sábado, 23 de julho de 2016

Alguma coisa




"O vazio é um lençol branco", disse. Ela, sem querer acreditar, virou as costas e permaneceu naquele silêncio tão seu. Mais adiante o sol nascia no horizonte com uma clareza que não parecia terrena.
"Talvez a angústia", ela me disse e saiu de cena.

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A cegonha do amor pode aproximar-se,mas não chega. Pousa no peitoril à espera de um humor que possa salvar. Permanece batendo com o polegar no lábio, sem muito alento. Se reclama das dores do parto, é para dizer que há muito silêncio embrulhado para presente e  os ruídos estão por toda a parte. 

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Camada pós camada, doura a superfície lisa e quase escorregadia daquele rosto tão desavisado de tudo. Abertos os olhos, o maxilar afrouxa, permitindo o balbuciar de um som rápido e rasteiro, algo em torno de uma dúvida ou de um comentário ingênuo e nem sempre ouvido. Reclama da vida como quem arqueja alguma miséria naquele virar de cabeça. Acusa o trabalho, a dor no pé direito, o mal-estar da azia, só para dizer que o nada importa e que não gosta de arriscar.

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Estala o torcicolo pelos dedos que se querem curvos sobre pilhas e mais pilhas de papéis amassados. Instila abertamente uma vontade de se rir daquele mundo, pelo exato desperdício da vida a mostrar o excesso, de modo tão inútil. Como quem referenda um certo desinteresse pelo amanhã, fumega uma velha canção carcomida de indecisões ribeirinhas. Sem querer afirmar o sonho das montanhas em cor, caminha sem se importar a coisa alguma que não seja da ordem de dois sóis.

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de que adianta o sumidouro, se o desejo não for fome e tesão?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

castelo de cartas



Prelúdio para quarteto de cordas
[Toshiro Mayuzumi]
1967
Interpretação: La Salle Quartet



"Não", disse.

E do silêncio fez-se ouvir uma respiração demorada e pouco nítida. Diante de si, um rio passava escorrendo pelas pedras. Ele media o movimento de seus desejos no fundo da retina, pulsando um meio-lá-meio-cá que mais parecia nervura sobressaltada. À meio caminho, entre a indecisão e a possibilidade, sopesava os sentimentos com a força das impressões ainda tão frescas. Fora surpreendido com a resposta vinda daquela boca que um dia tantas promessas de amanhã lhe trouxe.

Segurou nos punhos a areia que o mar deixara secar e, distante das ostras e algas marinhas, assentiu, senão com alguma ressalva. Para ele, aquilo não passava de uma pretensão ressequida, cuja privação lhe obsedava.

Absorvia nele um desejo de barro fofo, repleto de raízes claras ziguezagueantes, no qual pudesse despir as cenas da cabeça em volúpias táteis de presenças e caminhos. "Contato sem contrato", dizia erguendo os olhos. Plainava sobre o solo agreste do agora, sem sombra de possibilidade. A partir de agora não poderia mais afogar aquelas delicadezas de vez em quando, na espera pelo silêncio dos amanheceres. Estava decidido. "Não", a palavra calcada em cinza, amortecida pelo entendimento. Finalmente ela pregava o xeque-mate, pondo fim àqueles carteados.



                            Phototheque imaginaire de Shuji.Terayama: les gens de la famille Chien Dieu
                                               [Shûji Terayama]


Macabro o corpo que pula sobre os passos do outro, se fazendo de obstáculo, entrave ou garra.
Que faz do punhado de imagens estilhaçadas, os espaços órfãos e reclusos da existência,
uma redoma de vidro cortante no qual o coração, sem marcapasso, bate, bate, bate em um passado só e bem socado.