domingo, 27 de janeiro de 2013
Labo 1: O jogo
[leitura performática sobre poema de Drummond]
Fundo musical: Variations sur une valse de Johann Strauss, Op. 23 de Jozéf Koffler, gravação de 1935.
ONDE HÁ POUCO FALÁVAMOS
É um antigo
piano, foi
de alguma avó, morta
em outro século.
E ele toca e ele chora e ele canta
sozinho,
mas recusa raivoso filtrar o mínimo
acorde, se o fere
mão de moça presente.
Ai piano enguiçado, Jesus!
Sua gente está morta,
seu prazer sepultado,
seu destino cumprido,
e uma tecla
põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
É um rato?
O vento?
Descemos a escada, olhamos apavorados
a forma escura, e cessa o seu lamento.
Mas esquecemos. O dia perdoa.
Nossa vontade é amar, o piano cabe
em nosso amor. Pobre piano, o tempo
aqui passou, dedos se acumularam
no verniz roído. Floresta de dedos,
montes de música e valsas e murmúrios
e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
ele estronda. A poeira profusa salta,
e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
Assim nosso carinho
encontra nele o fel, e se resigna.
Uma parede marca a rua
e a casa. É toda proteção,
docilidade, afago. Uma parede
se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
o medo imemorial, os inspetores
da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
Uma cadeira se renova ao meu desejo.
A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
e confiantes. A casa vive.
Confio em cada tábua. Ora, sucede
que um incubo perturba
nossa modesta, profunda confidencia.
É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
busto e humour. Uma dolência rígida,
o reumatismo de noites imperiais, irritação
de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
e tudo que deixam mudanças,
viagens, afinadores,
experimento de jovens,
brilho fácil de rapsódia,
outra vez mudanças,
golpes de ar, madeira bichada,
tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
meio grotesco também, nada piedoso.
Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
objetos, modo de dobrar o Unho, gosto
de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
a coleção de retratos, também alguns livros,
cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
bem sei, mas e esse piano?
Está no fundo
da casa, por baixo
da zona sensível, muito
por baixo do sangue.
Está por cima do teto, mais alto
que a palmeira, mais alto
que o terraço, mais alto
que a cólera, a astúcia, o alarme.
Cortaremos o piano
em mil fragmentos de unha?
Sepultaremos o piano
no jardim?
Como Aníbal o jogaremos
ao mar?
Piano, piano, deixa de amofinar!
No mundo, tamanho peso
de angústia
e você, girafa, tentando.
Resta-nos a esperança
(como na insônia temos a de amanhecer)
que um dia se mude, sem noticia,
clandestino, escarninho, vingativo,
pesado,
que nos abandone
e deserto fique esse lugar de sombra
onde hoje impera. Sempre imperará?
(É um antigo piano, foi
de alguma dona, hoje
sem dedos, sem queixo, sem
música na fria mansão.
Um pedaço de velha, um resto
de cova, meu Deus, nesta sala
onde ainda há pouco falávamos.)
Carlos Drummond de Andrade in A Rosa do Povo
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Da série "Obras anônimas": Robert Walser
Robert Walser
[autor desconhecido]
The Plain Of Lavrion
Rosa & Wandering
[Eleni Karaindrou]
1982
"A Primeira e Única
Ela,
a cujos poemas eram endereçáveis; ela,cuja importância é notável, que
não escreve poemas apesar de servir como significativo poema ao poeta -
eu a conheço. Se alguém a lança gracejos, fica atônita. Eu já declamei
para ela, mas nada que me satisfizesse. Ela me enxotou; o que fez com
que sorrisse, alegremente, como se ela tivesse me dado uma noite com
ela, daquelas que causam arrepios no poeta, porque até então era
permitido a ele somente imaginar suas pernas. Depois disso, eu jamais
amarei novamente. Ela fez de mim uma criança que se maravilha com a
terra, é submetida a belas instruções, e reverencia a Deus. Os
sapatinhos não são tão charmosos assim. Mas eu amo o jeito como ela
brinca com o lencinho. Eu não tenho permissão para vê-la novamente, e
ainda assim, estou feliz. Com ela, o meu comportamento era vergonhoso,
pois em sua presença eu tremia,apesar de pretender me mostrar seguro de
si. Mas terminei tremendo por causa da idiotice do amor, que muito me
irritou. Ainda assim, longe dela, eu a acariciei, brinquei com ela, dei
cambalhotas como um lunático, um menino bobo. Por quatro anos eu poderia
ter sido capaz de esquecê-la, mas tudo voltava de novo. A lembrança
dela era encantadora. Eu não fazia ideia do poder que uma garota tinha.
Toda a fidelidade, tudo que era bom em mim não era nada páreo às vestes
da Primeira e Única. Eu estou animado, como se estivesse diante do
início da manhã, apesar de ser meia-noite. Eu escrevo isto, como se
estivesse dando para ninguém ler."
Escrito entre 1924-25 na folha de rosto do seu livro "Poemas" (1919) in "Speaking to the Rose: Writings, 1912-1932" p. 33
(tradução livre minha)
Original traduzido para o inglês abaixo:
"The One and Only
She to whom poems are addressed, who is significant, who writes no poems but is a poem significant to a poet — I know her. If one is fresh with her, she shows only glorious astonishment. I have sung her,
but not yet to my satisfaction. She chased me off; at which I laughed, happily, as if she'd given me a night with her, such as leaves the poet cold, because he has long since been allowed by his imagination to see her limbs. After that, i'll never love again. She made of me a child who marvels at the earth, is subjected to beautiful instruction, and reveres God. Her shoes are not especially marvelous. But I do love the towel she toys with. I do not have permission to see her again, and yet, if it really should not be so, I'm happy. With her my behavior was shameful, for in her presence I trembled, and I tried to pretend I was superior to her and found this trembling, this love, foolish, and almost detested it. Yet, far from her, I caress her, play with her, caper like a lunatic, a silly boy. For four years I might be able to forget her, then everything would come over me anew. To know this, enchanting. Till then, I had no idea what power a girl has. All fidelity and whatever else is good in me comes to nothing against the vesture of the One and Only. I'm
cheerful, as otherwise only in the early morning; but it is midnight. I write this out, as if giving it to nobody to read"
but not yet to my satisfaction. She chased me off; at which I laughed, happily, as if she'd given me a night with her, such as leaves the poet cold, because he has long since been allowed by his imagination to see her limbs. After that, i'll never love again. She made of me a child who marvels at the earth, is subjected to beautiful instruction, and reveres God. Her shoes are not especially marvelous. But I do love the towel she toys with. I do not have permission to see her again, and yet, if it really should not be so, I'm happy. With her my behavior was shameful, for in her presence I trembled, and I tried to pretend I was superior to her and found this trembling, this love, foolish, and almost detested it. Yet, far from her, I caress her, play with her, caper like a lunatic, a silly boy. For four years I might be able to forget her, then everything would come over me anew. To know this, enchanting. Till then, I had no idea what power a girl has. All fidelity and whatever else is good in me comes to nothing against the vesture of the One and Only. I'm
cheerful, as otherwise only in the early morning; but it is midnight. I write this out, as if giving it to nobody to read"
A rosa amarelo-púrpura
Estava
enamorado. Na frente de uma floricultura foi quando se deu conta. Os
pés avançavam inevitáveis como se calçassem coração, que de tão tinto o
pôs logo entrecortando a emoção no ramo. Havia as brancas, vermelhas,
amarelas e azuis, cada uma dotada de um rosto específico. As mais claras
sorriam oblongas como se serpenteassem muitas vezes no ar. As vermelhas
conseguiam destacar-se diretas e pungentes, como estrelas perenes a
bombear uma antiga canção com patetismo.
Definitivamente
não parecia estar ali, próximo da empresa funerária e do aterro
sanitário dos novos prédios em construção, por onde um murmurinho de
passos vagueava pela calçada enlameada de chuva e marrom dos capotes e
chapéus, o dia ensimesmando a anoitecer depressa.
Toca
os espinhos: todos baixos como a crina de um animal asinino. A
fragilidade ressoa tão infensa naquele conjunto de cores e carrosséis
que nem juntando todo o luto do asfalto conseguiria redimir o
cristalino. Tampouco pareciam encubadas: adormeciam juntas como Branca
de Neve na água de um balde, vigiadas por um dono, espécie de
carcereiro, gigante mal enfadado, que girava um molho de chaves
imaginárias enquanto ocupava o tempo com coisa nenhuma. A voz de
noticiário, o travesseiro que tinha.
A
forma nobre e principesca de como feneciam o encantava. Havia de
escolher a que mais se aproximava com a amada em gesto, atitude e sabor.
Abelhinha veio e procurou, a cada batida do amor, o tampão de sua
paixão. Encontrou, como se descarrilhasse, a amarelinha aninhada às
vermelhas. Ao aproximar o nariz do botão exalou intimidades, fragrâncias
nectarínicas que vinham do centro e se ramificavam nas narinas. O
amarelo listrado das espigas. Sim, era a própria.
Paga
o sonho e voa pela porta à fora segurando-a com alento junto ao peito.
