segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O mistério da queda






 Larisa (1980) para filme homônimo, dirigido por Elen Klimov 
[Alfred Schnittke]


"(...)
Como saber? A princípio parece deserto,
como se nada ficasse, e um rio corresse
por tua casa, tudo absorvendo.
Lençóis amarelecem, gravatas puem,
a barba cresce, cai, os dentes caem,
os braços caem,
caem partículas de comida de um garfo hesitante,
as coisas caem, caem, caem,
e o chão está limpo, é liso.
Pessoas deitam-se, são transportadas, desaparecem,
e tudo é liso, salvo teu rosto
sobre a mesa encurvado; e tudo imóvel."

Carlos Drummond in Indicações apud. A Rosa do Povo, p.56.


Se a bola batesse em mim, mexeria uma das pernas com a maior destreza do tendão, a fazer saltar o impacto entre nós dois, como se nada mais existisse a não ser essa simplicidade germinadora. Ela que vira pétala de fazer deslizar chuva. Ela que cheira a fruta, no seu escalavrar não cumulatório. Simplicidade: verbo plúmico.
Usa e desusa, nem pensa em reusar enquanto parecer fortuito o amanhecer do sol sobre o vidro estrelado.

Mudam as diretrizes ao encontrar com o problema. Vai de encontro com o não-tão de passado. Passa a reservar tempo para amanheceres específicos e cada vez mais reusa quando não consegue. É assim que aprende a rebater penhascos, precipícios, montanhas de areia. Um rastro no chão fica impermeável até o desânimo se apossar e fazer torcer até doer, de curvar os pés frente as mãos, o dorso a abrir cavernas para assentar e proteger contra o ranger dos meteoritos de fora. Pisca-pisca a noite enquanto vai enferrujando, o tempo do branco se rasgando. Em breve, só há hora para o crepúsculo, o retiro de quem troca o outro por um de menor tamanho. O que sobra é o tão fofo não mais sentido da cama pela qual se obra o descanso e o benefício da paz contrita a si e para si, num dormir profundo de sonho que é todo bola.     

sábado, 13 de outubro de 2012

Sentimento de mundo

Pela janela, a casa escuta a fechadura. "É noite", diz, apesar das cortinas estarem abertas. Não há sono e, por isso, abertas estão, como quem ainda sustentasse o pano, à espera de alguma coisa que não sol. Janela, você não nasceu hoje. Em ti caminha algum espelho o qual o mundo anseia em colocar para fazer-te aos próprios olhos, mal sabendo ele que você carrega um também, próprio, indecifrável à reles rotina dos seus atos.
Ele acaba de a visitar, agora. Traz consigo uma pilha de imundices, querendo-a manchada e estragada. Sangra a tua vista, a ponto de nunca mais poder ser outra coisa senão aquilo em que te envolveu. Esse é o medo que a faz tremer as cortinas, pois sem poder correr, condenada está a ser quebrada, a sofrer danos irreversíveis. Dependerá da casa se prestar a colocá-la sobre outra margem - e ela não é boba para te perder de vista...
Janela, sabe esse esfumaçar de vida a qual chama de crepúsculo, a mesma palavra dessa coisa em que te metem? Poeira sobra para levantar paisagens, constelações, idílios longínquos dos quais assisto da ponta de minha janela.Às vezes penso que você também se quede por tais fantasias idiotas, e não tão somente da parte do alívio prático, quando o cristalino te recupera, tirando-a do fundo do esquecimento maldito que o mundo a quer. Nocauteada, você sorri depois, por conseguir transfigurar a realidade, sentindo-se satisfeita por te desfigurarem, dando a ligeira impressão de estar acima daquele que a fere...
A sujeira desce, se junta ao que restou das outras vezes e por lá fica como lembrança a reafirmar presença. O relevo cresce, naturalmente. E a cada vez que o mundo desemboca, o coração bate depressa, o pano levantado. Chega um ponto em que estoura e vaza o passado, escorrendo lacrimal até a mesa de sua cozinha refinada, embebendo o tecido de sua gênese espalmada, soberana, tal qual uma estatueta num dia chuvoso.
Cansada, sem se cansar, caminha a presença da janela às portas do se poder sonhar.


Inspirado num vídeo performático de uma querida pessoa.

domingo, 7 de outubro de 2012

Cambalhota ou a capacidade de se entortar direito

  Seated Figure (1946)
[Francis Bacon]

"Señora: en esta historia nada pasa. Lo mismo sucede en la vida, que si algún día ocurre algo es tan inverosímil y absurdo que preferiríamos no hubiese pasado"
Luís Cernuda in El viento de la colina apud Obras completas, Murcia, Siruela,1994. p. 268.



Sozinho, o artista configurava os remendos do palco. Pequeno movimento nas mãos baixas ajeitava o que tinha à disposição: um papel branco e uma caneta hidrocor. Como uma sutil sinfonia, ele segurava as duas no primeiro fio de se fazer discurso. Delas saíam palavras que só criavam sentido se ordenadas na parede - a partir desse momento também pele do artista. Ao passo que as pernas passam a se altefazer, o corpo (antes baixo) ergue a musculatura, a riscar e fazer riscar as vezes, saltitantes formas. Oscar Wilde. Conceitos sobre modernidade e o tempo do já passou. Questões. O corpo sobe, toma a vida das questões e logo poses surgem, ironias, sublevações que extrapolam a zona do palco, tornando-o cada vez mais mundo, com direito a experiências sensoriais e tudo. A camisa cai. Depois a calça. A cueca, esta atraída pela superfície imantada da parede branca, pele de Moby Dick.
Por fim, passa a ser - na íntegra - puro corpo, apesar de já nem tão puro, o corpo. Os tênis da NIKE não desgrudam, como se quisesse acusar o corpo da culpa que tem. Essa observação do objeto que o doma, fazendo dele animal inconteste, de muitos dentes e nenhuma gravata, vem só minutos depois quando a nudez passa a ser colocada de lado e naturalizada perante a normatização de um corpo que sofre a bulimia da indústria e do consumo recalcante. Está nu, a usar focinheira, numa agonia de causar fim. Lateja o púlpito da carne, o corpo mesmo completo, já nada significante frente ao estarrecedor governo do de fora que o cansa e vai cansando ao som do fazer, como se agulha fosse a se aproximar da pele-nossa, através do olhar, parte que fica sem deixar. Vai enrispecendo o corpo, tornando-o mais vermelho, mais cansaço, mais absurdo de agulha, a ponto de gemer, tremer como em delirium tremens, na consumação sem retorno, o corpo só a obedecer e desgastar o forro do limite.
...
Esquisita a sensação quando algo mesmo apontando ao irresoluto, é fim de ponto e tudo, quando sai pela porta dos fundos e fica. Dá a sensação de que aquilo nunca existiu, que não passou de uma indisposição qualquer, mesmo que acontecesse diariamente, sob o peso do excesso que faz de nós consumidores de um só produto, ta qual mais possível fosse amar uma imagem que um coração manchado de sangue por dentro.

domingo, 9 de setembro de 2012

Aprendizagem






Der unterbrochene Gedanke (1988) para quarteto de cordas
[Krzysztof Penderecki]

