domingo, 19 de setembro de 2010

Quadrângulo amoroso



Self-Portrait with Charlotte Berend and Champagne Glass - 1902
[Lovis Corinth]



O ponto cinde em rodeios. Uma linha cai da rachadura aberta sobre a superfície lisa e branca. Empurra, caminha e depois corre, para sair mais esticadinha. Mais que serpente, seus desejos eletrizantes pronunciam o sentido da forma. Percorre até virar à esquina dobrando os ponteiros em forma de bico, espécie de meio-lábio. O resto repete a composição até o círculo juntar sob o aspecto de um ósculo.

A composição não é aqui,por sua vez, uma soma,mas um item desdobrado desguarnecido de formulações matemáticas, como se surgisse guturalmente da base concêntrica da origem, febre instantânea, risco constante. Nunca se soube de alguma que morreu ou partiu totalmente.
Bocas demarcadas jamais esquecidas, sem retorno ao ponto zero (ainda que muito se passe pelo ponto de partida, consumada).

As palavras desprendidas do processo confeccionado (e inflacionado) não expressa exatidão; simetrias de engenheiro não valem. São meros afrodisíacos da esperança, amolescentes que aproximam o que antes era distante em prol do acontecer.O corpo ardente pede,clama pela exposição das fechaduras íntimas,riscando a própria parede.

No início, ele é mal entendido, posto em suspensão negativa. Mas entre um reboco e outro se instala, com o frasco quase vazio. Luta como quem precisa doar-se, como quem precisa arvorar-se por dentro para entender a dinâmica da vontade. E então num soçobrar súbito e mágico, a carta não se derrama mais pelo chão. Ela fica acampelada pela mão feminina que a segura por segundos, guardando-a na bolsa. Surge o interesse, logo depois o entendimento, o permeio e a aceitação. Ela passa a escutá-lo e ele a atrever-se estacionando o seu caminhãozinho num canteiro mais próximo.

A partir de então é possível morder frutas daquele pomar, antes proibido.A superfície dura vira cólon imantado. A carne peca, a existência transcende: mar de amor,odor de quem ama na cama. Revôns: c'est l'heure exquise.

O ponto de partida recomeçará então numa ignição que nem sempre é perfeita. A forma alterará o ângulo; o ângulo, a forma. A emoção das raízes fragelará o porvir do momento possante. Desconhece-se o paradeiro das redondilhas. Se for azul será acomodada, verde será camuflada, vermelha se for rápida. Se branca for, matrimônio será apesar de amor não haver, senão uma transposição de termos familiares.

Na cama, estirado de bruços e a sós, a pele sensível sentirá na luz a lembrança de quando se incendiava em vermelho-sangue, entorpecida pelo furor oceânico de garras estrangeiras.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ode sonora: Prelude in Memory of M.K. Čiurlionis: Kaunas Carillon por Giedrius Kuprevičius


Torre com sino I - 1925
[Oswaldo Goeldi]



Álbum: Viktoras Kuprevičius, Giedrius Kuprevičius ‎– Kauno Varpai
1981

Para visualizar trecho da música, clique aqui e escolha a décima faixa.


A silhueta delineada no vidro fosco anuncia a chegada de alguém naquela pequenina manhã há muito esquecida de Novembro. Dois tímidos toques com a dobra dos dedos na madeira da porta se alastram pelo corredor estreito. Ela se abre em meio ao rangir dos ferrolhos, revelando um jovem rapaz franzino, de lavalliere esfuzuado, cabelos escuros emaranhados e roupa surrada. Ele sorri içando de leve as bochechas e o pequeno bigode para cima enquanto oferece com os olhos a mais tenra e amistosa simpatia. E como se não bastasse, dá mais um passo e, com os pés juntos, cumprimenta educadamente inclinando o corpo para frente, segurando o chapéu nas abas, com nervosismo.

