quarta-feira, 30 de março de 2016

Da série "À provação da luz": "Uma adolescente de verdade"


"O moralista esconde-se por detrás das apetitosas doçuras."


O trem se aproxima pouco a pouco da estação. Freme a locomotiva numa doçura que beira a O trenzinho caipira do Villa-Lobos. Não há absolutamente nada de perverso naquelas engrenagens, nada de Pacific 231. No local de um trem, poderia ser uma carruagem, a sacudir seus passageiros por conta das pedras e irregularidades do trajeto. A ruralidade dali, portanto, estava naquele quinhão de verde nos arredores, naquela minudência de gestos e emoções, típicas dos viventes em cidades pequenas. De fato, o tédio governava os sentimentos da jovem menina que estava sentada no banco, frente à janela. A mão no queixo revelava o que estava por vir: aquela mistura de timidez e desânimo de dálmata posto de castigo, a filtrar o que não poderia mudar na síntese daqueles adultos que sentam-se à sua frente, tão indefesos quanto seguros de si. A mulher gorda ora a roncar ora a perscrutar por debaixo de cada pestana algum falso movimento que saia do seu gonzo. Tortura para a jovem menina que ali enxerga entidades daquele local mesmíssimo, cujas leis da hierarquia prevaleciam. Na estação vazia, um adulto lhe espera, próximo ao carro. Se há abraço entre uma chegada e uma partida, pouco se pode afirmar. O fato é que o homem mais velho com os bigodes sobressalentes carrega a bagagem com a mesma atitude parcimoniosa que a da mulher sentada no trem. A viagem prossegue na mesma bonomia, apenas interrompida pela imaginação sensitiva da jovem, que finge escutar a música de seu desejo no rádio do carro. Cantarola, cantarola, cantarola o coração, enquanto o vento lhe cobre o rosto, numa suposta promessa de liberdade. As árvores altas cercam a estrada. A natureza exuberante mostra-se generosa, numa bela antítese aquele silêncio tão seco e áspero no interior do veículo. O homem de bigodes brancos e olhar sério faz uma pergunta meio cretina sobre a vontade dela em estar ali, repetindo aquele ciclo novamente. Nisto vem um segundo fator: os contornos da roupa dela ficam em latente evidência. De certo, algo está mudando. Ela aprende a silenciar com ele e segue cantarolando numa espécie de quase charme. O carro chega então, tal qual o trem chegou à pouco, numa determinada região onde à distância um casal espera. O casal imóvel, mais parece um cartão postal, uma foto há muito tirada e afixada na parede. Há um certo ar de lar ali, na presença do cachorro que não teima a pular, animado, na janela do carro onde ela se encontra.  O carro parte. Ela segue com a bagagem em mãos até ocupar todo o quadro. Num determinado momento, parece que ela adentrou a fotografia. Ela vai até eles e os beija. Pai e mãe, por fim, que mais parecem tios ou qualquer pais adotivos. Beija-os no rosto. A mãe, petrificada. O pai, orgulhoso. Certamente Alice sente-se órfã ali, naquela terra, aparentemente sem passado.

