quinta-feira, 27 de março de 2014

Tinta fresca



Concerto para alaúde, 2 violinos e contínuo em Ré, RV. 93- 2. Largo
[Antonio Vivaldi]
Paul Kuentz e Orquestra de Câmera
1987









             Ten Skies [James Benning] — 2004




Era uma vez um conjunto de impressões chamado Vermeer. Vermeer costumava aparecer diariamente entre às 17:00 e 17:30. Não batia na porta ou sequer pavoneava para estar ao alcance do momento. Dava 17:30 e ele despontava em grande estréia. Tal qual um Rembrandt de meia idade, ia todo folgazão para cima das nuvens, driblando a mais grossa fuligem, a mais pecaminosa das infâmias com uma juventude que se derramava em graciosidade. E numa sutileza muito ingênua, retocava o contorno com cores de alvorada. Bastava o dia começar a choramingar um adeus doído e pronto: lá ia Vermeer se lambuzar todo de tinta. Primeiro as mãos, depois as roupas e, por fim, o rosto. Cor após cor.












                  Ten Skies [James Benning] — 2004




Assim que Vermeer partia,o crepúsculo singrava as cores em luz. Sirenes de ambulâncias, buzinas de automóveis, ruídos de motores, vozerios, tudo muito desmanchado. De repente, Goya era o seu nome. Folhagens secas que o vento embaralha. A partir de então não havia memória que resistisse e imaginação que não esbravejasse.












                     Ten Skies [James Benning] — 2004




Real profundamente crú. 

Mas bem ao fundo, entocado estão os moinhos das aparências. Tempos de invenção. À mão, o sentir esbranquiça a sensação. À mão, um segredo bem misterioso que um Klee em franca ampliação explica. À mão um corpo cedendo, em farelos.

Vale as imagens do pensamento sobre o barquinho de papel, à luz da cor me chama. Passo a sonhar a cada vez. E me sonho em posso sim.

Jorra a tintura espessa do silêncio. Eu, sobre a mesa clara e em algodão.


Texto revisto em 17.10.2016

sexta-feira, 21 de março de 2014

Decúbito dorsal

A título de explicação: José estava de cama desde aquela manhã por razões muito óbvias; esqueceu de tomar o remédio na noite anterior. Não havia copo algum sobre a cabeceira. E muito menos cartela de comprimido esvaziada. Esqueceu.  Foi assim: deitou de bruço com a roupa no corpo e dormiu. Mas quando acordou...era como se quisesse dormir de novo, sem mais poder. Virava de um lado para outro na cama, as pernas fraquejavam, dormentes.  Ao sentir que ao seu redor tudo estava frio, mais frio dizia sentir (apesar do suor trazido no rosto). Permanecer na posição anterior, causava-lhe aflição, um mal-estar que não dava trégua. Aquele corpo ontem esquecido, hoje o beliscava, dando sovas em sua cabeça de uma maneira lamentável. Sorte a dele ter Dona Filomena por perto.
- Mena! Mena!
Um breu absoluto, um silêncio devastador. E José agarrando o travesseiro, torcendo-o com os braços, sem saber o que fazer.
- Mena! Mena!
O cacarejar do galo na esquina de casa o encoleriza: 
- Ah, se eu pego essa mulé! Esquece de vê se tomei o remédio,mas não perde uma missa!
Puxa a gravata com a mesma força que fez torcer o travesseiro, com a diferença de que desta vez o pescoço cede. Ergue a mão para o nó e o faz querer subir.
- Mena!!! - berra, sustentando o grito ao máximo de seu choro.
Silêncio outra vez. Ouve-se à distância o ladrar de um cão e, mais uma vez, o cacarejar. As pálpebras, então, se retraem, em franco reconhecimento de que todo e qualquer ato é inútil. Diz baixinho, quase gemendo na última sílaba:
- Mena...
Não se sabe quanto tempo passou. Subitamente, apertando o travesseiro, percebe um feixe de sol cortar geometricamente a parte esquerda do rosto coberto de suor. No centro dele, um olho esbranquiçado abre-se em emoção. Os nervos do olho sobressalentes como sulcos em uma terra. Num misto de raiva e lamentação, entrega-se às sensações interioranas, com múltiplas variações fisionômicas: franzindo o cenho, comprimindo os olhos, abrindo a boca: não querendo dizer coisa alguma...senão alguns gemidos agonizantes.
Alguns garotos ruidosos passam rente à janela do quarto, incitando o ladrar dos cães. José abre a boca e provém meros espasmos de som. Sem forças. Os lábios já secos.
Vira para o outro lado, com os olhos bem abertos ao que lhe acontece, em pronta espera. Começa a lembrar de quando construiu a casa há 50 anos, com a ajuda de seu pai: um presente de casamento.
Uma lembrança tão velha quanto a morte. Será a própria lhe rondando?
A voz de seu Joaquim se torna audível. Talvez cumprimentasse alguém, na parte que cabe a ele o dia. Pena José não poder participar da mesma luta. A luta de José agora é outra.
O telefone. Olha o telefone preto, na sala minúscula, ao lado da bíblia aberta. Mas o corpo não entende, amarrotado como a roupa! Vira e revira, o que sabe fazer.
Na ponta da cama. Se pudesse sentar ao menos naquele instante! Faz força, chegando a bufar pelas narinas, para erguer um ângulo a menos. Mas volta ao sentido inicial, mais cansado e inútil do que antes.
Se não bastasse, uma mosca pousa em sua testa. As várias patinhas deslizando por toda a extensão qual fosse uma terra de ninguém, bagaços reduzidos a um tempo amorfo. José esforça por uma segunda vez e quase chega à metade. De repente, ouve um som quase tão vago quanto os seus dias. Um molho de chaves sendo largado num móvel da sala e algo como uma voz feminina. 
- Fia, minha fia!
José esperava, impacientemente. Imaginava-a cumprindo com aquele antigo ritual de manias, indo ao banheiro, bebendo um copo de água, futucando a geladeira em busca de qualquer sobra e depois...depois a ida ao telefone, próximo à porta do quarto onde se encontrava,onde permanecia por quase uma hora até Dona Filomena reclamar.
Uma pequena brecha de luz passava pela porta. Pena tê-la quase encostado ao entrar. Pena também estar agora tão acordado como poucas vezes antes estivera.
Esticava o braço a fim de abri-la um pouco mais. Os dedos estendidos, trêmulos de puro desejo. 
- Fia! Vêm cá! É o papai! É o papai!
E lembrou quando a colocava sentada sobre uma das pernas quando queria falar algo importante. Naquela perna que agora não lhe obedecia mais.
Silêncio.
O telefone está no mesmo lugar de antes, intocável.
Pássaros trilam harmoniosamente ao som de uma goteira vagarosa.