Na véspera da semana, quando nada mais parece acontecer de verdade, seu siri aparece articulando com lentidão, para um lado e para outro, três patas dianteiras na frente do rosto. É o modo como costuma se envolver com as coisas: a pata do meio oscilando entre as outras duas. Passa o jornal, o filme, a estréia, a revista semanal, o livro, tudo passa, só seu siri fica, estalando a fruição pessoal. O relógio vai deixando seus pertencentes pelo caminho, o dia vai trocando de roupa, e seu siri permanece acariciando um algo que consiga amarrar o gonzo do tempo junto.
Um menino abre o berro no lado da noite, choro tão efêmero quanto um chuvisco numa tarde ensolarada. Seu siri percebe o quanto deve ao cansaço e continua os ponteiros cosendo à sua devoção.
Chorasse um outro horário e ele tampouco perceberia, pois a devoção pela qual inscreve-se tem limites, sob pena de se ver sozinho no mundo. Seu siri jamais pensava na possibilidade de estar só. Tinha obrigações diárias o bastante para afixar-se a elas com correias e algemas. A cada lugar e fisionomia revisitado, o hábito trocando o sujeito pela permanência, o espaço pelo tempo até a opacização numa ação afunilante, magra de carnes. Pelo menos era tranquila, segura, podendo resguardar o passado e, de algum modo, o futuro, naquilo que o obrigava a ser como costumava ser: um siri mais acrescentado para o dia-a-dia, afinal qual justificativa haveria para os anos de envelhecimento?
O menino depois aprenderia também o caminho da devoção do seu siri, de maneira a regrar o sustento e a mesura do tempo. E assim ia sendo até que o berro de um outro menino se fizesse ouvir eruptivo, com lavas que queimassem como nenhum outro coração, inclusive as papeladas remissivas trazidas pelo seu siri. Conheceria a curva do vento, a timidez das formigas, o grão quente por onde o lixo se acumula aos borbotões e a indiferença se aninha às vespas. A sombra do seu siri ficaria por baixo, examinando e tilitando moedas à distância. Todavia a tempestade não duraria muito quando, sozinho e entregue, provasse a ânsia lhe escapando a cada minuto e a força do menos acumulada num mais erguido sobre um lado contrário: a impotência fremente de um mais que não podendo retornar, é inútil e emurchece. Logo se cansaria de toda aquela experiência que o seu siri apenas imaginava nas vésperas das semanas e feriados quando punha o pêndulo do braço médio em circulação, deitaria o ouvido no chão para passar o calor fremente do corpo aos murmúrios da terra e dela se fazer húmus, bolhas que ascendem ao estouro límpido e sereno.

domingo, 15 de julho de 2012

Da série "A provação da luz": O rei está vivo (2000)


As primeiras imagens despontam cansadas como se no interior de um túnel ferroviário estivessem. Imagens mal nascidas e já abissais, reveladas graças à luz elétrica e às barras metálicas no interior daquele compartimento de assentos. Entre uma e outra, passageiros permanecem aquiescidos de um silêncio sem pausa que o som do motor acoberta. A luz dos faróis iluminando a estrada rachada e desolada, reforça o peso da noite sem céu. Quando o motorista percebe a falha também na bússola, já é tarde demais para acordar.

CONDENAÇÃO - a palavra agrilhoada que se faz ouvir ressonante.

Do outro lado do dia, o quadro se completa no pouco a pouco do combustível se acabando no percurso.
Alheio a qualquer orientação,
a civilização
(sentada)
se acab_

_ando.
Com a mesma intensidade que a escuridão, a luz pesa e faz pesar ondas de calor. Pessoas se distraem com o deserto passando nas janelas tal qual nuvens, sem pensar que é o deserto quem se distrai com pessoas passando nas janelas. De repente, uma aldeia à distância, num marrom escurecido e mal juntado. Os casebres se aproximam e crescem ao redor do ônibus até fazê-lo menor.

Param, as rodas. Começam outras no momento em que a porta abre para o motorista e outros passageiros descerem. A estrada é de um sem fim muito longo dando a impressão de andar em círculos. 
O motorista se encaminha para o posto de entrada a fim de conversar com um homem magro-de-carne, da cor do universo; o cristalino branco dos olhos contracenando com a pele e a vermelhidão da língua. O que o vento cumpriu de levar não se sabe, mas o fato é que o deserto deixa ficar como se houvesse fincado a bandeira na lua deles. Vai ficando, deixando de mais em mais, até umedecer o pano da realidade trazido da urbe, onde remendado estão as memórias e desejos mil.

A partir do momento em que o suor abraça o rosto, está decidido: a solução é ficar na areia como quem prende a respiração à espera de um momento abaixo do ideal: de um momento possível. É o que fazem cada um ao ocupar as cabanas. Mal sabem que a fita do deserto é metálica, como o ferro batido do ônibus, por onde o tempo arranha com a agulha, deixando marcas inapagáveis entendidas somente pelo corpo. O deserto é um nada que nunca cessa de rodar e de fazer rodante. E é esse rodopio que pereniza as coisas, no martírio da experiência irrevogável.

No cair da noite, tal qual os turistas fazem no usufruto da terra estrangeira, é a vez das máscaras dançarem as cirandas que lhes são atribuídas. Lançam-se os primeiros contornos que à luz do dia ficaram omissos e agora mais perto, embora nem sempre nítidos (memórias e desejos picotados lado a lado), num balé de ganchos que puxa e contra puxa algum valor consonante à pele. Um sem sombras de variações decoladas nas paredes isoladas. Nesse exercicio do incorporar, há sempre o risco da revelação e também do tilt. Lêdo engano acreditar que o poente encobre por completo o nascente. De fato, é como pôr o dedo no filete de água para conter o fluxo e ver que ela continua a escorrer, mas por outro caminho. É o que ocorre primeiro com um homem que revisita o corpo da esposa, segundo com uma moça que com uma alegria juvenil à americana quer um novo amor lésbico. Incompreensões. O que fazer quando se vê preso ao que não se prende? O deserto parece se divertir com o buraco esvaziando o saco.

Durante a manhã: o que fazer da espera? "Encenar Lear!" foi a ideia que ocupou a mente do dramaturgo, ademais que tipo de loucura sairia daquele acúmulo de incertezas íntimas ao sonho?
Descapotar.
Descapotar.
O deserto tão próximo como Shakespeare nunca imaginara. Todos com os papéis nas mãos, seguindo-os à risca, a voz encoleirada. A interrupção e seus respectivos retalhos se perfaziam, causados pela desidratação,cansaço, fome e desilusão, desserviços do grande vilão areado: um Lear atualíssimo, percebe o dramaturgo ao coçar a barba. E subitamente lá estavam Lear, Goneril, Cordelia e até Gloster, na sua gordura libidinosa. Um belo experimento ao dramaturgo ao qual nenhum teatro ou dinheiro poderia proporcionar.

Forçados, errantes, todos no desassossego causado por aquele estar temporário que não passava nunca e o que era pior: ia manchando, machucando, chegando às bordas do aparentemente intransponível como as da lâmina e da gengiva. O passageiro gordo e bem mais velho combina com moça "à americana" algum acerto. Em troca, a "comeria", enuncia balançando a carne do corpo. Proposta idiota, aceita pelo ócio ou curiosidade febril.  O faz colado de areia, deixando um rio no qual nenhum dois conseguirão atravessar: ela, por não saber nadar a memória daquilo, o desejo em cinzas ou guimbas. Ele, por saber (depois), que o prazer dele nela a traumatiza. A secreta descoberta da bela juventude dizendo que as raízes estão podres. O que dizer então da copa que é a soma daquelas partes? Eles, mortos e enterrados pelo instante que o vento e o sol arrastaram nas areias frias do casebre sem luz, onde desanimados todos ouviram o sujo prazer.
Insosso.
As inutilidades ao longo do percurso não surpreendem, servindo senão para reforçar o andamento deserto-dramatúrgico: Lear. O homem cor de universo, narrador do tempo, assegura a cadência num final pouco significativo - se assim houve um começo. Pouco importa se saíram ou não do inferno às apalpadelas das máscaras de oxigênio. "The rest is silence", a voz sem pausa do silêncio nos diz. Recomeços. Lear não morre tão fácil.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Da série "Obras anônimas": Bruno Schulz