No interior da casa, paredes rachadas e cores abandonadas dividem espaço bizarramente com fotografia de atrizes e quase pin-ups, além de moscas varejeiras, tal qual houvesse algum cadáver ali em algum lugar. Sentam-se. Uma pergunta é solta no ar e faz lembrar aquela feita anteriormente pelo velho de bigodes brancos. O silêncio pavoroso entre eles faz com que a presença das moscas aumente, o que significa uma espécie de sensação de ostracismo e fantasia. O resultado disto são os traços fixos nos gestos de cada um a ingerir e deglutir o café vespertino, com uma espécie de perversidade e sensualidade típicas de um Bataille. O revoar das moscas, muitas agrilhoadas em alguma superfície melada, numa espécie de antessala que antecede os cômodos da casa, zona para  atravessamento de fronteiras. Eles bebericam e mastigam o prazer, de maneira ávida, como se em direção ao gozo. Primeiro ela, depois o pai e por último a mãe. O pai abocanhando a maior parte, a mãe beliscando e ela experimentando. O trio assim feito. Satisfeito o desejo, Alice põe-se a brincar com a colher entre os dedos. Agita-a até que cai sobre o chão. Por um segundo se pensa que o pai logo irá a seu encontro, mas ela age primeiro e, aproveitando a desatenção deles, faz correr a colher pela superfície de sua própria carne, ao centro onde orbita sua genitália, o núcleo do prazer alvoroçado. Colher não dói. Colherada em busca da satisfação que não vem. E ela dura pouco, para não causar suspeitas. A mãe atrás, como se pertencesse à mise-en-scène da casa, comunica então que a bagagem foi posta no quarto. Levanta-se e vai beijar de novo os rostos parentais. Mais uma vez o pai portando-se como um conquistador ao estilo de Larry Laffer e a mãe, um cadáver egípcio. Talvez aquele pedaço de fotografia não passasse de um velho hotel na beira da estrada. Alice segue ao quarto, tateando as paredes embolotadas, pela escuridão do corredor. Chegado lá, fecha a porta, sua garantia. Moscas sobrevoam o silêncio sepulcral daquele quarto, espécie de dispensa, onde se vê diversas quinquilharias sobre um azul desabrido (a mesma cor da blusa). Mas a precariedade daquele todo, incluindo um provável odor de mofo, típico das casas velhas e esquecidas, não é páreo à porta fechada (ainda que estivesse apenas encostada). Atira-se na cama com intenções sacrílegas e começa a se bulinar avidamente, por debaixo da saia. Na parede, há uma espécie de crucifixo de cor preta, tal qual fosse um objeto de decoração pre-histórico. Deitada sobre a cama, os dedos bulinando por debaixo da pequena saia, com sofreguidão. A cama velha, tem uma espécie de forro ou coberta vermelha, tão desbotada quanto empoeirada. O embate subversivo de Alice por uma história diferente daquela tem o seu preço. Entorpecida pelo prazer daquele lugar nauseabundo, Alice vomita sobre a blusa. A textura do vômito mais parece a das fezes. Cessa o movimento e fica estatelada com aquela cena pra lá de batailliana. Levanta e vai em direção à escrivaninha, direto para seu caderno de folhas brancas, depositado possivelmente desde a última vez que esteve ali. A caneta azul o acompanha, como se fosse um kit de sobrevivência. Com a blusa ainda suja, põe-se a segurar a caneta com a mesma mão que serviu para limpar a boca ainda suja nas bordas, e escreve. Escreve suas memórias travestidas de sonhos vorazes. Contou sobre os dias em que sem ter o que fazer deitaria sobre o varal com roupas estendidas de sua mãe, a fim de tomar um banho de sol e que, de tanto não ter o que fazer, adotaria o sutiã e calcinha como trajes oficiais.