Dona Filomena põe o pesado fone no gancho e ao abrir a porta do quarto, o encontra naquele estado, todo encolhido tal qual um feto murcho. Acolhe-o nos braços. Lágrimas escorrem pelo rosto de José. O Cristo de Filomena encostou-se, por fim.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Apogiatura

“Facts become art through love, which unifies them and lifts them to a higher plane of reality”
[Sir Kenneth Clark. The landscape of fact  in Landscape into Art. Edinburg: Pelican Books, 1956. p.31]


Mãos se abraçam acobertando as falhas das falanges. Pele na pele, pelos: entrosação de um em muitos.  Duas silhuetas miram o horizonte crepuscular, misto de vermelho e amarelo. Ombros encostados, firmes no toque. Nas retinas de quem olha: quatro janelas abertas, posicionadas como canhões ao mar. A cabeça tombada para a cabeça alheia, como se tratasse de uma eternidade. Ternura, complementação sentimental, desabandono. Diz-se:

"Ainda há tempo de arfar o peito em inteira intimidade.  
Ainda há tempo de roubar o beijo da tortura das distâncias
Ainda há de se ver tempo no calor pousando 
a sorte do sexo
a tempo
de não se querer
mais nada_
.

.
_um vidro translúcido. Vemos uma miríade de cores e recortes imprecisos, com uma claridade que pende para a direta. Adentrando o espaço, há uma lareira e um senhor de bigodes e suspensórios a balançar cadeira de molas. Volta e meia estica o elástico dos suspensórios ao som dos estalos do carvão. Os óculos, pequenos, na ponta do nariz. Balbucia qualquer coisa nos lábios murchos. Uma enfermeira entra no cômodo equilibrando a bandeja. O que lhe parece ruivo aos olhos, atrai sua atenção. Sorri, enquanto obedientemente engole a papa cuidadosamente depositada na boca pela enfermeira.
Na quinta colheirada, tenta falar alguma coisa e, como se não conseguisse, segura o antebraço da enfermeira (que pacientemente enuncia palavras de estímulo para que continue a comer). A olha sorrindo como um bebê diante do fantástico. Permanece assim por um bom tempo até o esvaziamento do prato e da colher bem lambida.
Lá fora: dúzias de pinturas de cavalos selvagens decoram a parede que divide as várias e sucessivas estantes de livros. Nas quinas do cômodo, algumas esculturas femininas. Adormecem centenas de papéis amontoados sobre a escrivaninha que uma vez fizeram-se lembrar na primeira lufada de vento. Os mesmos nomes nos envelopados, datados de pelo menos cinco décadas.

- Quer que eu conte agora um história para dormir?

Ele parece se contorcer de alegria.

