terça-feira, 20 de junho de 2017

Da série "A provação da luz": Séraphine (2008)




Seuil, 1914. A lua pôs-se a brilhar lá em cima. É possível ver o reflexo na correnteza de um rio. Noite mística. Séraphine desliza as mãos pela superfície de um pequeno afluente e consegue tocar os poros da vegetação ribeirinha. Solfeja qualquer nota delicada na boca. O gesto é de carícia. Se a mão agarra qualquer coisa, logo solta. A natureza passa por ela e ela passa pela natureza, à revelia de tudo e de todos.

Quando o dia começa, Séraphine cumpre as obrigações em silêncio. Foi essa educação que a senhoria lhe ensinou. E para não retrucar a coisa alguma, havia aprendido a esfregar e limpar o chão, as janelas e as roupas. Quem sabe anos, muitos anos havia passado naquelas condições de simplicidade e humildade servil. A senhoria lhe pagava centavos e ela fazia segundo as regras do jogo. Aparentava uns quarenta anos, mas ao certo ninguém sabia direito. Nem mesmo a madre superiora, sua mãe adotiva, talvez soubesse. Séraphine era mais uma, dentre as muitas pessoas que circulam prestando serviços à sociedade. O corpo parecia flácido e moído pelo tempo. Andava revezando os passos de um lado para o outro e talvez, quem saiba, arrastasse os pés no chão, como as pessoas de mais idade costumam fazer. Os olhos azuis, o rosto largo, os cabelos desgrenhados, em referência à cultura européia industrializada do século XIX. O chapéu preto sobre a cabeça, o xale azul a cobrir os ombros e uma cesta na mão direita. Era esse o seu uniforme cotidiano, tipificado na sua condição social. A figura de Grenouille trabalhada por Patrick Süskind em "Perfume" sobe à cabeça:

"Grenouille trabalhava feito um cavalo. Modesto, quase um escravo, efetuava todos os serviços subalternos que Druot lhe ordenava. Mas enquanto ele, aparentemente idiota, remexia, manejava a pá, lavava garrafas, limpava o local de trabalho ou carregava lenha, não escapava à sua atenção nada das coisas essenciais desse ramo de atividades, nada da metamorfose das fragrâncias". p. 186

Discreta e silenciosa, Séraphine não era afeita a conversas. Dizia apenas o necessário, como havia aprendido com a senhoria. E a olhar para o chão. Assim, não se manifestava sobre o caso que o filho tinha com a empregada ou sobre qualquer outra particularidade. Mas Séraphine, assim como Grenouille, não era idiota. De fato, aquilo pouco importava. Ela gostava mesmo era de sair pelo campo, em busca do vento nas folhas das árvores. Tinha um apreço especial pelo vento da árvore que ficava numa elevação. Chegava a subir pelo tronco quase até a copa, só para se sentir inteirada com aquele momento tão seu e de mais ninguém. E mais: fazia de tudo para descalçar as botas, numa espécie de compensação pelas amenidades.

Séraphine é então indicada pela senhoria para atender os novos inquilinos da casa. O andar de baixo é alugado por dois estrangeiros que falam alemão. A casa aparenta não ser muito larga. As paredes descascam, os ladrilhos despencam e o jardim está com a grama alta. Apesar dos apesares, a casa tinha Séraphine por perto, que além de cumprir com as obrigações domésticas, servia a refeição e o chá matinal. Na primeira vez que encontram Séraphine arrumando a cozinha, tomam um susto. Não sabiam que ela estava inclusa no pacote.

A mulher quase sempre viajava e o homem parecia um pouco ocupado na escrivaninha. As pessoas daquela cidade pequena logo suspeitam deles. O que queriam ali naquele povoado? Seriam dois espiões do governo alemão? O dono de um dos estabelecimentos escrutinava ao menor sinal de diferença neles, algo que pudesse segurar o ombro do vizinho para apontar com o dedo bem alto. "Por ali!", seguido por uma horda de pessoas carregando archotes ou lamparinas cidade adentro.     
     
