
o árbitro das incertezas:
mãos solteiras
ilusões passageiras

sexta-feira, 11 de julho de 2014

, como se latisse.

E ele nem sequer deu atenção. As pessoas ao redor viraram os olhos, contorcendo o corpo da maneira que puderam e ele sequer esboçou um movimento. O rosto na direção do prato a ser pesado.
A atendente, após o segundo chamado, perguntou ao alvo crivado de olhos, incômoda:

- Precisa de ajuda, senhor?

Foi quando se deu conta do ridículo.


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Mesmo assim pôs os pés no palco e prosseguiu com o seu intento, a fim de despedaçar a assombrosa distância.

- Sim, estou subindo - as únicas coisas que seus ouvidos alcançaram em baixo tom.

Era evidente que só havia a si mesmo e que, por mais que se aproximasse, era aquilo o que se percebia: um barracão antes a uma praia com mariscos.
Casa de espelhos.
Quando a asa lhe chegava ao pensamento, o que mais gostava de fazer era aproveitar o mel esbanjado no corpo para poder colar as penas. Aí sim planejava o salto. Às vezes era tamanho o enlambuzar que endurecia a pele, numa crosta de arritmias, tensões por todo o gosto.
O grau de sua ciência era tamanha que chegava a pôr os pés pontudos em cima, após cortar o ar.
Andar com o mundo por cima, a preferência dele.
Difícil acreditar que espécies assim habitam e se entrecruzam ao mundo das tartarugas e das galinhas...

sábado, 7 de junho de 2014

"Alguém?" pergunta. Ninguém. responde.

Amanda fala para Todos: tem alguém aqui?
Symbolique fala para Amanda: ninguém tem.
Amanda fala para Todos: posso compartilhar um segredo ?

Symbolique fala para Todos: Como não tem ninguém...
Amanda fala para Todos: mas você é alguém...
Symbolique fala para Todos: Ninguém.

Amanda fala para Todos: senti. Estou enganada?
Symbolique fala para Todos: Depende do ponto de vista.
Amanda fala para Todos: gostei do nome: Symbolique. O meu veio vestido de rosa.
Symbolique fala para Todos: Não há nome, como no seu vestido há.

Amanda fala para Todos: não gosto muito de rosa, mas tava com pressa
pra compartilhar um segredo antes que eu
surtasse,
e aí peguei a primeira cor
Symbolique fala para Todos: Um segredo secreto que te faz mal, por acaso.

Amanda fala para Todos: Me faz.
Symbolique fala para Todos: E também as pressas apressadas e os surtos
surtados.

Amanda fala para Todos: rosa é clichê
Symbolique fala para Todos: clichê fetichizado.
Symbolique fala para Todos: fetichizado clichê.
Amanda fala para Todos: sim, concordo
Symbolique fala para Todos: A pressa também.

Amanda fala para Todos: mas a pressa acabou
Symbolique fala para Todos: faz bem.
Amanda fala para Todos: pra alguém que não sabe ser
alguém, até que me ajudou a esquecer...

Symbolique fala para Todos: não vale a pena. Faz com que sinta!
E depois largue de lado.

Amanda fala para Todos: engraçado conversar com alguém
que eu não sei de que parte é o quem.
Symbolique fala para Todos: engraçado conversar com alguém
que se sabe de quem é.


Amanda fala para Todos: Quem eu sou?
Symbolique fala para Todos: Amanda.
Amanda fala para Todos: Acredita que eu seja Amanda?

Symbolique fala para Todos: Mas isso você sabe bem logo de início.

Amanda fala para Todos: O que é ser ninguém?
Symbolique fala para Todos: Ser ninguém é o contrário de ser alguém.
Amanda fala para Todos: E o que é ser alguém pra você?
Symbolique fala para Todos: Ora, ser alguém é o contrário de ser ninguém.

Symbolique fala para Todos: O nome: aquilo que um dia te mordeu.
Amanda fala para Todos: Achei-o exótico, encabulante. Quis ficar.
Symbolique fala para Todos: O símbolo é exótico, encabulante...mas nem tanto.
Amanda fala para Todos: O símbolo... E qual seria ele?
Symbolique fala para Todos: É aquilo que está.

Amanda fala para Todos: Eu tava torcendo pra que não me deixasse confus...
Symbolique fala para Todos: ...a.
Symbolique fala para Todos: Aquilo que está não é.
Amanda fala para Todos: ConfusA
Symbolique fala para Todos: VOcê é, porque é Amanda, mesmo que não seja Amanda
coisa nenhuma.

Amanda fala para Todos: Você acha que não sou Amanda?
Symbolique fala para Todos: Mas é melhor ser não sendo do que não ser
estando.
O estatuto da coisa tem um peso enorme.

Amanda fala para Todos: Você sempre foge das peguntas que te fazem?

Symbolique fala para Todos: Para se crer, é o que parece. Resposta rabínica.
Amanda fala para Todos: Já ouvi falar,mas não sei nem explicar em termos de Symbolique.
Symbolique fala para Todos: Poderia, se fosse alguém.
Amanda fala para Todos: Quando for alguém...

Symbolique fala para Todos: Quando era alguém não esperava,
corria em rima,
com a vara na mão.

Amanda fala para Todos: Se você já foi alguém
certamente não será mais.
Quando terei minha resposta?
Symbolique fala para Todos: A todo instante. Você em alguém.

Amanda fala para Todos: Mas eu não tenho tanta certeza.
Symbolique fala para Todos: Muita certeza para pouca certeza:
Alguém
Amanda fala para Todos: Ninguém
Symbolique fala para Todos: "Alguém?" pergunta. Ninguém. responde.
Simples assim.

Amanda fala para Todos: Não está sendo
Symbolique fala para Todos: não está sendo, sim.
Amanda fala para Todos: Era pra ser?
Symbolique fala para Todos: Você. Mas não é.

Symbolique fala para Todos: Ninguém vos fala.