Segurava ainda que se sentisse segurado, como se ela sobrevoasse por si,
ele acompanhando ela, apenas. Ao aterrissar, esconde-a imediatamente
sobre o casaco puído com um zelo quase maternal. Passa pela recepção.
Nada como a força do hábito para vendar o segredo tão seu. Ela se
embarasta pela camisa como se deitasse sobre um lençol quente. Seu
presente estava ali, naquele lado do corpo.
Um
par de olhos cor de rubi salta a cena. Tinha a boca fina e pele de
praia salitrada. A sensação de leveza juvenil a qual nenhum vestido
conseguia superar e os sapatinhos lilás, como a presença solar. Ele
sabia bem daquele arrepio, só não sabia se negociar. De fato, nunca
manejou bem as misteriosas transações afetivas, sabendo proferir só os
recortes de jornais, sensações consolantes. Lia bastante a respeito,
conhecendo estrofes de poemas amorosos de cor e passagens de filmes onde
o afeto se fazia presente, no momento da deflagração, como estímulo
para o braço da vontade. Mas por fim, nunca viola a fronteira da
proteção. É aí que a coisa estanca e faz galhos antes do tempo. Ele e
ela, separados, conversando como pessoas que nunca se tocaram sequer em
presença. Mesmo quando isolados a dois na copa durante a lavagem dos
talheres e louças usadas no almoço, ela poucas palavras desfraldava,
remexendo as franjas do vestido que ele,encostado à parede, observava;
as pernas mais ao fundo de eriçadas penugens. Mas ela quiçá o olhava.
Era capaz de pedir licença para passar quando finalizava o serviço.
Quando ocorria de permanecer alguns segundos a mais tête-à-tête,
volvia rápido a cabeça ao sentido original, profunda fugitiva. Imaginou,
por vezes, Gabriela, aquele nome tão acortinado, permeando os arredores
do escritório, salteando palavras doces no ar e ele retribuindo as
bênçãos no pescoço, animado com a chama, à revelia da antiga
companheira: a melancolia. Ele agarrando com as mãos aquela cintura
quando permanecia na copa, num calor serotoniano da abundância imantada.
Mas o que amava exatamente nela? Talvez estivesse vendo demais...ou
talvez estivesse morrendo demais. Matutava, neurótico, o desejo ás
escondidas. A flor debaixo do casaco puído.
No
escritório, rega e apronta o jardim para o desvelo imediato que o faz
esquecedor do mundo. Gaguejaria naquele instante se a pergunta mais
fácil fosse proferida. O amor vive a comer, como um poeta diz.
Débil, sobretudo débil no que tange ao nó górdio dos acortinados, uma poça que não retrocede mesmo que rache, abra cratera.
A
mão da noite se faz presente e a oportunidade, antes adiada, se torna
imperiosa a partir da estrutura metálica dos ponteiros que cortam e
separam como ninguém.
Está em fuga o tempo. Está em fuga e já lhe falta espaço para simetria.
Ele
decide por levantar a aba do instante para, depressa, esgueirar-se
sobre a mesa dela um papel minúsculo escrito o mais legível possível.
"Seu admirador secreto.
P., aquele que não consegue ser rosto, sem deixar de ser coração"
Seu nome J., mas no entanto P. no papel recortado. A corda se esticando sobre o corredor escuro.
Parte em retirada.
Ao amanhecer, chega e encontra o retrato dela na carteira de um amigo. Diz que se amam, mordendo o lábio inferior.
Ele sorri só as dobras da boca, apesar dos olhos caírem. Levanta de leve o chapéu e sai.
Retira
a flor da vasilha e a põe dentro do casaco. E a partir de então passa a
observar os dois, como osso de uma mesma carne. Faz isso até a
despedida, pétala por pétala.
"...sem saber...que o sempre...sempre acaba", se ouve baixinho.
Mas
não havia acabado. Estava decididamente enamorado para qualquer
derrisão. A sua satisfação começava logo de manhã cedo ao reencontrar o
solo fofo com a sola dos pés. Um salto a mais e isso bastava.
Texto originalmente publicado na revista Estudos Humeanos, no. 79
Texto originalmente publicado na revista Estudos Humeanos, no. 79
sábado, 13 de outubro de 2012
Sentimento de mundo
Pela janela, a casa escuta a fechadura. "É noite", diz, apesar das cortinas estarem abertas. Não há sono e, por isso, abertas estão, como quem ainda sustentasse o pano, à espera de alguma coisa que não sol. Janela, você não nasceu hoje. Em ti caminha algum espelho o qual o mundo anseia em colocar para fazer-te aos próprios olhos, mal sabendo ele que você carrega um também, próprio, indecifrável à reles rotina dos seus atos.
Ele acaba de a visitar, agora. Traz consigo uma pilha de imundices, querendo-a manchada e estragada. Sangra a tua vista, a ponto de nunca mais poder ser outra coisa senão aquilo em que te envolveu. Esse é o medo que a faz tremer as cortinas, pois sem poder correr, condenada está a ser quebrada, a sofrer danos irreversíveis. Dependerá da casa se prestar a colocá-la sobre outra margem - e ela não é boba para te perder de vista...
Janela, sabe esse esfumaçar de vida a qual chama de crepúsculo, a mesma palavra dessa coisa em que te metem? Poeira sobra para levantar paisagens, constelações, idílios longínquos dos quais assisto da ponta de minha janela.Às vezes penso que você também se quede por tais fantasias idiotas, e não tão somente da parte do alívio prático, quando o cristalino te recupera, tirando-a do fundo do esquecimento maldito que o mundo a quer. Nocauteada, você sorri depois, por conseguir transfigurar a realidade, sentindo-se satisfeita por te desfigurarem, dando a ligeira impressão de estar acima daquele que a fere...
A sujeira desce, se junta ao que restou das outras vezes e por lá fica como lembrança a reafirmar presença. O relevo cresce, naturalmente. E a cada vez que o mundo desemboca, o coração bate depressa, o pano levantado. Chega um ponto em que estoura e vaza o passado, escorrendo lacrimal até a mesa de sua cozinha refinada, embebendo o tecido de sua gênese espalmada, soberana, tal qual uma estatueta num dia chuvoso.
Cansada, sem se cansar, caminha a presença da janela às portas do se poder sonhar.
Inspirado num vídeo performático de uma querida pessoa.
Ele acaba de a visitar, agora. Traz consigo uma pilha de imundices, querendo-a manchada e estragada. Sangra a tua vista, a ponto de nunca mais poder ser outra coisa senão aquilo em que te envolveu. Esse é o medo que a faz tremer as cortinas, pois sem poder correr, condenada está a ser quebrada, a sofrer danos irreversíveis. Dependerá da casa se prestar a colocá-la sobre outra margem - e ela não é boba para te perder de vista...
Janela, sabe esse esfumaçar de vida a qual chama de crepúsculo, a mesma palavra dessa coisa em que te metem? Poeira sobra para levantar paisagens, constelações, idílios longínquos dos quais assisto da ponta de minha janela.Às vezes penso que você também se quede por tais fantasias idiotas, e não tão somente da parte do alívio prático, quando o cristalino te recupera, tirando-a do fundo do esquecimento maldito que o mundo a quer. Nocauteada, você sorri depois, por conseguir transfigurar a realidade, sentindo-se satisfeita por te desfigurarem, dando a ligeira impressão de estar acima daquele que a fere...
A sujeira desce, se junta ao que restou das outras vezes e por lá fica como lembrança a reafirmar presença. O relevo cresce, naturalmente. E a cada vez que o mundo desemboca, o coração bate depressa, o pano levantado. Chega um ponto em que estoura e vaza o passado, escorrendo lacrimal até a mesa de sua cozinha refinada, embebendo o tecido de sua gênese espalmada, soberana, tal qual uma estatueta num dia chuvoso.
Cansada, sem se cansar, caminha a presença da janela às portas do se poder sonhar.
Inspirado num vídeo performático de uma querida pessoa.
domingo, 7 de outubro de 2012
Cambalhota ou a capacidade de se entortar direito
Seated Figure (1946)
[Francis Bacon]
[Francis Bacon]
"Señora: en esta historia nada pasa. Lo mismo sucede en la vida, que si algún día ocurre algo es tan inverosímil y absurdo que preferiríamos no hubiese pasado"
Luís Cernuda in El viento de la colina apud Obras completas, Murcia, Siruela,1994. p. 268.
Sozinho, o artista configurava os remendos do palco. Pequeno movimento nas mãos baixas ajeitava o que tinha à disposição: um papel branco e uma caneta hidrocor. Como uma sutil sinfonia, ele segurava as duas no primeiro fio de se fazer discurso. Delas saíam palavras que só criavam sentido se ordenadas na parede - a partir desse momento também pele do artista. Ao passo que as pernas passam a se altefazer, o corpo (antes baixo) ergue a musculatura, a riscar e fazer riscar as vezes, saltitantes formas. Oscar Wilde. Conceitos sobre modernidade e o tempo do já passou. Questões. O corpo sobe, toma a vida das questões e logo poses surgem, ironias, sublevações que extrapolam a zona do palco, tornando-o cada vez mais mundo, com direito a experiências sensoriais e tudo. A camisa cai. Depois a calça. A cueca, esta atraída pela superfície imantada da parede branca, pele de Moby Dick.
