domingo, 15 de julho de 2012

Da série "A provação da luz": O rei está vivo (2000)


As primeiras imagens despontam cansadas como se no interior de um túnel ferroviário estivessem. Imagens mal nascidas e já abissais, reveladas graças à luz elétrica e às barras metálicas no interior daquele compartimento de assentos. Entre uma e outra, passageiros permanecem aquiescidos de um silêncio sem pausa que o som do motor acoberta. A luz dos faróis iluminando a estrada rachada e desolada, reforça o peso da noite sem céu. Quando o motorista percebe a falha também na bússola, já é tarde demais para acordar.

CONDENAÇÃO - a palavra agrilhoada que se faz ouvir ressonante.

Do outro lado do dia, o quadro se completa no pouco a pouco do combustível se acabando no percurso.
Alheio a qualquer orientação,
a civilização
(sentada)
se acab_

_ando.
Com a mesma intensidade que a escuridão, a luz pesa e faz pesar ondas de calor. Pessoas se distraem com o deserto passando nas janelas tal qual nuvens, sem pensar que é o deserto quem se distrai com pessoas passando nas janelas. De repente, uma aldeia à distância, num marrom escurecido e mal juntado. Os casebres se aproximam e crescem ao redor do ônibus até fazê-lo menor.

Param, as rodas. Começam outras no momento em que a porta abre para o motorista e outros passageiros descerem. A estrada é de um sem fim muito longo dando a impressão de andar em círculos. 
O motorista se encaminha para o posto de entrada a fim de conversar com um homem magro-de-carne, da cor do universo; o cristalino branco dos olhos contracenando com a pele e a vermelhidão da língua. O que o vento cumpriu de levar não se sabe, mas o fato é que o deserto deixa ficar como se houvesse fincado a bandeira na lua deles. Vai ficando, deixando de mais em mais, até umedecer o pano da realidade trazido da urbe, onde remendado estão as memórias e desejos mil.

A partir do momento em que o suor abraça o rosto, está decidido: a solução é ficar na areia como quem prende a respiração à espera de um momento abaixo do ideal: de um momento possível. É o que fazem cada um ao ocupar as cabanas. Mal sabem que a fita do deserto é metálica, como o ferro batido do ônibus, por onde o tempo arranha com a agulha, deixando marcas inapagáveis entendidas somente pelo corpo. O deserto é um nada que nunca cessa de rodar e de fazer rodante. E é esse rodopio que pereniza as coisas, no martírio da experiência irrevogável.

No cair da noite, tal qual os turistas fazem no usufruto da terra estrangeira, é a vez das máscaras dançarem as cirandas que lhes são atribuídas. Lançam-se os primeiros contornos que à luz do dia ficaram omissos e agora mais perto, embora nem sempre nítidos (memórias e desejos picotados lado a lado), num balé de ganchos que puxa e contra puxa algum valor consonante à pele. Um sem sombras de variações decoladas nas paredes isoladas. Nesse exercicio do incorporar, há sempre o risco da revelação e também do tilt. Lêdo engano acreditar que o poente encobre por completo o nascente. De fato, é como pôr o dedo no filete de água para conter o fluxo e ver que ela continua a escorrer, mas por outro caminho. É o que ocorre primeiro com um homem que revisita o corpo da esposa, segundo com uma moça que com uma alegria juvenil à americana quer um novo amor lésbico. Incompreensões. O que fazer quando se vê preso ao que não se prende? O deserto parece se divertir com o buraco esvaziando o saco.

Durante a manhã: o que fazer da espera? "Encenar Lear!" foi a ideia que ocupou a mente do dramaturgo, ademais que tipo de loucura sairia daquele acúmulo de incertezas íntimas ao sonho?
Descapotar.
Descapotar.
O deserto tão próximo como Shakespeare nunca imaginara. Todos com os papéis nas mãos, seguindo-os à risca, a voz encoleirada. A interrupção e seus respectivos retalhos se perfaziam, causados pela desidratação,cansaço, fome e desilusão, desserviços do grande vilão areado: um Lear atualíssimo, percebe o dramaturgo ao coçar a barba. E subitamente lá estavam Lear, Goneril, Cordelia e até Gloster, na sua gordura libidinosa. Um belo experimento ao dramaturgo ao qual nenhum teatro ou dinheiro poderia proporcionar.