Mas uma coisa eles não sabiam: que Séraphine tinha seus mistérios mais profundos. Ela fazia a coleta de materiais esdrúxulos, experimentava diferentes combinações. Sim, ela se sentia imbuída de uma obrigação secreta e mais forte. E em meio a essa obrigação, não tinha tempo para distrações. Por isso, pendurava um cartão na maçaneta da porta indicando que não quer ser perturbada. 


E justo ali, por trás daquela porta estreita e mal pintada, batia o martelo na certeza dos tons, na simpatia das formas, na reconexão com o mundo. As pastas feitas a partir daqueles substratos eram misturadas com a ajuda de um pincel sobre a superfície do papel ou madeira. Por não ter espaço suficiente em seu cômodo, pintava à luz de velas, no chão. Essa espécie de ritual com a arte lhe garantia um prazer comedido, quase beatífico, fazendo com que compromisso com a obra fosse total, até o último suspiro.

Pequenos quadros saem desse contrato com o divino. Consegue retratar aquilo que seus pés um dia lhes puseram em contato e borrava, borrava para que pudesse dar espaço a pingentes adornos. Era assim o seu insigne e particular gozo com o mundo das intensidades em cores.

No entanto, Séraphine não podia ficar em paz por muito tempo. Um dia alguém calharia não apenas de saber, mas de dedurar (quem sabe a proprietária a quem devia dois meses de aluguel? quem sabe o pároco da aldeia que nem aparece na estória?). A senhoria ficou logo sabendo e, como tal, foi explicação. Assim ela o fez, com um mistura de surpresa e sorriso nos lábios. Ela poderia finalmente confessar a alguém o seu amor.

- É por um acaso um pessegueiro?
- Uma macieira, senhora.
- Não se parece.
- A meu ver, parece uma macieira - retruca o filho da senhoria.
- Os tons não se parecem com os da macieira. Onde já se viu uma macieira desse jeito?
- A meu ver, é uma macieira - reforça o filho, como em tom de provocação. 
-  Não, não é possível... Seráphine? Ainda está aqui? Volte ao seu trabalho!

E, por fim, escondia o quadro atrás do sofá.

Por alguma razão, alguém calharia também de informá-la que aquele alemão era um famoso crítico de arte. Foi uma festa. A senhoria quis chamar seus amigos particulares ou aqueles que conseguiam reproduzir um gosto em comum e logo veio a ideia de convidá-lo para um jantar. O fato é que não sabiam que o interesse daquele crítico estava em Picasso e na arte moderna, passando ao largo da arte decorativa que tanto agradavam seus olhos. 

Ele não aguentou tanta mediocridade e precisou se retirar.  Na saída bateu os olhos no quadro escondido, sabe-se lá porque. Ficou extático.  E mais extático ainda quando soube que o artista era ninguém menos que Séraphine, a senhora da faxina. É verdade que já havia percebido algo de especial nela, em especial num momento em que ao perceber sua tristeza diz:

- Senhor Orzt, o dia em que você estiver triste, converse com as árvores, os pássaros e as folhas! Logo sua tristeza vai embora. Eu não sei ficar triste. 

No dia seguinte foi ao encalço dela. Tentou uma maior aproximação e ela insistiu nas distâncias. Ela estava ocupada na limpeza. Ele quis mostrar a importância da obra.

- Senhor Orzt, pare de zombar de mim.

Uma pequena sinfonia se estabeleceu entre os dois. Orzt tinha já comprado algumas obras e prometeu exibi-las numa exposição em Paris. No meio desse processo, a guerra começa. Ele precisa retornar para a Alemanha. Havia que cumprir com uma certa obrigação, a mesma que faria com que alguns franceses começassem a lançar ovos podres nas janelas da casa.


Adeus.
Adeus.

De cabeça baixa, Seráphine isola-se na pintura. Seu campo de atuação não se restringe mais ao seu diminuto quarto,mas a espaços destruídos, incluindo a casa da senhoria, agora abandonada por completo. Todos aqueles que alguma vez havia erguido o queixo, aprendia a sentar e a se encolher. 