Por fim, passa a ser - na íntegra - puro corpo, apesar de já nem tão puro, o corpo. Os tênis da NIKE não desgrudam, como se quisesse acusar o corpo da culpa que tem. Essa observação do objeto que o doma, fazendo dele animal inconteste, de muitos dentes e nenhuma gravata, vem só minutos depois quando a nudez passa a ser colocada de lado e naturalizada perante a normatização de um corpo que sofre a bulimia da indústria e do consumo recalcante. Está nu, a usar focinheira, numa agonia de causar fim. Lateja o púlpito da carne, o corpo mesmo completo, já nada significante frente ao estarrecedor governo do de fora que o cansa e vai cansando ao som do fazer, como se agulha fosse a se aproximar da pele-nossa, através do olhar, parte que fica sem deixar. Vai enrispecendo o corpo, tornando-o mais vermelho, mais cansaço, mais absurdo de agulha, a ponto de gemer, tremer como em delirium tremens, na consumação sem retorno, o corpo só a obedecer e desgastar o forro do limite.
...
Esquisita a sensação quando algo mesmo apontando ao irresoluto, é fim de ponto e tudo, quando sai pela porta dos fundos e fica. Dá a sensação de que aquilo nunca existiu, que não passou de uma indisposição qualquer, mesmo que acontecesse diariamente, sob o peso do excesso que faz de nós consumidores de um só produto, ta qual mais possível fosse amar uma imagem que um coração manchado de sangue por dentro.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Da série "Obras anônimas": Bruno Schulz

Old World
[Tin Hat]
"Não há objetos mortos, duros, limitados. Tudo se difunde para além dos seus limites, permanece apenas um instante numa determinada forma, para deixá-la na primeira oportunidade. Nos costumes, nos modos de ser dessa realidade manifesta-se um certo princípio - o da pan-mascarada. A realidade reveste-se de certas formas apenas para fingir, para brincar, para se divertir. Alguém é um homem, alguém é uma barata, mas essa forma não atinge o essencial, é apenas um papel assumido por um momento, apenas uma epiderme, que logo será tirada.(...) A vida da substância consiste no gasto de inúmeras máscaras. Essa migração das formas é a essência da vida. (...)
Trechos da carta de Bruno Schulz a St. I. Witkiewicz de 1935. BN, 443
O Caderno
Em meio ao esfarelar das horas alguém revirava a estante. Mãos mergulhavam de cima à baixo num movimento de inércia frouxa, como quem retira as pedras de uma ruína há muito esquecida. Lá jaziam páginas e mais páginas da memória humana, letras submersas e destituídas de qualquer função prática e que permaneciam estáticas, ressequidas pela ferrugem e pelo mágico anelo das teias. Os dedos logo ficavam pretos de tanta tintura velha.
Bastou um sopro para as imagens desembaraçarem os grilhões, levantando as asas numa simplicidade muito nostálgica. Foi assim que, repentinamente, um caderno azul se materializou cor. O azul forte da capa com um estilo jovial, adquirido por inteiro desejo de sua mãe para as aulas escolares, fez com que nele se agitassem dias remotos em quando apoiava o cotovelo na beira da mesa e se debruçava sobre aquela relva de folhas alvas para inoculá-las de letras,caprichos e garranchos.
O ruído dos anos atravessados pelo roçar da folha sobre o metal espiralado era inestimável aos seus ouvidos. A estrutura das páginas seguia um ritmo específico quando o então copista procurava repetir os sinais sagrados profeciados pelo professor de Português. Sim, era um caderno de Português e Redação que continha informações imaculadas por um homem de pêlos másculos e bigode engraçado. É fato que não chegara a conhecê-lo pessoalmente e que para muitos sua existência residiu naqueles momentos quando,segurando o bigode com a boca, oscilava a caneta pelas provas e boletins. Usava sempre camisa Polo e uma careca invejosa sobre a cabeça. Às vezes brincava mais do que necessário com algumas meninas, porém isso não empobrecia a didática respeitosa e séria das olheiras esguias.
O indivíduo que segurava o caderno não sabia como aquelas páginas, antes tão frescas de bronze, passaram anos adormecidas como um corpo carbonizado pela chama. Com alguma paciência era possível testemunhar frases que rebolavam as sombras de seu próprio universo, naquele tempo das peregrinações. A mão que agora estirava a leitura sobre a solitária luminária da cabeceira, impregnando-a de rodelas sujas, não era a mesma mão.
Fechando os olhos e deslizando o indicador e o polegar pelas feridas emudecidas das folhas, sentia o tempo nas colorações do leito sossegado; a fricção violenta que outrora fez sucumbir aquele caderno àquelas inscrições inférteis e sobranceiras. Dificil acreditar como,nas tardes serenas pós-recreio, se obrigava a deslizar o pulso — ainda cheirando a requeijão — pelo caderno,cheio de energia, até transplantar todo o conteúdo do imenso quadro negro…
Retirada a pele do infante, uma outra transparece,tão viva e misteriosa quanto o último dia em que o caderno precisou ser aberto no itinerário ingênuo de beato sem causa e o professor dar as caras em sala de aula.
Pequenos exemplos contidos naquelas folhas pareciam dilapidar uma tortuosa saga passada pelo homem de bigode, que resistia sob o estandarte de um poema sem jeito. Quase nunca faltava. Chegava em sala com aqueles braços e mãos cobertas de giz e, levantando o bigode na projeção do nariz imenso, agitava braços como varinhas, que mais pareciam penas fofas, ainda que os dentes lhe apodrecessem a aparência e a idade pesasse a face. Trazia um anel de noivado em uma das mãos, isento de esplendor, que fazia questão de exibir às freiras e padres daquele lugar. E como se divertia naquelas ocasiões!
Vivia reclamando por algo às escuras e sabia muito bem esconder suas amarguras no miolo das frases. Na paisagem de seus exemplos, o recheio vinha carregado de obscura melancolia, como nas pinturas de Adolph Menzel, seja sobre as flexões verbais onde os dias eram chuvosos em Petrópolis ou em algo mais. Às vezes ele se soltava e tentava incrementar com alento, porém repetia-se prenhe de tempestades camufladas e chuvas e Petrópolis; algo que o jovem copista na época nunca se atentara, afogado no contexto, na seriedade dos deveres e na dormência dos dedos. Certa vez, um pouco mais acordado, avistara no braço esquerdo uma tatuagem querendo sair pela manga da camisa. E um pouco abaixo, um músculo montanhoso que certa vez alega ter visto flexionado, para as meninas adoradoras de abacates.
Não havia dúvida de que gostava de sentir-se jovem e revigorado, mas algo entre o ir e o vir costumava minguá-lo de uma maneira bastante estranha.
Passava as tardes ora no parapeito estudantil ora encolhido a caminhar pelo pátio, sozinho, com o pensamento nas mangas da camisa e um copo de café nas mãos, em passos cada vez mais langorosos e apertados por aqueles sapatos que mais pareciam botas. Quando um padre passava próximo a ele,sorria como quem tivesse engolido um peixe inteiro de uma só vez. Depois sua boca sumia, permanecendo apenas os olhos recortados.
Passava as tardes ora no parapeito estudantil ora encolhido a caminhar pelo pátio, sozinho, com o pensamento nas mangas da camisa e um copo de café nas mãos, em passos cada vez mais langorosos e apertados por aqueles sapatos que mais pareciam botas. Quando um padre passava próximo a ele,sorria como quem tivesse engolido um peixe inteiro de uma só vez. Depois sua boca sumia, permanecendo apenas os olhos recortados.
Os dias passavam sob uma mesma afinação de corda até o sinal tocar. Ele ainda permanecia por algum tempo arrumando a pasta preta e a morder o mindinho, mas quando erguia da cadeira, fechava-se em seu bigode, a cabeça mantida baixa e, com as golas soçobrantes da camisa Polo, se retirava em silêncio com o único intuito de estrebuchar seu mal-estar nos corredores vazios, após verificar de lado a outro se alguém o seguia. E alguém estava o seguindo, realmente. Via o quão demorava no banheiro, ensaboando os dedos, passando o papel higiênico umedecido no rosto, endireitando as gravatas das olheiras.
O professor e o aluno partiram, esconderam-se nas folhagens da vida para nunca mais se verem. Como educador, deixara depositado algo muito humano naquelas frases pequenas e didáticas,agora espalhadas em não sei quantos cadernos e estantes ao redor do bairro. Mas alguém ainda o seguia de perto, porque nunca partimos completamente.
"O LIVRO
Costumo chamá-lo simplesmente o Livro, sem qualquer definição ou adjetivo, e, nesta sobriedade e autolimitação, há um suspiro impotente, uma capitulação silenciosa diante da vastidão do transcendente, porque não existe palavra, não existe alusão, que possam reluzir, emitir um perfume, escorrer num frêmito de susto, num pressentimento do que não tem nome, mas cujo primeiro sabor na ponta da língua ultrapassa a capacidade de nosso deslumbramento.