O jeito simples e humilde, porém, não esconde uma competência exemplar. Aprende rápido as técnicas de composição de pintura, ainda que chegando quase sempre atrasado por nenhuma razão aparente. Quando está a sós, examina minuciosamente a tela e, a partir do pincel pressionado entre os dedos, vê a tinta umedecendo-o de maneira diferente. Nas horas vagas, escreve para sua querida prima, a quem espera contrair matrimônio futuramente.

O tempo parecia correr devagar para ele. Entretanto, justo naqueles momentos, corria mais depressa. Eram momentos de violência aqueles aos quais a chuva desentranhava da terra a tonalidade originária do jardim, num amontoado de fisionomias, em diferentes formatos e odores. Quando isso acontecia encostava o ouvido ali, onde mais lhe incomodavam aos olhos, para escutar o fluxo da vida mais perto. Passava as noites daqueles dias em claro trabalhando sobre um esboço, aperfeiçoando aquilo que só mais tarde perceberia ser inimitável, inatingível. Nos finais de semana, ficava em um balcão, a degustar com lassidão um copo de sorvete, para depois caminhar à tarde inteira próximo ao mar e aos bosques.

Ele era sentimento puro. Seu espírito entrava em erupção até o cansaço supremo ocupá-lo e o sono vencê-lo. Quando isso ocorria, percebia que sonhava delírios encantadores; tanto que, ao acordar, corria para registrá-los. Como um iceberg,seu canto ia se desprendendo da forma e invadindo o conteúdo das profundezas abissais até a decomposição plena. No lugar de uma flor, um mosaico de uma igreja secular; uma árvore, as rugas de um idoso. Não mais registra o que vê. Seu compromisso é apenas com a verdade.

O enigma secava a polpa dos olhos. Os dias mudavam de tom com vaguidão: atrasos aqui, distrações acolá. Até o ritmo dos passos se alteraram. Ao receber o comunicado do falecimento de sua prima, morta pela tuberculose, mergulhou em realidades outras. Durante os passeios, julga estar sendo seguido por uma mulher de vestido esvoaçante. Ele se vê consumido por visões. Ninguém o entende, quiçá as galerias e críticos de arte. Quando as tintas acabam, prefere passar dias sem comer apenas para pintar o que lhe assombra.

Num certo dia as cores evadem a forma e as sombras confundem. Os dias não mais existem, apenas aquela velha obstinação que lhe invade a tal ponto de esquecer as palavras e a própria existência. Constantemente vê-se coagido pela polícia a levantar dos bancos nas praças públicas onde dormia abraçado a papéis com nódoas de tinta. A longa barba e os olhos arregalados assustam a quem o encontra. É levado imediatamente ao manicômio após uma crise nervosa. Dali não consegue encontrar caminho algum, senão precipícios ainda mais densos. A debilidade do corpo e desnutrição sela seu destino. Os movimentos reduzem, anulam-se até a brancura plena da conclamação na cerimônia do enterro.

terça-feira, 2 de março de 2010

Ode sonora: Lietuvos idilijos. Vasaros ryto aidai por K. V. Banaitis


                             Histoire(s) du cinéma
                               [Jean Luc-Godard]





Lietuvos muzikos antologija
1975

À distância, um pequeno barco à vela se configura na linha adormecida do horizonte, com uma brancura esvoaçada entre as rebarbas douradas e o negrume piscoso.
Sobre um rochedo,uma mulher o acompanha em prantos. Na tentativa de recobrar os sentidos, aperta as palmas das mãos uma contra a outra, enquanto a lenta ogiva prossegue o percurso ritmado de pintura bem adornada.
Cada lágrima despejada evidencia as rugas num rosto apagado pela escuridão diária. A seguir, desesperada, pressiona-as contra a face úmida, trazendo à tona a flor de vivíssima brancura que carregava enrodilhada por entre os cabelos crespos. O crepúsculo do sol, ao fundo, reforça nela o brilho necessário.
Solitária, sua beleza é secreta, porém muito precisa. O vento, contudo, logo a arranca do solo materno, despejando-a sobre a água apaziguada do mar. Flor e barco flutuam consonantes.
Ondulações revelam:
No espaço azul uma bailarina cruza debruçada nos andaimes de uma fita. A campainha toca. Um pedido de desculpas é solto no ar, logo após o ritual cavalheiresco do chapéu. Ele entra.
A bailarina cruza novamente a cena em elegantes saltos. De sua mão, grãos de arroz se espalham sobre o solo: uma lagoa avança por onde um cisne passeia, mordiscando os farelos lançados pelo unido casal, ainda envolto por chamas amorosas.
Mais uma vez a delicadeza corta a paisagem com a fita presa entre os dedos; contudo, num dado momento, esta se solta, caindo inerte no chão.
Passos femininos se agitam na calçada. Degrau após degrau, pés aflitos rogam por alguma informação. Pés que circundam, que revezam e se multiplicam.
A bailarina atravessa pela última vez o terreno que segue íngreme,iluminado pela curvatura da lua.
O mar não tardará a subir.