Old World
[Tin Hat]



"Não há objetos mortos, duros, limitados. Tudo se difunde para além dos seus limites, permanece apenas um instante numa determinada forma, para deixá-la na primeira oportunidade. Nos costumes, nos modos de ser dessa realidade manifesta-se um certo princípio - o da pan-mascarada. A realidade reveste-se de certas formas apenas para fingir, para brincar, para se divertir. Alguém é um homem, alguém é uma barata, mas essa forma não atinge o essencial, é apenas um papel assumido por um momento, apenas uma epiderme, que logo será tirada.(...) A vida da substância consiste no gasto de inúmeras máscaras. Essa migração das formas é a essência da vida. (...)
Trechos da carta de Bruno Schulz a St. I. Witkiewicz de 1935. BN, 443


O Caderno


Em meio ao esfarelar das horas alguém revirava a estante. Mãos mergulhavam de cima à baixo num movimento de inércia frouxa, como quem retira as pedras de uma ruína há muito esquecida. Lá jaziam páginas e mais páginas da memória humana, letras submersas e destituídas de qualquer função prática e que permaneciam estáticas, ressequidas pela ferrugem e pelo mágico anelo das teias. Os dedos logo ficavam pretos de tanta tintura velha.

Bastou um sopro para as imagens desembaraçarem os grilhões, levantando as asas numa simplicidade muito nostálgica. Foi assim que, repentinamente, um caderno azul se materializou cor. O azul forte da capa com um estilo jovial, adquirido por inteiro desejo de sua mãe para as aulas escolares, fez com que nele se agitassem dias remotos em quando apoiava o cotovelo na beira da mesa e se debruçava sobre aquela relva de folhas alvas para inoculá-las de letras,caprichos e garranchos.

O ruído dos anos atravessados pelo roçar da folha sobre o metal espiralado era inestimável aos seus ouvidos. A estrutura das páginas seguia um ritmo específico quando o então copista procurava repetir os sinais sagrados profeciados pelo professor de Português. Sim, era um caderno de Português e Redação que continha informações imaculadas por um homem de pêlos másculos e bigode engraçado. É fato que não chegara a conhecê-lo pessoalmente e que para muitos sua existência residiu naqueles momentos quando,segurando o bigode com a boca, oscilava a caneta pelas provas e boletins. Usava sempre camisa Polo e uma careca invejosa sobre a cabeça. Às vezes brincava mais do que necessário com algumas meninas, porém isso não empobrecia a didática respeitosa e séria das olheiras esguias.

O indivíduo que segurava o caderno não sabia como aquelas páginas, antes tão frescas de bronze, passaram anos adormecidas como um corpo carbonizado pela chama. Com alguma paciência era possível testemunhar frases que rebolavam as sombras de seu próprio universo, naquele tempo das peregrinações. A mão que agora estirava a leitura sobre a solitária luminária da cabeceira, impregnando-a de rodelas sujas, não era a mesma mão.

Fechando os olhos e deslizando o indicador e o polegar pelas feridas emudecidas das folhas, sentia o tempo nas colorações do leito sossegado; a fricção violenta que outrora fez sucumbir aquele caderno àquelas inscrições inférteis e sobranceiras. Dificil acreditar como,nas tardes serenas pós-recreio, se obrigava a deslizar o pulso — ainda cheirando a requeijão — pelo caderno,cheio de energia, até transplantar todo o conteúdo do imenso quadro negro…

Retirada a pele do infante, uma outra transparece,tão viva e misteriosa quanto o último dia em que o caderno precisou ser aberto no itinerário ingênuo de beato sem causa e o professor dar as caras em sala de aula.

Pequenos exemplos contidos naquelas folhas pareciam dilapidar uma tortuosa saga passada pelo homem de bigode, que resistia sob o estandarte de um poema sem jeito. Quase nunca faltava. Chegava em sala com aqueles braços e mãos cobertas de giz e, levantando o bigode na projeção do nariz imenso, agitava braços como varinhas, que mais pareciam penas fofas, ainda que os dentes lhe apodrecessem a aparência e a idade pesasse a face. Trazia um anel de noivado em uma das mãos, isento de esplendor, que fazia questão de exibir às freiras e padres daquele lugar. E como se divertia naquelas ocasiões!

Vivia reclamando por algo às escuras e sabia muito bem esconder suas amarguras no miolo das frases. Na paisagem de seus exemplos, o recheio vinha carregado de obscura melancolia, como nas pinturas de Adolph Menzel, seja sobre as flexões verbais onde os dias eram chuvosos em Petrópolis ou em algo mais. Às vezes ele se soltava e tentava incrementar com alento, porém repetia-se prenhe de tempestades camufladas e chuvas e Petrópolis; algo que o jovem copista na época nunca se atentara, afogado no contexto, na seriedade dos deveres e na dormência dos dedos. Certa vez, um pouco mais acordado, avistara no braço esquerdo uma tatuagem querendo sair pela manga da camisa. E um pouco abaixo, um músculo montanhoso que certa vez alega ter visto flexionado, para as meninas adoradoras de abacates.

Não havia dúvida de que gostava de sentir-se jovem e revigorado, mas algo entre o ir e o vir costumava minguá-lo de uma maneira bastante estranha.
 Passava as tardes ora no parapeito estudantil ora encolhido a caminhar pelo pátio, sozinho, com o pensamento nas mangas da camisa e um copo de café nas mãos, em passos cada vez mais langorosos e apertados por aqueles sapatos que mais pareciam botas. Quando um padre passava próximo a ele,sorria como quem tivesse engolido um peixe inteiro de uma só vez. Depois sua boca sumia, permanecendo apenas os olhos recortados.

Os dias passavam sob uma mesma afinação de corda até o sinal tocar. Ele ainda permanecia por algum tempo arrumando a pasta preta e a morder o mindinho, mas quando erguia da cadeira, fechava-se em seu bigode, a cabeça mantida baixa e, com as golas soçobrantes da camisa Polo, se retirava em silêncio com o único intuito de estrebuchar seu mal-estar nos corredores vazios, após verificar de lado a outro se alguém o seguia. E alguém estava o seguindo, realmente. Via o quão demorava no banheiro, ensaboando os dedos, passando o papel higiênico umedecido no rosto, endireitando as gravatas das olheiras.

O professor e o aluno partiram, esconderam-se nas folhagens da vida para nunca mais se verem. Como educador, deixara depositado algo muito humano naquelas frases pequenas e didáticas,agora espalhadas em não sei quantos cadernos e estantes ao redor do bairro. Mas alguém ainda o seguia de perto, porque nunca partimos completamente.
(Inspirado em "O Livro" de Schulz, cujos excertos reproduzimos abaixo)