(...)
O Livro...Nalgum lugar, no amanhecer da infância, na primeira alvorada da vida resplandecia o horizonte de sua luz amena.
(...)
Inclinado sobre este Livro, de rosto flamejante como o arco-íris, eu ardia em silêncio entre um e outro êxtase. Ao mergulhar na leitura esqueci-me do almoço. A intuição não me enganou:era o Livro verdadeiro, original sagrado, embora numa humilhação e degradação profundas. E quando ao anoitecer, sorrindo prazerosamente, colocava a papelada numa gaveta mais profunda, cobrindo-a, para disfarçar, com outros livros, parecia-me que estava colocando o arco-íris, que sempre se acendia de novo, passando por todas as chamas e púrpuras, e voltava mais uma vez, sem querer acabar.
Quão indiferente fiquei agora aos outros livros!
Porque os livros comuns são como meteoros. Cada um tem o seu único momento, o momento em que ergue, com um grito, o seu vôo, feito fênix, ardendo em todas as suas páginas. Por causa de um momento desses, por esse único instante, depois nós os amamos, embora já não sejam mais do que cinza. E às vezes, à noite, passamos por suas páginas frias, movendo, como um rosário, com um ruído de madeira, suas fórmulas mortas.
Os exegetas do Livro afirmam que todos os livros aspiram ao Livro verdadeiro. Eles vivem apenas uma vida emprestada, que no momento de ascensão retorna à sua antiga origem. Isto significa que o número de livros diminui, enquanto o Livro verdadeiro cresce.
(...)
Então,a época genial existiu ou não? É difícil de responder. Sim e não. Porque há coisas que não podem acontecer totalmente, até o fim. São grandes e magníficas demais paar caber num acontecimento. Elas tentam acontecer, elas só verificam se o solo da realidade as aguenta. E logo recuam, com medo de perder a sua integridade na deficiência da realização.
(...)
Aqui ocorre o fenômeno da representação e da existência substitutiva. Um acontecimento pode ser,devido à sua origem e seus próprios meios, pequeno e pobre, no entanto, junto ao olho, pode abrir em seu interior uma perspectiva infinita e radiante, porque o ser superior tenta exprimir-se nele e brilha nele violentamente.
Assim, vamos recolher essas alusões, essas aproximações terrestres, essas estações e etapas dos caminhos de nossa vida como fragmentos de um espelho quebrado. Vamos recolher, pedaço por pedaço,aquilo que é uno e indivisível: a nossa grande época, a época genial da nossa vida.
(...)
Será que podemos arriscar a viagem à época genial?
Passamos o nosso medo ao leitor. Sentimos seu nervosismo. Apesar das aparências de animação, nós também temos peso no coração e estamos cheios de angústia.
Portanto, em nome de Deus - entremos, e vamos embora!"
Texto originalmente publicado na revista Estudos Hum(e)anos, no. 63
terça-feira, 15 de maio de 2012
Estradas de um só muro
[Lúcio Cardoso]
Music for small orchestra - 1.Slow, Pensive e 2. In roguish humor. Not Fast
[Ruth Crawford Seeger]
Intérpretes: Lucy Shelton e Reinbert De Leuuw
Schonberg Ensemble.
Os inconsoláveis
Desesperados vamos pelos caminhos
desertos
Sem lágrimas nos olhos
Desesperados buscamos constelações no céu enorme
E
em tudo, a escuridão.
Quem nos levará à claridade
Quem nos arrancará da visão a
treva imóvel
E falará da aurora prometida?
Procuramos em vão na multidão que
segue
Um olhar que encoraje nosso olhar
Mas todos procuramos olhos esperançosos
E
ninguém os encontra.
Aos que vêm a nós cheios de angústia
Mostramos a chaga
interior sangrando angústias
E eles lá se vão sofrendo mais.
Aos que vamos em
busca de alegria
Mostramos a tristeza de nós mesmos
E eles sofrem, que eles são
os infelizes
Que eles são os sem-consolo...
Quando virá o fim da noite
Para as
almas que sofrem no silêncio?
Por que roubar assim a claridade
Aos pássaros da
luz?
Por que fechar assim o espaço eterno
Às águias gigantescas?
Por que encadear
assim à terra
Espíritos que são do imensamente alto?
Ei-la que vai, a procissão
das almas
Sem gritos, sem prantos, cheia do silêncio do sofrimento
Andando pela
infinita planície que leva ao desconhecido
As bocas dolorosas não cantam
Porque
os olhos parados não vêem.
Tudo neles é a paralisação da dor no
paroxismo
Tudo neles é a negação do anjo... ...são os Inconsoláveis.
–
Águias acorrentadas pelos pés.
[Vinicius de Moraes] - 1933
Então
Lúcio volta-se para o penhasco, onde as ondas se engalfinham incessantes
e, apoiando a perna direita num calombo de pedra, faz do braço
sustentáculo para o corpo, naquele mão contra mão, deixando à revelia a
aliança na mão esquerda.
Entrega-se ao tempo, cravando na base, sem dó nem piedade.
Seus olhos seguem a sombra de um pássaro solitário em desterrado mundo, como se a sua fosse. De longe,ela mais parece combinar em expressão com o tom amarronzado do rochedo, numa grandeza eterna, silente e contínua feito morte.
(tempo órfão)
O inteiriço dela se parte ao som do precipício árido e sufocante, de peixe fora d’águas. As distâncias imprecisas, tantálicas. Pedras escarafunchadas em relevo mostram-se quentes, pontiagudas em salitre. O vento silva loucuras em seus ouvidos e cabelos. Poucas nuvens no céu de pura presença.
Queima, queima a ausência no suor do corpo, empapando a blusa, o paletó, o colarinho e até a gravata.
Um voyage modelo 78 cor caqui o aguarda a alguns metros dali. Vira o relógio de pulso na direção dos olhos, mas o reflexo do sol o impede de ver. Diz em voz baixa:
-Acabou.
Em pouco tempo o suor das duas mãos fixas umedece a calça. Lúcio ao senti-lo recolhe as palmas, na estratégia de espalhá-lo, apagá-lo, pondo-as a alisar o quente tecido. Nem por isso decide desmontar aquele jeito seu, só seu, a quem ninguém poderia reclamar senão o eu-físico dele próprio. Pálido sim, franzino também, mas Lúcio assumido de corpo e alma.
Entrega-se ao tempo, cravando na base, sem dó nem piedade.
Seus olhos seguem a sombra de um pássaro solitário em desterrado mundo, como se a sua fosse. De longe,ela mais parece combinar em expressão com o tom amarronzado do rochedo, numa grandeza eterna, silente e contínua feito morte.
(tempo órfão)
O inteiriço dela se parte ao som do precipício árido e sufocante, de peixe fora d’águas. As distâncias imprecisas, tantálicas. Pedras escarafunchadas em relevo mostram-se quentes, pontiagudas em salitre. O vento silva loucuras em seus ouvidos e cabelos. Poucas nuvens no céu de pura presença.
Queima, queima a ausência no suor do corpo, empapando a blusa, o paletó, o colarinho e até a gravata.
Um voyage modelo 78 cor caqui o aguarda a alguns metros dali. Vira o relógio de pulso na direção dos olhos, mas o reflexo do sol o impede de ver. Diz em voz baixa:
-Acabou.
Em pouco tempo o suor das duas mãos fixas umedece a calça. Lúcio ao senti-lo recolhe as palmas, na estratégia de espalhá-lo, apagá-lo, pondo-as a alisar o quente tecido. Nem por isso decide desmontar aquele jeito seu, só seu, a quem ninguém poderia reclamar senão o eu-físico dele próprio. Pálido sim, franzino também, mas Lúcio assumido de corpo e alma.
Sobem
ao patamar mais elevado, os pensamentos soltos que nem papéis e o corpo
à secura da faca a saliva padecer, ao fundo da garganta (e por que não
da voz?)
Vai ao carro como se fizesse tremer a vida que o encilha na promessa do escuro mundo do só e, com a porta aberta, deposita a atenção no oceano com a mesma transparência opaca de minutos antes, agora compassados por momentos de degustação de alguns filetes de água mineral.
— Para sempre.
As palavras soltas numa rouquidão desolada decalcam uma angústia naquela sua boca restabelecida que o incomoda. O tom final delas lhe causam comoção, perturbando até as íris que não conseguem encaixar sossego algum.
Vai ao carro como se fizesse tremer a vida que o encilha na promessa do escuro mundo do só e, com a porta aberta, deposita a atenção no oceano com a mesma transparência opaca de minutos antes, agora compassados por momentos de degustação de alguns filetes de água mineral.
— Para sempre.
As palavras soltas numa rouquidão desolada decalcam uma angústia naquela sua boca restabelecida que o incomoda. O tom final delas lhe causam comoção, perturbando até as íris que não conseguem encaixar sossego algum.
