quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Retratação


 Pair IV 
[John Stezaker]
 2007



O retrato dela
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O silêncio nosso

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da vez quando meu peito ardia tua mão, deitando fora lençol, fronha e avental, eu me atraía a misturar o calor da aceitação, pelos pés desavisados das excitações. Na arritmia das alvoradas, o vôo imbricava tempos distintos, ante a qualquer soluço. E de tão imbricado vinha que o sabor tingia um quê de vontade desajuizada.

Agora, sabatinado, percebia que jogatinava um desejo de plena e imediata realização, que esse papo de voragem é vida de papel na mão, pois que de tão fino o assunto faz querer ventilar qualquer coisa opaca e travestida de azul




E assim deixou de me interar pelo marulho que me recorda o mar: sinuoso de sina, carcomido. A quem resta, afinal, o fino grão?


 “O que se alegra com a verdade é semelhante a alguém cuja casa 
se incendiou e que, ferido pelo dissabor no fundo do coração, 
começa, no entanto, a construir uma nova casa. 
E para cada tijolo novo assentado, 
o coração dele se enche de alegria” 
(Martin Buber)


Abro algum livro com correspondências. Acaricio a impressão num papel vegetal. Grafou-se em preto os dizeres, como um parafuso atarraxado. Do muito que se atarraxa por aí, esse é o mais tenro, na medida em que reestabelece o espaço branco das aflições a partir da infusão lírica de um tempo qualquer. Não está, portanto, afeito a prazos, cronologias ou históricos. É intemporal na atenção veiculada e por isso suporta qualquer levantar de cabeça. Amorosa frigidez das alegrias mínimas, fantasiadas de vime, algodão e tapetes persas.


Mas meu corpo me desgoverna ao trazer de volta o passado imperfeito, as urgências preenchidas e logo sistemáticas.

 








                            Limite [Mário Peixoto] — 1931



À sombra de dois gravetos, a cintilação do olhar nada significa.



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A palavra que te faltou naquele dia, fez de si um simpático intrincamento de visões fechadas. Ela te falhou em ato e atitude, revelando em mim uma incompletude perturbadora. Meus dedos nunca estiveram tão à frente, com as falanges abertas tantalicamente. E não à toa transpirei acordes frouxos de uns ponteiros amargurados, enquanto estive à espera disso que não tinha nome a princípio e que foi comido, devorado.



                                            "Qué pobre soy en el océano de la emoción. 
Pero me alegro, pues pienso que sólo el pobre 
es capaz de apartarse, desdeñoso, del angosto 
yo para perderse en algo mejor, en lo flotante que nos 
hace felices, en el movimiento que no se detiene, en algo sublime 
que crece siempre, en lo universal que tremola, en lo común que jamás se 
extingue, que nos sostiene hasta que desee enterrarnos en paz." (Robert Walser)


E por isto pergunto mais uma vez: onde está a paz que nos enterra?

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Lembro do último novelo branco a mim confiado, cuja cor peguei na palma. Tinha uma brancura sempiterna e isenta de paz, e que nos pôs num aperto palpitante. À luz de nossa sibarita vontade sobrevinha o corpo como imagem do cosmos, em confluências de correntes estelares, sanguíneas e nervosas. Ardia a pedra como quem entrelaçasse bodas alquímicas, fazendo falar espécies nunca ouvidas. Tudo isto a nossa incidência e que agora se reduz a pinheiro, campo e sol no horizonte…ao menos enquanto o sorriso no canto da boca se definir.
 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um cigarro, me faz favor?


"Processing Unit"
[Jóhann Jóhannsson]
IBM 1401, A User’s Manual
2006


Foi durante o almoço que percebi. Havia passado meses longe de casa e nas vezes em que aparecia, nunca me dava conta. Ele me olhava de frente e sempre com algo mastigado na boca para dizer. Na maior parte das vezes sobre a vida que eu levava.

- Está chovendo estes dias por lá? — enquanto desferia com a colher um corte sobre o inhame.

