quarta-feira, 12 de julho de 2017

Da série "A provação da luz": Notícias de Casa (Chantal Akerman, 1997)





Numa viela aberta, as paredes são becos encardidos e fétidos. Garrafas, latas, caixas de papelão, canetas, cacos de vidro,cacos de vaso, cascas, restos e lastros. A lixeira verde é enorme e acumula esse amontoado de coisas que a cidade produziu e produz. À distância, um carro branco dobra a esquina em direção à câmera. Estamos na "Big Apple", em meados dos anos 70, época dos black power, black panthers, disco music, "Embalos de Sábado à Noite". Época da marginália e da violência estatal; época da corrupção e do crime à queima-roupa. Um tempo que não passou.

É final de tarde. Os faróis do carro iluminam parcialmente as paredes. Para cima e para baixo, a carcaça do veículo segue o ritmo da suspensão. Alguém segura o volante com força. Dobram a esquina quatro homens com sacolas e itens recém-adquiridos. As vestimentas proporcionais ao humor.

Segundo quadro. A câmera captura a total ou quase ausência de movimentação humana. O semáforo pisca o amarelo por repetidas vezes. O vento carrega um pedaço de plástico. Um carro azul surge no ângulo da câmera. No horizonte,começa a se desenhar o poente. O que esperar de uma confissão tão sincera?

Não ausência de uma finalidade discursiva, há apenas uma simples e espontânea maneira de capturar o cotidiano, como Lumière outrora teria feito. Uma voz in off se descortina. Ela é frágil, baixa e educada. Inicia a leitura da carta íntima que recebe de sua mãe. Nela há um emaranhado de afeições e delicadezas em torno de questões que não nos dizem respeito.  Preocupações cotidianas tão triviais e banais que geram simpatia a quem a ouve. E isso porque aquele que vê pela câmera-olho se faz de única testemunha. O privado se mistura ao público, como se indissociáveis fossem.

No metrô carregado de pessoas, próximo a faixa de pedestres, entre um abrir e fecha de sinal, pessoas entrecruzam presenças e ausências. Esse desdobramento das intimidades se dá em variados lugares: na presença de um público aparentemente indiferente ou daqueles que se intimidam pela câmera, tomando a ação distraída da filmagem pelo lado pessoal, tal qual estivessem num desejo por apagamento: por exemplo, a insistência do senhor de roupas verdes que insiste em esconder a palidez.

Por fim, resta na mente, o reflexo das luzes num dia de chuva. O silêncio. A solidão ruidosa de alguém que, afastado de casa, recebe algumas frases de notícias sem conseguir retrucar na mesma moeda. Porque para um estrangeiro o silêncio é revestido de fascínio e medo, pois a rotina daquela cidade faz apagar as pessoas. E apaga porque pensam "bom dia", "boa tarde" ou "boa noite" como forma de, com a educação, tapear que está sendo incomodado, uma vez que seria infinitamente melhor não ter quem pudesse perceber naquele momento. Porque não convém que algo possa atrapalhar seus planos de lucidez e idealidade. A liberdade é assim usufruída, numa tal angústia e ansiedade da existência que garante a normalidade do dia-a-dia.

A cidade é imunda na proporção de indivíduos que precisam pagar pelo que sujam. E nem assim o faz. Na cidade há algo muito mais importante do que o dinheiro circulando em cada esquina. Há o número, a numeração, o incômodo. Incluindo a régua dos estereótipos. O que dizer? Não dizer, passar, como quem não vê nada por estar olhando para onde pisa.

A cidade que é feita de falta precisa ser preenchida pela cor e ornamento. As crianças brincam em meio ao hidrante estourado, o metrô está pichado e a prostituta marca os lábios com batom barato, comprado de um usuário de heroína, num beco. Não há como dizer isso tudo para uma mãe que fala de pudins o tempo todo. Chantal entende certas contradições e certas impossibilidades.

No silêncio onde cada imagem precisa ser negociada há um desejo pelo distanciamento. É preciso que finalmente a cidade diminua de tamanho, para que de pouco a pouco seja vista como uma lembrança, um registro fílmico de uma experiência que passa. Chantal joga Excalibur na água. Avalon floresce em bruma e melancolia. Hora de retornar para o velho enlace. A realidade novayorkiana, afinal, não precisa dela.


 


"(...)Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é."

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa   

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