Entra
no veículo. E com o braço agora apoiado no volante, olha para o céu,
como se observasse algo de interessante. Mas nada havia senão Lúcio. A
quentura do automóvel o desperta pela segunda vez. Por fim, limpa o suor
que escorre pela manga da camisa e retira-se.
Ao abrir a porta do apartamento em que mora há alguns anos, Alceu o recebe com um beijo no rosto:
— Já ia te ligar.
Lúcio em silêncio deposita o molho de chaves na mesa e toma três goles refrescantes de água. Continua:
— Conseguiu ir ao casamento?
— Perguntei ao Henrique e ele me indicou o caminho.
Segue para o chuveiro. Esfrega com violência o corpo, principalmente o rosto, com sabão de coco, observando vez ou outra se suas mãos brancas retinham algum pelo. Sentia segurança ao ver-se limpo deles, logo eles a quem tanto lhe dera orgulho na puberdade. “Clarear para não bestificar”, lembra da frase de um tio distante. Não percebia o paradoxo em que vivia. Ao terminar, seca firme com uma toalha de tecido grosso e já seco, beija Alceu e sai sem dar satisfação alguma.
Num determinado stand de uma loja fica em dúvida se deveria pagar pelo item. Conta as moedas com o dedo na palma da mão, incerto.
— É esse daqui.
Põe na bolsa procurando verificar se o fecho éclair está seguro e vai para o cinema. Exibia “A mulher de longe” pela última vez. Está atrasado. Imagens enganadoras desfilam pelos seus olhos planos. Ele sabia que não conseguiria. Mais uma vez sai da sala com a cabeça baixa como a dos pedestres em cidades grandes. Visa o chão, as poças de chuva acumulada no asfalto cinza, o papel de bala azul com o açúcar acumulando sujeira. Chove naquele instante aos cântaros.
É noite.
Ao abrir a porta do apartamento em que mora há alguns anos, Alceu o recebe com um beijo no rosto:
— Já ia te ligar.
Lúcio em silêncio deposita o molho de chaves na mesa e toma três goles refrescantes de água. Continua:
— Conseguiu ir ao casamento?
— Perguntei ao Henrique e ele me indicou o caminho.
Segue para o chuveiro. Esfrega com violência o corpo, principalmente o rosto, com sabão de coco, observando vez ou outra se suas mãos brancas retinham algum pelo. Sentia segurança ao ver-se limpo deles, logo eles a quem tanto lhe dera orgulho na puberdade. “Clarear para não bestificar”, lembra da frase de um tio distante. Não percebia o paradoxo em que vivia. Ao terminar, seca firme com uma toalha de tecido grosso e já seco, beija Alceu e sai sem dar satisfação alguma.
Num determinado stand de uma loja fica em dúvida se deveria pagar pelo item. Conta as moedas com o dedo na palma da mão, incerto.
— É esse daqui.
Põe na bolsa procurando verificar se o fecho éclair está seguro e vai para o cinema. Exibia “A mulher de longe” pela última vez. Está atrasado. Imagens enganadoras desfilam pelos seus olhos planos. Ele sabia que não conseguiria. Mais uma vez sai da sala com a cabeça baixa como a dos pedestres em cidades grandes. Visa o chão, as poças de chuva acumulada no asfalto cinza, o papel de bala azul com o açúcar acumulando sujeira. Chove naquele instante aos cântaros.
É noite.
A
chuva inunda, sem dar trégua. Segue em direção ao carro, molhando-se por
inteiro. Num quiosque, a meio caminho, para para comer alguma coisa.
Esfregava um lenço sobre a cabeça até ser surpreendido por um rapaz, que
muito reservadamente o cumprimenta. Abre um sorriso cristão, como sempre
fazia quando não sabia o que fazer:
— Não tenho dinheiro…
O jovem maltrapilho tinha os cristalinos dos olhos acesos, fisionomia desalinhada. Apertando a boca pequena, desvia para o canto os olhos, retorna como se quisesse dizer alguma coisa importante e depois, em tom de franca desistência, continua chuva adentro, envolto na capa transparente. Lúcio observa tudo, imune a qualquer reação. De súbito, abre a bolsa num ímpeto e retira o vasinho de porcelana adornado de lá, coberto cuidadosamente pelo jornal. Com o indicador alicia o que parece ter a forma de um gato. Seus olhos abundam em lágrimas.
O relógio da igreja próxima soa sete vezes, anunciando o início da missa. “Cada tua balada soa dentro de minha alma”, lembra do poeta luso. Visa o chão mais uma vez, as poças de chuva acumulada no asfalto cinza, o papel de bala azul com o açúcar acumulando sujeira. “Basta!”, era o que dizia por dentro, comprimindo o rosto, à beira do impossível de si. Lúcio mais vivo que o próprio coração. Em direção à igreja do outro lado da rua, a porcelana é lançada, se espatifando em mil pedaços. O dono que se ocupava na cozinha, decide vasculhar a razão do alarido.
Lúcio caminha depressa para o Voyage. O retrato de uma mulher colado no retrovisor, era só o que tinha. Estava longe, muito longe. Não conseguiria…não conseguiria….
REVISADO EM 2.10.2016
— Não tenho dinheiro…
O jovem maltrapilho tinha os cristalinos dos olhos acesos, fisionomia desalinhada. Apertando a boca pequena, desvia para o canto os olhos, retorna como se quisesse dizer alguma coisa importante e depois, em tom de franca desistência, continua chuva adentro, envolto na capa transparente. Lúcio observa tudo, imune a qualquer reação. De súbito, abre a bolsa num ímpeto e retira o vasinho de porcelana adornado de lá, coberto cuidadosamente pelo jornal. Com o indicador alicia o que parece ter a forma de um gato. Seus olhos abundam em lágrimas.
O relógio da igreja próxima soa sete vezes, anunciando o início da missa. “Cada tua balada soa dentro de minha alma”, lembra do poeta luso. Visa o chão mais uma vez, as poças de chuva acumulada no asfalto cinza, o papel de bala azul com o açúcar acumulando sujeira. “Basta!”, era o que dizia por dentro, comprimindo o rosto, à beira do impossível de si. Lúcio mais vivo que o próprio coração. Em direção à igreja do outro lado da rua, a porcelana é lançada, se espatifando em mil pedaços. O dono que se ocupava na cozinha, decide vasculhar a razão do alarido.
Lúcio caminha depressa para o Voyage. O retrato de uma mulher colado no retrovisor, era só o que tinha. Estava longe, muito longe. Não conseguiria…não conseguiria….
REVISADO EM 2.10.2016
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Da série "obras anônimas": August Strindberg

August Strindberg
[John Lundgren]
Suite No.9 "Ttai". I e III
[Giacinto Scelsi]
Intérprete: Markus Hinterhäuser - piano
"Querida irmã,
se o seu coração estiver cheio a tal ponto de não conseguir se expressar verbalmente, então escreva! Todos aprendem a escrever a fim de confiar seus pensamentos no papel. Você poderia escrever cartas. Cartas são bons e verdadeiros livros.
Escrever não é inventar algo que nunca tenha ocorrido. Escrever é contar algo sobre a sua vida. Mas não meramente como quem adiciona eventos em sequência. Você deve ter algo a dizer que lance luz sobre um aspecto da vida. A arte da escrita consiste em ordenar impressões, memórias e experiências, em deixar de lado as coisas sem importância, enfatizando as mais importantes. Você sabe o segredo que há entre a minha vida e a sua? Nós fomos apenas uma das muitas crianças de nossos pais. Nós não fomos bem quistos por sermos supérfluos. (…)
Nós colocamos pessoas em hospitais psiquiátricos para não nos preocuparmos com o que temos dentro de nós. Esse é o nosso destino, o destino de quem escreve: expor a alma aos poderes que existem. (…) Sua vida é rica de experiências e só você pode revelá-las. A vida tem três períodos: infância, juventude e as experiências no mundo. Cada um é um livro em si mesmo. Não tente revelar seus problemas aos amigos pois eles somente irão falar sobre eles mesmos. Acredite apenas no papel e na escrita.
Seu amigo, August”
[Carta de Strindberg à Elizabeth em 1882].
A Gruta
O assobio do trem irrompe no equinócio dos mundos, espalhando um grito estridente, como a de um gato quando pisamos em seu rabo. Desperta a paisagem sossegada nas sombras desconhecidas que algum homem revela, para seu melhor conforto, através de uma lamparina à óleo sustentada por um par de dedos sobranceiros. Ela parece oscilar a lentidão de um tempo primitivo.
“Como está escuro isso aqui”, pensou enquanto deslocava-se por entre enormes caixas de madeira. As arcadas de luz emanadas descortinavam detalhes como se fossem iluminuras: traços rabiscados em profundidade sobre a base de uma montanha com forte tonalidade marrom em contraponto à brancura asseada, quase clínica, de um guarda-sol de tiras vermelhas, num quadro emoldurado na parede, típico bucolismo suiço; um desenho envolvendo formas geométricas no centro da caixa de madeira, por onde as letras “P” e “K” entrelaçavam-se à letra “I” – as farpas ao redor declamando a existência – ; um afinalado banquinho escuro trazendo um telefone preto como se constitutivo. Não havia exatamente cor naquele substrato mudo. Toda a cor era um mero capricho quando a luz se aproximava, acentuada até a concentração máxima: quando há a sensação de algo por dentro, de uma ferida clara.
