domingo, 11 de setembro de 2016

Alienada

                  Valencia [Henri Cartier Bresson] - 1933


Mesa de bar, na calada da noite. Alguém suspira próximo da parede. Tem uma das mãos segurando a cabeça, como se enguiçada estivesse. Do outro lado do cômodo, a tevê ligada noticiava o mesmo canal de sempre, num looping acabrunhante que resseca qualquer lágrima necessária.


— basta que sejamos todos mal-amados.
 — o que faz para banir a história da sua vida?
 — isso já não será uma preocupação minha.
 — estava pensando em uma criatura humana…
 — morro sem deixar descendentes.
 — é um convite?
 — foi só para se esclarecer. achei que não viria a ser o caso.

Montava assim diálogos em frases coletadas. Às vezes sobrevoava ditos populares,como em Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Era o que queria ler, naquele momento. Mas sentia que, no fundo, lia como quem confere só e ferida, no ferro. E pasma ficava em ter inventado algo tolo.
Quis pedir um doce no balcão e o único que conseguiu comprar foi uma mar-me-la-da, bem soletrada. Assim compunha o vazio que lhe sobrava.

                                               …

 A anônima estranhamente se reconhecia pelas mãos vazias.
  

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Retratação


 Pair IV 
[John Stezaker]
 2007



O retrato dela
-
O silêncio nosso

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da vez quando meu peito ardia tua mão, deitando fora lençol, fronha e avental, eu me atraía a misturar o calor da aceitação, pelos pés desavisados das excitações. Na arritmia das alvoradas, o vôo imbricava tempos distintos, ante a qualquer soluço. E de tão imbricado vinha que o sabor tingia um quê de vontade desajuizada.

Agora, sabatinado, percebia que jogatinava um desejo de plena e imediata realização, que esse papo de voragem é vida de papel na mão, pois que de tão fino o assunto faz querer ventilar qualquer coisa opaca e travestida de azul




E assim deixou de me interar pelo marulho que me recorda o mar: sinuoso de sina, carcomido. A quem resta, afinal, o fino grão?


 “O que se alegra com a verdade é semelhante a alguém cuja casa 
se incendiou e que, ferido pelo dissabor no fundo do coração, 
começa, no entanto, a construir uma nova casa. 
E para cada tijolo novo assentado, 
o coração dele se enche de alegria” 
(Martin Buber)


Abro algum livro com correspondências. Acaricio a impressão num papel vegetal. Grafou-se em preto os dizeres, como um parafuso atarraxado. Do muito que se atarraxa por aí, esse é o mais tenro, na medida em que reestabelece o espaço branco das aflições a partir da infusão lírica de um tempo qualquer. Não está, portanto, afeito a prazos, cronologias ou históricos. É intemporal na atenção veiculada e por isso suporta qualquer levantar de cabeça. Amorosa frigidez das alegrias mínimas, fantasiadas de vime, algodão e tapetes persas.


Mas meu corpo me desgoverna ao trazer de volta o passado imperfeito, as urgências preenchidas e logo sistemáticas.

 








                            Limite [Mário Peixoto] — 1931



À sombra de dois gravetos, a cintilação do olhar nada significa.



— —


A palavra que te faltou naquele dia, fez de si um simpático intrincamento de visões fechadas. Ela te falhou em ato e atitude, revelando em mim uma incompletude perturbadora. Meus dedos nunca estiveram tão à frente, com as falanges abertas tantalicamente. E não à toa transpirei acordes frouxos de uns ponteiros amargurados, enquanto estive à espera disso que não tinha nome a princípio e que foi comido, devorado.



                                            "Qué pobre soy en el océano de la emoción. 
Pero me alegro, pues pienso que sólo el pobre 
es capaz de apartarse, desdeñoso, del angosto 
yo para perderse en algo mejor, en lo flotante que nos 
hace felices, en el movimiento que no se detiene, en algo sublime 
que crece siempre, en lo universal que tremola, en lo común que jamás se 
extingue, que nos sostiene hasta que desee enterrarnos en paz." (Robert Walser)


E por isto pergunto mais uma vez: onde está a paz que nos enterra?

— — —

Lembro do último novelo branco a mim confiado, cuja cor peguei na palma. Tinha uma brancura sempiterna e isenta de paz, e que nos pôs num aperto palpitante. À luz de nossa sibarita vontade sobrevinha o corpo como imagem do cosmos, em confluências de correntes estelares, sanguíneas e nervosas. Ardia a pedra como quem entrelaçasse bodas alquímicas, fazendo falar espécies nunca ouvidas. Tudo isto a nossa incidência e que agora se reduz a pinheiro, campo e sol no horizonte…ao menos enquanto o sorriso no canto da boca se definir.
 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um cigarro, me faz favor?


"Processing Unit"
[Jóhann Jóhannsson]
IBM 1401, A User’s Manual
2006


Foi durante o almoço que percebi. Havia passado meses longe de casa e nas vezes em que aparecia, nunca me dava conta. Ele me olhava de frente e sempre com algo mastigado na boca para dizer. Na maior parte das vezes sobre a vida que eu levava.

- Está chovendo estes dias por lá? — enquanto desferia com a colher um corte sobre o inhame.

Geralmente eu desvencilhava com alguma resposta curta ou sorriso tímido. Entre uma mastigada e outra, as bochechas afrouxavam a musculatura do rosto magro, o que, por sua vez, impunha dignidade ao cabelo ralo nas laterais. Não se via muito dos dentes por conta dos lábios curtos enrugarem qualquer coisa de ameixa, qualquer coisa de melaço bem chupado. Pois bem, lá estava ele a cortar o inhame com aquela colher de metal, com olhos bovinos à frente. A parte dura do inhame como garantia de um cotidiano possível, bastando um empurrãozinho com o polegar e o indicador para baixo.

O fato é que enquanto pousava a mão esquerda na mesa, ele não a pousava inteiramente...

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 — Nem dá pra sentir o gosto da folha — ouvi a voz feminina comentar, seguido de um riso nervoso. 

Raspava o fundo do prato com a colher, no quarto ao lado. 
 
No banheiro, a torneira gotejando.
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 Ele havia adormecido minutos atrás com o braço debaixo do travesseiro. Mas se algum barulho escorregasse para debaixo dos pés, era inevitável o suspiro quase tão vago quanto o mundo lá fora:

- Bem, está por aí?

