domingo, 11 de setembro de 2016

Alienada

                  Valencia [Henri Cartier Bresson] - 1933


Mesa de bar, na calada da noite. Alguém suspira próximo da parede. Tem uma das mãos segurando a cabeça, como se enguiçada estivesse. Do outro lado do cômodo, a tevê ligada noticiava o mesmo canal de sempre, num looping acabrunhante que resseca qualquer lágrima necessária.


— basta que sejamos todos mal-amados.
 — o que faz para banir a história da sua vida?
 — isso já não será uma preocupação minha.
 — estava pensando em uma criatura humana…
 — morro sem deixar descendentes.
 — é um convite?
 — foi só para se esclarecer. achei que não viria a ser o caso.

Montava assim diálogos em frases coletadas. Às vezes sobrevoava ditos populares,como em Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Era o que queria ler, naquele momento. Mas sentia que, no fundo, lia como quem confere só e ferida, no ferro. E pasma ficava em ter inventado algo tolo.
Quis pedir um doce no balcão e o único que conseguiu comprar foi uma mar-me-la-da, bem soletrada. Assim compunha o vazio que lhe sobrava.

                                               …

 A anônima estranhamente se reconhecia pelas mãos vazias.
  

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um cigarro, me faz favor?


"Processing Unit"
[Jóhann Jóhannsson]
IBM 1401, A User’s Manual
2006


Foi durante o almoço que percebi. Havia passado meses longe de casa e nas vezes em que aparecia, nunca me dava conta. Ele me olhava de frente e sempre com algo mastigado na boca para dizer. Na maior parte das vezes sobre a vida que eu levava.

- Está chovendo estes dias por lá? — enquanto desferia com a colher um corte sobre o inhame.

Geralmente eu desvencilhava com alguma resposta curta ou sorriso tímido. Entre uma mastigada e outra, as bochechas afrouxavam a musculatura do rosto magro, o que, por sua vez, impunha dignidade ao cabelo ralo nas laterais. Não se via muito dos dentes por conta dos lábios curtos enrugarem qualquer coisa de ameixa, qualquer coisa de melaço bem chupado. Pois bem, lá estava ele a cortar o inhame com aquela colher de metal, com olhos bovinos à frente. A parte dura do inhame como garantia de um cotidiano possível, bastando um empurrãozinho com o polegar e o indicador para baixo.

O fato é que enquanto pousava a mão esquerda na mesa, ele não a pousava inteiramente...

 — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — —

 — Nem dá pra sentir o gosto da folha — ouvi a voz feminina comentar, seguido de um riso nervoso. 

Raspava o fundo do prato com a colher, no quarto ao lado. 
 
No banheiro, a torneira gotejando.
 — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — —

 Ele havia adormecido minutos atrás com o braço debaixo do travesseiro. Mas se algum barulho escorregasse para debaixo dos pés, era inevitável o suspiro quase tão vago quanto o mundo lá fora:

- Bem, está por aí?

 E lá escapulia o tempo outra vez.

 — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — —

 Sentado na pedra à beira-mar, não conseguindo fixar a atenção no horizonte, presta a falar:

 — Quando voltará para casa?
 — Quarta. Caso contrário, quinta.
 — E como estão as aranhas lá?
 — Não estão. Você cisma que lá tem aranhas!

 Deixa aberto aquele sorriso que até os olhos frisa. A mesma coisa quando assiste a um filme que o comove; não à toa gostasse dos filmes baseados em fatos reais. Só nestes tipos consegue apontar com os dedos a imaginação e encantar a memória das lutas garrafais. Daí o desgosto pelos desarranjos, sejam eles intestinais ou cerebrais. Com o entorpecimento do corpo ou um braço sobre a cabeça arma a resistência numa desistência muito particular: bastam dez minutos e logo se sabia que não ia bem das pernas.  
Como precisava se agarrar a algo para enfrentar as contradições, absorvia muito depressa. Basta que alguém coloque caraminholas na sua cabeça sobre alguma enfermidade que sentia ou desejava sentir naquele momento, para imediatamente esbranquiçar a boca e fragilizar os movimentos vitais. Criatura em flor, de barro.

 — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — -

 Nas madrugadas insones, liga a tv, dando início a algum encaixe perfeito. Com os braços esticados, monta e desmonta o mecanismo das máquinas multiprocessadoras, não sem antes empurrar com alguma força até o derradeiro ‘clic’. Caso não funcionasse, encaixa aquele seu óculos de metalúrgico a fim de deitá-la sobre seus pés. Em casos extremos às séries de incursões acidentais, mordia a extremidade das hastes, tal qual os homens maduros em plena reflexão. Só o relógio na parede parecia lhe roubar a lucidez daqueles momentos tão intensos e ao mesmo tempo tão banais. Tudo que precisava fazer era pôr em circuito o tráfego daquela energia e deixar o tempo conduzir as braçadas de seus amanhãs.

 — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — —

 Naquele dia todos que estavam em casa passaram mal. Quiçá tivéssemos comido algo estragado naquela sopa de legumes. Ele mais uma vez com o braço pendido sobre a cabeça, com o olhar fragilizado e os chinelos a arrastar sobre o chão. Alegava também estar tonto o suficiente para que pudesse ficar deitado. Eis a última coisa que gostava de fazer. Mesmo deitado precisava de algum jeito dar utilidade àquelas mãos calejadas e graúdas, algo que pudesse fazê-lo acreditar no divino das essências, na metafísica das existências, no culhão das metonímias, sem abandonar evidentamente a parte judicativa. Talvez por isso fornicasse nos leites condensados, nos doces de leite, nos doces sobre doces do chocolate caramelizado. E assim sendo concretizava aquilo que o mundo há muito furta.

 — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — -

 Naquele dia, ele precisava conter a mão esquerda. Do mesmo modo precisava conter algumas dúzias de minutos durante o uso dos mictórios e, principalmente, conter as tonturas desavisadas. Porque precisava trabalhar. Porque não tendo a quem confiar senão a uma pessoa, acreditava no futuro. A relação que podia traçar entre suas verdades românticas, alheias à facebook e ao sistema de moda, tinha o tamanho da curvatura de seu coração nas palmas das mãos. E com tanto afinco que dificulta aquilo que meus olhos contam, como se a luta apenas estivesse começando.

sábado, 23 de julho de 2016

Alguma coisa




"O vazio é um lençol branco", disse. Ela, sem querer acreditar, virou as costas e permaneceu naquele silêncio tão seu. Mais adiante o sol nascia no horizonte com uma clareza que não parecia terrena.
"Talvez a angústia", ela me disse e saiu de cena.

-

A cegonha do amor pode aproximar-se,mas não chega. Pousa no peitoril à espera de um humor que possa salvar. Permanece batendo com o polegar no lábio, sem muito alento. Se reclama das dores do parto, é para dizer que há muito silêncio embrulhado para presente e  os ruídos estão por toda a parte. 

-

Camada pós camada, doura a superfície lisa e quase escorregadia daquele rosto tão desavisado de tudo. Abertos os olhos, o maxilar afrouxa, permitindo o balbuciar de um som rápido e rasteiro, algo em torno de uma dúvida ou de um comentário ingênuo e nem sempre ouvido. Reclama da vida como quem arqueja alguma miséria naquele virar de cabeça. Acusa o trabalho, a dor no pé direito, o mal-estar da azia, só para dizer que o nada importa e que não gosta de arriscar.

 -

Estala o torcicolo pelos dedos que se querem curvos sobre pilhas e mais pilhas de papéis amassados. Instila abertamente uma vontade de se rir daquele mundo, pelo exato desperdício da vida a mostrar o excesso, de modo tão inútil. Como quem referenda um certo desinteresse pelo amanhã, fumega uma velha canção carcomida de indecisões ribeirinhas. Sem querer afirmar o sonho das montanhas em cor, caminha sem se importar a coisa alguma que não seja da ordem de dois sóis.

-

de que adianta o sumidouro, se o desejo não for fome e tesão?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

castelo de cartas



Prelúdio para quarteto de cordas
[Toshiro Mayuzumi]
1967
Interpretação: La Salle Quartet



"Não", disse.