Era um espaço sedento por luz. Por cima e através, havia poeira e, no chão, grãos de areia que reluziam como pepitas, só acháveis na mais absoluta escuridão. Garrafas deitadas ao chão palpitavam vazias; duas folhas de jornal amassadas encobriam algo – penugens angariavam a superfície-; um vaso pequeno de planta recém-nascida e há muito ressequida, de terra escura e buraco abissal no meio; um botão perdido repleto de marcas navalhadas pelo uso; um pedaço de unha cortada, como um substrato de um ovo oco aberto; pelos, fios diversos enrodilhados em coisa qualquer. O homem encarnava a figura de Prometeu em meio a tamanho abandono, como se fosse o próprio solstício daquele lugar. Ainda que procurasse arrancar dali o máximo de certeza possível sobre as coisas, surpreendia-se a cada instante com o que sentia e com o que achava que sentia, a começar pelo ruído de vidro moído ou pedra de pequeno porte que o acompanhou no primeiro minuto em que pôs os pés naquele recinto – provavelmente encavado na sola de um dos sapatos. Mas estaria a pequena coisa lá há mais tempo?
Seu coração acelera ao descobrir que aquele silêncio dissimula, pondo à prova o próprio estatuto de segurança que os objetos possuem quando não são vistos, quando não estão sendo algo. Pernas compridas e articuladas tomam vida própria e desatam a subir, fluindo, aumentadas na parede pela lupa das distâncias, para alguma reentrância erma do telhado engolir e desaparecer. Algo como uma barata é facilmente confundida com um acúmulo de sujeira. A lógica matemática do equilíbrio harmônico ilude e alucina. Elefantes, cabeças humanas, faunos, o mundo como potência numa caixinha insignificante: sonho e pesadelo, ao molde goyano.
Ele permanece atento, incólume naquele não mais que virar de página.
Quando um chiado se espicha alto à esquerda, o barulho se faz claro e real, sem eco que recorra aos espaços da imaginação. Eleva a lamparina à altura da cabeça, confiando na sua percepção. A sombra de uma teia emerge graúda e sem aranha. Pode tanto estar em qualquer parte como não estar em parte alguma. Um objeto cai atrás de si. Ele vira. Remotos sons de engrenagem à todo vapor. A luz reflete o vidro da janela. Ele aparece invertido: o chapéu de aba larga na cabeça mais parece um capacete; as roupas, uma armadura de ferro. Os olhos fundos a girar magia por toda a parte. O suor desce pela têmpora, a boca alarga, aberta.
Julga ver uma cruz diminuta no vidro. Uma mosca cheirando a percevejo percorre a ponta de um de seus dedos. A parede enfestada delas com as respectivas asinhas transparentes, tronco verde-escuro que lembrava a coloração da caveira flutuante do absinto, e globos oculares a atearem chamas. Repentinamente um forte odor lhe arrebenta as narinas e passa a ocupar seu pulmões, como pó de silica.
Ele sente uma vontade irresistível de correr, no entanto ele não corre. Para, estica os braços e as pernas ao máximo como se espreguiçasse o fluxo de sangue dentro de si, fechando os lábios fortemente como quem aguça as pupilas de certezas. As palavras rolam pela boca que é nesse momento uma fresta diminuta: “são apenas grãos que se movem!”. Sai cortando com o corpo a atmosfera, isento de si e do mundo, inconsequente, até chegar à janela, arregaçando-a de uma só vez, ferozmente. Seus pulmões abocanham, renovados, grandes quantidades de ar puro do descampado à sua frente que corre. O sorriso vitorioso estampa no rosto. Negras florestas na linha do horizonte decalcam fronteiras infindas com as montanhas, por onde o céu faz aparecer, enluvado de esmeros noturnos. Observa com a sombra nos olhos, a constelação de Andrômeda, de Orion, a sempre esperançosa Sírius, aquele pedregulho ao qual deram o nome de satélite natural, tão esburacado quanto um rosto humano avistado na rua, pela manhã. Olha para trás. Não há nada além da fragilidade no que observa. Pega um bloco em um dos bolsos e traceja algumas retas oblíquas, com as inicias “P.K=?”, “I=iodo”, “heliotrópico”. Ao lado: “olhar biblioteca”.
A trinca da porta balança ao som de um baque. Novamente olha para trás. Umedece a boca e, com a língua ainda encostada nos lábios inferiores, diz num ímpeto explosivo: "Bah, amanhã eu procuro". Cerra a janela e retoma a mesma trilha, agora num percurso diferente: os dedos mais frouxos agarrando a alça da lamparina, como se dependurasse o ser um pouco mais esclarecido.
Texto publicado originalmente na revista Estudos Hum(e)anos, no.55
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Insólito voraz
Ancião com as Mãos na Cabeça - 1882
[Vincent Van Gogh]
Nikolai Roslavets
[Prelúdio para piano - 1915]
Intérprete: Irina Emeliantseva - piano
Joaquim se apressava. A mão de unhas carcomidas sobre a pasta cor acre, com papéis de hospital assinados. A pressa comendo sua imperfeição. Caminhando pelo viaduto, a noite envolve seu corpo. Joaquim vê apenas o suficiente para não tropeçar nas calçadas ou cair num buraco de uma situação escabrosa. Acelerado, o olhar processa mais rápido: imagens brutas manifestadas, cindidas de adjetivos e infestadas de contaminações gotejantes. Sorrisos, espirros, beijos, escarros, buzinassos, bocejos e lágrimas. Ora rostos ora cabelos; ora cabelos ora rostos, devassados de polutos adereços: gravatas, ternos, gravatas, ternos, piercings, óculos, verrugas, algodão, vitiligo, camisetas polos, hanseníase, t-shirts, estampas de camisas, fones de silêncio, silêncios sem fones. Mais próximo do chão: cores de se ver saltos. Por que aquela dissimetria? Ou talvez fosse mero acaso de impressão falhada?
O cabelo de Joaquim emaranhava-se na realidade, com a ajuda do suor-tinta do corpo. Suas calças jeans, largas, pareciam embrulhá-lo em pele, como um casulo fechado em baixo e aberto em cima. Estavam enpapadas tamanha ligeireza naquele nervosismo seu tão wozzeckiano.
Leva um susto quando, ao atravessar o sinal, é surpreendido por um homem de imensa barriga verminosa, sem camisa, só de pelos e tatuagens cavucadas, arrastando cinco cavalos que se assemelhavam em natureza ao próprio dono, incluindo os idealizados potrinhos. A força concêntrica era a mesma e a tal ponto que se podia evocar a figura de um minotauro.
Maçã suja. Cidade aberta. Sintomática.
Mas foi no entre-sala da avenida que ele azeda até os fusíveis. Um homem de bicicleta acaba de roubá-lo.
Tserrelin tserrelin são os estalos.
Grita com a voz a soltar veias pelo pescoço: "PUUUUUUUUUUUUUUUUTTTTTTTTTTTAAAAAAAAAA QQQQQQQQQQQUUUUUEEEEEEE PPPAAAAAAAARIRRRRRIIUUUU!!!!"
O menino para de morder a pipoca. A moça no ponto das vans, estica o pescoço, em plena curiosidade.
Joaquim corre o máximo que pode e não consegue. A bicicleta desaparece tão súbita quanto apareceu.
E depois para os lados, voz débil: "VVVVVVVVVAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIII TTTTOOOOOOOOOOOOOOMMMMMMMMAAAAAAARRRRRRRRRRR NNNOOOO CCCUUUUU!!!!!" "VVIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAAAADDDDDDDDDDDDDDDDOOOOOOOOOOOOOOOOOOO"
Surta. Aquele seu estar tão catapléxico, finalmente ao fim. Havia chegado ao túmulo quando o seu desespero ultrapassa a barreira da sanidade e o mal-estar vira epígono de ponta cortante, o corpo saindo ao avesso pela boca.
Gritava sem parar. Na frente dos carros, das senhoras indefesas, moças bonitas e meninos inocentes. Estava tudo ali o que nunca soube dizer. Dois rapazes querem ajudá-lo agredindo-o a pontapés e socos. Seus braços caem na total falta de coordenação. As formigas aceleraram os passos, com medo da queda. As baratas voltam ao esconderijo seguro. Grades de ambas as partes, como Olga em Limite.
Um homem segurando duas sacolas pesadas de compra solta a frase: "Deixem ele em paz!" Uma mulher arrepia no mesmo tom: "Covardes!". Dois moleques usando mochilas, trabalhadores do dia-a-dia, se defendendo daquela contra-rotina. Prostitutas olham.
O trânsito para na rua 3x4.
Joaquim no chão, desmaiado. O canto da boca encosta no chão a baba de sua vida.
Só mais um fio. Um fio a mais. Restará?