Ode sonora: Le Ciel Étoilé por Charles Koechlin



[Frans Widerberg]








Le Docteur Fabricius IV. Le Ciel Étoilé
Orquestra Sinfônia da Rádio de Stuttgart
Regente: Heinz Holliger
Gravação realizada em 2005


Do ponto fez-se espetáculo: está aberto o incomensurável espaço, aéreo às infusões gráficas de relevo.
Um finíssimo tecido crepuscular degringola-se pela superfície porosa do infinito. O terreno rola na congestura de um gesto longínquo e logo pigmentos petalizam seus confetes como a neve em incansável continuidade até escurecer as veias.
Dispersões paquidérmicas geram fendas de lume prateado. Evola-se então um movimento regado na simplicidade de uma serenata senil.
Duração.
Das agitações soçobrantes, o cosmo envolvedor descola uma gema murcha da casca, em misticismo abrangente, repleto de ímpetos sem beiras. Por detrás, laços triunfais cruzam a fivela ao centro fixando a massa, ainda bastante fina.
Aos poucos as metamorfoses transplantam delirantes infinitudes de parte a parte, prensando-a por fim como gota compacta e sólida.
Comprimida,fecha-se em si. E das linhas desprendidas do núcleo, o relevo se abre trazendo consigo diversas laminações no reboco.
Destas entranhas,agressivas explosões luminosas emanciparão o universo, abaulado e plácido após parto seguido de luz flamorradiante.
Brilha,brilhosa,brilhante diminuta ogiva de extrema dor nova, ainda tão repleta de sussurros e ainda tão perdida nos aventais dos ventres.
Recanto faz-se.
Encanto perfaz-se.
Botões esmerados esboçam logo suas teias, aprontando raízes carregadas de galáxias.
Sentidos pululam lascos da semente. Entornos despejam espelhos de poros vitalícios e conjuntivos no mistério que é todo dor carregada de vida.
A essa semente expansiva, o tempo combina espaço em complexas intensidades.
Quando na calada do açoite Chronos expõe, seus elementos fumegam cores e odores, carruagens partem loucas: desejos em-ta(c)tos; abundâncias por onde dedos arquitetam esperançosos invólucros.
Num cortinado próximo a potência múltipla dos astros torna a desaparecer.
Já estava cozida a salpicada obra do destino,
após largas toneladas de anos.

Em anexo: fonte de inspiração




Intérpretes: Anna Toledo, soprano
                  Carlos Alberto Assis, piano.
                   [Harry Crawl]


SIDERAÇÕES

Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...

Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...

Cruz e Souza

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A polpa e o arco:íris


                         

Paraíso: é na veia da verve que as colinas intumescem seu licor. Enoveladas, vagam revestidas pelo cortinado anil das frescas manhãs, numa tal amplitude córrega que suas arestas não cessam de alimentar minerais acesos.
É tempo de girassóis. Tempo de levantar os botões de suas grandes cabeças e lançarem-se (em)à luz, à proximidade holística com os caiaques e caiapós. Daí a preguiça abater todos os poços, naquela surrupiante dolência típica das tardes de fraque, que mesmo cobertas de incensos e heras, jaz adormecida em postes multicores. Cândido desatar de laços febris, por onde desprendem-se mãos pequeninas, manejadoras do mesmo astrolábio que lançará a noite em seu rumo vítreo,coberta de medalhinhas cintilantes.