"O LIVRO

Costumo chamá-lo simplesmente o Livro, sem qualquer definição ou adjetivo, e, nesta sobriedade e autolimitação, há um suspiro impotente, uma capitulação silenciosa diante da vastidão do transcendente, porque não existe palavra, não existe alusão, que possam reluzir, emitir um perfume, escorrer num frêmito de susto, num pressentimento do que não tem nome, mas cujo primeiro sabor na ponta da língua ultrapassa a capacidade de nosso deslumbramento.
(...)
O Livro...Nalgum lugar, no amanhecer da infância, na primeira alvorada da vida resplandecia o horizonte de sua luz amena.
(...)
Inclinado sobre este Livro, de rosto flamejante como o arco-íris, eu ardia em silêncio entre um e outro êxtase. Ao mergulhar na leitura esqueci-me do almoço. A intuição não me enganou:era o Livro verdadeiro, original sagrado, embora numa humilhação e degradação profundas. E quando ao anoitecer, sorrindo prazerosamente, colocava a papelada numa gaveta mais profunda, cobrindo-a, para disfarçar, com outros livros, parecia-me que estava colocando o arco-íris, que sempre se acendia de novo, passando por todas as chamas e púrpuras, e voltava mais uma vez, sem querer acabar.
Quão indiferente fiquei agora aos outros livros!
Porque os livros comuns são como meteoros. Cada um tem o seu único momento, o momento em que ergue, com um grito, o seu vôo, feito fênix, ardendo em todas as suas páginas. Por causa de um momento desses, por esse único instante, depois nós os amamos, embora já não sejam mais do que cinza. E às vezes, à noite, passamos por suas páginas frias, movendo, como um rosário, com um ruído de madeira, suas fórmulas mortas.
Os exegetas do Livro afirmam que todos os livros aspiram ao Livro verdadeiro. Eles vivem apenas uma vida emprestada, que no momento de ascensão retorna à sua antiga origem. Isto significa que o número de livros diminui, enquanto o Livro verdadeiro cresce.
(...)
Então,a época genial existiu ou não? É difícil de responder. Sim e não. Porque há coisas que não podem acontecer totalmente, até o fim. São grandes e magníficas demais paar caber num acontecimento. Elas tentam acontecer, elas só verificam se o solo da realidade as aguenta. E logo recuam, com medo de perder a sua integridade na deficiência da realização.
(...)
Aqui ocorre o fenômeno da representação e da existência substitutiva. Um acontecimento pode ser,devido à sua origem e seus próprios meios, pequeno e pobre, no entanto, junto ao olho, pode abrir em seu interior uma perspectiva infinita e radiante, porque o ser superior tenta exprimir-se nele e brilha nele violentamente.

Assim, vamos recolher essas alusões, essas aproximações terrestres, essas estações e etapas dos caminhos de nossa vida como fragmentos de um espelho quebrado. Vamos recolher, pedaço por pedaço,aquilo que é uno e indivisível: a nossa grande época, a época genial da nossa vida.
(...)
Será que podemos arriscar a viagem à época genial?
Passamos o nosso medo ao leitor. Sentimos seu nervosismo. Apesar das aparências de animação, nós também temos peso no coração e estamos cheios de angústia.
Portanto, em nome de Deus - entremos, e vamos embora!"

Texto originalmente publicado na revista Estudos Hum(e)anos, no. 63 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O elefante e o caçador ou o porquê a fome é inimiga da incerteza







 Bolinas (2007) para fita magnética e piano
[Juan Reyes]


Era uma vez um elefante que vivia na floresta de Malek, situada numa ilha, no meio do oceano. À distância parecia ser um reles elefante, destes que vivem comendo e dormindo. Um movimento de aproximação atenta bastava para perceber que nada dele parecia corresponder à espécie enorme e opulenta, possuidora de rica carne gordurenta. Assemelhava-se mais a um acordeão murcho e sem viço de algum marinheiro. Era magro, muito magro. As costelas apareciam todas, da primeira à última. Uma coisa só o satisfazia: apalpar a terra com a tromba em busca de alimentos. Pegava, levava-o à boca em livre examinação e, não gostando, devolvia ao lugar de origem. Os animais não compreendiam muito bem o porquê da recusa, pois havia comida em abundância: a mata era de um verde escuro e diversificado, típico de Kipling.  Quando perguntavam, ele dizia não ter tempo para conversas, que estava com fome e precisava comer depressa. Macacos e chimpanzés riam daquela atitude e volta e meia faziam estripulias pulando sobre o elefante ou passando os dedos sobre as imensas costelas do animal que nada fazia senão caminhar em busca de sua alimentação.

Em certa ocasião, aparece um homem naquela ilha, o único depois de tantos anos.
Sustentando, com ambas as mãos, uma espingarda envernizada, pisoteava as plantas e o que viesse no meio do caminho. O cigarro pequeno no canto da boca. Bastava um movimento para receber a bala quente do cano. E para isso, tinha bala de sobra na cintura e quase nunca errava tiro algum.

Caminhava por entre os cadáveres com completo desdém. A barba cerrada acentuando ainda mais a expressão carregada do rosto, olhar de quem sabe o que procura. O cigarro soltando fumaça. Os dedos grossos no gatilho para qualquer incerteza que manchasse sua clara superioridade.

O elefante percebeu a enorme confusão e um silêncio apavorante consumir a floresta. Permaneceu tranquilo, sereno, como alguém que observa de outra superfície. Fazia esforço tremendo para levantar uma zebra caída em sangue, no intuito de continuar apalpando o solo.

O caçador havia circundado a ilha. Nenhum pio. Visitou o farol, os dois estabelecimentos comerciais, a escola, a biblioteca, o fórum legislativo, abandonados há tempos e nada encontrou senão teias e aranhas, reflexos da caça impetuosa.

Estava voltando para o barco a remo amarrado a um toco de árvore na praia da ilha quando percebeu o elefante atrás de si:

- Ahá, você está aí! Seu danado!

Mirou na cabeça do animal com um sadismo incontrolável. Mas já era impossível prosseguir quando a jibóia lhe engolia os pés. A arma caiu sobre a areia fofa. Os braços se agitavam da maneira que podia. A voz articulava da maneira que podia. Mas não podia mais. Não podia nunca mais. Estalos atrás de estalos. Pelas pupilas do elefante,  o reflexo da cena, a boca mastigando o alimento com calma e desinteresse bovino. Pouco a pouco o homem enorme sumiu no estômago do réptil. A jibóia ficou enorme, do tamanho do elefante e permaneceu meses imóvel, tentando digerir aquilo.  Sob um céu estrelado, não conseguiu suportar e desistiu. O elefante também, faminto, de joelhos dobrados.

Inspirado num interessante texto intitulado "O elefante e o medo do escuro" do amigo Mariel Reis.

domingo, 3 de junho de 2012

Ode sonora: Visions de l'Amen: VI. Amen de jugement de Olivier Messiaen




Intérpretes: (???)
                   


É a vez de Pedro. Desnudo da cintura para cima, ergue-se do quarto com o intuito de realizar a obra que tanto quer: ser livre. Para isso, coleta tijolos, suspendendo-os um a um com a força dos punhos. Deste jeito. Maquinalmente a instrução como se fossem meros testes para uma certeza pronta. Livros de causar inveja e espanto. Presta menos atenção à sujeira e ao peso que meteu o corpo, sem se acidentar. Quando completa o prazo de entrega, é reprovado.

Pedro volta com outra estratégia. Os pés na mesma posição como se tivessem amortecido o impacto. Usa a química desta vez, para prender melhor os sólidos. Os óculos na ponta do nariz. Acrescenta, acrescenta, recobrindo a estrutura por cima como um caldo suculento. Entretanto, a mensagem é clara, quando, à altura dos olhos, ela desarma por completo. Novamente ele voltando a ser o que foi, um caco de experiência a mais que o anterior.

Emprega a aritmética, remanejando os espaços que diminuem. Vão sumindo, sumindo até a quase dissolução. "Sólido sólido", descreve, impossível. Chega até a divulgar a inauguração. Todavia ela cede mais uma vez num outro retorno aos pedaços do começo.