Forçados, errantes, todos no desassossego causado por aquele estar temporário que não passava nunca e o que era pior: ia manchando, machucando, chegando às bordas do aparentemente intransponível como as da lâmina e da gengiva. O passageiro gordo e bem mais velho combina com moça "à americana" algum acerto. Em troca, a "comeria", enuncia balançando a carne do corpo. Proposta idiota, aceita pelo ócio ou curiosidade febril.  O faz colado de areia, deixando um rio no qual nenhum dois conseguirão atravessar: ela, por não saber nadar a memória daquilo, o desejo em cinzas ou guimbas. Ele, por saber (depois), que o prazer dele nela a traumatiza. A secreta descoberta da bela juventude dizendo que as raízes estão podres. O que dizer então da copa que é a soma daquelas partes? Eles, mortos e enterrados pelo instante que o vento e o sol arrastaram nas areias frias do casebre sem luz, onde desanimados todos ouviram o sujo prazer.
Insosso.
As inutilidades ao longo do percurso não surpreendem, servindo senão para reforçar o andamento deserto-dramatúrgico: Lear. O homem cor de universo, narrador do tempo, assegura a cadência num final pouco significativo - se assim houve um começo. Pouco importa se saíram ou não do inferno às apalpadelas das máscaras de oxigênio. "The rest is silence", a voz sem pausa do silêncio nos diz. Recomeços. Lear não morre tão fácil.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Da série "Obras anônimas": Bruno Schulz






Old World
[Tin Hat]



"Não há objetos mortos, duros, limitados. Tudo se difunde para além dos seus limites, permanece apenas um instante numa determinada forma, para deixá-la na primeira oportunidade. Nos costumes, nos modos de ser dessa realidade manifesta-se um certo princípio - o da pan-mascarada. A realidade reveste-se de certas formas apenas para fingir, para brincar, para se divertir. Alguém é um homem, alguém é uma barata, mas essa forma não atinge o essencial, é apenas um papel assumido por um momento, apenas uma epiderme, que logo será tirada.(...) A vida da substância consiste no gasto de inúmeras máscaras. Essa migração das formas é a essência da vida. (...)
Trechos da carta de Bruno Schulz a St. I. Witkiewicz de 1935. BN, 443


O Caderno


Em meio ao esfarelar das horas alguém revirava a estante. Mãos mergulhavam de cima à baixo num movimento de inércia frouxa, como quem retira as pedras de uma ruína há muito esquecida. Lá jaziam páginas e mais páginas da memória humana, letras submersas e destituídas de qualquer função prática e que permaneciam estáticas, ressequidas pela ferrugem e pelo mágico anelo das teias. Os dedos logo ficavam pretos de tanta tintura velha.

Bastou um sopro para as imagens desembaraçarem os grilhões, levantando as asas numa simplicidade muito nostálgica. Foi assim que, repentinamente, um caderno azul se materializou cor. O azul forte da capa com um estilo jovial, adquirido por inteiro desejo de sua mãe para as aulas escolares, fez com que nele se agitassem dias remotos em quando apoiava o cotovelo na beira da mesa e se debruçava sobre aquela relva de folhas alvas para inoculá-las de letras,caprichos e garranchos.

O ruído dos anos atravessados pelo roçar da folha sobre o metal espiralado era inestimável aos seus ouvidos. A estrutura das páginas seguia um ritmo específico quando o então copista procurava repetir os sinais sagrados profeciados pelo professor de Português. Sim, era um caderno de Português e Redação que continha informações imaculadas por um homem de pêlos másculos e bigode engraçado. É fato que não chegara a conhecê-lo pessoalmente e que para muitos sua existência residiu naqueles momentos quando,segurando o bigode com a boca, oscilava a caneta pelas provas e boletins. Usava sempre camisa Polo e uma careca invejosa sobre a cabeça. Às vezes brincava mais do que necessário com algumas meninas, porém isso não empobrecia a didática respeitosa e séria das olheiras esguias.