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
The Wasteland ou a capacidade desarticulada da circulação

Um outro capítulo da série:
Ainda era um início de tarde quando a última nota da disciplina terminava de ser lançada, fechando suas obrigações. Lá fora, um grande clarão como se algo inchado estivesse prestes a explodir. A partir daquele instante, K. haveria tempo para esbanjar da forma que lhe conviesse. Começou com um copo da água, buscado demoradamente na cozinha. Os dedos a contornarem o gargalo da garrafa, sem pressa. Poderia por acidente deixar a água cair no chão só para depois ter de apanhar um pano para secar. Ou então abandonaria o terreno apenas para medir o tempo necessário para que a água evaporasse por ela própria. A longo prazo, prepararia as malas para viagens, não importasse aonde fosse. Tinha dinheiro de sobra para isso. Havia diversificados planejamentos rondando sua cabeça, apesar dele não parecer estar para isso naquele dia. Queria ter o prazer de nada fazer, nada em absoluto, apenas ficar estirado dentro do apartamento, envolvido pelo ritmo demorado das pás curvadas do ventilador de uma brancura encardida de tanto uso. Tinha que limpá-las também, tinha que, poderia se quisesse. Tudo dependia do esforço de alguns músculos. Havia optado por nada fazer naquele instante. Imaginava como deveria estar vestido naquela ocasião, se limparia com força ou delicadamente dissolvendo a sujeira em pano úmido. Levaria as férias inteira executando aquela função, se necessário. Mas não sabia se deveria gastá-la deste modo e até que momento o seu ócio poderia desfazer a encantada surdez. Por trás das janelas, as ruas estavam intensamente recheadas dos mais variados e irritantes ruídos. Com a aproximação da noite, passaria horas angustiantes atrás dos mosquitos que zombavam e zombavam de sua existência.
No entanto, lembrou-se de um encontro combinado com sua mãe, naquela mesma tarde. E assim sendo, K. seguiu sua promessa praticando todos os necessários cerimoniais antes que pudesse sair. Tinha de ir ao banheiro, regar ou pelo menos rebatizar a garganta com água fresca, pentear as poucas mechas assanhadas de cabelo para só depois dizer lançar-se e ser carregado pelos passos que o levassem até o seu destino.
No primeiro átimo de segundo, aquele clarão acobertado pelas cortinas, se revelava como uma criptonita despejada por algum homem insano. Acaso fosse uma mera explosão, ela teria um fim, mas aquela era uma explosão que parecia perpetuar no tempo e espaço. Estava muito calor. Rapidamente sua blusa ganhava uma tonalidade escura nas partes mais diversificadas e encavadas do corpo. "Isto não pode ser real", pensava.Havia algo de muito metafísico naquilo tudo. Aquele balde de tinta dourada que o sol tingia com sua língua parecia carregada de parafusos pontudos que ao tocar friccionava, espremendo o tal líquido escuro ao qual ninguém sonhava trazer consigo, pelos poros. Era algo muito profundo e falso ao mesmo tempo. As pessoas viravam chafarizes ambulantes, untadas por uma máscara espessa e densa. Parecia um enorme teatro ao céu aberto. Do outro lado do muro, um negrume sinistro "tantaleava" como verdadeiros copos d'água, contornando a falaciosa malha afivelada e brilhante de lava que era despejada por aquele ponto tão distante do grande céu azul de apenas três letras chamado sol. Aquele transbordamento auricular curvava ou "corcunizava" os olhares, isentos de melancolia, fatigados por um esgoelar qualquer. O que podiam fazer os sofridos transeuntes se a coroa não era deles?
Imersos naquela realidade, os desertos, imperiosos, se proliferavam dentro deles mesmos. No lugar da melancolia, havia o desânimo, a gula e uma indiferença peculiar. Esta salivava por dentro a todo instante querendo tocar mesmo as superfícies ásperas, como se estivessem mortas e gélidas. O importante era um saque bem feito. Descolar dos lábios fechados um semicírculo em formato de pétala, das bordas de algum recipiente cheio; marca indelével de quem furta descaradamente com o próprio corpo.
Todos aparentavam um obscuro e secreto desejo de esfarelamento,pois naquela situação a matéria tornava-se um incômodo enquanto dureza estática. Queriam escorrer como o leito de um córrego escorre, arrastando tudo que estivesse pela frente. "Por que pensar naquilo que resiste e exaure lama até as últimas gotas?" É tão pecaminosa a cena que até moscas verdes mereciam ser atraídas para o processo de ressecamento. Era o deserto que habitava a carne, deixando aquele típico rastro linear e delirante de luz fosca na pele. Expelir para ingerir, ingerir para expelir. No ritmo do coração-pele-língua, os esquecimentos reproduziam-se. "Para que uma memória da areia?". Um dia morto, de folhas "cácticas" de tão estáticas. Nem o vento fazia sua visita desgovernada. Havia apenas o rei sol e ele era o pai da terra que assava vorazmente, apertando as gargantas até o sufocamento e a loucura repentina, ato desesperador de quem deseja saltar de qualquer forma as labaredas devoradoras.
Saltar era o verbo principal naquela cidade. Saltar para não desabar. E assim faziam, saltando partes de si para os lados de um modo diferente do encolhimento em posição fetal dos povos da região glacial. "Eles precisam das faíscas para sobreviver", argumenta K., "e aqui são tantas que não conseguimos lidar sem queimarmos algo. O que pensa Deus disso? Que somos pães para sua manteiga?".
Havia uma desejosa preferência do movimento ao pertencimento. Mover o corpo para saltar a realidade dos dias que desabam, colhendo camadas premiadas de ar a cada ação. Diferentemente dos outros povos do extremo norte e sul que quando não estão em posição fetal, querem saltar para chamuscar algum agrado solitário. Se por alguma bruma qualquer ao pertencimento fossem leais, o esquecimento lhes recobririam cada gesto com um gel apagado de pleno esvaziamento, usuais das famílias desbotadas. Os ninhos de cobra não paravam de nascer.
Após dobrar a esquina da rua da casa de sua mãe, observou algumas pedras costuradas entre os muros que o fizeram lembrar as regiões litorâneas. Como desejou naquele momento ser um pequeno líquen numa pedra de lá! A verdade daquele sol era tão crua, tão desumana...
Tanta nudez castigada na atmosfera daquele local que por pouco poderia pensar que não existia verdadeiramente aquela palavrinha há muito esquecida em seu vigor. À distância muitos diriam se tratar de um paraíso, onde seu povo cantava livre o prazer divino. Amarga ilusão. Mal sabiam o que o maçarico era possível de fazer com a alma daqueles herdeiros de um certo germe nova-iorquino do final do século XIX, embrutecedor de corações humanos.
A razão pela acidez daquele amarelado putrefato para além da simples iluminação estava naquele outro amarelo espoliado e golfado durante gerações em guerras e tecnologias inúteis. Foi isto que, ao longo dos séculos, transformou os dedos sóbrios da mão em punho nebulosamente fechado e ocluso de peso irresponsável.
O que fazer? A única solução era agredir a agressão e perfurar ventos com a ajuda de modernos veículos ou ainda camuflar-se na intensidade esquecida de alguma sombra em determinadas horas do dia. Vender a própria sombra à sombra maior, uma parceria deveras justa apesar de demasiadamente mefistofélica. No fim, todos resistiam como por um milagre, mesmo quando isolados dos “verdumes” maternais. As tais sombras maiores eram almas de suas próprias almas feitas a créditos durante anos a fio e agora se erguiam ao céu empregando suas frontes opacas para o mundo também opaco. K. sabia que este era o fenômeno mais ordinário possível. Até mesmo quem residia naqueles disseminados artefatos claustrofóbicos utilizavam de apetrechos para bloquearem a luz e irradiarem suas antíteses, suas costas. Naquela cidade todos buscam as costas de alguma coisa para terem onde se esconder provisoriamente.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Casa de Penhores

Les oiseaux vous poursuivent, 1929-1930
[Paul Nougé]
Não sei se
sou o que sou, pois sendo deixo de ser. Hipoteco minha certeza ao
pensamento que evade. Existo ou coexistem em mim? Tantos de mim ali
nos lugares onde eu nunca poderia estar….
Silêncio. Sim, silêncio, o mais rasgado e débil possível,caverna horrorosa e pontuda.
Se sou uma mera projeção disto,uma espécie de acabamento de algo muito maior que as palpitações oriundas de minhas mãos e pés,estou permanentemente inacabado então? Comecei alguma vez ao menos? O que dizer do tino de meu corpo que nasce morrendo em estado de quando for,como a onírica permanência dos astros?
Silêncio. Sim, silêncio, o mais rasgado e débil possível,caverna horrorosa e pontuda.
Se sou uma mera projeção disto,uma espécie de acabamento de algo muito maior que as palpitações oriundas de minhas mãos e pés,estou permanentemente inacabado então? Comecei alguma vez ao menos? O que dizer do tino de meu corpo que nasce morrendo em estado de quando for,como a onírica permanência dos astros?
Saturação
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Crédito em parcelas acomedidas e,na maioria das vezes, descabidas.
Afunilamentos por contrato
Afunilamentos por contrato
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Malditas vírgulas que fendas me trazem!