E do silêncio fez-se ouvir uma respiração demorada e pouco nítida. Diante de si, um rio passava escorrendo pelas pedras. Ele media o movimento de seus desejos no fundo da retina, pulsando um meio-lá-meio-cá que mais parecia nervura sobressaltada. À meio caminho, entre a indecisão e a possibilidade, sopesava os sentimentos com a força das impressões ainda tão frescas. Fora surpreendido com a resposta vinda daquela boca que um dia tantas promessas de amanhã lhe trouxe.

Segurou nos punhos a areia que o mar deixara secar e, distante das ostras e algas marinhas, assentiu, senão com alguma ressalva. Para ele, aquilo não passava de uma pretensão ressequida, cuja privação lhe obsedava.

Absorvia nele um desejo de barro fofo, repleto de raízes claras ziguezagueantes, no qual pudesse despir as cenas da cabeça em volúpias táteis de presenças e caminhos. "Contato sem contrato", dizia erguendo os olhos. Plainava sobre o solo agreste do agora, sem sombra de possibilidade. A partir de agora não poderia mais afogar aquelas delicadezas de vez em quando, na espera pelo silêncio dos amanheceres. Estava decidido. "Não", a palavra calcada em cinza, amortecida pelo entendimento. Finalmente ela pregava o xeque-mate, pondo fim àqueles carteados.



                            Phototheque imaginaire de Shuji.Terayama: les gens de la famille Chien Dieu
                                               [Shûji Terayama]


Macabro o corpo que pula sobre os passos do outro, se fazendo de obstáculo, entrave ou garra.
Que faz do punhado de imagens estilhaçadas, os espaços órfãos e reclusos da existência,
uma redoma de vidro cortante no qual o coração, sem marcapasso, bate, bate, bate em um passado só e bem socado.

domingo, 19 de junho de 2016

Da série "O Augusto": 2. Mosca na sopa



Unintended Piano Music
[Cornelius Cardew]
Works 1960–70

Intérpretes: 
John Tilbury piano
Michael Duch contrabaixo
Rhodri Davies harpa



 "Uma secreta luz cúmplice da obscura região de omissões e espaços brancos em que o dia a dia consiste"
Viriato Soromenho Marques in: As rotas do amor: Notas de leitura dos Fragmentos de um discurso amoroso. p. 305.


A melancolia lhe desce pelo pâncreas até as pupilas. Intumesce a secura de algum volume labial com a sólida amargura da solidão. E quando se cristaliza em vaidade, vira insumo estomacal, pelo qual anoitece dias na virulência dos abutres. Redondo como o mundo. Redondo, ordinário. Cadafalso moído e, por vezes, remoído.

----

Vitupera o glúteo com as mãos nas carnes das ave-marias e nas centenas de pais nossos. Cai mordido pela bênção do prazer inviolável , deixando escorrer tão assim o leite derramado pela pele do amanhecer, sob a promessa de que possa varrer tão logo desejar. 
Isso a que atribui o nome de vida: um papel de bala sendo carregado pelo vento. 

----

Na beira da calçada, um assobio. Cercado por ambos os lados, alguém proclama a liberdade em bom tom. Ecoa longínquo o som para as profundezas do anonimato. Quem seria?

Não havia ninguém pelos arredores àquela hora do dia, além daquelas vestes de amianto que nudez não conseguia deslocar.

---


Um chamado. O ar espremido sai da boca queimada pelo sol, em caminhos que até a curvadura dos dedos duvidaria.
Como se não bastasse o sopro, gesticula o mesmo sentido: leste para oeste. 

Machista que dói.

---

Se por um acaso dissesse à sua pequena filha com os olhos do silêncio, deixaria de sair atrás do que bem machucasse. Mas o mar é vigoroso e faz das luvas garras cabeludas.

---

Os rolos de papel sempre estão à sua direita, plenamente encaixados aos abraços e beijos. Como se dissesse, com deboche: "o quê? a perda é humana? deixa eu ver.", com o sorriso preto na boca, a gargalhar.

 ---

Amacia a fala ao dizer coisa ilustre. Cruza a saliva ao apontar a titulação, os números de páginas, como se aquilo fosse o suficiente para a nobreza de espírito. Um pensamento que só faz  enfeitar pelo instrumento de poder e segregação. Imitação sem forma, ideia sem desenho.