 E lá escapulia o tempo outra vez.

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 Sentado na pedra à beira-mar, não conseguindo fixar a atenção no horizonte, presta a falar:

 — Quando voltará para casa?
 — Quarta. Caso contrário, quinta.
 — E como estão as aranhas lá?
 — Não estão. Você cisma que lá tem aranhas!

 Deixa aberto aquele sorriso que até os olhos frisa. A mesma coisa quando assiste a um filme que o comove; não à toa gostasse dos filmes baseados em fatos reais. Só nestes tipos consegue apontar com os dedos a imaginação e encantar a memória das lutas garrafais. Daí o desgosto pelos desarranjos, sejam eles intestinais ou cerebrais. Com o entorpecimento do corpo ou um braço sobre a cabeça arma a resistência numa desistência muito particular: bastam dez minutos e logo se sabia que não ia bem das pernas.  
Como precisava se agarrar a algo para enfrentar as contradições, absorvia muito depressa. Basta que alguém coloque caraminholas na sua cabeça sobre alguma enfermidade que sentia ou desejava sentir naquele momento, para imediatamente esbranquiçar a boca e fragilizar os movimentos vitais. Criatura em flor, de barro.

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 Nas madrugadas insones, liga a tv, dando início a algum encaixe perfeito. Com os braços esticados, monta e desmonta o mecanismo das máquinas multiprocessadoras, não sem antes empurrar com alguma força até o derradeiro ‘clic’. Caso não funcionasse, encaixa aquele seu óculos de metalúrgico a fim de deitá-la sobre seus pés. Em casos extremos às séries de incursões acidentais, mordia a extremidade das hastes, tal qual os homens maduros em plena reflexão. Só o relógio na parede parecia lhe roubar a lucidez daqueles momentos tão intensos e ao mesmo tempo tão banais. Tudo que precisava fazer era pôr em circuito o tráfego daquela energia e deixar o tempo conduzir as braçadas de seus amanhãs.

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 Naquele dia todos que estavam em casa passaram mal. Quiçá tivéssemos comido algo estragado naquela sopa de legumes. Ele mais uma vez com o braço pendido sobre a cabeça, com o olhar fragilizado e os chinelos a arrastar sobre o chão. Alegava também estar tonto o suficiente para que pudesse ficar deitado. Eis a última coisa que gostava de fazer. Mesmo deitado precisava de algum jeito dar utilidade àquelas mãos calejadas e graúdas, algo que pudesse fazê-lo acreditar no divino das essências, na metafísica das existências, no culhão das metonímias, sem abandonar evidentamente a parte judicativa. Talvez por isso fornicasse nos leites condensados, nos doces de leite, nos doces sobre doces do chocolate caramelizado. E assim sendo concretizava aquilo que o mundo há muito furta.

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 Naquele dia, ele precisava conter a mão esquerda. Do mesmo modo precisava conter algumas dúzias de minutos durante o uso dos mictórios e, principalmente, conter as tonturas desavisadas. Porque precisava trabalhar. Porque não tendo a quem confiar senão a uma pessoa, acreditava no futuro. A relação que podia traçar entre suas verdades românticas, alheias à facebook e ao sistema de moda, tinha o tamanho da curvatura de seu coração nas palmas das mãos. E com tanto afinco que dificulta aquilo que meus olhos contam, como se a luta apenas estivesse começando.

sábado, 23 de julho de 2016

Alguma coisa




"O vazio é um lençol branco", disse. Ela, sem querer acreditar, virou as costas e permaneceu naquele silêncio tão seu. Mais adiante o sol nascia no horizonte com uma clareza que não parecia terrena.
"Talvez a angústia", ela me disse e saiu de cena.

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A cegonha do amor pode aproximar-se,mas não chega. Pousa no peitoril à espera de um humor que possa salvar. Permanece batendo com o polegar no lábio, sem muito alento. Se reclama das dores do parto, é para dizer que há muito silêncio embrulhado para presente e  os ruídos estão por toda a parte. 

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Camada pós camada, doura a superfície lisa e quase escorregadia daquele rosto tão desavisado de tudo. Abertos os olhos, o maxilar afrouxa, permitindo o balbuciar de um som rápido e rasteiro, algo em torno de uma dúvida ou de um comentário ingênuo e nem sempre ouvido. Reclama da vida como quem arqueja alguma miséria naquele virar de cabeça. Acusa o trabalho, a dor no pé direito, o mal-estar da azia, só para dizer que o nada importa e que não gosta de arriscar.

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Estala o torcicolo pelos dedos que se querem curvos sobre pilhas e mais pilhas de papéis amassados. Instila abertamente uma vontade de se rir daquele mundo, pelo exato desperdício da vida a mostrar o excesso, de modo tão inútil. Como quem referenda um certo desinteresse pelo amanhã, fumega uma velha canção carcomida de indecisões ribeirinhas. Sem querer afirmar o sonho das montanhas em cor, caminha sem se importar a coisa alguma que não seja da ordem de dois sóis.

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de que adianta o sumidouro, se o desejo não for fome e tesão?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

castelo de cartas



Prelúdio para quarteto de cordas
[Toshiro Mayuzumi]
1967
Interpretação: La Salle Quartet



"Não", disse.

E do silêncio fez-se ouvir uma respiração demorada e pouco nítida. Diante de si, um rio passava escorrendo pelas pedras. Ele media o movimento de seus desejos no fundo da retina, pulsando um meio-lá-meio-cá que mais parecia nervura sobressaltada. À meio caminho, entre a indecisão e a possibilidade, sopesava os sentimentos com a força das impressões ainda tão frescas. Fora surpreendido com a resposta vinda daquela boca que um dia tantas promessas de amanhã lhe trouxe.

Segurou nos punhos a areia que o mar deixara secar e, distante das ostras e algas marinhas, assentiu, senão com alguma ressalva. Para ele, aquilo não passava de uma pretensão ressequida, cuja privação lhe obsedava.