Symbolique fala para Todos: Alguém chamado Amanda não deixa
de ser
Amanda fala para Todos: Não deixa ser exatamente o quê?
Symbolique fala para Todos: E tão exageradamente que chega
a se
desconsolar.

Amanda fala para Todos: Symbolique symbolique
Symbolique fala para Todos: como a verde casca da maça.
Symbolique fala para Todos: maçã.
Symbolique fala para Todos: A medida que se repete.

Amanda fala para Todos: Maçã não é minha favorita
Symbolique fala para Todos: No fundo é.É que ela não se deixou expressar.

Seu lado alguém é forte.
Por isso fraqueja tanto, faz pose e até
ri
por dentro.
coisa feia!
Amanda fala para Todos: Por que feia?

Symbolique fala para Todos: O que você faz com os outros.
Amanda fala para Todos: O que você faz com os outros.
Symbolique fala para Todos: O que você quer dos outros.
Amanda fala para Todos: E ainda imita!
Symbolique fala para Todos: Alguém chamado Amanda.

Amanda fala para Todos: Não gosta do nome Amanda?
Symbolique fala para Todos: Amandamandaamanda . enjoa.
Symbolique fala para Todos: Mas você é teimosa.
Amanda fala para Todos: Eu gosto de ser.
Symbolique fala para Todos: por isso tem pressa.
Amanda fala para Todos: Não é sempre.

Symbolique fala para Todos: por isso tem segredo.
Amanda fala para Todos: Não são pra sempre.
Symbolique fala para Todos: por isso vive surtando.
Amanda fala para Todos: Mas não vivo sempre.
Symbolique fala para Todos: Ninguém, claro.

Amanda fala para Todos: O que tem você?
Symbolique fala para Todos: Dois ouvidos e um silêncio.
Amanda fala para Todos: Ninguém foge de perguntas.
Symbolique fala para Todos: Se ao menos estivesse...
Amanda fala para Todos: Está fugindo?

Symbolique fala para Todos: Ninguém, esqueceu?
Amanda fala para Todos: Não esqueço, Ninguém.
Symbolique fala para Todos: Quem muito tem e quer ser, muito esquece.
Acontece.

Amanda fala para Todos: E quem não tem nada?
Symbolique fala para Todos: Quem não tem nada, nada tem.
Amanda fala para Todos: Como pude esquecer. Tolinha!
Symbolique fala para Todos: Como se não pudesse!

Amanda fala para Todos: Sempre com ponto final.
Symbolique fala para Todos: Sempre com ponto de interrogação.
Amanda fala para Todos: Gosto de interrogação.
Symbolique fala para Todos: Alguém anda a base de vírgula.
Por isso tem pressa.
Por isso tem segredo.
Por isso vive surtando.

Amanda fala para Todos: Ninguém nunca me descreveu tão bem.
Symbolique fala para Todos: Simpatia.
Amanda fala para Todos: Embora Ninguém estivesse tão errado também.
Symbolique fala para Todos: Acontece todas as vezes que se ouve.

Amanda fala para Todos: Ninguém ri por dentro?
Symbolique fala para Todos: Cada qual no seu galho.
Mas o lado alguém insiste na pergunta: "Você gosta de gatilhos?"
Amanda fala para Todos: Qual lado prefere?

Symbolique fala para Todos: A cegonha preferiu deitado.
Amanda fala para Todos: Não queria falar da cegonha agora.
Symbolique fala para Todos: Mas foi ela quem te amarrou.
Amanda fala para Todos: Mas agora não estou amarrada.
Symbolique fala para Todos: Como se isso fosse possível...
Amanda fala para Todos: Se tem tanta certeza, não preciso provar.

Symbolique fala para Todos: É o que está afirmando dizer.
Amanda fala para Todos: Agradecida...
Symbolique fala para Todos: Sem certeza, pois sem porquês.
Ninguém na incerteza. Enquanto alguém
na certeza de tantas tantas
chega a ser incerteza.
Essas coisas.

Amanda fala para Todos: Você sabe que esqueço.
Por isso tenho pressa,
por isso vivo surtando.
Symbolique fala para Todos: Por isso vive dizendo que não vive.
Amanda fala para Todos: E não vive de fato.
Symbolique fala para Todos: Pelo simples fato de viver.

Amanda fala para Todos: O fato de viver é simples.
Symbolique fala para Todos: E o de conviver mais dífícil.
Amanda fala para Todos: Mais difícil.

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Amanda fala para Todos: E se eu tivesse morrido aqui agora?
Symbolique fala para Todos: Uma maça teria aparecido.
Symbolique fala para Todos: maçã.
Amanda fala para Todos: Mas maçã não é minha predileta. Esqueceu?
Symbolique fala para Todos: Esquece que ela engana. Por isso não gosta dela.
Amanda fala para Todos: Engana mesmo.

Symbolique fala para Todos: Ela te come com os olhos todos os dias de manhã.
Amanda fala para Todos: Esperando ser comida por alguém.
Symbolique fala para Todos: Quando acorda é a primeira coisa que vê.
Há uma porção delas pelo corpo.
E ela fica pronta pra comê-la, por isso a detesta tanto.
Acha que a boca consegue dar conta e ela te vira pelo avesso.

Amanda fala para Todos: Não encontro as maçãs das quais falou.
Symbolique fala para Todos: Duas abaixo dos olhos.
Amanda fala para Todos: Achei.
Symbolique fala para Todos: O sulco te magoa.
Amanda fala para Todos: Você gosta das maçãs?
Symbolique fala para Todos: Invejosa, você.

Amanda fala para Todos: Você não gosta das maçãs.
Symbolique fala para Todos: Apanha todas as maças do mundo só
pra dizer que não é a sua
preferida.
Symbolique fala para Todos: maçãs.
Amanda fala para Todos: Você insiste em tocá-las só porque sabe que não
são
minhas prediletas.

Symbolique fala para Todos: Elas te sustentam, ingrata!
Na frente,
nos lombos
e até no peito!
Só porque você é feita de maça.
Symbolique fala para Todos: maçã.

