sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

mortificar


                                                         O vale dos lamentos
                                                         [Theo Angeloupolos]


Ele me dizia para parar com aquilo, que não era algo bonito de se ver. E de fato não era nada agradável estar diante daquele rosto amassado, entupido de mentiras e algumas verdades. Mas a única coisa que eu conseguia retrucar era com aquele corte de ponta fina e macia que o discurso metia em lençóis, quase nunca brancos. Forjava-se a limpeza com olhos de quem se quer varrer todo e qualquer vestígio. Ele me dizia para parar com aquilo,pois aquele movimento de pudim resiliente cheirava a naftalina, quase tão seco quanto o pó fino sobre as coisas e as guimbas de cigarro enviuvadas. Ele dizia aquilo porque conseguia perceber o escorrimento da dor,o fincar das estacas sobre a pele, o desejo fragilizado.Ele sabia que ali antes havia recalque à resistência. E isso por si só o enternecia, à troco de beijo no rosto, palavras sortidas, penteadas. Ele me deixava,finalmente, os restos. E que faziam de mim alguém mais branda e sorridente. Mas que hei de fazer com tantas partes? Seria esta a razão de ser do ridículo?  

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 Dois pontos
dois pontos
Como quem não consegue unir
Dois pontos
dois pontos
caídos de sina, restantes de nome
papel mosca anel


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Aquela porta não tinha uma saída propriamente. Inevitável retorno. Se sobra uma janela na lembrança de quando se comia sabonete, é para se gracejar o tempo de quando dava certo. Mas hoje o compromisso tem mãos de distanciamento, dizem, que quando caem tem um peso tal que pode ser lavado em silêncio de cocktail, pelo mesmo humor com que se divertiu, de cigarro, um bando de nomes bem ditos e quase tão bem traçados com dicção plena quanto uma obra exemplar.

No entanto, estive descompromissado o dia inteiro. E o cansaço trouxe o sono das longas horas.


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 Dois mosquitos postos em lados extremos, no bocal de uma mesma entrada de USB. Dois cadáveres de mosquitos, em pose esquálida. O pó dos móveis como que escondia as duas figuras. Estava embaçada a luz, estava arranhado o olhar, só cisco, seja de pernas de inseto,  fiapo de roupa ou pelos humanos. Pisca renitente o título: "Farrapo humano" e ao contrário do que possa aparecer, o título tem seu manto de veludo.

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Até porque preciso que os outros me compreendam: às 3 preciso estar no lugar Y; às 7 pretendo chegar no restaurante e às 9 ainda planejo passar no mercado. As horas compreendem o que não quero deixar de saber. As horas persistem como um vício antigo que não se quer interrompido, mesmo se inoperante. Porque se quer falar de passado posto em gavetinhas para se puxar. Porque se quer falar em relíquias, em genialidades não compreendidas, e que possam merecer premiações, haja visto o público leigo e ignorante, a quem se oferece a cadeira pra se desistir antes da hora.

O olhar da instituição sorri escuro.
 
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- Como me ausentar da minha mente?

- É o tipo de coisa que você vai tentar descobrir a vida inteira até o momento da sua morte. 

- E se...

- A pertinência da sua resposta está no fato de que o silêncio não existe. A morte cessa a percepção e a mesura. Dali, uma míriade de infinito pode acontecer...se bem que dizem por aí que carregamos pequenas mortes conosco.

-  No final elas se juntam em uma maior?

- A morte é o que proporciona o furo. Assim, morre-se de amor ou de ódio.

- Se eu te dissesse que nesse momento estou menstruada e que me dói o útero e a cabeça lateja, estaria coberta de morte?

-    E de falta, pois as coisas não param de passar.

 - O ideal é não termos ideia disso.

- A ausência abre os caminhos. 

- Mas...então, como me ausentar da minha mente?

- Não está sentindo alguma melhora? 

- Você me cansa.

- Eu te amo. 

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Ao final da noite ela me dizia que doía o útero, que estava exausta do dia tingido a sangue. Aquela discrição, contudo, tinha um silêncio. Descubro o tempo das alergias.

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