Geralmente eu desvencilhava com alguma resposta curta ou sorriso tímido. Entre uma mastigada e outra, as bochechas afrouxavam a musculatura do rosto magro, o que, por sua vez, impunha dignidade ao cabelo ralo nas laterais. Não se via muito dos dentes por conta dos lábios curtos enrugarem qualquer coisa de ameixa, qualquer coisa de melaço bem chupado. Pois bem, lá estava ele a cortar o inhame com aquela colher de metal, com olhos bovinos à frente. A parte dura do inhame como garantia de um cotidiano possível, bastando um empurrãozinho com o polegar e o indicador para baixo.

O fato é que enquanto pousava a mão esquerda na mesa, ele não a pousava inteiramente...

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 — Nem dá pra sentir o gosto da folha — ouvi a voz feminina comentar, seguido de um riso nervoso. 

Raspava o fundo do prato com a colher, no quarto ao lado. 
 
No banheiro, a torneira gotejando.
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 Ele havia adormecido minutos atrás com o braço debaixo do travesseiro. Mas se algum barulho escorregasse para debaixo dos pés, era inevitável o suspiro quase tão vago quanto o mundo lá fora:

- Bem, está por aí?

 E lá escapulia o tempo outra vez.

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 Sentado na pedra à beira-mar, não conseguindo fixar a atenção no horizonte, presta a falar:

 — Quando voltará para casa?
 — Quarta. Caso contrário, quinta.
 — E como estão as aranhas lá?
 — Não estão. Você cisma que lá tem aranhas!

 Deixa aberto aquele sorriso que até os olhos frisa. A mesma coisa quando assiste a um filme que o comove; não à toa gostasse dos filmes baseados em fatos reais. Só nestes tipos consegue apontar com os dedos a imaginação e encantar a memória das lutas garrafais. Daí o desgosto pelos desarranjos, sejam eles intestinais ou cerebrais. Com o entorpecimento do corpo ou um braço sobre a cabeça arma a resistência numa desistência muito particular: bastam dez minutos e logo se sabia que não ia bem das pernas.  
Como precisava se agarrar a algo para enfrentar as contradições, absorvia muito depressa. Basta que alguém coloque caraminholas na sua cabeça sobre alguma enfermidade que sentia ou desejava sentir naquele momento, para imediatamente esbranquiçar a boca e fragilizar os movimentos vitais. Criatura em flor, de barro.

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 Nas madrugadas insones, liga a tv, dando início a algum encaixe perfeito. Com os braços esticados, monta e desmonta o mecanismo das máquinas multiprocessadoras, não sem antes empurrar com alguma força até o derradeiro ‘clic’. Caso não funcionasse, encaixa aquele seu óculos de metalúrgico a fim de deitá-la sobre seus pés. Em casos extremos às séries de incursões acidentais, mordia a extremidade das hastes, tal qual os homens maduros em plena reflexão. Só o relógio na parede parecia lhe roubar a lucidez daqueles momentos tão intensos e ao mesmo tempo tão banais. Tudo que precisava fazer era pôr em circuito o tráfego daquela energia e deixar o tempo conduzir as braçadas de seus amanhãs.

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 Naquele dia todos que estavam em casa passaram mal. Quiçá tivéssemos comido algo estragado naquela sopa de legumes. Ele mais uma vez com o braço pendido sobre a cabeça, com o olhar fragilizado e os chinelos a arrastar sobre o chão. Alegava também estar tonto o suficiente para que pudesse ficar deitado. Eis a última coisa que gostava de fazer. Mesmo deitado precisava de algum jeito dar utilidade àquelas mãos calejadas e graúdas, algo que pudesse fazê-lo acreditar no divino das essências, na metafísica das existências, no culhão das metonímias, sem abandonar evidentamente a parte judicativa. Talvez por isso fornicasse nos leites condensados, nos doces de leite, nos doces sobre doces do chocolate caramelizado. E assim sendo concretizava aquilo que o mundo há muito furta.

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 Naquele dia, ele precisava conter a mão esquerda. Do mesmo modo precisava conter algumas dúzias de minutos durante o uso dos mictórios e, principalmente, conter as tonturas desavisadas. Porque precisava trabalhar. Porque não tendo a quem confiar senão a uma pessoa, acreditava no futuro. A relação que podia traçar entre suas verdades românticas, alheias à facebook e ao sistema de moda, tinha o tamanho da curvatura de seu coração nas palmas das mãos. E com tanto afinco que dificulta aquilo que meus olhos contam, como se a luta apenas estivesse começando.