Amanda fala para Todos: E continua insistindo. Você é insistente, sabia?
Symbolique fala para Todos: Como se fizesse pouco caso da uva...
Amanda fala para Todos: Uva também não é a minha predileta.
Symbolique fala para Todos: Essa cor louca que te desandou por aqui.
Amanda fala para Todos: Toda insistência por causa de um rosa clichê?
Symbolique fala para Todos: Por causa da uva que ela representa.
Deve viver alcoolizada, a coitada....

Amanda fala para Todos: Imaginava que a insistência iria continuar
quando disse que uva também não é a minha predileta...
Symbolique fala para Todos: Imaginava porque você mente
um segredo.
Amanda fala para Todos: Eu já tinha me esquecido dele.
Symbolique fala para Todos: Foi ele que te fez partir ontem de manhã.
Amanda fala para Todos: Mas voltei por causa dele.
Symbolique fala para Todos: Para a causa dele.

Amanda fala para Todos: Me surpreenda.
Symbolique fala para Todos: Confesse, você não vive sem a cauda dele.
Amanda fala para Todos: Me dê um motivo pra eu gostar das maçãs?
Symbolique fala para Todos: Lembrar do segredo.
Amanda fala para Todos: Lembrar me faz odiá-las ainda mais.
Symbolique fala para Todos: Quando a maça a devora, pela manhã, antes mesmo do espelho.
Symbolique fala para Todos: maçã.

Symbolique fala para Todos: O sulco a magoa. Está mesmo ficando velha!
Amanda fala para Todos: E você sabe se já não sou?
Symbolique fala para Todos: Em nenhum momento.
Amanda fala para Todos: E você? É velho?
Symbolique fala para Todos: Ninguém. Se pelo menos deixasse de comer as maças ficaria mais jovem.
Symbolique fala para Todos: maçãs.
as uvas também.

Amanda fala para Todos: Você gosta das maçãs corretas, separadamente?
Symbolique fala para Todos: Como se fosse possível...
Amanda fala para Todos: E por que não é?
Symbolique fala para Todos: Preciso antes perguntar a Amanda.
Amanda fala para Todos: Seria interessante ver um interrogação que não fosse a minha...
Symbolique fala para Todos: Ninguém: o umbigo do outro, para você.

Amanda fala para Todos: Ai, Symbolique!
Symbolique fala para Todos: A peça te faz sonhar acordada.
É da casa, quase.
Amanda fala para Todos: Por que quase?

Symbolique fala para Todos: Porque você nunca se decidiu direito.
Amanda fala para Todos: Como saber o que é direito?
Symbolique fala para Todos: Pergunte a alguém. Ele deve saber.
Amanda fala para Todos: E por que NINGUÉM nunca responde o que
me desperta interesse
em saber?
Symbolique fala para Todos: Mas ninguém diz: direito é o contrário do errado.
E errado o contrário do direito.
Amanda fala para Todos: Porque n i n g u é m nunca responde o que é do interesse de alguém?
Symbolique fala para Todos: Ninguém. responde. "Alguém?" pergunta.

Amanda fala para Todos: E se o cansaço bater?
Symbolique fala para Todos: No caso do cansaço mentir...
Amanda fala para Todos: Como isso é possível?
Symbolique fala para Todos: E Amanda não é?
Amanda fala para Todos: Eis que surge um interrogação...
Symbolique fala para Todos: Ao céu aberto.

Amanda fala para Todos: Amanda, sim.
Symbolique fala para Todos: O céu também!
Egoista!

Amanda fala para Todos: Qual é a razão dessa exclamação?
Symbolique fala para Todos: Reforço.

Symbolique fala para Todos: ninguém escuta alguém do outro lado.
 Amanda fala para Todos: Fala alguém que não escuta
ninguém

Symbolique fala para Todos: Ainda que Amanda quisesse mesmo era ouvir: Oi, Amanda. Como vai? Tudo bem? É que ontem de manhã o segredo vai te visitar, te apalpar a carne que ainda lhe resta. Está certo?
Amanda fala para Todos: Amanda não gostaria disso.
Symbolique para Todos: Pois contra ti ele pode tudo, incluindo o excesso que é a falta que te cabe.
Amanda fala para Todos: Me promete uma coisa?
Symbolique para Todos: Seria uma espécie de abuso pelo qual depois não surgirá vergonha alguma de dizer, com os culhões carregados.

Amanda fala para Todos: Prefiro Ninguém.

Symbolique para Todos: Fim de conversa. Um silêncio de não mais ter fim entre os dois.
Amanda fala para Todos: Seria eu a responsável por tudo isso?
Symbolique para Todos: Talvez.
Amanda para Todos:  O que fazer quando não se pode ter o que se quer?
Symbolique para Todos: Alguém costuma gritar, chorar, brigar, qualquer ato lícito ou ilícito que gere prazer.
Amanda para Todos: Queria ser como Ninguém...
Symbolique para Todos: Mas você é como Alguém. Porque Ninguém não é, além do que se ouve e se pode ouvir em pontos mais.

Amanda para Todos: Vou cortar meu nome em pedacinhos!
Symbolique para Todos:  Ficará sem voz.
Amanda para Todos: Ninguém me faz perdê-la. Será que isso é amor?
Symbolique para Todos: Carência. Fome de preenchimento.
Amanda para Todos: Estou perdida...
Symbolique para Todos: Ninguém te ouve.

Amanda para Todos: É o que me resta...
Symbolique para Todos: As mãos são suas.
Amanda para Todos: Sua simplicidade me comove.
Symbolique para Todos: O preço da maça que a devora.
Symbolique para Todos: Maçã.

Amanda para Todos: Será que vale a pena viver e amar?
Symbolique para Todos: Depende da força da tua verdade.
Amanda para Todos: Tenho ódio da verdade.
Symbolique para Todos: Peneira onde se esconde.
Por isso mente.
Por isso finge.
Por isso sente.
Amanda para Todos: E enlouquece.
Symbolique para Todos: Na medida do possível.

