quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

No começar do recomeçar

" A vida na hora

[...] Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não
                                                                         [conheço.

Isso é justo - pergunto [...]"
Wislawa Szymborska - Poemas



A place in the Wilderness
[Roger Eno]
Voices

No começar do recomeçar existe um tempero no qual poucos acusam sentir gosto. Vento de faroeste e um medo de se virar a esquina obnubilam juntos a mesma força que, certa vez, motivou a seguir caminho. Como a madrugada nos filmes americanos anos 70 e 80, nada pode-se fazer senão auscultar a sola do sapato chapinhando nas poças d'água, sem deixar de agarrar o balançar dos pertences contra o corpo apressado. A imagem que nos vem à tona é a de um dia corriqueiro, com a diferença de que há pouco de tudo na economia da noite. 
Nas sarjetas, a sujeira misturada na lama é mais perceptível. O vento forçando à gritos a beirada do cartaz. Na esquina, dois bares lado a lado a brilhar uma fisionomia permanente, amarela-natalícia, quase versão hopperiana dos trópicos. Caixas e mais caixas de cerveja amontoadas. Menos de cinco clientes, cada qual com seu copo e sua cadeira. Não se ter o que fazer. De repente, a sensação de estar vivendo numa cidade de interior é inevitável. Quiçá pudesse uma mosca voar e até caminhar esfregando as patinhas, embevecida de tranquilidade.
Sobretudo quando o ônibus chega
dezenas de minutos
depois,
encobrindo o enorme reflexo lunar sobre o asfalto esburacado.

"Boa noite"

"Boa noite!" - retruca em bom som o homem por detrás do volante.

Semblante aceso se debruçando sobre o ruído ensurdecedor do motor à diesel. E não há murmurinho maior do que este.

Os que perduram a fala, enrodilham-na no bojo das coisas, com um esmero de se fazer bem à alma. Impressão de última viagem ou último dia do ano, num cansaço que é macio e livre.

"Valeu! Bom serviço aê!"

"Valeu!"

E a ação não é mais aquela do frear e seguir. Uma pessoa desce e o pé no pedal deixa. Puderas! Sem sol, o patrão fica mais sonolento. Todos trabalhadores, como ele. Todos humanos também. Talvez fosse o tempero ideal do sonho socialista. O motorista para a cada pedido fora dos pontos, deixando uma satisfação que a manhã não saberia deixar.

sem hora.

O semáforo, o relógio de rua, sem sentido aparente, como o catavento antecipando o sono da realidade.

Se em algum interim há foco de criminalidade com indivíduos iconoclastas que se aproveitam do anonimato noturno para violentar a harmonia esquecida, o instante perdido de milhões e milhões de pessoas só há uma solução: "não há porquê". O medo de quem a atravessa inocente é o próprio valor da liberdade enquanto cidade pelas costas.
Resta a pergunta: quão misteriosa a sexta é para destruir o sonho da quinta? Quão misterioso o sonho de domingo ou segunda? Quando a cidade repousa nos fins da incerteza, os vagabundos respiram e agradecem.

Da série "A provação da luz": Nuvens dispersas de Naruse








Sentados frente a frente, um casal sorria apoiando mão sobre mão. Entre eles, um vaso azuláceo com flor solitária abandonada em vermelho escuro. A flor era o exato retrato do local, insignificante enquanto opção, extraordinário enquanto oportunidade para os pensamentos fluírem como anêmonas. Juntos, eles se olhavam. Cada centímetro de pele na curvatura do rosto era uma vontade de se tocar. De repente, sem saber como, um desaparecimento. A memória da despedida: ele saindo depois do beijo, ela fixando o pano branco no vidro, num gesto tímido e delicado. Pano fica. Pano não cai. Ele sai para nunca mais.

Cena do tribunal. Nada de excepcional, exceto a parede de cor azul, tal qual o vaso. O autor do crime é julgado. Diz não ter conseguido frear a tempo. Ela sente raiva a ponto de nem sequer olhar para seu rosto. A boca coberta pelo batom vermelho se entorta, soluçante. Na verdade isso se dá quando ouve a voz dele. Nos outros momentos, fica quieta, alheia a todos.
O veredito sai rápido: homicídio culposo. Nenhum castigo ou obrigação. O homem que cometeu o crime, continua a trabalhar no mesmo escritório. Começa a fumar mais do que o costume. Fica depois da hora. Certo dia decidiu ir pessoalmente pedir desculpas, oferecendo um dinheiro que tinha acumulado. Ela voltou a morar com a mãe. Ela aceita,mas depois recusa, por não admitir que se trata de uma troca, ainda que estivesse precisando, já que o marido a sustentava. Assim, num bar também esquecido, desliza o cheque para longe de si, mais precisamente até tocar o paletó azul do homem. Se pudesse o amassaria daquele jeito. Ele sente-se culpado ao vê-la saindo sem se despedir ou sequer olhar em seus olhos. Pela primeira vez sente-se atraído pela mulher. No trabalho a imagem dela reboa em cada segundo que passa. Não vê a hora de terminar o expediente. Volta e meia sai para fumar do lado de fora. No término, recebe um flerte de uma moça que trabalha em outro setor, enquanto recolhe os papéis sobre a mesa. Um som longínquo em seus ouvidos. Uma dúvida: onde estará ela que não está aqui e que durante a tarde inteira esteve em meus pensamentos de modo onipresente?