Dorme, beleza imensa! Dorme enquanto podes. Sede quarto abandonado, janela aberta ao meio-dia, estrela cadente num céu abobadado, nuvem "transpassante" de bocejos simples e singelos. Minha grama, quintal e alegria, sedução mágica de pastos infinitos e perdidos na mais plena imensidão espúmica.

Argamassa das sensações verdadeiras.

Reine soberana em meu coração de giz! Deixe eu lhe desenhar um pouco no canto das páginas quando eu não (es)tiver mais o que sorrir, quando precisar do colírio para aplacar o choro. Sede este impulso sem grades, imensamente imenso, vagaroso como o acalentado instante dentro de outro instante, replicado pelos vigorosos pontões dos sinos expostos em praça pública. Sem mágoas ou desculpas, como o universo que nunca pediu para ser o que é, posto que cama acolchoada para todos os sonhos, paginados de muitas linhas.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

The Wasteland ou a capacidade desarticulada da circulação



Um outro capítulo da série:

Ainda era um início de tarde quando a última nota da disciplina terminava de ser lançada, fechando suas obrigações. Lá fora, um grande clarão como se algo inchado estivesse prestes a explodir. A partir daquele instante, K. haveria tempo para esbanjar da forma que lhe conviesse. Começou com um copo da água, buscado demoradamente na cozinha. Os dedos a contornarem o gargalo da garrafa, sem pressa. Poderia por acidente deixar a água cair no chão só para depois ter de apanhar um pano para secar. Ou então abandonaria o terreno apenas para medir o tempo necessário para que a água evaporasse por ela própria. A longo prazo, prepararia as malas para viagens, não importasse aonde fosse. Tinha dinheiro de sobra para isso. Havia diversificados planejamentos rondando sua cabeça, apesar dele não parecer estar para isso naquele dia. Queria ter o prazer de nada fazer, nada em absoluto, apenas ficar estirado dentro do apartamento, envolvido pelo ritmo demorado das pás curvadas do ventilador de uma brancura encardida de tanto uso. Tinha que limpá-las também, tinha que, poderia se quisesse. Tudo dependia do esforço de alguns músculos. Havia optado por nada fazer naquele instante. Imaginava como deveria estar vestido naquela ocasião, se limparia com força ou delicadamente dissolvendo a sujeira em pano úmido. Levaria as férias inteira executando aquela função, se necessário. Mas não sabia se deveria gastá-la deste modo e até que momento o seu ócio poderia desfazer a encantada surdez. Por trás das janelas, as ruas estavam intensamente recheadas dos mais variados e irritantes ruídos. Com a aproximação da noite, passaria horas angustiantes atrás dos mosquitos que zombavam e zombavam de sua existência.

No entanto, lembrou-se de um encontro combinado com sua mãe, naquela mesma tarde. E assim sendo, K. seguiu sua promessa praticando todos os necessários cerimoniais antes que pudesse sair. Tinha de ir ao banheiro, regar ou pelo menos rebatizar a garganta com água fresca, pentear as poucas mechas assanhadas de cabelo para só depois dizer lançar-se e ser carregado pelos passos que o levassem até o seu destino.

No primeiro átimo de segundo, aquele clarão acobertado pelas cortinas, se revelava como uma criptonita despejada por algum homem insano. Acaso fosse uma mera explosão, ela teria um fim, mas aquela era uma explosão que parecia perpetuar no tempo e espaço. Estava muito calor. Rapidamente sua blusa ganhava uma tonalidade escura nas partes mais diversificadas e encavadas do corpo. "Isto não pode ser real", pensava.Havia algo de muito metafísico naquilo tudo. Aquele balde de tinta dourada que o sol tingia com sua língua parecia carregada de parafusos pontudos que ao tocar friccionava, espremendo o tal líquido escuro ao qual ninguém sonhava trazer consigo, pelos poros. Era algo muito profundo e falso ao mesmo tempo. As pessoas viravam chafarizes ambulantes, untadas por uma máscara espessa e densa. Parecia um enorme teatro ao céu aberto. Do outro lado do muro, um negrume sinistro "tantaleava" como verdadeiros copos d'água, contornando a falaciosa malha afivelada e brilhante de lava que era despejada por aquele ponto tão distante do grande céu azul de apenas três letras chamado sol. Aquele transbordamento auricular curvava ou "corcunizava" os olhares, isentos de melancolia, fatigados por um esgoelar qualquer. O que podiam fazer os sofridos transeuntes se a coroa não era deles?