--

A quem o espera pelo tempo, morre na praia com os seios descobertos e o corpo retalhado em pedaços de luxúria. Choderlos de Laclos + Thénardier + Colin Evans. Circula o desejo, numa espécie de escambo estoicista. Faz preencher as faltas e repõe as falas (ainda que de maneira cronometrada).

Linhas estáveis, formas desossadas: um estereótipo deambulante.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Tremeluzir



Misterio del hombre solo
[Luis Campodónico]           
1961


Recomendação:
3
[Jocelyn Robert]
Cycloïdes
2013


No barco, de volta para casa, Ignácio depositava os resquícios da atenção no lado de fora da janela. Aquelas miniaturas em movimento a pleno breu pareciam à sua sensibilidade um afrodisíaco. Impressionavam como deixavam de ser a cada instante que olhava, dando a impressão de que eram um todo infinito, um brinquedo intocável que fazia vibrar os átomos de sua pele.
 Um avião sobrevoava a embarcação com um estrondo de fazer silenciar os mais cruéis monólogos.






sábado, 4 de junho de 2016

Fremer passado



Still life para violoncelo e fita magnética
[İlhan Mimaroğlu]
 Álbum: Musiques noires - Finnadar Records - 1983 
Intérprete: Charles McCracken.

Aquela parede canta. Na primeira vez que a assisti foi nos anos 90. Tinha o aspecto de um beco sem saída. Um exaustor industrial parecia compor o miolo daquilo tudo. Poderia ser uma usina. Poderia ser um depósito. Tudo devidamente pavimentado e enxugado. Árvore ali, só se fosse espremida, como aquela amendoeira a mostrar galhos de folhas amarelas e ressequidas. À sombra dos muros, sempre à sombra dos muros. Era a forma que a natureza encontrava para continuar respirando à dura pena.

Naquela época costumava usar o espaço gigante do estacionamento para soltar pipa com meu pai, aproveitando que aos domingos não havia carro algum por ali. Quer dizer, talvez existisse um ou outro, mas nada que impedisse de bater minhas sandálias sobre aquele solo comprimido. "Supermercado Três Poderes", era o que lia quando erguia a cabeça para cima. Encostado ao nome, gravetos indicavam o corpo de um boneco, com uma  cabeça que imitava o globo terrestre. O charme dos pés cruzados era o que mais gostava. Pode-se dizer que havia uma certa ironia, naquele charme...

Mas o fato é que aquela parede lá dos fundos cantava! E era agridoce o seu canto, não pela parede em si, mas por compor aquele emaranhado único de resquícios que davam saudade. À frente, uma pequena ponte de concreto conectava aquele espaço a uma região residencial. Sim, pois há um córrego onde o esgoto é despejado logo ali, onde tantas vezes me dispersei nas ondas frívolas...

Uma pintada grade de ferro bloqueia a passagem quando o mercado está fechado. Desnecessária, pois na falta daquela pontezinha, basta caminhar dez minutos a mais para se chegar ao mesmo lugar. Sabe-se lá o quanto as ruas sem saída servem a um morador antigo....   

Vinte anos depois, as cores retomavam àquela parede. Trazem as cores da grade de ferro e nenhuma amendoeira. Finalmente a apagaram com o mata-borrão. Dormirá sobre o solo oco até o dia em que, por si só e esquecida, redescobrirá o caminho da luz, num novo canto redobrado pelo farfalhar.

terça-feira, 29 de março de 2016

Da série "O Augusto": 1. In memoriam



"On The Edge Of A Grain Of Sand"
[Zoviet France]

In Memoriam Gilles Deleuze
1996


Um frango se locomove por um corredor comprido e ermo. Suas patas marcham num ritmo alucinado a fragrância de mundos apodrecidos, que mancham e se desmancham todas as vezes que as pressiona contra o chão. É preciso dizer que esse frango mais parece um pinguim na maneira como oscila o corpo lambisgóico de um canto ao outro. Em seu pescoço, junto ao coração, está pendurado um chocalho repleto de fragmentos ruidosos, advindos de possíveis balões infláveis estourados.