Pedro põe a roupa do mago: se reveste como orador, ciceroneia nos grupos fechados, encontra amigos e inimigos como nunca que o ajudam moralmente. À medida que avança, contente, satisfeito, questiona sobre aquilo que o colocou em situação complicada durante os vários anos que passaram. O acréscimo dos caminhos e o mesmo resultado, ele de outro jeito. Vai,então, diminuindo os passos pouco a pouco até mal conseguir avançar, desabando sobre o próprio trabalho. Pedro decide não coletar mais tijolos. Prefere sonhar que realiza essa tarefa. Por pouco tempo, acredita conseguir...mas no prazo de entrega é reprovado.

Rola até o piso gelado.

É obrigado a vender o que pode. Decide, por fim, investir nos homens de negócios, nas aparências da lógica de mercado, com punhos de ferro. Quer rasgar o vestido da moça, algo no qual, por refinamento, nunca optou. Tem sede e fome. Aumenta significativamente a produção de qualquer jeito. Crescem em todo o canto, debaixo das árvores e dentro das usinas, tortos dele. Para fortalecer mais ainda, compra uma gaiola e joga tudo nela, para logo depois se encerrar vazio: pleno, livre e morto!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Ode sonora: Quarteto de Cordas No. 28: II. Gemächlich de Anton Webern




Intérpretes: Lasalle Quartet



Finopelo no descampado, bastante indeciso. Por um triz esquiva de uma gota prestes a derramá-lo pelo chão. Finopelo entende a ameaça e por isso acelera o passo, desembestadamente a fim de que possa arrotar a atenção em desespero, ainda que de um jeito circular e emaranhado. O perigo que o ronda é, no entanto, maior que o seu entender.

 Mas pouco importa Finopelo fracassar no choque das sombras. Afinal, ele não tem memória e nem emoção sincera para desgastar…

 Estica o pescoço longo para melhor ouvir. A gota se desprende e desaba sobre a sua cabeça, espatifando-a. Finopelo tão umidecido fica que a pele gruda, fazendo com que inclusive solte bolhas pelo nariz —  dúzias, centenas, milhares, como se fervesse inteiramente. Mas não por completo. As que saem de si impedem a tranquilidade das que ficam. Seu desespero recrudescente faz com que bata com o punho, arranhe as paredes, entorte o relevo, que por sua vez não cede. O fundo tão oco naquilo que, sem ter nome próprio, chegou a apelidar de Céu. 
Certa vez pressentiu um inseto diminuto e com as antenas elevadas sobre a superfície polida do Céu. O inseto para para ouvi-lo, pavoroso. Pressionou o polegar para cima e para baixo, ininterruptamente, embora mal conseguisse abrangê-lo. Para escapar ao ostensivo grude e não sabendo mais qual caminho seguir, consegue se escarafunchar num orifício qualquer. Finopelo foi junto. E talvez continue a ir.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Estradas de um só muro


                                                                [Lúcio Cardoso]





Music for small orchestra - 1.Slow, Pensive e 2. In roguish humor. Not Fast 
[Ruth Crawford Seeger]

Intérpretes: Lucy Shelton e Reinbert De Leuuw 
Schonberg Ensemble.


Os inconsoláveis

Desesperados vamos pelos caminhos desertos
Sem lágrimas nos olhos
Desesperados buscamos constelações no céu enorme
E em tudo, a escuridão.
Quem nos levará à claridade
Quem nos arrancará da visão a treva imóvel
E falará da aurora prometida?
Procuramos em vão na multidão que segue
Um olhar que encoraje nosso olhar
Mas todos procuramos olhos esperançosos
E ninguém os encontra.
Aos que vêm a nós cheios de angústia
Mostramos a chaga interior sangrando angústias
E eles lá se vão sofrendo mais.
Aos que vamos em busca de alegria
Mostramos a tristeza de nós mesmos
E eles sofrem, que eles são os infelizes
Que eles são os sem-consolo...

Quando virá o fim da noite
Para as almas que sofrem no silêncio?
Por que roubar assim a claridade
Aos pássaros da luz?
Por que fechar assim o espaço eterno
Às águias gigantescas?
Por que encadear assim à terra
Espíritos que são do imensamente alto?

Ei-la que vai, a procissão das almas
Sem gritos, sem prantos, cheia do silêncio do sofrimento
Andando pela infinita planície que leva ao desconhecido
As bocas dolorosas não cantam
Porque os olhos parados não vêem. 
Tudo neles é a paralisação da dor no paroxismo 
Tudo neles é a negação do anjo... ...são os Inconsoláveis.

– Águias acorrentadas pelos pés.
[Vinicius de Moraes] - 1933


Então Lúcio volta-se para o penhasco, onde as ondas se engalfinham incessantes e, apoiando a perna direita num calombo de pedra, faz do braço sustentáculo para o corpo, naquele mão contra mão, deixando à revelia a aliança na mão esquerda.
 Entrega-se ao tempo, cravando na base, sem dó nem piedade.
 Seus olhos seguem a sombra de um pássaro solitário em desterrado mundo, como se a sua fosse. De longe,ela mais parece combinar em expressão com o tom amarronzado do rochedo, numa grandeza eterna, silente e contínua feito morte.

 (tempo órfão)

 O inteiriço dela se parte ao som do precipício árido e sufocante, de peixe fora d’águas. As distâncias imprecisas, tantálicas. Pedras escarafunchadas em relevo mostram-se quentes, pontiagudas em salitre. O vento silva loucuras em seus ouvidos e cabelos. Poucas nuvens no céu de pura presença.
 Queima, queima a ausência no suor do corpo, empapando a blusa, o paletó, o colarinho e até a gravata.
 Um voyage modelo 78 cor caqui o aguarda a alguns metros dali. Vira o relógio de pulso na direção dos olhos, mas o reflexo do sol o impede de ver. Diz em voz baixa:
 -Acabou.
 Em pouco tempo o suor das duas mãos fixas umedece a calça. Lúcio ao senti-lo recolhe as palmas, na estratégia de espalhá-lo, apagá-lo, pondo-as a alisar o quente tecido. Nem por isso decide desmontar aquele jeito seu, só seu, a quem ninguém poderia reclamar senão o eu-físico dele próprio. Pálido sim, franzino também, mas Lúcio assumido de corpo e alma.
Sobem ao patamar mais elevado, os pensamentos soltos que nem papéis e o corpo à secura da faca a saliva padecer, ao fundo da garganta (e por que não da voz?)
 Vai ao carro como se fizesse tremer a vida que o encilha na promessa do escuro mundo do só e, com a porta aberta, deposita a atenção no oceano com a mesma transparência opaca de minutos antes, agora compassados por momentos de degustação de alguns filetes de água mineral.
 — Para sempre.
 As palavras soltas numa rouquidão desolada decalcam uma angústia naquela sua boca restabelecida que o incomoda. O tom final delas lhe causam comoção, perturbando até as íris que não conseguem encaixar sossego algum.
Entra no veículo. E com o braço agora apoiado no volante, olha para o céu, como se observasse algo de interessante. Mas nada havia senão Lúcio. A quentura do automóvel o desperta pela segunda vez. Por fim, limpa o suor que escorre pela manga da camisa e retira-se.
 Ao abrir a porta do apartamento em que mora há alguns anos, Alceu o recebe com um beijo no rosto:
 — Já ia te ligar.
 Lúcio em silêncio deposita o molho de chaves na mesa e toma três goles refrescantes de água. Continua:
 — Conseguiu ir ao casamento?
 — Perguntei ao Henrique e ele me indicou o caminho.
 Segue para o chuveiro. Esfrega com violência o corpo, principalmente o rosto, com sabão de coco, observando vez ou outra se suas mãos brancas retinham algum pelo. Sentia segurança ao ver-se limpo deles, logo eles a quem tanto lhe dera orgulho na puberdade. “Clarear para não bestificar”, lembra da frase de um tio distante. Não percebia o paradoxo em que vivia. Ao terminar, seca firme com uma toalha de tecido grosso e já seco, beija Alceu e sai sem dar satisfação alguma.
 Num determinado stand de uma loja fica em dúvida se deveria pagar pelo item. Conta as moedas com o dedo na palma da mão, incerto.
 — É esse daqui.
 Põe na bolsa procurando verificar se o fecho éclair está seguro e vai para o cinema. Exibia “A mulher de longe” pela última vez. Está atrasado. Imagens enganadoras desfilam pelos seus olhos planos. Ele sabia que não conseguiria. Mais uma vez sai da sala com a cabeça baixa como a dos pedestres em cidades grandes. Visa o chão, as poças de chuva acumulada no asfalto cinza, o papel de bala azul com o açúcar acumulando sujeira. Chove naquele instante aos cântaros.

