quarta-feira, 11 de maio de 2016

Da série "A provação da luz": Xapiri


Início de lento fadein, ao som do eco de pássaros. Vê-se uma paisagem carregada com cores psicodélicas. Cativa o violeta da vegetação, em contornos bem torneados. E a profundidade se anula, como num filme 3D.

Xapiri começa uma jornada de imagens sensoriais, numa organicidade rítmica muito curiosa. Cada shot torna-se um convite ao deleite. Imagens que se adoçam em camadas, tais quais fossem folhas. Aos poucos a floresta vai tomando conta e o espectador um homem a velejar por um riacho todo folha. Onças que observam o decorrer da presença. A cabeça de uma ancestralidade a girar pelos vastos pulmões da mata, num tempo diluído. São os índios que surgem como espíritos xapiri, permeados pelo mundo onírico das formas e das cores. Caminham juntos homens, mulheres e crianças, numa lentidão serena e tão equilibrada quanto aquela conjunção de grilos a cricrilar ou como eventual farfalhar do vento nas árvores. No último shot desta sequência, os espíritos se levantam e caminham até o fundo da imagem, como leito de um rio, até o delicado fade-out crepuscular.

O início da próxima sequência faz ressurgir as cores com um vigor intenso, numa câmera-olho que vai cambiando distâncias e nitidez. Os objetos ganham contornos mais explícitos e chegam a crescer de tamanho a cada que vez que o foco se estabelece visceralmente na frente dos olhos. Convoca a câmera à viagem. Verde, verde sobre verde, banhado em amarelo sol. Sob um cortinado de vozes que voam como araras, é quase tão possível sentir a presença indígena sem se ver índio algum: a carnalidade do corpo massudo, argiloso, repleto de curvas sobressaltadas e de veias fartas em azul. Tudo isto concentrado na voz que vem roçar os sentidos do espectador: retina e película; corpo e tato. Muitos portais/travessias de cores firmes e maduras envolvidas numa pele, confundindo presente e presença, real e vivência. A dança vertiginosa das imagens começa. Um novo fade-out mais uma vez encerra um argumento e cria expectativas quase cerimoniosas no que possa surgir na sequência seguinte, como um levantar e descer de cortinas.

A sequência seguinte inaugura a aldeia com um movimento de câmera que me remeteu ao filme venezuelano "Orinoko" (1984) de Diego Rísquez ou a um possível filme de Glauber Rocha. A única diferença talvez seja pela qualidade fotográfica que nuança excessos como a claridade intensa de um céu vazio. Por alguns segundos, a câmera retoma o movimento da primeira sequência, ao registrar um índio de bermuda e chinelos, tão escondido de si, como naquele versinho do "homem atrás dos óculos e do bigode" de Drummond. A câmera volta a conduzir a viagem, capturando gotas a escorrer pela palha num dia chuvoso. Lembrança súbita de "Chuva" de Joris Ivens (1929). Mas aí a viagem acelera de um tal modo que inutiliza os futuros fadeout ou fadein, pois ainda que venham lentos, a turbulência da experiência será excessiva, beirando à histrionia.  Não haverá mais tempo para a contemplação. A câmera quer capturar a experiência do xamanismo, no ritual da dança. Canções indígenas se arrastam num platô de imagens que se reverbera entre si. Limpam os poros com a migalha das estrelas, quando o pajé assopra pelo nariz as cinzas da terra. Ecoa o instante,  no ir e vir da  voz xamânica que mais parece uma poesia sonora de vanguarda futurista ou dadaísta. O nível de sofisticação não só impressiona como marca um pedaço em cada espectador, como se tentasse, pela imersão, projetar uma realidade sensorial para além da própria imagem. Não sabemos aonde vamos parar. Alguns menos sensíveis desistem e se retiram da sala de projeção. Outros, se hipnotizam pelas imagens em êxtase, que poriam Sergei Eisenstein de boca aberta. Capta a expressão do rosto, na trajetória de cada corpo, num coletivo de crenças que se emaranham à sensação do aqui-e-agora vital. Vê-se caretas das mais variadas, em rostos que mais parecem chamas acesas, de permeio com aquelas canções tão ancestrais.

De repente, numa próxima sequência, a câmera volta à lentidão fora do ritual. Vê-se a pintura de corpos, o sorriso de um ancião a balançar na rede, olhares serenos e quase tão verdadeiros como a vegetação que estala e cresce ao redor. Balaios, cumbucas e uma coragem tão fresca quanto a mordida de uma fruta. Retoma o fluxo do ritual e vê-se agora o pajé a praticar a dança com movimentos entrecortados e fundidos nas vozes que não apenas ambientam, como, desde o princípio, conduzem o fluxo das imagens. Dança um frenesi de vontade que tanto contagia quanto perturba. Por fim, encerra o episódio com um lentíssimo fadeout, num movimentar da câmera que caminha lateralmente sobre uma aldeia, agora vazia. Uma cruz ou algo parecido à distância.
   
Sem dúvida alguma, uma bela homenagem ao cinema de montagem e à pulsação chamada vida!

Publicado no folhetim "Cinescópio" do Cineclube Lumiar, em 28 de maio de 2016.