Absorvia nele um desejo de barro fofo, repleto de raízes claras ziguezagueantes, no qual pudesse despir as cenas da cabeça em volúpias táteis de presenças e caminhos. "Contato sem contrato", dizia erguendo os olhos. Plainava sobre o solo agreste do agora, sem sombra de possibilidade. A partir de agora não poderia mais afogar aquelas delicadezas de vez em quando, na espera pelo silêncio dos amanheceres. Estava decidido. "Não", a palavra calcada em cinza, amortecida pelo entendimento. Finalmente ela pregava o xeque-mate, pondo fim àqueles carteados.



                            Phototheque imaginaire de Shuji.Terayama: les gens de la famille Chien Dieu
                                               [Shûji Terayama]


Macabro o corpo que pula sobre os passos do outro, se fazendo de obstáculo, entrave ou garra.
Que faz do punhado de imagens estilhaçadas, os espaços órfãos e reclusos da existência,
uma redoma de vidro cortante no qual o coração, sem marcapasso, bate, bate, bate em um passado só e bem socado.

domingo, 19 de junho de 2016

Da série "O Augusto": 2. Mosca na sopa



Unintended Piano Music
[Cornelius Cardew]
Works 1960–70

Intérpretes: 
John Tilbury piano
Michael Duch contrabaixo
Rhodri Davies harpa



 "Uma secreta luz cúmplice da obscura região de omissões e espaços brancos em que o dia a dia consiste"
Viriato Soromenho Marques in: As rotas do amor: Notas de leitura dos Fragmentos de um discurso amoroso. p. 305.


A melancolia lhe desce pelo pâncreas até as pupilas. Intumesce a secura de algum volume labial com a sólida amargura da solidão. E quando se cristaliza em vaidade, vira insumo estomacal, pelo qual anoitece dias na virulência dos abutres. Redondo como o mundo. Redondo, ordinário. Cadafalso moído e, por vezes, remoído.

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Vitupera o glúteo com as mãos nas carnes das ave-marias e nas centenas de pais nossos. Cai mordido pela bênção do prazer inviolável , deixando escorrer tão assim o leite derramado pela pele do amanhecer, sob a promessa de que possa varrer tão logo desejar. 
Isso a que atribui o nome de vida: um papel de bala sendo carregado pelo vento. 

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Na beira da calçada, um assobio. Cercado por ambos os lados, alguém proclama a liberdade em bom tom. Ecoa longínquo o som para as profundezas do anonimato. Quem seria?

Não havia ninguém pelos arredores àquela hora do dia, além daquelas vestes de amianto que nudez não conseguia deslocar.

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Um chamado. O ar espremido sai da boca queimada pelo sol, em caminhos que até a curvadura dos dedos duvidaria.
Como se não bastasse o sopro, gesticula o mesmo sentido: leste para oeste. 

Machista que dói.

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Se por um acaso dissesse à sua pequena filha com os olhos do silêncio, deixaria de sair atrás do que bem machucasse. Mas o mar é vigoroso e faz das luvas garras cabeludas.

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Os rolos de papel sempre estão à sua direita, plenamente encaixados aos abraços e beijos. Como se dissesse, com deboche: "o quê? a perda é humana? deixa eu ver.", com o sorriso preto na boca, a gargalhar.

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Amacia a fala ao dizer coisa ilustre. Cruza a saliva ao apontar a titulação, os números de páginas, como se aquilo fosse o suficiente para a nobreza de espírito. Um pensamento que só faz  enfeitar pelo instrumento de poder e segregação. Imitação sem forma, ideia sem desenho.

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A quem o espera pelo tempo, morre na praia com os seios descobertos e o corpo retalhado em pedaços de luxúria. Choderlos de Laclos + Thénardier + Colin Evans. Circula o desejo, numa espécie de escambo estoicista. Faz preencher as faltas e repõe as falas (ainda que de maneira cronometrada).

Linhas estáveis, formas desossadas: um estereótipo deambulante.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Tremeluzir



Misterio del hombre solo
[Luis Campodónico]           
1961


Recomendação:
3
[Jocelyn Robert]
Cycloïdes
2013


No barco, de volta para casa, Ignácio depositava os resquícios da atenção no lado de fora da janela. Aquelas miniaturas em movimento a pleno breu pareciam à sua sensibilidade um afrodisíaco. Impressionavam como deixavam de ser a cada instante que olhava, dando a impressão de que eram um todo infinito, um brinquedo intocável que fazia vibrar os átomos de sua pele.
 Um avião sobrevoava a embarcação com um estrondo de fazer silenciar os mais cruéis monólogos.






sábado, 4 de junho de 2016

Fremer passado



Still life para violoncelo e fita magnética
[İlhan Mimaroğlu]
 Álbum: Musiques noires - Finnadar Records - 1983 
Intérprete: Charles McCracken.

Aquela parede canta. Na primeira vez que a assisti foi nos anos 90. Tinha o aspecto de um beco sem saída. Um exaustor industrial parecia compor o miolo daquilo tudo. Poderia ser uma usina. Poderia ser um depósito. Tudo devidamente pavimentado e enxugado. Árvore ali, só se fosse espremida, como aquela amendoeira a mostrar galhos de folhas amarelas e ressequidas. À sombra dos muros, sempre à sombra dos muros. Era a forma que a natureza encontrava para continuar respirando à dura pena.

Naquela época costumava usar o espaço gigante do estacionamento para soltar pipa com meu pai, aproveitando que aos domingos não havia carro algum por ali. Quer dizer, talvez existisse um ou outro, mas nada que impedisse de bater minhas sandálias sobre aquele solo comprimido. "Supermercado Três Poderes", era o que lia quando erguia a cabeça para cima. Encostado ao nome, gravetos indicavam o corpo de um boneco, com uma  cabeça que imitava o globo terrestre. O charme dos pés cruzados era o que mais gostava. Pode-se dizer que havia uma certa ironia, naquele charme...

Mas o fato é que aquela parede lá dos fundos cantava! E era agridoce o seu canto, não pela parede em si, mas por compor aquele emaranhado único de resquícios que davam saudade. À frente, uma pequena ponte de concreto conectava aquele espaço a uma região residencial. Sim, pois há um córrego onde o esgoto é despejado logo ali, onde tantas vezes me dispersei nas ondas frívolas...

Uma pintada grade de ferro bloqueia a passagem quando o mercado está fechado. Desnecessária, pois na falta daquela pontezinha, basta caminhar dez minutos a mais para se chegar ao mesmo lugar. Sabe-se lá o quanto as ruas sem saída servem a um morador antigo....   