Amanda para Todos: Quero o impossível.
Symbolique para Todos: É a maneira de aumentar o drama, indo até as últimas consequências.
Amanda para Todos: Preciso explorar para não morrer de vez. Dói muito.
Symbolique para Todos: Sua maior qualidade.

Amanda para Todos: Doer?
Symbolique para Todos: Amar.
Amanda para Todos: E se eu quisesse transformá-la?
Symbolique para Todos: Alcançaria o novo.
Amanda para Todos: Perfeição é pouco?
Symbolique para Todos: Ao ponto da tortura chegar a ser um crime.

Amanda para Todos: Quero até as últimas consequências.
Symbolique para Todos: A força de Alguém.
Amanda para Todos: A minha força. Não a sua.
Symbolique para Todos: Vai enlouquecer. Cuidado.

Amanda para Todos: O que sugeriria?
Symbolique para Todos: A imperfeição.
Amanda para Todos: E por que logo ela?
Symbolique para Todos. Porque ela escuta.
Amanda para Todos: Como posso explorar o que me satisfaz se só escuto?

Symbolique para Todos:  Não escutar só é uma benção.
Amanda para Todos: Ninguém parece ter certeza para algumas coisas. Seria alguém?
Symbolique para Todos: Um Alguém atravessado. Não reprimido.
Amanda para Todos: Está me chamando de recalcada?
Symbolique para Todos: O seu jogo é não mais que um jogo.
Amanda para Todos: Nunca vi tanta certeza em tão pouco Ninguém...

Symbolique para Todos: Você é quem me joga.
Amanda para Todos: Como?
Symbolique para Todos: Pela boca.
Amanda para Todos: Ah, entendo. Quer dizer que você está dentro de mim?
Symbolique para Todos: O contrário também.

Amanda para Todos: Estou começando a odiá-lo.
Symbolique para Todos: Apesar de escutá-la?
Amanda para Todos: Exatamente por esse motivo.
Symbolique para Todos: Amanda por toda a parte, é o que quer.
Amanda para Todos: Melhor do que maçãs, uvas e Ninguéns.

Symbolique para Todos: A maça mordendo com esta força te roubaria os olhos.
Symbolique para Todos: maçã.
Amanda para Todos: Me irrita, me irrita.
Symbolique para Todos: Vá embora.
Amanda para Todos: Quero que fique.
Symbolique para Todos: Para quê?

Amanda para Todos: Para mim.
Symbolique para Todos: Egoísta do princípio ao fim.
Amanda para Todos: Pare de bancar o grosso seu paspalhão!
Exijo carinhos imediatos!
Symbolique para Todos: Espelho de si mesma.
Amanda para Todos: silêncio de si mesmo.
Symbolique para Todos: Talvez.
Amanda para Todos: Sempre.

Amém.




segunda-feira, 2 de junho de 2014

Laboratório 4: Do elo ao nó



 Leitura performática conjunta de trechos do discurso "The Meridian" de Paul Celan, do livro "A história do olho" de Georges Bataille e do Seminário 6 de Jacques Lacan sob intervenção da composição "Extensions 4" de Morton Feldman*.


Leitura realizada por Cesar (Bataille), Rebeca (Lacan) e Filippi (Paul Celan).


* o áudio original de Morton Feldman foi editado para fins poéticos.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Pathós

Começava com ela sorvendo lentamente o chocolate lábios adentro. Pela janela semi-aberta, uma brisa, destas de balançar franjas de tecido fino e massagear resquícios de água nas louças dependuradas. Conversação dos pássaros e o beija-flor em algum lugar à procura da nota certa. Ela deposita a mão delicada sobre a xícara ainda quente, numa placidez que causaria inveja a qualquer cotidiano malsã.











Cor de lágrima não haveria se...aquela tragédia particular não houvesse acontecido.


et du bras gauche il lui entoura la taille


 , foi o que fez ela sorrir em franco tom de agradecimento. Ao vê-lo no corredor à primeira vista, cumprimentaram de forma arredia e até insignificante como quem desejasse não ter encontrado coisa alguma. Depois de um tempo, quinze dias ou um mês, é verdade que ambos haviam esquecido em algum lugar os nomes com a mesma timidez que os fizeram evadir, diminuídos neles mesmos. Mas nem por isso recusou quando pela primeira vez ele fez o convite, a cerimônia ou mesmo a convocação que lhe adoçava o bico em prazer preenchido, por mais que ele colocasse o dedo com sabe-se lá com quê de antidigestivo na base das unhas.
  
Le moment arrivé , elle courut vers l'amoureux.

Não diga por isso: afinal foi o outro que se aproximara trazendo o interesse pelo apalpe e degustação. Sua ajuda com os processos finais do trabalho se enleavam com um desejo de fechar a porta, que muitas vezes o adoecia em vontade de se poder sanar a fome que revoluteava as entranhas nas noites mais frias, a que fim levou o próprio existir e nome. O sonho da satisfação de quem compartilha a intimidade do almoço, com apetite digno de senhor de terras. Estaria mordido o pão, estaria comido o pedaço, se antes não houvesse existido e tão fortemente nomeado.

Na corda bamba.
Na corda bamba.
 
Pois havia trabalho a cumprir, pelo qual não podia se comprometer de corpo inteiro.
Só pela metade desse corpo, cruel esperança.

 et gemit tout seule

Paisagem febril para ele, quando ela faltava, ocupada com os afazeres. Paranóia vestida de brim e salto alto. E ainda se quisesse retorquir com alguma paixão remendada, nada lhe garantia tanto quanto a confissão para o qual não estava preparado.
Ela não esperava para ver: o corpo estava fora, com exceção daquelas sutilezas suculentas que tinham peso nos momentos de amargura, quando os vozerios a aturdiam, forçando para baixo os joelhos. E aquilo a fazia sorrir, agradecida em plenitude timidesca.

 La douceur du milieu avait fondu sa tristesse.

