segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O mistério da queda






 Larisa (1980) para filme homônimo, dirigido por Elen Klimov 
[Alfred Schnittke]


"(...)
Como saber? A princípio parece deserto,
como se nada ficasse, e um rio corresse
por tua casa, tudo absorvendo.
Lençóis amarelecem, gravatas puem,
a barba cresce, cai, os dentes caem,
os braços caem,
caem partículas de comida de um garfo hesitante,
as coisas caem, caem, caem,
e o chão está limpo, é liso.
Pessoas deitam-se, são transportadas, desaparecem,
e tudo é liso, salvo teu rosto
sobre a mesa encurvado; e tudo imóvel."

Carlos Drummond in Indicações apud. A Rosa do Povo, p.56.


Se a bola batesse em mim, mexeria uma das pernas com a maior destreza do tendão, a fazer saltar o impacto entre nós dois, como se nada mais existisse a não ser essa simplicidade germinadora. Ela que vira pétala de fazer deslizar chuva. Ela que cheira a fruta, no seu escalavrar não cumulatório. Simplicidade: verbo plúmico.
Usa e desusa, nem pensa em reusar enquanto parecer fortuito o amanhecer do sol sobre o vidro estrelado.

Mudam as diretrizes ao encontrar com o problema. Vai de encontro com o não-tão de passado. Passa a reservar tempo para amanheceres específicos e cada vez mais reusa quando não consegue. É assim que aprende a rebater penhascos, precipícios, montanhas de areia. Um rastro no chão fica impermeável até o desânimo se apossar e fazer torcer até doer, de curvar os pés frente as mãos, o dorso a abrir cavernas para assentar e proteger contra o ranger dos meteoritos de fora. Pisca-pisca a noite enquanto vai enferrujando, o tempo do branco se rasgando. Em breve, só há hora para o crepúsculo, o retiro de quem troca o outro por um de menor tamanho. O que sobra é o tão fofo não mais sentido da cama pela qual se obra o descanso e o benefício da paz contrita a si e para si, num dormir profundo de sonho que é todo bola.     

sábado, 13 de outubro de 2012

Sentimento de mundo

Pela janela, a casa escuta a fechadura. "É noite", diz, apesar das cortinas estarem abertas. Não há sono e, por isso, abertas estão, como quem ainda sustentasse o pano, à espera de alguma coisa que não sol. Janela, você não nasceu hoje. Em ti caminha algum espelho o qual o mundo anseia em colocar para fazer-te aos próprios olhos, mal sabendo ele que você carrega um também, próprio, indecifrável à reles rotina dos seus atos.
Ele acaba de a visitar, agora. Traz consigo uma pilha de imundices, querendo-a manchada e estragada. Sangra a tua vista, a ponto de nunca mais poder ser outra coisa senão aquilo em que te envolveu. Esse é o medo que a faz tremer as cortinas, pois sem poder correr, condenada está a ser quebrada, a sofrer danos irreversíveis. Dependerá da casa se prestar a colocá-la sobre outra margem - e ela não é boba para te perder de vista...
Janela, sabe esse esfumaçar de vida a qual chama de crepúsculo, a mesma palavra dessa coisa em que te metem? Poeira sobra para levantar paisagens, constelações, idílios longínquos dos quais assisto da ponta de minha janela.Às vezes penso que você também se quede por tais fantasias idiotas, e não tão somente da parte do alívio prático, quando o cristalino te recupera, tirando-a do fundo do esquecimento maldito que o mundo a quer. Nocauteada, você sorri depois, por conseguir transfigurar a realidade, sentindo-se satisfeita por te desfigurarem, dando a ligeira impressão de estar acima daquele que a fere...
A sujeira desce, se junta ao que restou das outras vezes e por lá fica como lembrança a reafirmar presença. O relevo cresce, naturalmente. E a cada vez que o mundo desemboca, o coração bate depressa, o pano levantado. Chega um ponto em que estoura e vaza o passado, escorrendo lacrimal até a mesa de sua cozinha refinada, embebendo o tecido de sua gênese espalmada, soberana, tal qual uma estatueta num dia chuvoso.
Cansada, sem se cansar, caminha a presença da janela às portas do se poder sonhar.


Inspirado num vídeo performático de uma querida pessoa.

domingo, 7 de outubro de 2012

Cambalhota ou a capacidade de se entortar direito

  Seated Figure (1946)
[Francis Bacon]

"Señora: en esta historia nada pasa. Lo mismo sucede en la vida, que si algún día ocurre algo es tan inverosímil y absurdo que preferiríamos no hubiese pasado"
Luís Cernuda in El viento de la colina apud Obras completas, Murcia, Siruela,1994. p. 268.



Sozinho, o artista configurava os remendos do palco. Pequeno movimento nas mãos baixas ajeitava o que tinha à disposição: um papel branco e uma caneta hidrocor. Como uma sutil sinfonia, ele segurava as duas no primeiro fio de se fazer discurso. Delas saíam palavras que só criavam sentido se ordenadas na parede - a partir desse momento também pele do artista. Ao passo que as pernas passam a se altefazer, o corpo (antes baixo) ergue a musculatura, a riscar e fazer riscar as vezes, saltitantes formas. Oscar Wilde. Conceitos sobre modernidade e o tempo do já passou. Questões. O corpo sobe, toma a vida das questões e logo poses surgem, ironias, sublevações que extrapolam a zona do palco, tornando-o cada vez mais mundo, com direito a experiências sensoriais e tudo. A camisa cai. Depois a calça. A cueca, esta atraída pela superfície imantada da parede branca, pele de Moby Dick.
Por fim, passa a ser - na íntegra - puro corpo, apesar de já nem tão puro, o corpo. Os tênis da NIKE não desgrudam, como se quisesse acusar o corpo da culpa que tem. Essa observação do objeto que o doma, fazendo dele animal inconteste, de muitos dentes e nenhuma gravata, vem só minutos depois quando a nudez passa a ser colocada de lado e naturalizada perante a normatização de um corpo que sofre a bulimia da indústria e do consumo recalcante. Está nu, a usar focinheira, numa agonia de causar fim. Lateja o púlpito da carne, o corpo mesmo completo, já nada significante frente ao estarrecedor governo do de fora que o cansa e vai cansando ao som do fazer, como se agulha fosse a se aproximar da pele-nossa, através do olhar, parte que fica sem deixar. Vai enrispecendo o corpo, tornando-o mais vermelho, mais cansaço, mais absurdo de agulha, a ponto de gemer, tremer como em delirium tremens, na consumação sem retorno, o corpo só a obedecer e desgastar o forro do limite.
...
Esquisita a sensação quando algo mesmo apontando ao irresoluto, é fim de ponto e tudo, quando sai pela porta dos fundos e fica. Dá a sensação de que aquilo nunca existiu, que não passou de uma indisposição qualquer, mesmo que acontecesse diariamente, sob o peso do excesso que faz de nós consumidores de um só produto, ta qual mais possível fosse amar uma imagem que um coração manchado de sangue por dentro.