Vinte anos depois, as cores retomavam àquela parede. Trazem as cores da grade de ferro e nenhuma amendoeira. Finalmente a apagaram com o mata-borrão. Dormirá sobre o solo oco até o dia em que, por si só e esquecida, redescobrirá o caminho da luz, num novo canto redobrado pelo farfalhar.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Da série "A provação da luz": Xapiri


Início de lento fadein, ao som do eco de pássaros. Vê-se uma paisagem carregada com cores psicodélicas. Cativa o violeta da vegetação, em contornos bem torneados. E a profundidade se anula, como num filme 3D.

Xapiri começa uma jornada de imagens sensoriais, numa organicidade rítmica muito curiosa. Cada shot torna-se um convite ao deleite. Imagens que se adoçam em camadas, tais quais fossem folhas. Aos poucos a floresta vai tomando conta e o espectador um homem a velejar por um riacho todo folha. Onças que observam o decorrer da presença. A cabeça de uma ancestralidade a girar pelos vastos pulmões da mata, num tempo diluído. São os índios que surgem como espíritos xapiri, permeados pelo mundo onírico das formas e das cores. Caminham juntos homens, mulheres e crianças, numa lentidão serena e tão equilibrada quanto aquela conjunção de grilos a cricrilar ou como eventual farfalhar do vento nas árvores. No último shot desta sequência, os espíritos se levantam e caminham até o fundo da imagem, como leito de um rio, até o delicado fade-out crepuscular.

O início da próxima sequência faz ressurgir as cores com um vigor intenso, numa câmera-olho que vai cambiando distâncias e nitidez. Os objetos ganham contornos mais explícitos e chegam a crescer de tamanho a cada que vez que o foco se estabelece visceralmente na frente dos olhos. Convoca a câmera à viagem. Verde, verde sobre verde, banhado em amarelo sol. Sob um cortinado de vozes que voam como araras, é quase tão possível sentir a presença indígena sem se ver índio algum: a carnalidade do corpo massudo, argiloso, repleto de curvas sobressaltadas e de veias fartas em azul. Tudo isto concentrado na voz que vem roçar os sentidos do espectador: retina e película; corpo e tato. Muitos portais/travessias de cores firmes e maduras envolvidas numa pele, confundindo presente e presença, real e vivência. A dança vertiginosa das imagens começa. Um novo fade-out mais uma vez encerra um argumento e cria expectativas quase cerimoniosas no que possa surgir na sequência seguinte, como um levantar e descer de cortinas.

A sequência seguinte inaugura a aldeia com um movimento de câmera que me remeteu ao filme venezuelano "Orinoko" (1984) de Diego Rísquez ou a um possível filme de Glauber Rocha. A única diferença talvez seja pela qualidade fotográfica que nuança excessos como a claridade intensa de um céu vazio. Por alguns segundos, a câmera retoma o movimento da primeira sequência, ao registrar um índio de bermuda e chinelos, tão escondido de si, como naquele versinho do "homem atrás dos óculos e do bigode" de Drummond. A câmera volta a conduzir a viagem, capturando gotas a escorrer pela palha num dia chuvoso. Lembrança súbita de "Chuva" de Joris Ivens (1929). Mas aí a viagem acelera de um tal modo que inutiliza os futuros fadeout ou fadein, pois ainda que venham lentos, a turbulência da experiência será excessiva, beirando à histrionia.  Não haverá mais tempo para a contemplação. A câmera quer capturar a experiência do xamanismo, no ritual da dança. Canções indígenas se arrastam num platô de imagens que se reverbera entre si. Limpam os poros com a migalha das estrelas, quando o pajé assopra pelo nariz as cinzas da terra. Ecoa o instante,  no ir e vir da  voz xamânica que mais parece uma poesia sonora de vanguarda futurista ou dadaísta. O nível de sofisticação não só impressiona como marca um pedaço em cada espectador, como se tentasse, pela imersão, projetar uma realidade sensorial para além da própria imagem. Não sabemos aonde vamos parar. Alguns menos sensíveis desistem e se retiram da sala de projeção. Outros, se hipnotizam pelas imagens em êxtase, que poriam Sergei Eisenstein de boca aberta. Capta a expressão do rosto, na trajetória de cada corpo, num coletivo de crenças que se emaranham à sensação do aqui-e-agora vital. Vê-se caretas das mais variadas, em rostos que mais parecem chamas acesas, de permeio com aquelas canções tão ancestrais.

De repente, numa próxima sequência, a câmera volta à lentidão fora do ritual. Vê-se a pintura de corpos, o sorriso de um ancião a balançar na rede, olhares serenos e quase tão verdadeiros como a vegetação que estala e cresce ao redor. Balaios, cumbucas e uma coragem tão fresca quanto a mordida de uma fruta. Retoma o fluxo do ritual e vê-se agora o pajé a praticar a dança com movimentos entrecortados e fundidos nas vozes que não apenas ambientam, como, desde o princípio, conduzem o fluxo das imagens. Dança um frenesi de vontade que tanto contagia quanto perturba. Por fim, encerra o episódio com um lentíssimo fadeout, num movimentar da câmera que caminha lateralmente sobre uma aldeia, agora vazia. Uma cruz ou algo parecido à distância.
   
Sem dúvida alguma, uma bela homenagem ao cinema de montagem e à pulsação chamada vida!

Publicado no folhetim "Cinescópio" do Cineclube Lumiar, em 28 de maio de 2016.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Da série "À provação da luz": "Uma adolescente de verdade"


"O moralista esconde-se por detrás das apetitosas doçuras."