Plenilúnio. Qual esperança havia por parte daquela disputa travada entre o outro e ele? Ela mais parecida com o outro e ainda assim ele espreitava, deformando o possível como se quisesse também ela. Qual esperança se o tempo passava calcificando a própria intensidade?
Estranha necessidade.
Bonita delicadeza, especialmente nas pequeninuras de quando sentiu vontade de atribuir um nome para algum doce não identificado. Ele que começou com a carícia do paladar que hoje ela continuou, se dobrando e desdobrando. Confiança e companhia. Mas seria isso amizade caso o corpo aumentasse de tamanho, movido por paixão maior? O que falaria o gosto mediante a falta promovida por uma violência que lança aquele nome a um ritmo diferente do habitual?


jusqu'au soleil levant.


E se a sedução se dissipasse, restaria o encanto por debaixo desses olhos famintos de desabrigados sem eira nem beira?

Quarto de espera. Três portas, duas janelas e uma sarjeta. Dentro se encontram ele, ela e outro, cada qual em sua fronteira. Quando um sai, o outro encontra espaço para o abraço, pois o quarto, apesar de cômodo para a intimidade é empecilho para a privacidade.  

Silêncio que a hora assiste

de modo que se um dia passar depressa, é porquê passou bem. O fato de duas portas se situarem numa mesma parede e a outra no extremo oposto, não ajuda em absoluto coisa alguma. Pouco se sabe além do hábito que come a coragem.

Elle disparut dans l'ombre.  

no jogo do empurra-empurra.

Sobre um último adeus saído da garganta, ventado por uma sensatez aturdida em desbotes.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Tinta fresca



Concerto para alaúde, 2 violinos e contínuo em Ré, RV. 93- 2. Largo
[Antonio Vivaldi]
Paul Kuentz e Orquestra de Câmera
1987









             Ten Skies [James Benning] — 2004




Era uma vez um conjunto de impressões chamado Vermeer. Vermeer costumava aparecer diariamente entre às 17:00 e 17:30. Não batia na porta ou sequer pavoneava para estar ao alcance do momento. Dava 17:30 e ele despontava em grande estréia. Tal qual um Rembrandt de meia idade, ia todo folgazão para cima das nuvens, driblando a mais grossa fuligem, a mais pecaminosa das infâmias com uma juventude que se derramava em graciosidade. E numa sutileza muito ingênua, retocava o contorno com cores de alvorada. Bastava o dia começar a choramingar um adeus doído e pronto: lá ia Vermeer se lambuzar todo de tinta. Primeiro as mãos, depois as roupas e, por fim, o rosto. Cor após cor.












                  Ten Skies [James Benning] — 2004




Assim que Vermeer partia,o crepúsculo singrava as cores em luz. Sirenes de ambulâncias, buzinas de automóveis, ruídos de motores, vozerios, tudo muito desmanchado. De repente, Goya era o seu nome. Folhagens secas que o vento embaralha. A partir de então não havia memória que resistisse e imaginação que não esbravejasse.












                     Ten Skies [James Benning] — 2004




Real profundamente crú. 

Mas bem ao fundo, entocado estão os moinhos das aparências. Tempos de invenção. À mão, o sentir esbranquiça a sensação. À mão, um segredo bem misterioso que um Klee em franca ampliação explica. À mão um corpo cedendo, em farelos.

Vale as imagens do pensamento sobre o barquinho de papel, à luz da cor me chama. Passo a sonhar a cada vez. E me sonho em posso sim.

Jorra a tintura espessa do silêncio. Eu, sobre a mesa clara e em algodão.


Texto revisto em 17.10.2016

sexta-feira, 21 de março de 2014

Decúbito dorsal

A título de explicação: José estava de cama desde aquela manhã por razões muito óbvias; esqueceu de tomar o remédio na noite anterior. Não havia copo algum sobre a cabeceira. E muito menos cartela de comprimido esvaziada. Esqueceu.  Foi assim: deitou de bruço com a roupa no corpo e dormiu. Mas quando acordou...era como se quisesse dormir de novo, sem mais poder. Virava de um lado para outro na cama, as pernas fraquejavam, dormentes.  Ao sentir que ao seu redor tudo estava frio, mais frio dizia sentir (apesar do suor trazido no rosto). Permanecer na posição anterior, causava-lhe aflição, um mal-estar que não dava trégua. Aquele corpo ontem esquecido, hoje o beliscava, dando sovas em sua cabeça de uma maneira lamentável. Sorte a dele ter Dona Filomena por perto.
- Mena! Mena!
Um breu absoluto, um silêncio devastador. E José agarrando o travesseiro, torcendo-o com os braços, sem saber o que fazer.
- Mena! Mena!
O cacarejar do galo na esquina de casa o encoleriza: 
- Ah, se eu pego essa mulé! Esquece de vê se tomei o remédio,mas não perde uma missa!
Puxa a gravata com a mesma força que fez torcer o travesseiro, com a diferença de que desta vez o pescoço cede. Ergue a mão para o nó e o faz querer subir.
- Mena!!! - berra, sustentando o grito ao máximo de seu choro.
Silêncio outra vez. Ouve-se à distância o ladrar de um cão e, mais uma vez, o cacarejar. As pálpebras, então, se retraem, em franco reconhecimento de que todo e qualquer ato é inútil. Diz baixinho, quase gemendo na última sílaba:
- Mena...
Não se sabe quanto tempo passou. Subitamente, apertando o travesseiro, percebe um feixe de sol cortar geometricamente a parte esquerda do rosto coberto de suor. No centro dele, um olho esbranquiçado abre-se em emoção. Os nervos do olho sobressalentes como sulcos em uma terra. Num misto de raiva e lamentação, entrega-se às sensações interioranas, com múltiplas variações fisionômicas: franzindo o cenho, comprimindo os olhos, abrindo a boca: não querendo dizer coisa alguma...senão alguns gemidos agonizantes.
Alguns garotos ruidosos passam rente à janela do quarto, incitando o ladrar dos cães. José abre a boca e provém meros espasmos de som. Sem forças. Os lábios já secos.
Vira para o outro lado, com os olhos bem abertos ao que lhe acontece, em pronta espera. Começa a lembrar de quando construiu a casa há 50 anos, com a ajuda de seu pai: um presente de casamento.
Uma lembrança tão velha quanto a morte. Será a própria lhe rondando?
A voz de seu Joaquim se torna audível. Talvez cumprimentasse alguém, na parte que cabe a ele o dia. Pena José não poder participar da mesma luta. A luta de José agora é outra.
O telefone. Olha o telefone preto, na sala minúscula, ao lado da bíblia aberta. Mas o corpo não entende, amarrotado como a roupa! Vira e revira, o que sabe fazer.
Na ponta da cama. Se pudesse sentar ao menos naquele instante! Faz força, chegando a bufar pelas narinas, para erguer um ângulo a menos. Mas volta ao sentido inicial, mais cansado e inútil do que antes.
Se não bastasse, uma mosca pousa em sua testa. As várias patinhas deslizando por toda a extensão qual fosse uma terra de ninguém, bagaços reduzidos a um tempo amorfo. José esforça por uma segunda vez e quase chega à metade. De repente, ouve um som quase tão vago quanto os seus dias. Um molho de chaves sendo largado num móvel da sala e algo como uma voz feminina. 
- Fia, minha fia!
José esperava, impacientemente. Imaginava-a cumprindo com aquele antigo ritual de manias, indo ao banheiro, bebendo um copo de água, futucando a geladeira em busca de qualquer sobra e depois...depois a ida ao telefone, próximo à porta do quarto onde se encontrava,onde permanecia por quase uma hora até Dona Filomena reclamar.
Uma pequena brecha de luz passava pela porta. Pena tê-la quase encostado ao entrar. Pena também estar agora tão acordado como poucas vezes antes estivera.
Esticava o braço a fim de abri-la um pouco mais. Os dedos estendidos, trêmulos de puro desejo. 
- Fia! Vêm cá! É o papai! É o papai!
E lembrou quando a colocava sentada sobre uma das pernas quando queria falar algo importante. Naquela perna que agora não lhe obedecia mais.
Silêncio.
O telefone está no mesmo lugar de antes, intocável.
Pássaros trilam harmoniosamente ao som de uma goteira vagarosa.