Imersos naquela realidade, os desertos, imperiosos, se proliferavam dentro deles mesmos. No lugar da melancolia, havia o desânimo, a gula e uma indiferença peculiar. Esta salivava por dentro a todo instante querendo tocar mesmo as superfícies ásperas, como se estivessem mortas e gélidas. O importante era um saque bem feito. Descolar dos lábios fechados um semicírculo em formato de pétala, das bordas de algum recipiente cheio; marca indelével de quem furta descaradamente com o próprio corpo.

Todos aparentavam um obscuro e secreto desejo de esfarelamento,pois naquela situação a matéria tornava-se um incômodo enquanto dureza estática. Queriam escorrer como o leito de um córrego escorre, arrastando tudo que estivesse pela frente. "Por que pensar naquilo que resiste e exaure lama até as últimas gotas?" É tão pecaminosa a cena que até moscas verdes mereciam ser atraídas para o processo de ressecamento. Era o deserto que habitava a carne, deixando aquele típico rastro linear e delirante de luz fosca na pele. Expelir para ingerir, ingerir para expelir. No ritmo do coração-pele-língua, os esquecimentos reproduziam-se. "Para que uma memória da areia?". Um dia morto, de folhas "cácticas" de tão estáticas. Nem o vento fazia sua visita desgovernada. Havia apenas o rei sol e ele era o pai da terra que assava vorazmente, apertando as gargantas até o sufocamento e a loucura repentina, ato desesperador de quem deseja saltar de qualquer forma as labaredas devoradoras.

Saltar era o verbo principal naquela cidade. Saltar para não desabar. E assim faziam, saltando partes de si para os lados de um modo diferente do encolhimento em posição fetal dos povos da região glacial. "Eles precisam das faíscas para sobreviver", argumenta K., "e aqui são tantas que não conseguimos lidar sem queimarmos algo. O que pensa Deus disso? Que somos pães para sua manteiga?".

Havia uma desejosa preferência do movimento ao pertencimento. Mover o corpo para saltar a realidade dos dias que desabam, colhendo camadas premiadas de ar a cada ação. Diferentemente dos outros povos do extremo norte e sul que quando não estão em posição fetal, querem saltar para chamuscar algum agrado solitário. Se por alguma bruma qualquer ao pertencimento fossem leais, o esquecimento lhes recobririam cada gesto com um gel apagado de pleno esvaziamento, usuais das famílias desbotadas. Os ninhos de cobra não paravam de nascer.

Após dobrar a esquina da rua da casa de sua mãe, observou algumas pedras costuradas entre os muros que o fizeram lembrar as regiões litorâneas. Como desejou naquele momento ser um pequeno líquen numa pedra de lá! A verdade daquele sol era tão crua, tão desumana...

Tanta nudez castigada na atmosfera daquele local que por pouco poderia pensar que não existia verdadeiramente aquela palavrinha há muito esquecida em seu vigor. À distância muitos diriam se tratar de um paraíso, onde seu povo cantava livre o prazer divino. Amarga ilusão. Mal sabiam o que o maçarico era possível de fazer com a alma daqueles herdeiros de um certo germe nova-iorquino do final do século XIX, embrutecedor de corações humanos.

A razão pela acidez daquele amarelado putrefato para além da simples iluminação estava naquele outro amarelo espoliado e golfado durante gerações em guerras e tecnologias inúteis. Foi isto que, ao longo dos séculos, transformou os dedos sóbrios da mão em punho nebulosamente fechado e ocluso de peso irresponsável.