O trem se aproxima pouco a pouco da estação. Freme a locomotiva numa doçura que beira a O trenzinho caipira do Villa-Lobos. Não há absolutamente nada de perverso naquelas engrenagens, nada de Pacific 231. No local de um trem, poderia ser uma carruagem, a sacudir seus passageiros por conta das pedras e irregularidades do trajeto. A ruralidade dali, portanto, estava naquele quinhão de verde nos arredores, naquela minudência de gestos e emoções, típicas dos viventes em cidades pequenas. De fato, o tédio governava os sentimentos da jovem menina que estava sentada no banco, frente à janela. A mão no queixo revelava o que estava por vir: aquela mistura de timidez e desânimo de dálmata posto de castigo, a filtrar o que não poderia mudar na síntese daqueles adultos que sentam-se à sua frente, tão indefesos quanto seguros de si. A mulher gorda ora a roncar ora a perscrutar por debaixo de cada pestana algum falso movimento que saia do seu gonzo. Tortura para a jovem menina que ali enxerga entidades daquele local mesmíssimo, cujas leis da hierarquia prevaleciam. Na estação vazia, um adulto lhe espera, próximo ao carro. Se há abraço entre uma chegada e uma partida, pouco se pode afirmar. O fato é que o homem mais velho com os bigodes sobressalentes carrega a bagagem com a mesma atitude parcimoniosa que a da mulher sentada no trem. A viagem prossegue na mesma bonomia, apenas interrompida pela imaginação sensitiva da jovem, que finge escutar a música de seu desejo no rádio do carro. Cantarola, cantarola, cantarola o coração, enquanto o vento lhe cobre o rosto, numa suposta promessa de liberdade. As árvores altas cercam a estrada. A natureza exuberante mostra-se generosa, numa bela antítese aquele silêncio tão seco e áspero no interior do veículo. O homem de bigodes brancos e olhar sério faz uma pergunta meio cretina sobre a vontade dela em estar ali, repetindo aquele ciclo novamente. Nisto vem um segundo fator: os contornos da roupa dela ficam em latente evidência. De certo, algo está mudando. Ela aprende a silenciar com ele e segue cantarolando numa espécie de quase charme. O carro chega então, tal qual o trem chegou à pouco, numa determinada região onde à distância um casal espera. O casal imóvel, mais parece um cartão postal, uma foto há muito tirada e afixada na parede. Há um certo ar de lar ali, na presença do cachorro que não teima a pular, animado, na janela do carro onde ela se encontra.  O carro parte. Ela segue com a bagagem em mãos até ocupar todo o quadro. Num determinado momento, parece que ela adentrou a fotografia. Ela vai até eles e os beija. Pai e mãe, por fim, que mais parecem tios ou qualquer pais adotivos. Beija-os no rosto. A mãe, petrificada. O pai, orgulhoso. Certamente Alice sente-se órfã ali, naquela terra, aparentemente sem passado.

No interior da casa, paredes rachadas e cores abandonadas dividem espaço bizarramente com fotografia de atrizes e quase pin-ups, além de moscas varejeiras, tal qual houvesse algum cadáver ali em algum lugar. Sentam-se. Uma pergunta é solta no ar e faz lembrar aquela feita anteriormente pelo velho de bigodes brancos. O silêncio pavoroso entre eles faz com que a presença das moscas aumente, o que significa uma espécie de sensação de ostracismo e fantasia. O resultado disto são os traços fixos nos gestos de cada um a ingerir e deglutir o café vespertino, com uma espécie de perversidade e sensualidade típicas de um Bataille. O revoar das moscas, muitas agrilhoadas em alguma superfície melada, numa espécie de antessala que antecede os cômodos da casa, zona para  atravessamento de fronteiras. Eles bebericam e mastigam o prazer, de maneira ávida, como se em direção ao gozo. Primeiro ela, depois o pai e por último a mãe. O pai abocanhando a maior parte, a mãe beliscando e ela experimentando. O trio assim feito. Satisfeito o desejo, Alice põe-se a brincar com a colher entre os dedos. Agita-a até que cai sobre o chão. Por um segundo se pensa que o pai logo irá a seu encontro, mas ela age primeiro e, aproveitando a desatenção deles, faz correr a colher pela superfície de sua própria carne, ao centro onde orbita sua genitália, o núcleo do prazer alvoroçado. Colher não dói. Colherada em busca da satisfação que não vem. E ela dura pouco, para não causar suspeitas. A mãe atrás, como se pertencesse à mise-en-scène da casa, comunica então que a bagagem foi posta no quarto. Levanta-se e vai beijar de novo os rostos parentais. Mais uma vez o pai portando-se como um conquistador ao estilo de Larry Laffer e a mãe, um cadáver egípcio. Talvez aquele pedaço de fotografia não passasse de um velho hotel na beira da estrada. Alice segue ao quarto, tateando as paredes embolotadas, pela escuridão do corredor. Chegado lá, fecha a porta, sua garantia. Moscas sobrevoam o silêncio sepulcral daquele quarto, espécie de dispensa, onde se vê diversas quinquilharias sobre um azul desabrido (a mesma cor da blusa). Mas a precariedade daquele todo, incluindo um provável odor de mofo, típico das casas velhas e esquecidas, não é páreo à porta fechada (ainda que estivesse apenas encostada). Atira-se na cama com intenções sacrílegas e começa a se bulinar avidamente, por debaixo da saia. Na parede, há uma espécie de crucifixo de cor preta, tal qual fosse um objeto de decoração pre-histórico. Deitada sobre a cama, os dedos bulinando por debaixo da pequena saia, com sofreguidão. A cama velha, tem uma espécie de forro ou coberta vermelha, tão desbotada quanto empoeirada. O embate subversivo de Alice por uma história diferente daquela tem o seu preço. Entorpecida pelo prazer daquele lugar nauseabundo, Alice vomita sobre a blusa. A textura do vômito mais parece a das fezes. Cessa o movimento e fica estatelada com aquela cena pra lá de batailliana. Levanta e vai em direção à escrivaninha, direto para seu caderno de folhas brancas, depositado possivelmente desde a última vez que esteve ali. A caneta azul o acompanha, como se fosse um kit de sobrevivência. Com a blusa ainda suja, põe-se a segurar a caneta com a mesma mão que serviu para limpar a boca ainda suja nas bordas, e escreve. Escreve suas memórias travestidas de sonhos vorazes. Contou sobre os dias em que sem ter o que fazer deitaria sobre o varal com roupas estendidas de sua mãe, a fim de tomar um banho de sol e que, de tanto não ter o que fazer, adotaria o sutiã e calcinha como trajes oficiais.