Dona Filomena põe o pesado fone no gancho e ao abrir a porta do quarto, o encontra naquele estado, todo encolhido tal qual um feto murcho. Acolhe-o nos braços. Lágrimas escorrem pelo rosto de José. O Cristo de Filomena encostou-se, por fim.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Apogiatura

“Facts become art through love, which unifies them and lifts them to a higher plane of reality”
[Sir Kenneth Clark. The landscape of fact  in Landscape into Art. Edinburg: Pelican Books, 1956. p.31]


Mãos se abraçam acobertando as falhas das falanges. Pele na pele, pelos: entrosação de um em muitos.  Duas silhuetas miram o horizonte crepuscular, misto de vermelho e amarelo. Ombros encostados, firmes no toque. Nas retinas de quem olha: quatro janelas abertas, posicionadas como canhões ao mar. A cabeça tombada para a cabeça alheia, como se tratasse de uma eternidade. Ternura, complementação sentimental, desabandono. Diz-se:

"Ainda há tempo de arfar o peito em inteira intimidade.  
Ainda há tempo de roubar o beijo da tortura das distâncias
Ainda há de se ver tempo no calor pousando 
a sorte do sexo
a tempo
de não se querer
mais nada_
.

.
_um vidro translúcido. Vemos uma miríade de cores e recortes imprecisos, com uma claridade que pende para a direta. Adentrando o espaço, há uma lareira e um senhor de bigodes e suspensórios a balançar cadeira de molas. Volta e meia estica o elástico dos suspensórios ao som dos estalos do carvão. Os óculos, pequenos, na ponta do nariz. Balbucia qualquer coisa nos lábios murchos. Uma enfermeira entra no cômodo equilibrando a bandeja. O que lhe parece ruivo aos olhos, atrai sua atenção. Sorri, enquanto obedientemente engole a papa cuidadosamente depositada na boca pela enfermeira.
Na quinta colheirada, tenta falar alguma coisa e, como se não conseguisse, segura o antebraço da enfermeira (que pacientemente enuncia palavras de estímulo para que continue a comer). A olha sorrindo como um bebê diante do fantástico. Permanece assim por um bom tempo até o esvaziamento do prato e da colher bem lambida.
Lá fora: dúzias de pinturas de cavalos selvagens decoram a parede que divide as várias e sucessivas estantes de livros. Nas quinas do cômodo, algumas esculturas femininas. Adormecem centenas de papéis amontoados sobre a escrivaninha que uma vez fizeram-se lembrar na primeira lufada de vento. Os mesmos nomes nos envelopados, datados de pelo menos cinco décadas.

- Quer que eu conte agora um história para dormir?

Ele parece se contorcer de alegria.