-- 

13 anos depois, Orzt morava numa casa de dois andares, no sul da França. Dividia o espaço com sua irmã,a quem acompanhava sempre e um rapaz tuberculoso que nas horas úteis pintava.
compartilhava a cama de Orzt, tal qual Tadzio possivelmente teria feito, na cama de Aschenbach.
Tudo com o máximo de discrição para com as três empregadas francesas que cuidavam dos vários cômodos da casa.


Esse tipo de preocupação refletia na condição de vida deles, agora mais abastada. Com o cavanhaque branco, Orzt se mostra preocupado com a saúde do rapaz esguio, bem como com os rumos da autenticidade na pintura contemporânea.

Séraphine era tida como um estilhaço do passado, uma personagem que a belle époque lhe trouxe, silenciada pelas circunstâncias históricas. Ele talvez tenha aprendido que nesse ramo é necessário seguir em frente o ofício, pois a relação humana se dá pela cumplicidade e estavam cúmplices, naquele instante, o rapaz e ele.

De repente, numa dobra de jornal, descobre uma tal mostra da prefeitura com artistas locais da cidade.  Naquela mesma manhã ou em dias anteriores, a sua irmã lhe havia recordado. Coincidência? A lembrança se faz oportunidade. Os olhos vão, curiosos. E ele caminha pelo espaço apertado da galeria como se estivesse atrás de algo quente. Foi então que a redescobre tal qual Fênix, mais madura no estilo. Estava claro que era ela naquela parede e que ela havia crescido em aura. Se antes havia um grau de semelhança com a natureza morta, agora havia uma diferença sutil, havia sensação. Imiscuía na forma analogias afetivas de fino púrpura, em curvas acentuadas e polens delicados. Havia substrato ali. Havia vida.

O crítico não tarda a procurá-la, no mesmo local, subindo a escada à direita, no fundo do corredor escuro, porta branca e pequena. Ao abrir a porta, ela não se surpreende, como premeditado estivesse. A santa lhe havia contado tudo! Ela comunica ter abandonado os serviços domésticos por inaptidão. Seu corpo não mais corresponde às demandas exigidas pelo senhorio. Desde aquela exposição, parece estar conseguindo viver da sua obra.

E ele a conduz ao mecenato. A partir daquele momento ela desembesta. Quer o vestido, a casa e o carro.A devoção que ela tinha pela santa era total. A filha da vizinha torna-se amiga e dama de companhia.  As portas todas se abrem, tal qual se tratasse de um pacto com o divino. Interpreta o direito como uma benção, um direito para a fama e importância, usufruindo de uma necessidade que precisa então subir mais, brilhar mais, virar estrela. 


Mas o tempo passa. Já é 1929. Há uma crise mundial em percurso que a santa não conhece. Nesse ínterim, o rapaz adoece novamente. Orzt não consegue mais prometer a ela, logo naquele momento de ascensão! A proprietária que mora no andar de baixo, percebe que Séraphine não tem mais cantado, o que significa que não tem mais pintado. Entretanto, ela a escuta murmurando, cochichando qualquer coisa.

Num domingo qualquer, Séraphine sai vestida de noiva,a distribuir presentes a todos. Leva consigo talheres e castiçais prateados, comprados recentemente para enfeitar a sua ascensão. Já que não há tempo para ascensão, talvez quisesse retribuir àqueles que não a queriam. A cada um. Ela é assim internada num leito coletivo, por onde passa a respirar sob o testemunho de todos, inspecionada por enfermeiras e médicos de plantão.

Séraphine, estrangeira do mundo, está sendo silenciada. Há fantasma e dor por toda a parte. Durante uma noite, alguém se põe a mexer no seu cabelo. Ela grita, ameaça bater,morder e acaba sendo conduzida a uma camisa de força. Sua dor é de uma fissura tamanha, de um vazio como nunca encontrara antes e sob o qual nada é capaz de fazer.

Orzt reconhece tenta ser gentil na escolha de um quarto particular, próximo a uma janela e uma porta. Séraphine, por alguma sorte, assim que adentra o quarto, pensa na porta. E ela se abre. Lá fora, o vento a chama outra vez. A árvore enorme que antes a acompanhava em mistério e sutileza está logo ali, ao seu lado. O dia é branco, imensamente branco.