sábado, 29 de abril de 2017

Da série "A provação da luz": Trem de sombras (José Guerín, 1997)

                                                                              Spiegel im Spiegel
                                                                                 [Arvo Pärt]





Principia uma espécie de romantismo entre quatro paredes. Na proa, um homem retém o tempo pela lente da câmera. Sessenta anos depois alguém o revela. E dentro daquele peito, as imagens jorram uma metafísica monumental. Como o entomologista, o capturador retém na gaveta (que alguns chamam de câmara obscura) um presente que não pode passar senão sem alguma nostalgia ou horror. Porque aberta sessenta anos depois, por mais que se imite ou maquie, não é passível de adaptação. Aqui retomamos ao sonho de Muriel que Adolfo Bioy Casares um dia perpetrou.

Em 24 quadros por segundo, disparam olhares, gestos e presenças alveolares. Pulsa a hipnótica luz sobre o relevo esfumaçado da noite. E a partir dali, algo se afigura, como uma revelação: um homem em seu leito de morte a enxergar um despropósito, uma visão meteórica que o faz sorrir, tolamente. “Aquele instante precisa ser capturado”, começa. Esta é a sina do capturador Gérard Fleury, que ao sair de casa em busca da luz necessária, precisa esgotar a experiência, como se cada segundo daquela família precisasse chorar. Ao fim e ao cabo, a luta de Gérard Fleury contra o esquecimento é vã, pois ele próprio desaparece, tal qual fosse uma projeção de alguém. O capturador, sem saber, criou uma Caixa de Pandora, fazendo de si parte integrante da encantada redoma de vidro.

Apesar da deterioração da película, seja pela guerra ou por um destino particular, aquelas imagens parecem fantasmagorias. E frente a ideia da perda, o navegador solitário José Guerin esmiúça as fendas da imagem granulada, intervindo quando bem entende. As imagens adormecidas carregam bons costumes, aquiescida pela bovina moral cristã, onde tudo parece condimentado em cruz e água benta. Ele pode interferir perversamente sobre o que se quis guardar para sempre, ainda que a realidade fosse completamente outra. O tempo de que a imagem fala é de cristal, e é feito de sonho, invenção e melancolia, como nos filmes de Visconti ou nos livros de Proust. Guerín nos mostra uma infância perdida, a agonia da luz, os rendados de uma memória que agora e para muito torna a correr em quem põe-se a observar a ternura envernizada e enxuta do silêncio.