Seu pai gabava-se do quão formosa aquela menininha estava, de que ela teria vindo tão somente do sêmen dele. A mãe, por sua vez, tripudiava o comportamento de Alice, talvez por ciúme do pai, com que apenas relacionava-se para receber críticas sobre os copos mal lavados, com as marcas de batom ainda visíveis. Certa vez, enquanto tomavam sopa com o homem de bigodes brancos (que mais parecia ser pai dele), anunciou que iria dispensá-lo dos trabalhos no campo. O homem, com aquelas olheiras fatigadas, não reagiu em absoluto, ainda que estivesse ofendido. Retirou-se. E no lugar dele, o pai requisitou o trabalho de um jovem trabalhador braçal de uma madeireira. Quando esteve no pequeno escritório do pai, que ficava no fundo da casa, esbarrou com Alice, ainda de sutiã e calcinha. O pai foi orgulhoso apresentar a filha. Era o encaixe que ela precisava ao ver aquele homem de lábios carnudos e de regata branca colada ao corpo. Havia entrado ali por não ter o que fazer e encontrara a companhia certa para os dias de tédio. Os olhos subiram e desceram como quem perscruta por algo mais íntimo. Ele captou aquele movimento e ficou calado. Poucos dias depois recebe de seu pai uma bicicleta azul de presente. O presente ideal para quem muito almejava descobrir onde o jovem trabalhava. E logo após recebê-la, sai pedalando até lá. Aproveita a liberdade daqueles movimentos maquinais para atrever-se mais um pouco. Retira a roupa íntima e segue por fim a viagem pelas estradas pavimentadas, porém vazias. Sem saber imita as fotografias de Hans Bellmer inspiradas no "História do Olho". Ela chega, possivelmente, na única madeireira da região e encontra o rapaz, sobre toras de madeira. Antes de estacionar a bicicleta, a forma como sentou no selim, deve ter chamado a atenção dos homens que ali estavam, que param de trabalhar para virarem lobos. Como quem quer nada com nada, fica inspecionando o trabalho dos homens, em sua maioria pessoas mais velhas. O único jovem ali é ele. Ele a olha por alguns segundos, mas não reage. Alice o segue por horas a fio. E os dois se comunicam com trocas de olhares. Nem as madeiras empilhadas conseguem barrar aquele movimento. No entanto, nada acontece. Ela desiste e volta pra casa, antes de escurecer (quando chega à madeireira, eram aproximadamente 4:30 horas da tarde - o sol refletia meio atravessado o ambiente). Ao chegar em casa, encontra o pai vendo televisão (de fato, são os únicos locais possíveis para ele, naquela casa: a mesa da cozinha e a TV). Come de boca cheia e quase não parece mastigar. Aquela tigela de plástico, parece conter diversas guloseimas, para além de pipocas. Alice beija os pais. O pai sorri. A mãe cristaliza. A mesma história de sempre. Abre os botões da blusa e, de súbito, fica observando a televisão por algum tempo. O que Alice vê na TV não se sabe, mas parece que ainda carrega junto a si recordações de um determinado cantor que diverte as jovens pela sensualidade de seu cantar, pela virilidade do seu corpo. O pai dela não estaria vendo aquilo, naquela hora e ainda por cima, com uma travessa de comida no colo. Vai para o quarto e repete o exercício da escrita.

E assim "vão-se as primaveras plenas e floridas de incenso e de heras", já dizia Rimbaud. Ao perceber que o jovem da marcenaria só reagia com trocas de olhares e mais nada, ficou um tempo sem ir ao local e foi à cidade local. Lá encontrou um outro jovem, talvez mais jovem ainda que aquele da madeireira, que foi de sede ao pote. Ela não gostou muito daquilo e saiu. Sem rumo, voltou a caminhar pelo universo praieiro dos desejos não realizados, esquecidos na areia. Vez por outra abaixava a saia e caminhava sentindo o desesperante prazer das fricções. Regressou à fabrica, em mais uma tentativa. Naquela altura, era evidente que ele não estava querendo nada com ela. Mas ela só pode perceber isso quando, durante uma festa no coreto da cidade, o viu beijando uma mulher. Curiosamente ela não cultivou raiva por ele. Preferiu deixar de lado aquela questão até que aquele gelo se quebrasse entre os dois. Em breve faria aniversário e chegaria aos 18. Por mais que outros meninos tentassem aproximar dela, reagia clara e diretamente:

"Não."

e tão ríspida a resposta que a palavra saía imediata e indiscutivelmente concentrada no "n". Queria aquele amor para ela e, como não conseguia, passeava por uma praia de quinquilharias imagéticas, a imaginar coisas muito surreais. Certa vez a imaginara estirada na areia, inteiramente nua, com as mãos e pés amarrados, batom nos lábios, a esperar que ele abusasse dela ao pegar uma minhoca e tentar inseri-la vulva adentro. A perversão daquela cena sentida por ela como misto de prazer e dor. Imaginava-o fazendo picadinho daquela minhoca, deixando-a agonizante sobre a púbis dourada dela e se divertindo com uma gargalhada insana que faz disparar o sorriso no lugar das lágrimas, da comoção obstinada do objeto amado. O mundo de Alice está povoado de imagens impossíveis, coletadas naquela praia deserta da imaginação, com diversas coisas enterradas pela metade.