- Era uma vez uma menina, uma adolescente alta que adorava frequentar os shows de jazz. Não importava
qual música desde que fosse jazzístico. Bastava um barulhinho qualquer dos instrumentos para bater palmas, gritar, se mexer toda de um lado para o outro, no balanço do ritmo. Mas não chegava a ser uma "veneração", daquelas de abaixar e levantar os dois braços. Vou te dizer porque: volta e meia tratava de querer saber o que acontecia ao seu redor. Sabe-se lá porque! Talvez não aguentasse olhar por muito tempo para o rosto dos instrumentistas. Tá, então havia um rapaz bem colorido e de chapéu a alguma distância. Como não sabia dançar, quase não se mexia. Os dois em sintonia com a música,mas reagindo de maneira diferente. Se não fossem as cores, ela nem teria o notado. Pra que, não é?
-É...
- Não durma antes. Deixe eu chegar até a metade, pelo menos.
- Mas eu não estou...
- Aí, ele a vê com uma certa dificuldade, por ele ser baixo. Mas ela viu e ele também. Isso é o que importa. Estava muito cheio o local. Ele vai se aproximando da tal adolescente, alisando a barba, bem devagar. Em um momento, chega a ficar lado a lado com ela, de frente para as costas dela, na verdade. E numa situação como esta, pouco se pode olhar, senão encostar, não é? - ri -  O senhor sabe, como é, né? Então, ele trata de ser empurrado por quem passa, de preferência em cima dela. O coitado mal consegue bater no queixo da moça! E ela usa óculos, uma armação pequena e delicada. Poderia dar uma cabeçada no queixo e fazer os óculos caírem. Poderia pisar no pé dela. Tudo para depois pedir desculpas, uma aproximação emergencial... - riram os dois.
O senhor põe a mão sobre a dela.
- O que foi? - pergunta a enfermeira.
- Continue, por favor...
- Mas o show continuou, freneticamente e sem intervalos - ela coloca a mão dele entre as duas mãos dela - a única coisa que poderia aproximar seria a dança que ela tirava de letra. Ah, esqueci de dizer! Ele estava na companhia de alguns amigos que dançavam toscamente, girando os braços como velhas barbadas.
- Assim? - puxa a mão para movimentar os braços, com dificuldade, para frente e para trás.
- Talvez - ri - algo bem mecânico, como o homem de lata do O mágico de Oz. Cheio de ferrugem - ri.
- Eles só tinham barba, mesmo.
- Eram velhos jovens que queriam dar uma de garotões. - ri.
- Exatamente! - e volta a segurar a mão dela.
- Pelo visto, o senhor não irá dormir mesmo com essa história - ri.
- Acho difícil, para ser sincero. Está muito divertida!
- Já tomou o remedinho?
- Já! Agora continue!
- Como, se o senhor não vai dormir?
- Tá, vou fechar os olhos. Continue! E chegue mais perto porque não estou ouvindo direito.
- ...bom, aí o que aconteceu foi que o show acabou e imediatamente a moça foi embora. O rapaz disse que iria ao banheiro, mas foi atrás dela. No caminho, encontrou-a pela última vez numa esquina próxima. Ela andava rápido, decidida.
- Um mulher autêntica! Adoro mulheres assim!
- Por aí.... - ri
- E ele então a perdeu de vista?
- O coitado estava sem óculos, acredita? - risos - não via nada!
- A moça?
- Não, o rapaz barbado!
- Poderia até ter confundido com uma outra se fosse durante a noite...
- E era!
- De onde você tirou esta história?
- O senhor gosta de literatura?
- Ora, basta olhar nas estantes. De qual autor você comenta? Um contemporâneo? Seria Kundera, Tanizaki ou....?
- Shakespeare.
- Como?
Dá um beijo na testa e vai se dirigindo à porta.
- Não me diga que...
- Não, não foi comigo que isso aconteceu. Pode ter certeza.
- Mas poderia ter acontecido?
Sorri, sem externar solução. No outro lado do cômodo, o retrato antigo pousado sobre a mesa revela os dois, ele na cadeira de rodas e ela  ao lado, acompanhando. É possível ver em baixo da fotografia uns dizeres anotados à caneta, mas ilegíveis, na penumbra em que se encontra o quarto. Está mais escuro do que o habitual. Tivessem acendido ao menos o abajur do criado-mudo, não sofreria tanto.   
Da janela, é possível escutar o passar do trem com uma agilidade frenética a arrastar consigo tudo que é apagado e esquecido. É um clarão violento, quase. Daqueles que estoura por dentro e faz acontecer coisas antes impensáveis ao senso comum e ordinário dos dias. O extraordinário da realização que move o mundo para cima ou para baixo. Frente ao trem que passa, o cômodo parece mais esquecido ainda com as sombras que não cessam de circular pelos retratos afixados na moldura de formas concisas e industrializadas. Pudesse ser cosida, estaria a se ajustar, imagem a imagem, num aparato fisionômico conciliador, se não fosse aquele outro rosto, aquela outra idade, aquele outro tempo.
Brumas.
Cupins.
No estilhaço.
A casa quando permanece vazia, sem quadros de cavalos ou cadeira de molas, diz também que está aberta, apesar de fechada sob o segredo da lua. Aberto às cinzas que sobrou das imagens, aberto também ao horizonte que nesta hora emergiu, em lúcido vermelho e amarelo.
O sol: duas curvaturas com as extremidades encostadas uma nas outras. À base do primeiro passo, da imagem que se quer fixa à imagem que se revela mais imagem. E como brilha a lucidez deste primeiro passo!

1a versão do conto publicada na revista Flaubert No.2, pág:18-19, em 15.4.2014

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Juventude



Die Begierde - 1878-81
     [Félicien Rops]


Às 9:30 da noite, duas jovens compravam pipoca ao lado de uma igreja evangélica. Duas jovens mulheres, há que se dizer. A textura da pele mostrada com um vigor determinado nas curvas de um provocante decote, por onde no centro uma profunda fenda insinuava esquecida entre os seios, acolhidos pelo sutiã. Como se não bastasse, um batom vermelho realçava os contornos dos lábios carnosos.

- Ih, vai ser mó zueira! - falava alto uma para a outra.  

