domingo, 11 de setembro de 2016

Alienada

                  Valencia [Henri Cartier Bresson] - 1933


Mesa de bar, na calada da noite. Alguém suspira próximo da parede. Tem uma das mãos segurando a cabeça, como se enguiçada estivesse. Do outro lado do cômodo, a tevê ligada noticiava o mesmo canal de sempre, num looping acabrunhante que resseca qualquer lágrima necessária.


— basta que sejamos todos mal-amados.
 — o que faz para banir a história da sua vida?
 — isso já não será uma preocupação minha.
 — estava pensando em uma criatura humana…
 — morro sem deixar descendentes.
 — é um convite?
 — foi só para se esclarecer. achei que não viria a ser o caso.

Montava assim diálogos em frases coletadas. Às vezes sobrevoava ditos populares,como em Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Era o que queria ler, naquele momento. Mas sentia que, no fundo, lia como quem confere só e ferida, no ferro. E pasma ficava em ter inventado algo tolo.
Quis pedir um doce no balcão e o único que conseguiu comprar foi uma mar-me-la-da, bem soletrada. Assim compunha o vazio que lhe sobrava.

                                               …

 A anônima estranhamente se reconhecia pelas mãos vazias.