 É noite.








A chuva inunda, sem dar trégua. Segue em direção ao carro, molhando-se por inteiro. Num quiosque, a meio caminho, para para comer alguma coisa. Esfregava um lenço sobre a cabeça até ser surpreendido por um rapaz, que muito reservadamente o cumprimenta. Abre um sorriso cristão, como sempre fazia quando não sabia o que fazer:
 — Não tenho dinheiro…
 O jovem maltrapilho tinha os cristalinos dos olhos acesos, fisionomia desalinhada. Apertando a boca pequena, desvia para o canto os olhos, retorna como se quisesse dizer alguma coisa importante e depois, em tom de franca desistência, continua chuva adentro, envolto na capa transparente. Lúcio observa tudo, imune a qualquer reação. De súbito, abre a bolsa num ímpeto e retira o vasinho de porcelana adornado de lá, coberto cuidadosamente pelo jornal. Com o indicador alicia o que parece ter a forma de um gato. Seus olhos abundam em lágrimas.
 O relógio da igreja próxima soa sete vezes, anunciando o início da missa. “Cada tua balada soa dentro de minha alma”, lembra do poeta luso. Visa o chão mais uma vez, as poças de chuva acumulada no asfalto cinza, o papel de bala azul com o açúcar acumulando sujeira. “Basta!”, era o que dizia por dentro, comprimindo o rosto, à beira do impossível de si. Lúcio mais vivo que o próprio coração. Em direção à igreja do outro lado da rua, a porcelana é lançada, se espatifando em mil pedaços. O dono que se ocupava na cozinha, decide vasculhar a razão do alarido.
 Lúcio caminha depressa para o Voyage. O retrato de uma mulher colado no retrovisor, era só o que tinha. Estava longe, muito longe. Não conseguiria…não conseguiria….

REVISADO EM 2.10.2016

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Da série "obras anônimas": August Strindberg


August Strindberg
[John Lundgren]








Suite No.9 "Ttai". I e III 
[Giacinto Scelsi]
Intérprete: Markus Hinterhäuser - piano


"Querida irmã,

se o seu coração estiver cheio a tal ponto de não conseguir se expressar verbalmente, então escreva! Todos aprendem a escrever a fim de confiar seus pensamentos no papel. Você poderia escrever cartas. Cartas são bons e verdadeiros livros.

Escrever não é inventar algo que nunca tenha ocorrido. Escrever é contar algo sobre a sua vida. Mas não meramente como quem adiciona eventos em sequência. Você deve ter algo a dizer que lance luz sobre um aspecto da vida. A arte da escrita consiste em ordenar impressões, memórias e experiências, em deixar de lado as coisas sem importância, enfatizando as mais importantes. Você sabe o segredo que há entre a minha vida e a sua? Nós fomos apenas uma das muitas crianças de nossos pais. Nós não fomos bem quistos por sermos supérfluos. (…)

Nós colocamos pessoas em hospitais psiquiátricos para não nos preocuparmos com o que temos dentro de nós. Esse é o nosso destino, o destino de quem escreve: expor a alma aos poderes que existem. (…) Sua vida é rica de experiências e só você pode revelá-las. A vida tem três períodos: infância, juventude e as experiências no mundo. Cada um é um livro em si mesmo. Não tente revelar seus problemas aos amigos pois eles somente irão falar sobre eles mesmos. Acredite apenas no papel e na escrita.

Seu amigo, August”

[Carta de Strindberg à Elizabeth em 1882].


A Gruta

O assobio do trem irrompe no equinócio dos mundos, espalhando um grito estridente, como a de um gato quando pisamos em seu rabo. Desperta a paisagem sossegada nas sombras desconhecidas que algum homem revela, para seu melhor conforto, através de uma lamparina à óleo sustentada por um par de dedos sobranceiros. Ela parece oscilar a lentidão de um tempo primitivo.

“Como está escuro isso aqui”, pensou enquanto deslocava-se por entre enormes caixas de madeira. As arcadas de luz emanadas descortinavam detalhes como se fossem iluminuras: traços rabiscados em profundidade sobre a base de uma montanha com forte tonalidade marrom em contraponto à brancura asseada, quase clínica, de um guarda-sol de tiras vermelhas, num quadro emoldurado na parede, típico bucolismo suiço; um desenho envolvendo formas geométricas no centro da caixa de madeira, por onde as letras “P” e “K” entrelaçavam-se à letra “I” – as farpas ao redor declamando a existência – ; um afinalado banquinho escuro trazendo um telefone preto como se constitutivo. Não havia exatamente cor naquele substrato mudo. Toda a cor era um mero capricho quando a luz se aproximava, acentuada até a concentração máxima: quando há a sensação de algo por dentro, de uma ferida clara.

Era um espaço sedento por luz. Por cima e através, havia poeira e, no chão, grãos de areia que reluziam como pepitas, só acháveis na mais absoluta escuridão. Garrafas deitadas ao chão palpitavam vazias; duas folhas de jornal amassadas encobriam algo – penugens angariavam a superfície-; um vaso pequeno de planta recém-nascida e há muito ressequida, de terra escura e buraco abissal no meio; um botão perdido repleto de marcas navalhadas pelo uso; um pedaço de unha cortada, como um substrato de um ovo oco aberto; pelos, fios diversos enrodilhados em coisa qualquer. O homem encarnava a figura de Prometeu em meio a tamanho abandono, como se fosse o próprio solstício daquele lugar. Ainda que procurasse arrancar dali o máximo de certeza possível sobre as coisas, surpreendia-se a cada instante com o que sentia e com o que achava que sentia, a começar pelo ruído de vidro moído ou pedra de pequeno porte que o acompanhou no primeiro minuto em que pôs os pés naquele recinto – provavelmente encavado na sola de um dos sapatos. Mas estaria a pequena coisa lá há mais tempo?

Seu coração acelera ao descobrir que aquele silêncio dissimula, pondo à prova o próprio estatuto de segurança que os objetos possuem quando não são vistos, quando não estão sendo algo. Pernas compridas e articuladas tomam vida própria e desatam a subir, fluindo, aumentadas na parede pela lupa das distâncias, para alguma reentrância erma do telhado engolir e desaparecer. Algo como uma barata é facilmente confundida com um acúmulo de sujeira. A lógica matemática do equilíbrio harmônico ilude e alucina. Elefantes, cabeças humanas, faunos, o mundo como potência numa caixinha insignificante: sonho e pesadelo, ao molde goyano.

Ele permanece atento, incólume naquele não mais que virar de página.