Duas morenas, razoavelmente altas e distintas. A mais velha trajava uma blusa vermelha de alças e saia curta de tom escuro, com babados. Cabelos lisos até a altura do ombros e uma maneira distraída de virar o pescoço e os olhos. A outra, usava um cóque, blusa branca apertada de alças, o que realçava ainda mais o busto, saia jeans e chinelos brancos. Quatro pernas enormes do lado de fora. Pois bem, tudo começou com o balançar delas no banco do ponto de ônibus. Para cima e para baixo, a simetria do frescor juvenil a cada movimento.  O trânsito ainda fluía com lentidão. Muitos eram aqueles que balançavam os braços para frente e para trás, apressadamente, com uma expressão reduzida ao cotidiano caótico dos centros urbanos. Elas, no entanto, balançando com uma graça desavisada, como nas crianças irrequietas que nada temem, pois a tudo encantam. Volta e meia um veículo buzinava...e não era para outro à frente. Era para as duas pedestres sentadas minutos à fio. Alguma infração deviam cometer para a buzina tanto se manifestar. E a infração vinha daquele fator humano nada esclarecido: aquelas nervuras cnidariantes a vibrar o êxtase do âmago em acentuações crepitantes.
Um rapaz aproveita para gritar da janela do ônibus coisas obscenas. Ela escuta e ri. A outra adoça o momento. Aquela que riu ainda há pouco retruca simulando uma pretensa má audição. Ele capta a mensagem e procura afirmar o mesmo, com firmeza. Ri mais o canto da boca e o sorriso lânguido se espraia, como um lençol morno. A jovem tenta se esquivar com uma pretensa incredulidade. Ele aproveita para dar a volta por cima e na falta de palavra certa, arrisca um recomeço. Imperiosa, o interrompe, perguntando por um isqueiro. Como não fuma e  não há de negar a quem muito deseja, arregala os olhos para alguém próximo, um velhinho franzino.

- Tio, me empresta o fogo?

Sem dizer palavra, apalpa o bolso do paletó e tira algo metálico de dentro. O jovem o apanha, aproximando-o dela que neste momento se encontra com um cigarro na ponta da boca, levantando-se na ponta dos pés. Concentração no fogo. Uma longa baforada é despejada. A oportunidade faz a mão avançar depressa até não só tocá-la, mas segurá-la.

- Vô te visitar dia desse.
- Num vai me encontrar por lá.
- Sei onde mora.
- Se for se meter por lá,  vai levar bala.
- Qual é, gata? Eu conheço o chefe de lá.

A amiga pede para segurar o cigarro aceso na boca com os lábios, enquanto tenta encostar o cigarro apagado de sua boca. Olha decididamente para os olhos da jovenzinha que naquele momento sorri, com o cigarro em brasa, atentando-se ora para ela ora para a ponta do cigarro. Como não ventava, acendeu rápido. Seguram, por fim, os cigarros entre os dedos em meio a  uma risada sincera de ambas as partes.

-Ô,ô,ô! Eu também quero!
-Vá se catar, moleque!

O ônibus parte.

- Te ligo!
- Troquei de número...
-Vá se fuder, Gabriela!

As duas voltam a se sentar no banco, com seus respectivos cigarros acesos à mão, trocando miúdos sobre o tal rapaz. Conversam sobre as trapalhadas dele, de quando deixou o celular próximo da cama para volta e meia acessá-lo, preocupadíssimo, conferindo se algum amigo tinha alguma notícia ou solução para o sumiço da moto ou então da vez em que disse estar preparado somente para uma rapidinha e terminou ficando quase 6 horas até que batessem à porta, reclamando. Gabriela divertia-se. Sua amiga também, com um sorriso largo. A fumaça emanada da queima empesteava o ponto, naquele momento onde todos já haviam dispersado. Esperavam sentadas, ao som do silêncio gradativo que subia, fazendo delas as grandes e únicas estrelas.

Um homem de boa aparência chega e, em minutos, se avizinha. Olha, olha, rastreia as duas de cima a baixo de um lado a outro. Quando as duas se calam, percebe-se que balbucia algo em baixo tom. A discrição corresponde à roupa social e a mala que carrega na mão esquerda.  Elas escutam em silêncio, como se pensassem para si. Não há mais assunto entre elas. O homem balbucia algumas palavras e depois volta a olhar distraidamente para a rua, os ônibus, como se nada houvesse acontecido. Gabriela olha para o chão e a amiga para um lado e para outro. A senhora que há pouco estava sentada ao lado delas corre para tomar a van, liberando espaço para que o homem sente. Ele tem uma pinta no canto da boca e pode-se dizer que tenha entre 25 a 35 anos, além de um sinal de calvice na coroa da cabeça. Revira o bolso e pega o celular. Permanece olhando o visor, apertando aqui e ali, olhando volta e meia para a curva da estrada onde os veículos surgem, como se não houvesse acontecido absolutamente nada ali. Mas de repente, vira a cabeça de leve e é possível escutar em baixíssimo tom:
- Qual é o seu número?
As pessoas recém-saídas da igreja passam a lotar o ponto e tanto que já não é mais possível ver coisa alguma, além do burburinho típico de vozes de diferentes timbres se entrelaçando uma nas outras.
A van esperada se aproxima e ele se despede com um:
- A gente se vê amanhã?
É possível sentir um levantar de ombros por parte de Gabriela. O homem parte com um sorriso de pura satisfação. Talvez houvesse dito "tchau" ou "até", mas sem dúvida o que mais a amargurou foi aquele riso lúbrico de puro ego satisfeito.
Quando o homem entra no veículo, Gabriela trata de falar ao pé do ouvido de sua amiga que acena a cabeça e dá uma tragada mais intensa.
Quantas vezes afinal teria confessado o seu ser com aquela outra, espelho dela? Afeiçoou a ponto de apresentar o ego sem se lamber. Beija o espelho, é verdade, mas como o espelho é a outra, o mundo recebe como se fosse dela.   
Finalmente ele a quem tanto esperavam chega. Elas sobem as escadas. É possível ouvir o restante das gargalhadas. De quem, afinal? O silêncio é vasto... os ruídos permanecem.  



 Dúvida:
(Em quem o tempo, afinal, tem mais passado? No homem discreto? Nas moças indiscretas? Ou noutra que nem entrou na história? Não se sabe. Monalisa sorri o sonho que teve no qual jamais saberemos. Saberá a própria explicar a razão pela qual continua a sentir daquele jeito e não de outro? É um olhar no espelho que não desespera.
    
   
                                       
    Jeune & Jolie - 2013
         [François Ozon]
 

Continuar é a moeda kafkanesca que exime, mesmo sob o risco da assombração. Continuar quando não se tem endereço além do corpo e das próprias forças oriundas dele. Quando termina, afinal, aquilo que começou um dia bem antes do nosso conhecimento?)