terça-feira, 29 de março de 2016

Da série "O Augusto": 1. In memoriam



"On The Edge Of A Grain Of Sand"
[Zoviet France]

In Memoriam Gilles Deleuze
1996


Um frango se locomove por um corredor comprido e ermo. Suas patas marcham num ritmo alucinado a fragrância de mundos apodrecidos, que mancham e se desmancham todas as vezes que as pressiona contra o chão. É preciso dizer que esse frango mais parece um pinguim na maneira como oscila o corpo lambisgóico de um canto ao outro. Em seu pescoço, junto ao coração, está pendurado um chocalho repleto de fragmentos ruidosos, advindos de possíveis balões infláveis estourados.

Sem tato nem tino, deixa marcas de presença esquiza que grudam intensamente superfícies mais diversas de tecidos afins...até rachar. Despedaça a firme parte das coisas que se ajoelham por razão qualquer perante o frango e arrasta atrás de si o que consegue agarrar, prender.    


Sob as notas foscas de cem feias moscas


Por meio de finos tubos que saem do chocalho, enreda-se no alimento, sulcando-o selvagemente como um verme faria, até a farinha dos ossos. Puxa como quem recorre a um papel higiênico inesgotável e depois solta. Na verdade não inteiramente: divide para as laterais aquilo que muito se esfalfou.
A amorosidade do frango tem seus limites. Por isto deambula pelo corredor, oscilando o corolário do centro caótico de suas pulsões mais imediatas, no bambolear de afetos circulares, intermináveis...

Se a espaço algum consegue afixar-se, que pressupostos afinal carregas, ó prisioneiro de cinzas, se não os da atmosfera da própria insubstancialidade?

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Diz o lugar a cada hora que assina nas costas de um mudo, ensimesmado num tal momento intransigente e raramente finalizado, por mais que haja o cerne da liberação e o atravessamento alucinado em cada qual se dependura algum corpo na estaca. Balança o cerebelo na órbita pecaminosa dos amores, na circularidade dos apagamentos e faz dançar as bandeirinhas das firulas, que a esta hora, devem esquecer predicados mais tradicionais. Protagonização total.

Reina a impalpabilidade própria das sombras e movimentos  

quinta-feira, 24 de março de 2016

Considerações sextinianas



"Little Big Fish"
[Robin Guthrie]
Carousel
2009



"Limn"
[Deaf Center]
Neon City
2004

"A longa noite da meditação que permite a clareza formal dum objeto dado à luz, ao olhar dos outros."

Se sexta tivesse um rosto, teria a textura da faixa "Limn" de Deaf Center ou o álbum "Carousel" de Robin Guthrie: engarrafamentos, faróis benfazejos sobre o azedo das calçadas, a iluminar o que nada houve, nos dias batidos à martelada, aparafusados à porca de metal. Até certo ponto. No momento em que o foco se estabelece no gogó dos amanheceres, suspensórios passam a erguer uma tal flutuação esfumaçada que chega a ser fora dos trincos. É o momento que muitos têm para saltitar alguma vida fora da cela.

quarta-feira, 9 de março de 2016

In foco





A Parábola dos Cegos
[Pieter Brueghel, o Velho]
1568

Ao sentar naquela diminuta pedra na qual teimo em frequentar nas manhãs claras de sol e luz, terminei esquecendo minha avenida. Vesti-me de surpresa às uma e tantas da madrugada e a inspiração atamanhou tanto que fui frequentá-la outra vez. Exalava uma espécie de ar diferente, mais amplo que de meus pulmões e mais singelo que o dos alvéolos. Voava em mim uma espécie de paz nervosa malquista pelo corpo. Mesmo serpenteando o colorido da mata nas coxas da jibóia indígena, desequilibrei-me. Ou talvez por isto tenha desequilibrado. Não sei. O fato é que minhas mãos estavam gélidas e o corpo fraquejava diante daquela imensidão de permeios. E por mais que desejasse o esquecimento, sentia por dentro uma vontade louca de extravasamento: primeiro na privada e depois no capim do quintal ainda umidecido pela chuva e ao ralentar de um grilo sereno e constante. O corpo reagiu depressa com amargura, tentando o jogo contrário. Mas o jogo era claro: havia uma recusa terminante por aquele modo de vestir tão próximo da natureza. Talvez o que mais desejasse naquele instante fosse puxar o tapete daquilo tudo, sob a casca fosca da indiferenciação. E é nesta curvatura do pensamento que o nó que me fez aqui escrever estas linhas, como se tentasse desfazê-lo pela simplicidade de cada frase, pela evocação de cada imagem acastelada. No entanto, o nó ainda está aqui, se não nestas linhas, no ímpeto que as fez querer escrever e pontuar, dando sentido ao que me fez tremer silenciosamente por dentro enquanto sentia aquele formigamento nas mãos, aquele vômito não planejado que me fazia viver a vida dos órgãos e a vida dos homens agarrados às artificialidades das lâmpadas...

Em suma, cedi o passo na maior pêia e depois dormi. Sonhei firme a voz que me acompanha nos momentos de apagamento,mas também nos de envergadura própria. Numa caixinha toda de porcelana, sonhei como Sancho ao fiel escudeiro, como a cadeira à fiel mesa, tal qual girasse uma dança melancólica nos gestos delicados e há muito sancionados por algumas engrenagens que faziam equilibrar, sem jamais precisar apoiar-se ao chão.

Começo bem o dia até perceber que me faltavam os óculos no rosto. Procurei-os debaixo da cama, em cima do móveis, dentro dos bolsos e atrás das louças e das quinquilharias. Cinco minutos e nada. Quinze minutos e nada. Uma hora e...nada. Com a mente ocupada por aquilo, fui despedindo da vida: "pode deixar que o Fábio vai me ajudar a encontrar", quando o assunto era "fique bem e até mais". Depois de um certo tempo, aquela obsessão cansou. Segui adiante com a necessária viagem, enxergando meio pela metade. O dia passou, passou e aí que percebi que não era para ser assim, num quase pôr-de-sol de um domingo nublado. Foi quando voltei à noite, com planos de viajar logo pela manhã de segunda. E cruzando a porteira, em meio à escuridão envolvente daquele céu povoado de estrelas, percebi que junto àquela pedra amiga, havia uma armação e que nas lentes refletia o clarão da lâmpada que iluminava o exterior da casa. Por segundos olhei admirado aquele óculos fugidio e rapidamente tasquei-o no rosto, sorrindo. Cheguei a sentir uma espécie de embaçamento nas lentes. Fui então espalhar para o mundo aquela surpresa revestida de mistério. "E quem disse que estamos sozinhos?", disse meu vizinho com os olhos arregalados.

Agora, sentado numa cadeira, percebo uma incongruência familiar que faz adiar planos, repetir hábitos e bradar dores. Afinal, por que uma porta fechada se a casa é a mesma, ainda que com disposições e brios distintos? Deixo os óculos no canto outra vez. Desfoque. Refrear a definição por alguns minutos é também sinal de lucidez.

Listinha:
No1: Pôr as desculpas de molho.
No2: Esfregar as costas do silêncio.
No3: Deixar quatro segundos em paz.
No4: Inteireza das emoções como sinônimo de clareza.
No.4.1: Inteireza, o oposto da razão.
No5: Se a atuação lhe confere um charme, alerde-se.

No mais, toda a sinceridade é pouca.