Passa a acompanhar mais a mãe nos afazeres domésticos. Escuta dela uma série de reclamações sobre o mundo, de belas recordações sobre o passado, do dia em que se casou com o pai dela e outros saudosismos. Um dia quis mostrar aos pais que tinha seios grandes e quase os encostou no rosto dele. O pai gostou, evidentemente. Chamou sua esposa e, sentado naquela poltrona, em frente da TV, expressou satisfatoriamente o prazer em ter ali perante ele as duas mulheres de sua vida, enquanto apalpava as costas e até os bustos de uma e de outra. A mãe casmurra passou a desenvolver pela filha, uma inveja sem precedentes e por vários momentos chegou a querer expulsá-la de casa. A quantidade de recalques que carregava dentro de si, não podemos precisar. O fato é que ela parece ter aquela vida há anos, talvez desde o nascimento de Alice, há 16 ou 17 anos. Encontra-se só naquela casa, tendo que realizar trabalhos domésticos e servir o marido machista. Ela parecia estar à beira de um ataque de nervos, que muitos chamam de histeria. Em determinada sequência, parece quase surtar, quando percebe que a sua filha reagiu silenciosamente a uma assertiva dela ou, quem sabe, ao perceber que nas roupas de seu marido, havia marcas de batom. As que ela deixava no copo, ele reclamava. As que ele deixa na roupa, ela ressente. A questão é simples, a saída nem tanto. As roupas estão também mais amarrotadas do que de costume. O marido dela, de fato, estava tendo um caso com uma mulher mais nova e muito mal intencionada. Pois é o que justifica o fato dessa mulher ter aceitado um relacionamento desgovernado com um pai de família gordo, de bigode à la Albert Einstein (só o bigode) e careca. Não que estes sejam atributos ruins e até inalcançáveis para alguém como ele ,mas o fato é que o libido dele estava como o daqueles jovenzinhos que queriam experienciar o sexo e somente o sexo. De quem ergue o braço para segurar dinheiro, para investir o desejo. Solo raso, de quem mensura o tamanho do vaso. Alice provavelmente existe por conta de algum acidente no coito. Mais de quinze anos depois e ele continuava com a mesma mentalidade de caçador de ninfas. O pai termina mais tarde descobrindo que a filha saía para encontrar o jovem marceneiro e, irritado pelo que poderia ter acontecido sem o seu consentimento, estreme em fúria, pela primeira vez.
A proíbe de sair de bicicleta a partir de então. Chama-o para mandá-lo embora aos gritos e pontapés. Mas o rapaz havia cumprido moralmente bem o seu papel: acabara de ter um filho com aquela mulher em que beijara na festa e tinha acabado de comprar (ou ganhar) um carro de pequeno porte cor rosa. Em breve, iria se casar. Estava tudo muito definido com a mãe dele que já incorporava a mulher com quem teve o filho na família. Ele precisava apenas passar uma borracha naquele passado. E assim o fez. Terminou o estágio dele naquela casa. Quando volta ao carro, percebe que Alice estava no interior do veículo, a danificar o vidro com fita adesiva. Irrita-se com a presença dela, mas como ela insiste em ficar no carro, segue viagem mal intencionado. No meio do caminho para o carro e pensa no pior dos mundos possíveis para ela se afastar de vez. Alice recua com medo quando vê ele desafivelar o cinto e partir com as mãos grandes de trabalhador em cima do corpo dela. Recua como quem cede. Sai do carro. Ele segue a viagem. Mais tarde eles voltam a se encontrar e aquilo que parecia antes distante, passa a se tornar uma zona recreativa. Eles conversam. Alice quer se tornar amante dele. Ele que antes daquilo tudo nunca pensou numa aproximação, começa a não resistir àquela ante miragem. O amor por Alice passa finalmente a se preencher. Do outro lado do rio, a mulher dele o espera junto à casa da mãe dele e o filho no colo. Num dia excessivamente nítido, Alice recolhia-se no seu reservado quarto escuro, cansada, minutos após a mãe ter batido na porta para avisar qualquer coisa banal. A cortina tremulava no quarto escuro lançando um coral de reflexos da luz sobre o teto.  Ouve-se um estrondo, seguido de um grito. Corre até a janela. Vê à distância, um homem ao chão. A mãe de Alice chega e, desesperada, começa a dizer frases sem sentido, fruto de alguma histeria profunda de alguém que poderia ter morrido no lugar dele e não morreu (seu marido)  ou ainda de um possível relacionamento daquele rapaz com ela (daí a relutância dele, talvez, por Alice). O objeto do amor acaba de rasgar-se em dois. Um final indefinido para um filme cheio de passagens intimistas.

terça-feira, 29 de março de 2016

Da série "O Augusto": 1. In memoriam



"On The Edge Of A Grain Of Sand"
[Zoviet France]

In Memoriam Gilles Deleuze
1996


Um frango se locomove por um corredor comprido e ermo. Suas patas marcham num ritmo alucinado a fragrância de mundos apodrecidos, que mancham e se desmancham todas as vezes que as pressiona contra o chão. É preciso dizer que esse frango mais parece um pinguim na maneira como oscila o corpo lambisgóico de um canto ao outro. Em seu pescoço, junto ao coração, está pendurado um chocalho repleto de fragmentos ruidosos, advindos de possíveis balões infláveis estourados.

Sem tato nem tino, deixa marcas de presença esquiza que grudam intensamente superfícies mais diversas de tecidos afins...até rachar. Despedaça a firme parte das coisas que se ajoelham por razão qualquer perante o frango e arrasta atrás de si o que consegue agarrar, prender.    


Sob as notas foscas de cem feias moscas


Por meio de finos tubos que saem do chocalho, enreda-se no alimento, sulcando-o selvagemente como um verme faria, até a farinha dos ossos. Puxa como quem recorre a um papel higiênico inesgotável e depois solta. Na verdade não inteiramente: divide para as laterais aquilo que muito se esfalfou.
A amorosidade do frango tem seus limites. Por isto deambula pelo corredor, oscilando o corolário do centro caótico de suas pulsões mais imediatas, no bambolear de afetos circulares, intermináveis...

Se a espaço algum consegue afixar-se, que pressupostos afinal carregas, ó prisioneiro de cinzas, se não os da atmosfera da própria insubstancialidade?

--

Diz o lugar a cada hora que assina nas costas de um mudo, ensimesmado num tal momento intransigente e raramente finalizado, por mais que haja o cerne da liberação e o atravessamento alucinado em cada qual se dependura algum corpo na estaca. Balança o cerebelo na órbita pecaminosa dos amores, na circularidade dos apagamentos e faz dançar as bandeirinhas das firulas, que a esta hora, devem esquecer predicados mais tradicionais. Protagonização total.

Reina a impalpabilidade própria das sombras e movimentos  

quinta-feira, 24 de março de 2016

Considerações sextinianas



"Little Big Fish"
[Robin Guthrie]
Carousel
2009



"Limn"
[Deaf Center]
Neon City
2004

"A longa noite da meditação que permite a clareza formal dum objeto dado à luz, ao olhar dos outros."