- Era uma vez uma menina, uma adolescente alta que adorava frequentar os shows de jazz. Não importava
qual música desde que fosse jazzístico. Bastava um barulhinho qualquer dos instrumentos para bater palmas, gritar, se mexer toda de um lado para o outro, no balanço do ritmo. Mas não chegava a ser uma "veneração", daquelas de abaixar e levantar os dois braços. Vou te dizer porque: volta e meia tratava de querer saber o que acontecia ao seu redor. Sabe-se lá porque! Talvez não aguentasse olhar por muito tempo para o rosto dos instrumentistas. Tá, então havia um rapaz bem colorido e de chapéu a alguma distância. Como não sabia dançar, quase não se mexia. Os dois em sintonia com a música,mas reagindo de maneira diferente. Se não fossem as cores, ela nem teria o notado. Pra que, não é?
-É...
- Não durma antes. Deixe eu chegar até a metade, pelo menos.
- Mas eu não estou...
- Aí, ele a vê com uma certa dificuldade, por ele ser baixo. Mas ela viu e ele também. Isso é o que importa. Estava muito cheio o local. Ele vai se aproximando da tal adolescente, alisando a barba, bem devagar. Em um momento, chega a ficar lado a lado com ela, de frente para as costas dela, na verdade. E numa situação como esta, pouco se pode olhar, senão encostar, não é? - ri -  O senhor sabe, como é, né? Então, ele trata de ser empurrado por quem passa, de preferência em cima dela. O coitado mal consegue bater no queixo da moça! E ela usa óculos, uma armação pequena e delicada. Poderia dar uma cabeçada no queixo e fazer os óculos caírem. Poderia pisar no pé dela. Tudo para depois pedir desculpas, uma aproximação emergencial... - riram os dois.
O senhor põe a mão sobre a dela.
- O que foi? - pergunta a enfermeira.
- Continue, por favor...
- Mas o show continuou, freneticamente e sem intervalos - ela coloca a mão dele entre as duas mãos dela - a única coisa que poderia aproximar seria a dança que ela tirava de letra. Ah, esqueci de dizer! Ele estava na companhia de alguns amigos que dançavam toscamente, girando os braços como velhas barbadas.
- Assim? - puxa a mão para movimentar os braços, com dificuldade, para frente e para trás.
- Talvez - ri - algo bem mecânico, como o homem de lata do O mágico de Oz. Cheio de ferrugem - ri.
- Eles só tinham barba, mesmo.
- Eram velhos jovens que queriam dar uma de garotões. - ri.
- Exatamente! - e volta a segurar a mão dela.
- Pelo visto, o senhor não irá dormir mesmo com essa história - ri.
- Acho difícil, para ser sincero. Está muito divertida!
- Já tomou o remedinho?
- Já! Agora continue!
- Como, se o senhor não vai dormir?
- Tá, vou fechar os olhos. Continue! E chegue mais perto porque não estou ouvindo direito.
- ...bom, aí o que aconteceu foi que o show acabou e imediatamente a moça foi embora. O rapaz disse que iria ao banheiro, mas foi atrás dela. No caminho, encontrou-a pela última vez numa esquina próxima. Ela andava rápido, decidida.
- Um mulher autêntica! Adoro mulheres assim!
- Por aí.... - ri
- E ele então a perdeu de vista?
- O coitado estava sem óculos, acredita? - risos - não via nada!
- A moça?
- Não, o rapaz barbado!
- Poderia até ter confundido com uma outra se fosse durante a noite...
- E era!
- De onde você tirou esta história?
- O senhor gosta de literatura?
- Ora, basta olhar nas estantes. De qual autor você comenta? Um contemporâneo? Seria Kundera, Tanizaki ou....?
- Shakespeare.
- Como?
Dá um beijo na testa e vai se dirigindo à porta.
- Não me diga que...
- Não, não foi comigo que isso aconteceu. Pode ter certeza.
- Mas poderia ter acontecido?
Sorri, sem externar solução. No outro lado do cômodo, o retrato antigo pousado sobre a mesa revela os dois, ele na cadeira de rodas e ela  ao lado, acompanhando. É possível ver em baixo da fotografia uns dizeres anotados à caneta, mas ilegíveis, na penumbra em que se encontra o quarto. Está mais escuro do que o habitual. Tivessem acendido ao menos o abajur do criado-mudo, não sofreria tanto.   
Da janela, é possível escutar o passar do trem com uma agilidade frenética a arrastar consigo tudo que é apagado e esquecido. É um clarão violento, quase. Daqueles que estoura por dentro e faz acontecer coisas antes impensáveis ao senso comum e ordinário dos dias. O extraordinário da realização que move o mundo para cima ou para baixo. Frente ao trem que passa, o cômodo parece mais esquecido ainda com as sombras que não cessam de circular pelos retratos afixados na moldura de formas concisas e industrializadas. Pudesse ser cosida, estaria a se ajustar, imagem a imagem, num aparato fisionômico conciliador, se não fosse aquele outro rosto, aquela outra idade, aquele outro tempo.
Brumas.
Cupins.
No estilhaço.
A casa quando permanece vazia, sem quadros de cavalos ou cadeira de molas, diz também que está aberta, apesar de fechada sob o segredo da lua. Aberto às cinzas que sobrou das imagens, aberto também ao horizonte que nesta hora emergiu, em lúcido vermelho e amarelo.
O sol: duas curvaturas com as extremidades encostadas uma nas outras. À base do primeiro passo, da imagem que se quer fixa à imagem que se revela mais imagem. E como brilha a lucidez deste primeiro passo!

1a versão do conto publicada na revista Flaubert No.2, pág:18-19, em 15.4.2014