Sem tato nem tino, deixa marcas de presença esquiza que grudam intensamente superfícies mais diversas de tecidos afins...até rachar. Despedaça a firme parte das coisas que se ajoelham por razão qualquer perante o frango e arrasta atrás de si o que consegue agarrar, prender.    


Sob as notas foscas de cem feias moscas


Por meio de finos tubos que saem do chocalho, enreda-se no alimento, sulcando-o selvagemente como um verme faria, até a farinha dos ossos. Puxa como quem recorre a um papel higiênico inesgotável e depois solta. Na verdade não inteiramente: divide para as laterais aquilo que muito se esfalfou.
A amorosidade do frango tem seus limites. Por isto deambula pelo corredor, oscilando o corolário do centro caótico de suas pulsões mais imediatas, no bambolear de afetos circulares, intermináveis...

Se a espaço algum consegue afixar-se, que pressupostos afinal carregas, ó prisioneiro de cinzas, se não os da atmosfera da própria insubstancialidade?

--

Diz o lugar a cada hora que assina nas costas de um mudo, ensimesmado num tal momento intransigente e raramente finalizado, por mais que haja o cerne da liberação e o atravessamento alucinado em cada qual se dependura algum corpo na estaca. Balança o cerebelo na órbita pecaminosa dos amores, na circularidade dos apagamentos e faz dançar as bandeirinhas das firulas, que a esta hora, devem esquecer predicados mais tradicionais. Protagonização total.

Reina a impalpabilidade própria das sombras e movimentos  

quinta-feira, 24 de março de 2016

Considerações sextinianas



"Little Big Fish"
[Robin Guthrie]
Carousel
2009



"Limn"
[Deaf Center]
Neon City
2004

"A longa noite da meditação que permite a clareza formal dum objeto dado à luz, ao olhar dos outros."

Se sexta tivesse um rosto, teria a textura da faixa "Limn" de Deaf Center ou o álbum "Carousel" de Robin Guthrie: engarrafamentos, faróis benfazejos sobre o azedo das calçadas, a iluminar o que nada houve, nos dias batidos à martelada, aparafusados à porca de metal. Até certo ponto. No momento em que o foco se estabelece no gogó dos amanheceres, suspensórios passam a erguer uma tal flutuação esfumaçada que chega a ser fora dos trincos. É o momento que muitos têm para saltitar alguma vida fora da cela.

quarta-feira, 9 de março de 2016

In foco





A Parábola dos Cegos
[Pieter Brueghel, o Velho]
1568

Ao sentar naquela diminuta pedra na qual teimo em frequentar nas manhãs claras de sol e luz, terminei esquecendo minha avenida. Vesti-me de surpresa às uma e tantas da madrugada e a inspiração atamanhou tanto que fui frequentá-la outra vez. Exalava uma espécie de ar diferente, mais amplo que de meus pulmões e mais singelo que o dos alvéolos. Voava em mim uma espécie de paz nervosa malquista pelo corpo. Mesmo serpenteando o colorido da mata nas coxas da jibóia indígena, desequilibrei-me. Ou talvez por isto tenha desequilibrado. Não sei. O fato é que minhas mãos estavam gélidas e o corpo fraquejava diante daquela imensidão de permeios. E por mais que desejasse o esquecimento, sentia por dentro uma vontade louca de extravasamento: primeiro na privada e depois no capim do quintal ainda umidecido pela chuva e ao ralentar de um grilo sereno e constante. O corpo reagiu depressa com amargura, tentando o jogo contrário. Mas o jogo era claro: havia uma recusa terminante por aquele modo de vestir tão próximo da natureza. Talvez o que mais desejasse naquele instante fosse puxar o tapete daquilo tudo, sob a casca fosca da indiferenciação. E é nesta curvatura do pensamento que o nó que me fez aqui escrever estas linhas, como se tentasse desfazê-lo pela simplicidade de cada frase, pela evocação de cada imagem acastelada. No entanto, o nó ainda está aqui, se não nestas linhas, no ímpeto que as fez querer escrever e pontuar, dando sentido ao que me fez tremer silenciosamente por dentro enquanto sentia aquele formigamento nas mãos, aquele vômito não planejado que me fazia viver a vida dos órgãos e a vida dos homens agarrados às artificialidades das lâmpadas...