Seu pai gabava-se do quão formosa aquela menininha estava, de que ela teria vindo tão somente do sêmen dele. A mãe, por sua vez, tripudiava o comportamento de Alice, talvez por ciúme do pai, com que apenas relacionava-se para receber críticas sobre os copos mal lavados, com as marcas de batom ainda visíveis. Certa vez, enquanto tomavam sopa com o homem de bigodes brancos (que mais parecia ser pai dele), anunciou que iria dispensá-lo dos trabalhos no campo. O homem, com aquelas olheiras fatigadas, não reagiu em absoluto, ainda que estivesse ofendido. Retirou-se. E no lugar dele, o pai requisitou o trabalho de um jovem trabalhador braçal de uma madeireira. Quando esteve no pequeno escritório do pai, que ficava no fundo da casa, esbarrou com Alice, ainda de sutiã e calcinha. O pai foi orgulhoso apresentar a filha. Era o encaixe que ela precisava ao ver aquele homem de lábios carnudos e de regata branca colada ao corpo. Havia entrado ali por não ter o que fazer e encontrara a companhia certa para os dias de tédio. Os olhos subiram e desceram como quem perscruta por algo mais íntimo. Ele captou aquele movimento e ficou calado. Poucos dias depois recebe de seu pai uma bicicleta azul de presente. O presente ideal para quem muito almejava descobrir onde o jovem trabalhava. E logo após recebê-la, sai pedalando até lá. Aproveita a liberdade daqueles movimentos maquinais para atrever-se mais um pouco. Retira a roupa íntima e segue por fim a viagem pelas estradas pavimentadas, porém vazias. Sem saber imita as fotografias de Hans Bellmer inspiradas no "História do Olho". Ela chega, possivelmente, na única madeireira da região e encontra o rapaz, sobre toras de madeira. Antes de estacionar a bicicleta, a forma como sentou no selim, deve ter chamado a atenção dos homens que ali estavam, que param de trabalhar para virarem lobos. Como quem quer nada com nada, fica inspecionando o trabalho dos homens, em sua maioria pessoas mais velhas. O único jovem ali é ele. Ele a olha por alguns segundos, mas não reage. Alice o segue por horas a fio. E os dois se comunicam com trocas de olhares. Nem as madeiras empilhadas conseguem barrar aquele movimento. No entanto, nada acontece. Ela desiste e volta pra casa, antes de escurecer (quando chega à madeireira, eram aproximadamente 4:30 horas da tarde - o sol refletia meio atravessado o ambiente). Ao chegar em casa, encontra o pai vendo televisão (de fato, são os únicos locais possíveis para ele, naquela casa: a mesa da cozinha e a TV). Come de boca cheia e quase não parece mastigar. Aquela tigela de plástico, parece conter diversas guloseimas, para além de pipocas. Alice beija os pais. O pai sorri. A mãe cristaliza. A mesma história de sempre. Abre os botões da blusa e, de súbito, fica observando a televisão por algum tempo. O que Alice vê na TV não se sabe, mas parece que ainda carrega junto a si recordações de um determinado cantor que diverte as jovens pela sensualidade de seu cantar, pela virilidade do seu corpo. O pai dela não estaria vendo aquilo, naquela hora e ainda por cima, com uma travessa de comida no colo. Vai para o quarto e repete o exercício da escrita.

E assim "vão-se as primaveras plenas e floridas de incenso e de heras", já dizia Rimbaud. Ao perceber que o jovem da marcenaria só reagia com trocas de olhares e mais nada, ficou um tempo sem ir ao local e foi à cidade local. Lá encontrou um outro jovem, talvez mais jovem ainda que aquele da madeireira, que foi de sede ao pote. Ela não gostou muito daquilo e saiu. Sem rumo, voltou a caminhar pelo universo praieiro dos desejos não realizados, esquecidos na areia. Vez por outra abaixava a saia e caminhava sentindo o desesperante prazer das fricções. Regressou à fabrica, em mais uma tentativa. Naquela altura, era evidente que ele não estava querendo nada com ela. Mas ela só pode perceber isso quando, durante uma festa no coreto da cidade, o viu beijando uma mulher. Curiosamente ela não cultivou raiva por ele. Preferiu deixar de lado aquela questão até que aquele gelo se quebrasse entre os dois. Em breve faria aniversário e chegaria aos 18. Por mais que outros meninos tentassem aproximar dela, reagia clara e diretamente:

"Não."

e tão ríspida a resposta que a palavra saía imediata e indiscutivelmente concentrada no "n". Queria aquele amor para ela e, como não conseguia, passeava por uma praia de quinquilharias imagéticas, a imaginar coisas muito surreais. Certa vez a imaginara estirada na areia, inteiramente nua, com as mãos e pés amarrados, batom nos lábios, a esperar que ele abusasse dela ao pegar uma minhoca e tentar inseri-la vulva adentro. A perversão daquela cena sentida por ela como misto de prazer e dor. Imaginava-o fazendo picadinho daquela minhoca, deixando-a agonizante sobre a púbis dourada dela e se divertindo com uma gargalhada insana que faz disparar o sorriso no lugar das lágrimas, da comoção obstinada do objeto amado. O mundo de Alice está povoado de imagens impossíveis, coletadas naquela praia deserta da imaginação, com diversas coisas enterradas pela metade.

