quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Diafonia citadina

Folhas secas espalham-se pelo reservatório de nossas mesas. 
Folhas secas espelham o esqueleto órfão das estrelas.
Folhas secas (e nossos pés, transpirantes)



O que foi que eu disse?

O dorso de um homem inclina sobre a face fosca dos pontões. Os cotovelos apoiados sobre o joelho; os olhos no chão. Mãos que se cruzam e se apertam. Querem bater palmas logo. Mas o ruído persiste e se alonga, como um emaranhado de fios que se descobrem.

Repetir o silêncio.

Olha para o lado e, de repente, mal se dá conta em estar desenterrando um lampejo esquálido de imagem.

Aquela cor...aquela cor até parece...como se diz?

Formigamento, pois há algo que não flui muito bem - como se estivesse estagnando a árvore esquecida por debaixo de algum pertence  e que agora se faz visível na extensão daquela sombra, espécie de jorro de tinta, artéria sobressaltada que não cessa de inchar, inchar, inch...

Estorninhos.

Alguém escuta. Ele assiste. Sua cabeça pende sobre algum lençol limpo, na força de alguma lembrança que nasce e se desmancha, com a mesma profundidade daquelas sementes granuladas lançadas ao vento. Conta-se cada porção com um gozo bestial de corpos cambaleantes, cujo suor não advém de fricções amorosas, mas de delírios sacros, de porra branca em mão selvagem.

Caravaggio!       

A juventude toda assim, embalada em rituais de transe que cheiram a papel moeda. Pulam, se mexem, e...não estão se divertindo, como se já àquela altura pouco importasse a diferença, como se com os olhos abertos nada mais restasse senão aquela fissura tão recoberta que quase adornada. Por isto, passam todos um ao lado do outro e é como se nada existisse. Em qual prego foi se meter aquela fruição bizarra de rostos e gestos desgovernados? 


Plik
Plik
Plik 

"Inútil", Mário Peixoto diria. Precisa dose de dor, no agonizante mar isento de litoral. Por isto, conhaque que queima; terço que arrefece; cotovelos que fixam a cabeça e a perna no patamar de um desânimo: Dürer em "Melancolia". Tudo respirando em tudo.

...

E a derrisão do contrato? Os sonhos retroalimentados? O exercício amoroso de quem espera pelo outro e que faz desabrochar as imagens mais sutis e profundas da relação, alcunhadas num distanciamento gratuito, isento de qualquer prova ou explicação. Como quem confia na leitura do outro, sem ter de apontar o dedo. Impressão que captura antes mesmo à palavra. Em permeio o eu e o outro, o desejo e o gesto, o olho e o riso. Um desaguar que escapa a qualquer contrato assinado pelo nome, endereço ou promessas que só servem para turvar lágrimas. A tal "luz nos olhos" de Vinicius é real, desde que afagadas na companhia de quem consegue ainda sentir ao viço das centelhas, à liberdade do se amar-amando (situações\quadros\shots), na transitividade das percepções que é requebrar de ondas: espumas, vazantes.

Sentimento & sedimento.  A alegria de quem sabe ver o talhado na concha a cada dia.