Quando um chiado se espicha alto à esquerda, o barulho se faz claro e real, sem eco que recorra aos espaços da imaginação. Eleva a lamparina à altura da cabeça, confiando na sua percepção. A sombra de uma teia emerge graúda e sem aranha. Pode tanto estar em qualquer parte como não estar em parte alguma. Um objeto cai atrás de si. Ele vira. Remotos sons de engrenagem à todo vapor. A luz reflete o vidro da janela. Ele aparece invertido: o chapéu de aba larga na cabeça mais parece um capacete; as roupas, uma armadura de ferro. Os olhos fundos a girar magia por toda a parte. O suor desce pela têmpora, a boca alarga, aberta.

Julga ver uma cruz diminuta no vidro. Uma mosca cheirando a percevejo percorre a ponta de um de seus dedos. A parede enfestada delas com as respectivas asinhas transparentes, tronco verde-escuro que lembrava a coloração da caveira flutuante do absinto, e globos oculares a atearem chamas. Repentinamente um forte odor lhe arrebenta as narinas e passa a ocupar seu pulmões, como pó de silica.

Ele sente uma vontade irresistível de correr, no entanto ele não corre. Para, estica os braços e as pernas ao máximo como se espreguiçasse o fluxo de sangue dentro de si, fechando os lábios fortemente como quem aguça as pupilas de certezas. As palavras rolam pela boca que é nesse momento uma fresta diminuta: “são apenas grãos que se movem!”. Sai cortando com o corpo a atmosfera, isento de si e do mundo, inconsequente, até chegar à janela, arregaçando-a de uma só vez, ferozmente. Seus pulmões abocanham, renovados, grandes quantidades de ar puro do descampado à sua frente que corre. O sorriso vitorioso estampa no rosto. Negras florestas na linha do horizonte decalcam fronteiras infindas com as montanhas, por onde o céu faz aparecer, enluvado de esmeros noturnos. Observa com a sombra nos olhos, a constelação de Andrômeda, de Orion, a sempre esperançosa Sírius, aquele pedregulho ao qual deram o nome de satélite natural, tão esburacado quanto um rosto humano avistado na rua, pela manhã. Olha para trás. Não há nada além da fragilidade no que observa. Pega um bloco em um dos bolsos e traceja algumas retas oblíquas, com as inicias “P.K=?”, “I=iodo”, “heliotrópico”. Ao lado: “olhar biblioteca”.

A trinca da porta balança ao som de um baque. Novamente olha para trás. Umedece a boca e, com a língua ainda encostada nos lábios inferiores, diz num ímpeto explosivo: "Bah, amanhã eu procuro". Cerra a janela e retoma a mesma trilha, agora num percurso diferente: os dedos mais frouxos agarrando a alça da lamparina, como se dependurasse o ser um pouco mais esclarecido.



Texto publicado originalmente na revista Estudos Hum(e)anos, no.55

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Nascemorre





Deux danses, op. 73: II. Flammes Sombres
[Alexander Scriabin]
Intérprete: Vladimir Bakk


Recomendação: Intérprete: Valery Kastelsky



"Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la"
[Daniel Faria in "Um pássaro em queda mesmo"]

Ecos, ecos de rebocos na palha. A cabeça começa a despontar do varredouro mudo afagulhada. Inunda a terra, sombreia o mar, em seu caminho de flecha rebocadora. Espraia, forma ondas de fogo que lambem pedras duras com tal impertinência que chegam a afetar o osso que há nelas. Contudo, no limiar arquejante, uma contra-resposta zoa laminar, fim de partida. Sangue espicha viva contração decidida de dor e a tal ponto que precisa lançar mais raiva, ser mais preciso que a dor. Em guinadas mais requintadas: nova pancada.
Se quebra todo em pedaços, deitando por cima, como se resvalasse de costas e adoecesse. Impactada, porém, não demonstra frustração: procura equilibrar os passos remoídos na massa entre os dedos até conseguirem fazer-se nela e do tempo esquecer. A dança selvagem regurgita a violência até a menor espessura de um átomo perfurar.
Dinâmico.
A realidade dobrada por inteira.
Bafeja o Behemoth até a captura incorporada do mundo, sem chances de retorno. Domado o obstáculo, perguntamos: onde terminamos? Mas a satisfação é um alívio reconfortante.
Adormecemos.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O roubo e o impresso ou o porquê benzo a linguagem



Confesso: aquele olhar marcou pedaço. Estava passando de azul natural quando ela veio e cortou minha razão. Pinguei chuva de amor. Entretanto, ela olhava para mim como quem vê um repolho ou um nabo. Foi então que roubei sua imagem por alguns instantes. Segui-a de perto. Os vagões, os lugares e minha órbita era outra. Acreditava no que me escapulia. Um grupo de rapazes, meio abutres, meio focas, a cercaram. A moça oscila a cabeça de um lado para outro, desconcertada em timidez alveolar. Eles alvorecem as bochechas, pedinhentos, sedentos de desejo. Querem ela foto, pra ficar mais. Sobre a roupa. Sob a roupa. Mas um sorriso desarmado provavelmente despertou para eles, naquela negação apressada de vime tão dela. Compreenderam logo: eles ali, eles; ela acolá, ela. O solo deixando de ser o mesmo (ou talvez nunca houvesse sido aquela juntura). Talvez daqui a pouco? Amanhã? Ou depois? Retorna a origem ao ancestral silêncio, com uma lasca a mais na superfície.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Pomar

O galho - 1976
[Marc Chagall]








Cavalcade
[Goldmund]



"To see, to catch, to be" [John Banville in 'Athena' p. 228]


Quando a frutinha amadure_ce, a casca intume_ce de frescor palpitante, como se atingisse uma temperatura ideal, um equilíbrio bem aquilatado. Presa ao galho, sua raiz perfaz-se de sedimentos. A camada assentada, por dentro, engessa o esqueleto do caule, por onde florzinhas compactas aquiescem em mundo líquido. A camada assentada, dos foras, estala irrompendo sinais quase nunca entendidos no mar de quem sente. Pinica, sacoleja, sem escapatória. A casa é da casca, somente. A mão que aproxima não basta só de palma. Aquela altura no quase madura, não cai. Está transverjando à cor do sol. As falanges mudam tudo, no encaixe perfeito. Dispostos, fruta e mão, o olho segue o contorno, zelando pela mão que só sabe conhecer memórias: a do corpo-inteiro. A mão sem o fruto dentro de si não pega fruto. O momento da carne na carne é, por isso, precioso, naquele acasalar de desejo e esperança: a fruta, para não cair podre; a mão, para não cair de fome. Juntos, floreScem.

Insólito voraz


Ancião com as Mãos na Cabeça - 1882
[Vincent Van Gogh]











Nikolai Roslavets
[Prelúdio para piano - 1915]

Intérprete: Irina Emeliantseva - piano

Joaquim se apressava. A mão de unhas carcomidas sobre a pasta cor acre, com papéis de hospital assinados. A pressa comendo sua imperfeição. Caminhando pelo viaduto, a noite envolve seu corpo. Joaquim vê apenas o suficiente para não tropeçar nas calçadas ou cair num buraco de uma situação escabrosa. Acelerado, o olhar processa mais rápido: imagens brutas manifestadas, cindidas de adjetivos e infestadas de contaminações gotejantes. Sorrisos, espirros, beijos, escarros, buzinassos, bocejos e lágrimas. Ora rostos ora cabelos; ora cabelos ora rostos, devassados de polutos adereços: gravatas, ternos, gravatas, ternos, piercings, óculos, verrugas, algodão, vitiligo, camisetas polos, hanseníase, t-shirts, estampas de camisas, fones de silêncio, silêncios sem fones. Mais próximo do chão: cores de se ver saltos. Por que aquela dissimetria? Ou talvez fosse mero acaso de impressão falhada?