Passa a acompanhar mais a mãe nos afazeres domésticos. Escuta dela uma série de reclamações sobre o mundo, de belas recordações sobre o passado, do dia em que se casou com o pai dela e outros saudosismos. Um dia quis mostrar aos pais que tinha seios grandes e quase os encostou no rosto dele. O pai gostou, evidentemente. Chamou sua esposa e, sentado naquela poltrona, em frente da TV, expressou satisfatoriamente o prazer em ter ali perante ele as duas mulheres de sua vida, enquanto apalpava as costas e até os bustos de uma e de outra. A mãe casmurra passou a desenvolver pela filha, uma inveja sem precedentes e por vários momentos chegou a querer expulsá-la de casa. A quantidade de recalques que carregava dentro de si, não podemos precisar. O fato é que ela parece ter aquela vida há anos, talvez desde o nascimento de Alice, há 16 ou 17 anos. Encontra-se só naquela casa, tendo que realizar trabalhos domésticos e servir o marido machista. Ela parecia estar à beira de um ataque de nervos, que muitos chamam de histeria. Em determinada sequência, parece quase surtar, quando percebe que a sua filha reagiu silenciosamente a uma assertiva dela ou, quem sabe, ao perceber que nas roupas de seu marido, havia marcas de batom. As que ela deixava no copo, ele reclamava. As que ele deixa na roupa, ela ressente. A questão é simples, a saída nem tanto. As roupas estão também mais amarrotadas do que de costume. O marido dela, de fato, estava tendo um caso com uma mulher mais nova e muito mal intencionada. Pois é o que justifica o fato dessa mulher ter aceitado um relacionamento desgovernado com um pai de família gordo, de bigode à la Albert Einstein (só o bigode) e careca. Não que estes sejam atributos ruins e até inalcançáveis para alguém como ele ,mas o fato é que o libido dele estava como o daqueles jovenzinhos que queriam experienciar o sexo e somente o sexo. De quem ergue o braço para segurar dinheiro, para investir o desejo. Solo raso, de quem mensura o tamanho do vaso. Alice provavelmente existe por conta de algum acidente no coito. Mais de quinze anos depois e ele continuava com a mesma mentalidade de caçador de ninfas. O pai termina mais tarde descobrindo que a filha saía para encontrar o jovem marceneiro e, irritado pelo que poderia ter acontecido sem o seu consentimento, estreme em fúria, pela primeira vez.
A proíbe de sair de bicicleta a partir de então. Chama-o para mandá-lo embora aos gritos e pontapés. Mas o rapaz havia cumprido moralmente bem o seu papel: acabara de ter um filho com aquela mulher em que beijara na festa e tinha acabado de comprar (ou ganhar) um carro de pequeno porte cor rosa. Em breve, iria se casar. Estava tudo muito definido com a mãe dele que já incorporava a mulher com quem teve o filho na família. Ele precisava apenas passar uma borracha naquele passado. E assim o fez. Terminou o estágio dele naquela casa. Quando volta ao carro, percebe que Alice estava no interior do veículo, a danificar o vidro com fita adesiva. Irrita-se com a presença dela, mas como ela insiste em ficar no carro, segue viagem mal intencionado. No meio do caminho para o carro e pensa no pior dos mundos possíveis para ela se afastar de vez. Alice recua com medo quando vê ele desafivelar o cinto e partir com as mãos grandes de trabalhador em cima do corpo dela. Recua como quem cede. Sai do carro. Ele segue a viagem. Mais tarde eles voltam a se encontrar e aquilo que parecia antes distante, passa a se tornar uma zona recreativa. Eles conversam. Alice quer se tornar amante dele. Ele que antes daquilo tudo nunca pensou numa aproximação, começa a não resistir àquela ante miragem. O amor por Alice passa finalmente a se preencher. Do outro lado do rio, a mulher dele o espera junto à casa da mãe dele e o filho no colo. Num dia excessivamente nítido, Alice recolhia-se no seu reservado quarto escuro, cansada, minutos após a mãe ter batido na porta para avisar qualquer coisa banal. A cortina tremulava no quarto escuro lançando um coral de reflexos da luz sobre o teto.  Ouve-se um estrondo, seguido de um grito. Corre até a janela. Vê à distância, um homem ao chão. A mãe de Alice chega e, desesperada, começa a dizer frases sem sentido, fruto de alguma histeria profunda de alguém que poderia ter morrido no lugar dele e não morreu (seu marido)  ou ainda de um possível relacionamento daquele rapaz com ela (daí a relutância dele, talvez, por Alice). O objeto do amor acaba de rasgar-se em dois. Um final indefinido para um filme cheio de passagens intimistas.