A fim de distrair um pouco a cabeça, aquela por quem ele procura inicia suas atividades como camareira num hotel controlado pela irmã, uma solteirona sempre aberta a coqueterias. Os homens empresários que ali se hospedam e bebem irmanamente, se interessam. A irmã diz com os dentes podres: "Aqui está ela de quem tanto falei". Um deles brinca: "A princesa?" Sim, a princesa. Agora que tem se ocupado até altas horas da noite, poucas foram as vezes que não se olhou no espelho. Ninguém acredita que ela pudesse ser irmã daquela. Com os olhos baixos, recolhia as tigelas com uma paciência e lentidão monacal. Além de jovem, bonita. Todos se acercaram, como lobos famintos. Assustada, retira-se tão rapidamente que quase esquece de calçar o pé direito do sapato,deixado na porta. Um deles tenta ir atrás a fim de pedir desculpas pela atitude dos amigos. O mesmo homem que no emprego anterior como atendente de caixa em um supermercado próximo da casa da mãe segurou o pulso dela, deixando sobre a mão uma pequena e tímida carta amarrada a barbante. O pedido era que a abrisse quando ele saísse dali. De cabelos grisalhos, bastante magro e alto, o homem mais parecia uma pessoa mais velha da família. Mas ela sabia do que se tratava e recusou, recusou terminantemente. E que levasse a carta junto! O mesmo homem com um sorriso tímido. A irmã se aproxima dela e em voz alta e muito naturalmente, diz se tratar de um bom negócio. Ela desconversa. A irmã insiste. O homem de quem a irmã falava, põe-se a escutar através da porta. Ela então parte para uma conversa sobre o amor, alegando que mesmo viúva ainda o ama e que nada irá fazê-la mudar de opinião. Não desejando ouvir mais nada além daquilo que já foi dito, põe-se a sair. Encontra o homem que timidamente se desculpa. Ela, muito irritada, franze o semblante e bate em retirada para o quarto.

Naquela mesma noite, o homem que tirou a vida de seu marido chega ao hotel. A estadia é de apenas um dia, para que possa continuar a viagem até Kyoto e retirar o passaporte para um território ermo e repleto de perigos na África, segundo acordado com seu chefe. Ele, a quem um misto de culpa e desejo o escalpelam, opta pelo curto caminho do esmaecimento. Caminho similar ao dela. No sem mais das coisas, um encontrão. Ele estava se preparando para dormir. Que mais poderia fazer em face a tamanho desespero, o desejo terrível de ir embora só para dar conta do passado? Ela entra com um par de lençóis brancos e...

Um convite. Ele e ela sentados à mesa, no mesmo local em que pela primeira vez quis oferecer o dinheiro. O mesmo vaso à frente. "Não tive culpa", diz. Ela sabe que não teve, mas a dor que sente é mais forte. Isso o incomoda, pois o obriga renunciar ao mundo. Conta sobre a viagem que irá fazer nos próximos dias, sobre as passagens já compradas...e se despede com pesar. Ela permanece sentada, sem olhar para trás. De repente começa a perceber o tempo passar depressa, a tentativa frustrada dos filetes de sol atravessando frechas das persianas,mas sem alcançar o vaso, o sorriso duro do funcionário segurando o cabo de vassoura.    

- Mishima!

Ele para e volta, como se recapturado. Os caminhos se tornam mais luminosos. Consegue enxergar até os detalhes! Ela diz que não quer vê-lo mal por causa dela. Ele sem saber o que dizer pede um saquê. Em questão de segundos, a garçonete, como da primeira vez, põe o saquê sobre a mesa num inteiro desmazelo. Eles riem. Pela primeira vez, ele vê o sorriso dela.

No dia da sua partida, logo pela manhã, ele vai ao hotel. A irmã da viúva que não entende a razão para tamanha viuvez, revela o local sem pestanejar: na floresta, colhendo flores. Não demorou muito para vê-la curvada sobre as flores. Ele silenciosamente se aproxima e fica observando atentamente a delicadeza dela na escolha das flores. “Esta não, esta talvez”. Abrir e fechar de dedos. Não sabe bem o tempo que ficou ali olhando para ela e ela para as flores, mas a sombra dele no chão a assusta. Ele se desculpa. Ela ri. De risos em risos, o pranto se esvai, o corpo alucina mais e mais até que juntos não podem mais se ignorar.

Beijo
primavera
beijo
esperança
beijo
floresta fora do mundo
o mundo fora daquela floresta
recomeçar.