O cabelo de Joaquim emaranhava-se na realidade, com a ajuda do suor-tinta do corpo. Suas calças jeans, largas, pareciam embrulhá-lo em pele, como um casulo fechado em baixo e aberto em cima. Estavam enpapadas tamanha ligeireza naquele nervosismo seu tão wozzeckiano.

Leva um susto quando, ao atravessar o sinal, é surpreendido por um homem de imensa barriga verminosa, sem camisa, só de pelos e tatuagens cavucadas, arrastando cinco cavalos que se assemelhavam em natureza ao próprio dono, incluindo os idealizados potrinhos. A força concêntrica era a mesma e a tal ponto que se podia evocar a figura de um minotauro.

Maçã suja. Cidade aberta. Sintomática.

Mas foi no entre-sala da avenida que ele azeda até os fusíveis. Um homem de bicicleta acaba de roubá-lo.

Tserrelin tserrelin são os estalos.

Grita com a voz a soltar veias pelo pescoço: "PUUUUUUUUUUUUUUUUTTTTTTTTTTTAAAAAAAAAA QQQQQQQQQQQUUUUUEEEEEEE PPPAAAAAAAARIRRRRRIIUUUU!!!!"

O menino para de morder a pipoca. A moça no ponto das vans, estica o pescoço, em plena curiosidade.

Joaquim corre o máximo que pode e não consegue. A bicicleta desaparece tão súbita quanto apareceu.

E depois para os lados, voz débil: "VVVVVVVVVAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIII TTTTOOOOOOOOOOOOOOMMMMMMMMAAAAAAARRRRRRRRRRR NNNOOOO CCCUUUUU!!!!!" "VVIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAAAADDDDDDDDDDDDDDDDOOOOOOOOOOOOOOOOOOO"

Surta. Aquele seu estar tão catapléxico, finalmente ao fim. Havia chegado ao túmulo quando o seu desespero ultrapassa a barreira da sanidade e o mal-estar vira epígono de ponta cortante, o corpo saindo ao avesso pela boca.

Gritava sem parar. Na frente dos carros, das senhoras indefesas, moças bonitas e meninos inocentes. Estava tudo ali o que nunca soube dizer. Dois rapazes querem ajudá-lo agredindo-o a pontapés e socos. Seus braços caem na total falta de coordenação. As formigas aceleraram os passos, com medo da queda. As baratas voltam ao esconderijo seguro. Grades de ambas as partes, como Olga em Limite.

Um homem segurando duas sacolas pesadas de compra solta a frase: "Deixem ele em paz!" Uma mulher arrepia no mesmo tom: "Covardes!". Dois moleques usando mochilas, trabalhadores do dia-a-dia, se defendendo daquela contra-rotina. Prostitutas olham.
O trânsito para na rua 3x4.

Joaquim no chão, desmaiado. O canto da boca encosta no chão a baba de sua vida.

Só mais um fio. Um fio a mais. Restará?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A festa da carne


L’important c’est d’aimer - 1974
[Jean Gaumy/Magnum Photos]




A Complex Shape in the Sky
[Tom Recchion]

Na alvorada do amanhecer, os tambores batem o silêncio morto, deixado no canto. O alarido se ajunta, formoso, dando corda à espuma que é onda e vesícula. E cresce, vai crescendo enchida de ventre e avenidas, o combustível orgânico percorrendo o tubo afunilado. Fermenta o fermentício das juntas alegorizadas e a infância sai disparada a quadra lilás usando bermuda verde e pele de amianto. O jato triunfa o aprendizado e dá força ao momento da vez que não diz. Pedra sobre pedra, a torre segue a sua ponte, na escala dos degraus, só de braços e mãos no desejo possibilidade, latejando o púlpito das pequenas riquezas, o pote derramando seivas e frutos, as flores carregadas. O abraço que respira e faz respirar a esperança, manto do acolhimento. Os pingos de nada são: abandonam as suas cargas de valores agregados perante a força da correnteza líquida nas paredes. Parece não ter fim...até que o cansaço apodera o amparo de cone, as estrelas vão se queixando e caindo aos poucos, como se batidas pelo querer dos tempos. Não podem mais ficar. Nada as prendem. Caem como ovos podres. É quando o céu deixa o azuláceo de seu cerne gargalhada e passa a se fazer de branco bolha, calombo avermelhado. Canudo sem líquido sorve o ar, os pulmões agigantando até o cúmulo do estalo: a explosão, lagoa sem fundo riscada pelos filetes de cores acordadas em oscilações cristalinas. A lua na borda fazendo papel de alfinete bonito. A paz reina serena como princípio de adeus. Memórias do nunca mais no cristalino das retinas, mar que inclui a chama do corpo e que agora agacha areia. O deserto mais que deserto. Eternidade.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Ode sonora: Révelátions - La mort por Nikolai Obukhov



Terra - 1931
[Alexander Dovzhenko]







Intérprete: Jay Gottlieb



O leito de estático cinza seca o último adeus ao mundo, naqueles dois vasos com flores ao redor do caixão. As mãos depositadas sobre o peito, o rosto perdido em eterna serenidade.

De repente, uma pétala se desgarra do fruto escuro e, como se a imagem fosse um espelho d'água, interrompe a sua materialidade límpida por onde uma outra se sobrepõe em sentido contrário. Não mais corpo, mas vaso de boca estreita e garganta larga que se espatifa no chão. Pés percorrem o local, velozes em pressa máxima, até a curva do corredor. Um grito irrompe, grito de desespero cáustico. O pavor embalado no cume das íris. Por trás da escuridão, a porta de madeira decalca os contornos da sombra de um homem, ombros largos e barba farta, que avança com um machado na mão. Ela se encolhe como um bicho num canto entre as paredes, debaixo da grande mesa de jantar. A tensão redobra. O medo sobressaindo pelos poros. Ele vê a sombra dela. Ela percebe e foge.

Uma das janelas manejada pelo vento do lado de fora, bate com força, indecisa. As trincas estremecem acompanhando o uivo do vento. No outro cômodo, uma finíssima cortina se agita. Ao fundo, algo ocupa o pedaço do chão. Olhos abertos, mãos e cabelos empapados de sangue. A ferida aberta no pescoço. Um urubu se aproxima e permanece pousado sobre um galho nu da árvore. A lâmina do metal ainda fria, uma das mãos segurando o cabo. Descama a imagem.
A sombra do galho sobre o rosto do morto. Mais uma pétala desaba. A noite começa a ser real.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ode sonora: Two dialogues with an epilogue: I. Hochzeitswalzer por Valentin Silvestrov


Jazz Dancer - 1954
[Roger Tilton]




Munchener Kammerorchester.
Regente: Christoph Poppen
Piano: Alexei Lubimov
2007




Silêncio inaugurando corpo. O primeiro passo sendo o último. Todos os demais acompanhando. Movimento encantatório ligeiro de não se conhecer pressa, pelo qual arqueaduras vão costurando direção nenhuma, em efeito de ponto só. Do Tzrak ao Tzrok, um Tzrik ocasional surge impulsionando a moção para um retorno circular. E é da flor deste terceiro passo que flutuações luminosas passam a irradiar nas muitas pontas do salto, o profundo que não se vê. A mão pinça a leveza com os dedos até o vento afastar folhas secas do nó górdio do galho. Quando se desprendem, ameaçam adormecer a todo instante de queda caída no chão, mas então não: seguem correndo enquanto se misturam em cores, espalmadelas serenadas, por onde vão e vem numa constância de quem (re)pousa somente para se lançar mais adiante. A vida lá no centro movendo tudo, primavera eterna. Os colares que por baixo servem não conseguem ocultar a inocência que o olhar quer cada vez mais. Ah, essa luz que me cala e expande o coração!