quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

travessão



Natura Morta
[Walter Marchetti]
1989
Piano – Giancarlo Cardini


De tanto pernoitar, ela foi até seus pés. Era nova e ainda vislumbrava qualquer coisa de sonho plastificado. Não que houvesse uma cosmética naquele sorriso condimentado, mas as covinhas da boca diziam algo nem sempre tão claro e evidente, como se enovelasse o gesto com as pontas dos dedos. Estava agora aos seus pés, com uma fotografia nas mãos, engordurada de suor. Premia como quem estirasse o braço por inteiro. No entanto, por mais que tentasse tocá-la, nada representava além da própria fotografia premida pelo suor das mãos.


Aquele tipo de ausência mais parecia um colar.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Ode sonora "Demos" (2007) de Marcus Schmickler


Retrato em uma gota [Kazimierz Karabasz] - 1977


Choques de influência.
Frequência em pedaços miúdos.
Recinto ecumênico, descascado pelo sono.

O instantâneo se acomoda no imperativo de algum desejo fremente, à espera de um silêncio mais intenso que o de sua garganta. Afunda o gesto do coro: dedo em riste, braço armado. Falam uníssonos os que que precisaram gritar. Primeiro o da direita, depois o da esquerda. E, como se ainda houvesse alguma chance, uma solitária voz se articula preocupada.


A voz das ruas, entremeadas de acontecimentos viris, ferruginou-se em cada vão. Estamos no coração da cidade. Um grito parte a emoção ao meio, mas o dedo em riste do coro armazena o fluxo. Corta a avenida de um lado a outro até que por uma segunda vez se faça ouvir os lamentos de uma mulher arrastando garganta afora sobre um carrinho de rolimã, completamente destruída em seu vestido de noiva. Rodeia, em pressa e ignorância, a maluca na pracinha com os restos de uma lama. Sirene e buzina.


Em dois, o coro gera a mesma vibração nas cordas vocais que os latidos e balidos, que o evangelho segundo boca sem lábios.  E treme quem morre por baixo.


O tempo gira, gira e entorna um líquido vivente, em plena Detroit devastada pelo abandono, em plena Chernobil enviuvada ou Mariana em pandarecos. Grita a voz que o coro faz esquecer em ritmo de protesto. Saliva, protesto e ,por fim, um teatrinho; como se não bastassem as toneladas de desinfetante na lixeira mais próxima, o escorrimento de um problema que é sempre do outro, fazendo crer se tratar de uma permanente festa, de uma brincadeira de virar estátua, espetáculo com frases já remendadas à contento.

A espacialização da pobreza e o couro marchando em botas de nada se ver. Correntes presas ao peito, bandeiras prontas metralhando contra a coisa mórbida da polícia. Vez ou outra a reincidência daquele panelaço se mistura ao grito de uma solitária voz. E é só então que o fogo vem, queimando devagar, estilhaçando vidros em pedaços miúdos, resvalando a uma tal harmonização persecutora, em plena anestesia salitrante.


Frequenciável o é quando num girar de polegar têm-se a imagem nas telas. Nada escapa ao julgo do vício. No parlamento, o coro atravessa uma completude de fatos, tal qual fosse capaz de alguma coisa distante. Mas a reação pende ao mesmo baú de quinquilharias, plugadas em rede nacional, que marcha e faz marchar ao preço do abandono dos lábios.


Chega um tempo em que o espaço da lugubridade é reinventado. Dançam e procriam os artistas, em delírios alvoroçados. Põe a mão onde alcança o pulso e, num misto de atrevimento e imaturidade, deslancham o véu de suas certezas, no grito de um coro inteiro, em lábios que de tão beijados poucos entenderiam a lábia.