terça-feira, 29 de março de 2016

Da série "O Augusto": 1. In memoriam



"On The Edge Of A Grain Of Sand"
[Zoviet France]

In Memoriam Gilles Deleuze
1996


Um frango se locomove por um corredor comprido e ermo. Suas patas marcham num ritmo alucinado a fragrância de mundos apodrecidos, que mancham e se desmancham todas as vezes que as pressiona contra o chão. É preciso dizer que esse frango mais parece um pinguim na maneira como oscila o corpo lambisgóico de um canto ao outro. Em seu pescoço, junto ao coração, está pendurado um chocalho repleto de fragmentos ruidosos, advindos de possíveis balões infláveis estourados.

Sem tato nem tino, deixa marcas de presença esquiza que grudam intensamente superfícies mais diversas de tecidos afins...até rachar. Despedaça a firme parte das coisas que se ajoelham por razão qualquer perante o frango e arrasta atrás de si o que consegue agarrar, prender.    


Sob as notas foscas de cem feias moscas


Por meio de finos tubos que saem do chocalho, enreda-se no alimento, sulcando-o selvagemente como um verme faria, até a farinha dos ossos. Puxa como quem recorre a um papel higiênico inesgotável e depois solta. Na verdade não inteiramente: divide para as laterais aquilo que muito se esfalfou.
A amorosidade do frango tem seus limites. Por isto deambula pelo corredor, oscilando o corolário do centro caótico de suas pulsões mais imediatas, no bambolear de afetos circulares, intermináveis...

Se a espaço algum consegue afixar-se, que pressupostos afinal carregas, ó prisioneiro de cinzas, se não os da atmosfera da própria insubstancialidade?

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Diz o lugar a cada hora que assina nas costas de um mudo, ensimesmado num tal momento intransigente e raramente finalizado, por mais que haja o cerne da liberação e o atravessamento alucinado em cada qual se dependura algum corpo na estaca. Balança o cerebelo na órbita pecaminosa dos amores, na circularidade dos apagamentos e faz dançar as bandeirinhas das firulas, que a esta hora, devem esquecer predicados mais tradicionais. Protagonização total.

Reina a impalpabilidade própria das sombras e movimentos  

quinta-feira, 24 de março de 2016

Considerações sextinianas



"Little Big Fish"
[Robin Guthrie]
Carousel
2009



"Limn"
[Deaf Center]
Neon City
2004

"A longa noite da meditação que permite a clareza formal dum objeto dado à luz, ao olhar dos outros."

Se sexta tivesse um rosto, teria a textura da faixa "Limn" de Deaf Center ou o álbum "Carousel" de Robin Guthrie: engarrafamentos, faróis benfazejos sobre o azedo das calçadas, a iluminar o que nada houve, nos dias batidos à martelada, aparafusados à porca de metal. Até certo ponto. No momento em que o foco se estabelece no gogó dos amanheceres, suspensórios passam a erguer uma tal flutuação esfumaçada que chega a ser fora dos trincos. É o momento que muitos têm para saltitar alguma vida fora da cela.

