segunda-feira, 9 de março de 2015

O sonho de Rousseau

No entrecruzar de vagões, uma imagem fica. É a que faz carregar para além do retrato, no qual se questiona a presença e se coloca a ausência. Paisagem com sombra, integradas por duas mãos abertas, por onde se vê a fenda entre os dedos inferiores chamando paisagem. O peito à mostra favorecendo a quem o maltrata. Plena sensação de pertencimento. Estaria voando se não estivesse tão firme no chão, com as veias soltando nos braços, com o corpo em presença dominante. Meu pai por inteiro, coberto da maneira que o tempo deixou. Os lábios juntos afirmando a inteireza do movimento, de quem se irrita ou é provocado por alguma coisa, de quem aproveita aqueles segundos de depoimento para expressar a emoção, copiada ou não, da melhor maneira que convém. A pobreza do gesto simplificado com uma clareza de dar arrepios. A clareza construída durante décadas de intercâmbios, num corpo que aprendeu rápido a participar de uma prática profunda. Um corpo destro e normativo, como os filmes de ação dos anos 80. Um corpo por onde saem pipocas, churros e guloseimas ensacadas. Um corpo que se preocupa em alimentar o estômago, em viajar, em partilhar as memórias,  em espantar-se com o ouro e a fama. Um corpo que se não houvesse brasilidade, no quinhão entre a honestidade e dignidade, não existiria.
Pertencimento: duas curvas refletidas entre si sobre um desejo que se faz rijo, aderindo a causas inteiramente produtivas, religiosas.


Rousseau de rodinhas. Sonho? Pesadelo? Ternura. 
              

Fita verde

Logo após o incidente, parecia que nada era o mesmo: não havia ninguém ao redor. Seja olhando para um lado e para o outro, o resultado era o mesmo. A presença forte de si nos momentos de partilha era responsável por uma certa gosma. O apelido ainda por vir. 10, 100, 1000. Uma coluna de moinhos e você no meio a escutar vento, num mundo seu. Percebe a cadeira e senta. O travesseiro esquecido. A coberta perdida. Utiliza tudo um pouco. Tempo de sobra,mas ainda assim deita. Descansa. Abre os olhos e fecha. A dormência a que se é necessário confrontar debaixo dos travesseiros. E a liberdade delineando melhor as margens e contornos.....


Fotografia

Estranho. Muito estranho. É como se tivesse seguido com vontade e determinação a um chamado. Mas não. Era a voz de um....como se diz? Uma mancha, um nódulo, azeitona. Andava de quatro, como se costuma dizer, para evitar a queda. Tinha medo de chão, apesar das mãos lhe incomodarem em demasia. E por essa razão caía, caía feio de se fazer estrondo. Alicerces tão tremedinhos não suportavam por muito tempo. Secava. Secava depressa com a força que engolia a cada refeição, muitas vezes sem mastigar. O corte, aliás, era sempre na horizontal, num subir e descer de lâminas que esfarelava qualquer relação. Na hora que se sentou foi assim. Na hora que se calou foi assim. Na hora que começou, também. Aquela comoção de despesas lhe saía caro....
Acendia a luz com o dedo médio, numa tacada. Afundava o olhar em tudo que se aparecia, como se cada coisa fosse a peça perfeita, ideal. Por isso não era. A cada uso que fazia diminuía em dois, na corda de um violino desafinado. E se alguém rosnava para ele, tremia ao desaparecimento de si.
Por onde, afinal, destilou toda aquela flexibilidade de homem ilustre, se havia respaldo por tudo aquilo que não se garantia? Pelo suor e pela lama.
Lágrimas.
Porque o mundo é maior que a palma da mão e se faz num perceber que é estratégia e energia.

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Não entendia para que tantas patadas. Primeiro no rosto, para fazer girar, depois na memória ,para se fazer guardar. Dois tapas era o começo da profundidade. Dois tapas e um soco. Chute. Talvez posse incômodo permanecer isolado por tanto tempo: refletia fundo demais na sombra, quando a ideia era caminhar ao troco das marchas e ignições refrescantes, sobre a fórmula de um "vale a pena". Um sol nascendo bem embaixo e raiando todo presente ainda que na força de um grito, de um giro requebrado para novo grito. Para encostar no chão, um dedo bastava. Pois a intenção era a cambalhota. Tão lúdico seria se não fosse...o sol, o soco e o chute, para todo o ser que caía no chão, na sua frente. E isso porque havia toda uma regra de conduta que fazia esconder na forma de uma máscara tudo aquilo que se fazia suor e lama.
Limpeza.
Porque o mundo é maior do que os gestos da mão e se faz num perceber que é simplicidade e banalidade.

- A existência, percebe?   
- Sim, mas não tão somente, percebe?
- Não.
 

Para nunca, nunca mais voltar. Mas no entanto, voltava. Afinal, era lá que estava à sua maneira. No território segmentado, no front das mil pontas. Dá-lhe cansaço: prova dos que tem esperança num aprendizado menos catastrófico....