segunda-feira, 27 de março de 2017

Em contrachance


                                             Berceuse dos elefantes
                                                   [Walter Franco]
                                               Respire Fundo - 1978

Dedos arqueados alquebram-se sobre a taça de vidro. Um (espaço) outro. Presos. Fixos. Amparados pelo vidro gelado. Mas o toque, aparentemente suave, tem a sua pressão. Marca duas fases. Dois começos intermináveis: o de alçar e o de agarrar. E os dedos sobrevêm com a ansiedade e crescem com o medo. O líquido escuro quase nem tem mais peso, mas a mão está ali, a pressionar as digitais contra o vidro, borrando o quase-agora com o calor dos poros e o gesto das pétalas.
Resiliência alçada aos goles, deitada em sonhos de embriaguez    -    soluçada 


de tempos em tempos)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Poema estéril


Kentucky Avenue
Tom Waits
[Blue Valentine]



Bolhas sob a superfície intata do líquido.

Uma bola quicando o mármore claro.

Pés

Pés no chão a percorrer a volta da chave na fechadura

paredes de pastilhas coloridas ao redor

Cortinas alvas transparecendo o decote apertado das janelas

Pende o braço laço
Perdido abraço
a fraquejar
adeus
adeus
adeus
adeus
adeus
adeus

A blusa branca, perfumada
A calça azul, renovada
A gravata, o relógio, o cadarço

Num amasso rotundo
de longas voltas
e rodeios

no meio da parede um prego enferruja
o desejo de dizer:
"Sísifo só trabalha para estragar a vida dos outros"

Uma da tarde. Hora de partir.
Eu me pergunto: "até quando?"

Uma e dez da tarde.
Silêncio e memória.

Partiram as asas
Restaram as dúvidas
Uma vez mais