O que fazer? A única solução era agredir a agressão e perfurar ventos com a ajuda de modernos veículos ou ainda camuflar-se na intensidade esquecida de alguma sombra em determinadas horas do dia. Vender a própria sombra à sombra maior, uma parceria deveras justa apesar de demasiadamente mefistofélica. No fim, todos resistiam como por um milagre, mesmo quando isolados dos “verdumes” maternais. As tais sombras maiores eram almas de suas próprias almas feitas a créditos durante anos a fio e agora se erguiam ao céu empregando suas frontes opacas para o mundo também opaco. K. sabia que este era o fenômeno mais ordinário possível. Até mesmo quem residia naqueles disseminados artefatos claustrofóbicos utilizavam de apetrechos para bloquearem a luz e irradiarem suas antíteses, suas costas. Naquela cidade todos buscam as costas de alguma coisa para terem onde se esconder provisoriamente.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ode sonora: Suite para violino,piano e pequena orquestra - Aria por Lou Harrison




Red Boat with Blue Sails - 1906/07
[Odilon Redon]







Intérpretes: Keith Jarrett - piano
                   Lucy Stoltzman, violino


Migalhas de pão soltas em praia de cristal-areia.
Céu atravessado em azul suave.
O mar é uma longa canoa em quinhão lúdico.
As mãos, adocicadas, enveludam-se em sal;espumas.
A alegria em pasta no corpo do menino encabado de sorrisos.
Dança semi-esvoaçante de saias, transparência que vai e volta.
Um abrir de olhos em argilosa vidência,
Atapetada em amarelo-tigre.
Enrodilha-se o sutil fermento da pele,
Sob vastas gramíneas.
E o balão carregado de pastéis não tarda a subir pelos ares,
esticando os astros que o compõe.
Permanente impermanência que ressoa.
Cavalos de traços pomos em "carrosséica" aventura.
Pegadas no ar, braços em proa.
Gangorras.
Os montinhos de areia sendo alterados com a alma dos pulsos.
Um girassol revelatório que abre e encerra seu mistério purpúreo.
Cegonhas sobre-voando.
Lufada de um sol de domingo cobrindo os grãos do tempo.

Casa de Penhores




Les oiseaux vous poursuivent, 1929-1930
[Paul Nougé]


Não sei se sou o que sou, pois sendo deixo de ser. Hipoteco minha certeza ao pensamento que evade. Existo ou coexistem em mim? Tantos de mim ali nos lugares onde eu nunca poderia estar….
Silêncio. Sim, silêncio, o mais rasgado e débil possível,caverna horrorosa e pontuda.
Se sou uma mera projeção disto,uma espécie de acabamento de algo muito maior que as palpitações oriundas de minhas mãos e pés,estou permanentemente inacabado então? Comecei alguma vez ao menos? O que dizer do tino de meu corpo que nasce morrendo em estado de quando for,como a onírica permanência dos astros?

Saturação
.
Crédito em parcelas acomedidas e,na maioria das vezes, descabidas.
Afunilamentos por contrato
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Malditas vírgulas que fendas me trazem!
.
Malditas fendas que vírgulas me tornam!
.


“Inconclusões”,sempre elas. Mil e uma possibilidades de dissolver o ser.
O problema disto não está em si nos fragmentos ilusórios dos descaminhos, que são belos e autênticos aos olhos dos desabrigados, e sim a impertinência do silêncio armado. Quantas poéticas improvisações passaram desapercebidas? Quantas horas douradas naufragaram sem nunca terem deixado o porto? A tragédia conforme gaveta de sapateiro.
Chega um tempo em que “sim” e “não” deixam o estado de palavra para ser fantoches de um jogo maior, ininteligível enquanto processo cronológico. Quando as pestanas tremerem sem frêmitos e sorrisos se esforçarem semi-turvos, tem-se certeza do apuros que trazem, porque estarão neste momento devorando a exatidão que lhes falta.

Veredas de fluxos amassados.

Por fim, as correntes alternam-se ao som dos relógios ainda úmidos de chuva e a noite começa a ser real…