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Malditas fendas que vírgulas me tornam!
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“Inconclusões”,sempre elas. Mil e uma possibilidades de dissolver o ser.
O problema disto não está em si nos fragmentos ilusórios dos descaminhos, que são belos e autênticos aos olhos dos desabrigados, e sim a impertinência do silêncio armado. Quantas poéticas improvisações passaram desapercebidas? Quantas horas douradas naufragaram sem nunca terem deixado o porto? A tragédia conforme gaveta de sapateiro.
Chega um tempo em que “sim” e “não” deixam o estado de palavra para ser fantoches de um jogo maior, ininteligível enquanto processo cronológico. Quando as pestanas tremerem sem frêmitos e sorrisos se esforçarem semi-turvos, tem-se certeza do apuros que trazem, porque estarão neste momento devorando a exatidão que lhes falta.
O problema disto não está em si nos fragmentos ilusórios dos descaminhos, que são belos e autênticos aos olhos dos desabrigados, e sim a impertinência do silêncio armado. Quantas poéticas improvisações passaram desapercebidas? Quantas horas douradas naufragaram sem nunca terem deixado o porto? A tragédia conforme gaveta de sapateiro.
Chega um tempo em que “sim” e “não” deixam o estado de palavra para ser fantoches de um jogo maior, ininteligível enquanto processo cronológico. Quando as pestanas tremerem sem frêmitos e sorrisos se esforçarem semi-turvos, tem-se certeza do apuros que trazem, porque estarão neste momento devorando a exatidão que lhes falta.
Veredas de fluxos amassados.
Por fim, as correntes alternam-se ao som dos relógios ainda úmidos de chuva e a noite começa a ser real…
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Da série: de onde tudo como começou (trecho da obra ainda sem nome)
"Um óculos plainava aberto sobre a mesa. Parecia estar em estado de permanente repouso. Por detrás de suas grossas lentes, a luz entrava radiante, esparramando-se sobre as camadas gordurosas de alguma impressão digital deixada a relento. Mais parecia uma janela aberta para paisagens encurvadas, com as cortinas a bater nos cantos, sussurantes quase. Era a parte mais sugestiva naquele todo cor de café,por que indicava,não resumia nada a nada. Aquela gordura inoculada parecia fraterna àquelas vibrações das batatas das pernas ou mesmo aos pântanos empapados das mãos que, naquele instante, estavam demasiadamente gélidas, coadjuvantes de algum cenário pouco decifrável.
Por que haveriam de estar ao mesmo tempo tão côncavas e tão sufocantes sobre a boca? Suas ameixas pareciam anestesiadas por algo que sabe-se lá de onde vinha.
Mistério.
- Senhor, a ficha.
- Ah...perdão. Aqui está. Muito obrigado - disse em tom aprumado, porém quase gemido.
As mãos grudam na mesa, deixando uma marca significativa de umidade. O canto da boca torce um pouco para o lado, como se herdasse um tique nervoso. Logo, os lábios aparentam repintados por algum brilho semelhante às pinturas de Van Halley e Velásquez, num verniz desalinhado pelas reentrâncias próximas.
Após um longo bufar nas narinas, as pernas se entrelaçam irrequietas permitindo que as mãos desçam às calças, umedecendo-as sutilmente.
Simultaneamente, as ameixas tomam forma de um farol suspenso numa ilha revisitada. Ali, escorrem segundos da mais pura alucinação, onde o presente é sobreposto aos arreios de seu próprio incognoscível até o repentino desabamento de si sobre o negrume corolado daquela imensidão perdida. Enquanto isso, a luz continua a concentra-se no mesmo vitral engordurado e as mãos, a roçar seu lodo mais duas vezes sobre o tecido coloridamente pálido daquela vestimenta.Mas eis que, como d'um salto, segura uma das hastes e empurra para o fundo do rosto, tal qual uma gaveta num armário.
Sob o seu nariz, muitos papéis se avolumavam; todos empacotados às centenas e delimitados por uma espécie de armação geometricamente paralela e quase infinita.
Dalí, seu par de amêndoas compromete-se a um percurso pré-determinado ao dar prosseguimento à maratona dos sinaizinhos no papel, não sem antes escusar a companhia incômoda da extremidade de uma ou duas de suas falanges, cujos cristais incrustados na pele expõem tensos contornos irregulares. O percurso nem sempre é legítimo para os dois concorrentes. Ambos seguem seus rumos de condenados à pujança da vida. Dada a partida, o movimento se repete,se repete,....até que o manto da noite se faça presente e dos pés dos corredores,muitos calos.
Tal mergulho direcionado pelo desatar do chicote, faz dos músculos um absoluto meteoro em rota de colisão consigo mesmo.
- Estamos fechando,senhor.
-Ah...é....obri - tosse - , muito obrigado.Estarei saindo.
O corpo irrequieto finalmente se estica a fim de que as ameixas possam libertar-se das amarras que, de tão apertadas, lhe contaminava o ser, deixando lastros em qualquer parte. K. levantava da cadeira, como de um rodopio, quase a se chocar contra a flacidez das paredes.
De longe, era possível observar a locomoção exagerada de seus gestos, como se cada vez mais não lhe bastasse. Sentiu a vanidade das coisas lhe adentrar os poros do corpo, que clamava por ar."
Após "delatar" esta passagem nada interessante que escrevi há alguns anos, tenho preguiça de ler meus garranchos e continuar.
O mais curioso é que quando imagino disso um livro, penso imediatamente na capa. Sei que isto seria um plágio,mas penso em colocar algo parecido com o "M" de Fritz Lang.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Desníveis emoldurados
Num abrir de janelas: o que dizer da delicadeza esfiapada de uma nuvem? Há um dizer nisto? Como anunciar a sua correnteza e o meu deslocamento nela?
Certas nesgas equivalem a tablados abertos, em que nos utilizamos para colocar algo e confraternizarmos nosso silêncio; outras lembram tranças de um velho ranzinza ou talvez as tranças de uma mesa cabeluda. Qual a minha distância neste segundo?
Depois, o desmembramento plástico do que aparenta fixo, apenas para não estar mais ao longo das coisas. É o vento que te carrega, bem sei.
A exposição de seu dorso à luz não é gratuita. Sua pele faz-se dourada pelas bordas, desnivelando trechos por irradiação. Nos segmentos mais desavisados, o conjunto granula-se, como um espelho multifacetado e em cacos. Teu realce desalça o meu alçar à brancura travestida de minhas impossíveis cores e logo fico sem mim. Sua artimanha grega derruba qualquer muro, mesmo sendo azul como o infinito que nele é. Quando tingida, seus átomos revelam o espaço das transparências. Faz-se o traço, o enlaço de uma fita desprende-se. Por cima, diversas cristas de ondas imiscuídas em céus breves e 'aeroplasmáticos'.
E eis que se apresenta a única coisa diária e absoluta. Sob nossas cabeças, silhuetas de ângulos imprecisos e abaulados.
Ora transmutando.
Ora transmudando.
Assim, sucessivamente, isto vai se interpondo nos meus olhos sua projeção mais cínica.
Brinca imitando um Vermeer;outras, os cubistas.
É, a arte é feita de papel céu e argamassa. Sempre soube - com exceção de que nas altitudes, ela realiza-se inchando pelo meio, enquanto nós testemunhamos apenas suas travessias.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
A alegoria de uma fissura

Black Sun over Paris, 1952
[Marc Chagall]
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Beleza: rainha destronada dos corações violados, quem és tu? Tu que durante o dia rufla serena, na tua distância tão ímpar e solitária, por entre os penhascos de que o mundo se faz, sem encontrar vez alguma. Perdida, sua finura invade os tecidos mais grossos e mais consistentes, como uma navalha atenta, fazendo rolar por entre os pés os mais tênues novelos. Tu que estás sempre a se re-fazer para as trocas das máscaras, num subir e descer de escadas ad infinitum. Isenta de fechaduras e cadeados, vives perambulando perante as selvas humanas, afugentada pelo invólucro das coisas que lhe negam a permanência e a estabilidade, num flanar vagabundo, errante. Tu que emerge por entre as frestas de uma janela, numa tarde calma e sonolenta, decalcando marcas numa parede vazia de tão branca. Tu, disforme e assimétrica, marejada senão por um acento.
E então anunciam o seu desfecho: “Irás morrer”, cansados de tanto deslumbre e irradiação miserável. Ela abnega, posicionando o dedo em riste ao horizonte, como se dissesse: “Lá está minha fronteira”.
Estremecimento.
Entre o céu e o mar, sua sutura desfaz-se profunda, num gesto largo de adeus. Agonizada, gritam as mãos ao alto, tortas, cobertas de bolhas, num lento desbote da urdidura, chamuscada até as pontas. As duas abas do horizonte se fecham. É noite e nada pode se visto. Algo imenso escorre por trás da finitude das coisas e faz-se o mistério duas vezes. Lá está ela tremeluzindo por debaixo de minhas pestanas. Carrego-a comigo sob os etcéteras de algumas penumbras. E no instante exato das tramitações no horizonte, vôo junto ao Fá de um recomeço.
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