Em suma, cedi o passo na maior pêia e depois dormi. Sonhei firme a voz que me acompanha nos momentos de apagamento,mas também nos de envergadura própria. Numa caixinha toda de porcelana, sonhei como Sancho ao fiel escudeiro, como a cadeira à fiel mesa, tal qual girasse uma dança melancólica nos gestos delicados e há muito sancionados por algumas engrenagens que faziam equilibrar, sem jamais precisar apoiar-se ao chão.

Começo bem o dia até perceber que me faltavam os óculos no rosto. Procurei-os debaixo da cama, em cima do móveis, dentro dos bolsos e atrás das louças e das quinquilharias. Cinco minutos e nada. Quinze minutos e nada. Uma hora e...nada. Com a mente ocupada por aquilo, fui despedindo da vida: "pode deixar que o Fábio vai me ajudar a encontrar", quando o assunto era "fique bem e até mais". Depois de um certo tempo, aquela obsessão cansou. Segui adiante com a necessária viagem, enxergando meio pela metade. O dia passou, passou e aí que percebi que não era para ser assim, num quase pôr-de-sol de um domingo nublado. Foi quando voltei à noite, com planos de viajar logo pela manhã de segunda. E cruzando a porteira, em meio à escuridão envolvente daquele céu povoado de estrelas, percebi que junto àquela pedra amiga, havia uma armação e que nas lentes refletia o clarão da lâmpada que iluminava o exterior da casa. Por segundos olhei admirado aquele óculos fugidio e rapidamente tasquei-o no rosto, sorrindo. Cheguei a sentir uma espécie de embaçamento nas lentes. Fui então espalhar para o mundo aquela surpresa revestida de mistério. "E quem disse que estamos sozinhos?", disse meu vizinho com os olhos arregalados.

Agora, sentado numa cadeira, percebo uma incongruência familiar que faz adiar planos, repetir hábitos e bradar dores. Afinal, por que uma porta fechada se a casa é a mesma, ainda que com disposições e brios distintos? Deixo os óculos no canto outra vez. Desfoque. Refrear a definição por alguns minutos é também sinal de lucidez.

Listinha:
No1: Pôr as desculpas de molho.
No2: Esfregar as costas do silêncio.
No3: Deixar quatro segundos em paz.
No4: Inteireza das emoções como sinônimo de clareza.
No.4.1: Inteireza, o oposto da razão.
No5: Se a atuação lhe confere um charme, alerde-se.

No mais, toda a sinceridade é pouca.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Oco imundo

 
               Elle  - 1905
[ Gustav Adolf Mossa]  


Ballet Orfeu 6. Eurídice
[Pierre Henry]
Coreografia - Maurice Béjart
Voz - Alain Cuny 
1960



para quem a rainha quer morre
para quem quer a rainha 
morre a quem quer e
a quem morre, a rainha quer
a quem quer e morre


a rainha  
apartada_

 -  
.a carne malemolente pungindo depressa
na curvatura das abóbadas
caídas
(ainda que férteis em limo)
e qualquer coisa de húmus  
acumulado
entregue aos dedos e à lama
de um sei lá quê
segurando
apertando
disfarçando um calor
à troco d'um fluir que logo chega
melancólico-esbranquiçado.

a perda em lata.
_
cospe-

paralisando o singelo
o tempo das cegonhas
a verdade das laranjas

bloqueia. dá tônus ao ego
umidifica um sonho
na curvatura de uma corda 
bem apertada

ventre furta cor
lugar bem específico
de lugar algum
de ninguém. nada. e nenhum.

dá o tônus do enviuvecer
nas manhãs perdidas do encardecer
nas manhãs devoradas do ensandecer
nos sadismos feridos
em chocolate dor



e sem fundo e mosca.
  

O pleno chão, vazio de durezas
decaídos
desgovernados
embebidos de um instante alucinado
em china seco


palafita
remoções
despedidas 


daquilo que quiçá foi um nome

 antes adereço
mania decalcada
boquirrota

(apesar do que se vê
em olho nu
deliciosamente nu:


remordido 
tantálicas vão-se as
cores sem primaveras
som sem silêncio
os vermelhos desamores

crepúsculos de folhas
securas roedoras