Se sexta tivesse um rosto, teria a textura da faixa "Limn" de Deaf Center ou o álbum "Carousel" de Robin Guthrie: engarrafamentos, faróis benfazejos sobre o azedo das calçadas, a iluminar o que nada houve, nos dias batidos à martelada, aparafusados à porca de metal. Até certo ponto. No momento em que o foco se estabelece no gogó dos amanheceres, suspensórios passam a erguer uma tal flutuação esfumaçada que chega a ser fora dos trincos. É o momento que muitos têm para saltitar alguma vida fora da cela.

quarta-feira, 9 de março de 2016

In foco





A Parábola dos Cegos
[Pieter Brueghel, o Velho]
1568

Ao sentar naquela diminuta pedra na qual teimo em frequentar nas manhãs claras de sol e luz, terminei esquecendo minha avenida. Vesti-me de surpresa às uma e tantas da madrugada e a inspiração atamanhou tanto que fui frequentá-la outra vez. Exalava uma espécie de ar diferente, mais amplo que de meus pulmões e mais singelo que o dos alvéolos. Voava em mim uma espécie de paz nervosa malquista pelo corpo. Mesmo serpenteando o colorido da mata nas coxas da jibóia indígena, desequilibrei-me. Ou talvez por isto tenha desequilibrado. Não sei. O fato é que minhas mãos estavam gélidas e o corpo fraquejava diante daquela imensidão de permeios. E por mais que desejasse o esquecimento, sentia por dentro uma vontade louca de extravasamento: primeiro na privada e depois no capim do quintal ainda umidecido pela chuva e ao ralentar de um grilo sereno e constante. O corpo reagiu depressa com amargura, tentando o jogo contrário. Mas o jogo era claro: havia uma recusa terminante por aquele modo de vestir tão próximo da natureza. Talvez o que mais desejasse naquele instante fosse puxar o tapete daquilo tudo, sob a casca fosca da indiferenciação. E é nesta curvatura do pensamento que o nó que me fez aqui escrever estas linhas, como se tentasse desfazê-lo pela simplicidade de cada frase, pela evocação de cada imagem acastelada. No entanto, o nó ainda está aqui, se não nestas linhas, no ímpeto que as fez querer escrever e pontuar, dando sentido ao que me fez tremer silenciosamente por dentro enquanto sentia aquele formigamento nas mãos, aquele vômito não planejado que me fazia viver a vida dos órgãos e a vida dos homens agarrados às artificialidades das lâmpadas...

Em suma, cedi o passo na maior pêia e depois dormi. Sonhei firme a voz que me acompanha nos momentos de apagamento,mas também nos de envergadura própria. Numa caixinha toda de porcelana, sonhei como Sancho ao fiel escudeiro, como a cadeira à fiel mesa, tal qual girasse uma dança melancólica nos gestos delicados e há muito sancionados por algumas engrenagens que faziam equilibrar, sem jamais precisar apoiar-se ao chão.

Começo bem o dia até perceber que me faltavam os óculos no rosto. Procurei-os debaixo da cama, em cima do móveis, dentro dos bolsos e atrás das louças e das quinquilharias. Cinco minutos e nada. Quinze minutos e nada. Uma hora e...nada. Com a mente ocupada por aquilo, fui despedindo da vida: "pode deixar que o Fábio vai me ajudar a encontrar", quando o assunto era "fique bem e até mais". Depois de um certo tempo, aquela obsessão cansou. Segui adiante com a necessária viagem, enxergando meio pela metade. O dia passou, passou e aí que percebi que não era para ser assim, num quase pôr-de-sol de um domingo nublado. Foi quando voltei à noite, com planos de viajar logo pela manhã de segunda. E cruzando a porteira, em meio à escuridão envolvente daquele céu povoado de estrelas, percebi que junto àquela pedra amiga, havia uma armação e que nas lentes refletia o clarão da lâmpada que iluminava o exterior da casa. Por segundos olhei admirado aquele óculos fugidio e rapidamente tasquei-o no rosto, sorrindo. Cheguei a sentir uma espécie de embaçamento nas lentes. Fui então espalhar para o mundo aquela surpresa revestida de mistério. "E quem disse que estamos sozinhos?", disse meu vizinho com os olhos arregalados.

Agora, sentado numa cadeira, percebo uma incongruência familiar que faz adiar planos, repetir hábitos e bradar dores. Afinal, por que uma porta fechada se a casa é a mesma, ainda que com disposições e brios distintos? Deixo os óculos no canto outra vez. Desfoque. Refrear a definição por alguns minutos é também sinal de lucidez.

Listinha:
No1: Pôr as desculpas de molho.
No2: Esfregar as costas do silêncio.
No3: Deixar quatro segundos em paz.
No4: Inteireza das emoções como sinônimo de clareza.
No.4.1: Inteireza, o oposto da razão.
No5: Se a atuação lhe confere um charme, alerde-se.

No mais, toda a sinceridade é pouca.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Oco imundo

 
               Elle  - 1905
[ Gustav Adolf Mossa]  


Ballet Orfeu 6. Eurídice
[Pierre Henry]
Coreografia - Maurice Béjart
Voz - Alain Cuny 
1960



para quem a rainha quer morre
para quem quer a rainha 
morre a quem quer e
a quem morre, a rainha quer
a quem quer e morre


a rainha  
apartada_

 -  
.a carne malemolente pungindo depressa
na curvatura das abóbadas
caídas
(ainda que férteis em limo)
e qualquer coisa de húmus  
acumulado
entregue aos dedos e à lama
de um sei lá quê
segurando
apertando
disfarçando um calor
à troco d'um fluir que logo chega
melancólico-esbranquiçado.

a perda em lata.
_
cospe-

paralisando o singelo
o tempo das cegonhas
a verdade das laranjas

bloqueia. dá tônus ao ego
umidifica um sonho
na curvatura de uma corda 
bem apertada

ventre furta cor
lugar bem específico
de lugar algum
de ninguém. nada. e nenhum.

dá o tônus do enviuvecer
nas manhãs perdidas do encardecer
nas manhãs devoradas do ensandecer
nos sadismos feridos
em chocolate dor



e sem fundo e mosca.
  

O pleno chão, vazio de durezas
decaídos
desgovernados
embebidos de um instante alucinado
em china seco


palafita
remoções
despedidas 


daquilo que quiçá foi um nome

 antes adereço
mania decalcada
boquirrota

(apesar do que se vê
em olho nu
deliciosamente nu:


remordido 
tantálicas vão-se as
cores sem primaveras
som sem silêncio
os vermelhos desamores

crepúsculos de folhas
securas roedoras