quarta-feira, 9 de março de 2016

In foco





A Parábola dos Cegos
[Pieter Brueghel, o Velho]
1568

Ao sentar naquela diminuta pedra na qual teimo em frequentar nas manhãs claras de sol e luz, terminei esquecendo minha avenida. Vesti-me de surpresa às uma e tantas da madrugada e a inspiração atamanhou tanto que fui frequentá-la outra vez. Exalava uma espécie de ar diferente, mais amplo que de meus pulmões e mais singelo que o dos alvéolos. Voava em mim uma espécie de paz nervosa malquista pelo corpo. Mesmo serpenteando o colorido da mata nas coxas da jibóia indígena, desequilibrei-me. Ou talvez por isto tenha desequilibrado. Não sei. O fato é que minhas mãos estavam gélidas e o corpo fraquejava diante daquela imensidão de permeios. E por mais que desejasse o esquecimento, sentia por dentro uma vontade louca de extravasamento: primeiro na privada e depois no capim do quintal ainda umidecido pela chuva e ao ralentar de um grilo sereno e constante. O corpo reagiu depressa com amargura, tentando o jogo contrário. Mas o jogo era claro: havia uma recusa terminante por aquele modo de vestir tão próximo da natureza. Talvez o que mais desejasse naquele instante fosse puxar o tapete daquilo tudo, sob a casca fosca da indiferenciação. E é nesta curvatura do pensamento que o nó que me fez aqui escrever estas linhas, como se tentasse desfazê-lo pela simplicidade de cada frase, pela evocação de cada imagem acastelada. No entanto, o nó ainda está aqui, se não nestas linhas, no ímpeto que as fez querer escrever e pontuar, dando sentido ao que me fez tremer silenciosamente por dentro enquanto sentia aquele formigamento nas mãos, aquele vômito não planejado que me fazia viver a vida dos órgãos e a vida dos homens agarrados às artificialidades das lâmpadas...

Em suma, cedi o passo na maior pêia e depois dormi. Sonhei firme a voz que me acompanha nos momentos de apagamento,mas também nos de envergadura própria. Numa caixinha toda de porcelana, sonhei como Sancho ao fiel escudeiro, como a cadeira à fiel mesa, tal qual girasse uma dança melancólica nos gestos delicados e há muito sancionados por algumas engrenagens que faziam equilibrar, sem jamais precisar apoiar-se ao chão.

Começo bem o dia até perceber que me faltavam os óculos no rosto. Procurei-os debaixo da cama, em cima do móveis, dentro dos bolsos e atrás das louças e das quinquilharias. Cinco minutos e nada. Quinze minutos e nada. Uma hora e...nada. Com a mente ocupada por aquilo, fui despedindo da vida: "pode deixar que o Fábio vai me ajudar a encontrar", quando o assunto era "fique bem e até mais". Depois de um certo tempo, aquela obsessão cansou. Segui adiante com a necessária viagem, enxergando meio pela metade. O dia passou, passou e aí que percebi que não era para ser assim, num quase pôr-de-sol de um domingo nublado. Foi quando voltei à noite, com planos de viajar logo pela manhã de segunda. E cruzando a porteira, em meio à escuridão envolvente daquele céu povoado de estrelas, percebi que junto àquela pedra amiga, havia uma armação e que nas lentes refletia o clarão da lâmpada que iluminava o exterior da casa. Por segundos olhei admirado aquele óculos fugidio e rapidamente tasquei-o no rosto, sorrindo. Cheguei a sentir uma espécie de embaçamento nas lentes. Fui então espalhar para o mundo aquela surpresa revestida de mistério. "E quem disse que estamos sozinhos?", disse meu vizinho com os olhos arregalados.

Agora, sentado numa cadeira, percebo uma incongruência familiar que faz adiar planos, repetir hábitos e bradar dores. Afinal, por que uma porta fechada se a casa é a mesma, ainda que com disposições e brios distintos? Deixo os óculos no canto outra vez. Desfoque. Refrear a definição por alguns minutos é também sinal de lucidez.

Listinha:
No1: Pôr as desculpas de molho.
No2: Esfregar as costas do silêncio.
No3: Deixar quatro segundos em paz.
No4: Inteireza das emoções como sinônimo de clareza.
No.4.1: Inteireza, o oposto da razão.
No5: Se a atuação lhe confere um charme, alerde-se.

No mais, toda a sinceridade é pouca.