O indivíduo que segurava o caderno não sabia como aquelas páginas, antes tão frescas de bronze, passaram anos adormecidas como um corpo carbonizado pela chama. Com alguma paciência era possível testemunhar frases que rebolavam as sombras de seu próprio universo, naquele tempo das peregrinações. A mão que agora estirava a leitura sobre a solitária luminária da cabeceira, impregnando-a de rodelas sujas, não era a mesma mão.

Fechando os olhos e deslizando o indicador e o polegar pelas feridas emudecidas das folhas, sentia o tempo nas colorações do leito sossegado; a fricção violenta que outrora fez sucumbir aquele caderno àquelas inscrições inférteis e sobranceiras. Dificil acreditar como,nas tardes serenas pós-recreio, se obrigava a deslizar o pulso — ainda cheirando a requeijão — pelo caderno,cheio de energia, até transplantar todo o conteúdo do imenso quadro negro…

Retirada a pele do infante, uma outra transparece,tão viva e misteriosa quanto o último dia em que o caderno precisou ser aberto no itinerário ingênuo de beato sem causa e o professor dar as caras em sala de aula.

Pequenos exemplos contidos naquelas folhas pareciam dilapidar uma tortuosa saga passada pelo homem de bigode, que resistia sob o estandarte de um poema sem jeito. Quase nunca faltava. Chegava em sala com aqueles braços e mãos cobertas de giz e, levantando o bigode na projeção do nariz imenso, agitava braços como varinhas, que mais pareciam penas fofas, ainda que os dentes lhe apodrecessem a aparência e a idade pesasse a face. Trazia um anel de noivado em uma das mãos, isento de esplendor, que fazia questão de exibir às freiras e padres daquele lugar. E como se divertia naquelas ocasiões!

Vivia reclamando por algo às escuras e sabia muito bem esconder suas amarguras no miolo das frases. Na paisagem de seus exemplos, o recheio vinha carregado de obscura melancolia, como nas pinturas de Adolph Menzel, seja sobre as flexões verbais onde os dias eram chuvosos em Petrópolis ou em algo mais. Às vezes ele se soltava e tentava incrementar com alento, porém repetia-se prenhe de tempestades camufladas e chuvas e Petrópolis; algo que o jovem copista na época nunca se atentara, afogado no contexto, na seriedade dos deveres e na dormência dos dedos. Certa vez, um pouco mais acordado, avistara no braço esquerdo uma tatuagem querendo sair pela manga da camisa. E um pouco abaixo, um músculo montanhoso que certa vez alega ter visto flexionado, para as meninas adoradoras de abacates.

Não havia dúvida de que gostava de sentir-se jovem e revigorado, mas algo entre o ir e o vir costumava minguá-lo de uma maneira bastante estranha.
 Passava as tardes ora no parapeito estudantil ora encolhido a caminhar pelo pátio, sozinho, com o pensamento nas mangas da camisa e um copo de café nas mãos, em passos cada vez mais langorosos e apertados por aqueles sapatos que mais pareciam botas. Quando um padre passava próximo a ele,sorria como quem tivesse engolido um peixe inteiro de uma só vez. Depois sua boca sumia, permanecendo apenas os olhos recortados.

Os dias passavam sob uma mesma afinação de corda até o sinal tocar. Ele ainda permanecia por algum tempo arrumando a pasta preta e a morder o mindinho, mas quando erguia da cadeira, fechava-se em seu bigode, a cabeça mantida baixa e, com as golas soçobrantes da camisa Polo, se retirava em silêncio com o único intuito de estrebuchar seu mal-estar nos corredores vazios, após verificar de lado a outro se alguém o seguia. E alguém estava o seguindo, realmente. Via o quão demorava no banheiro, ensaboando os dedos, passando o papel higiênico umedecido no rosto, endireitando as gravatas das olheiras.

O professor e o aluno partiram, esconderam-se nas folhagens da vida para nunca mais se verem. Como educador, deixara depositado algo muito humano naquelas frases pequenas e didáticas,agora espalhadas em não sei quantos cadernos e estantes ao redor do bairro. Mas alguém ainda o seguia de perto, porque nunca partimos completamente.
(Inspirado em "O Livro" de Schulz, cujos excertos reproduzimos abaixo)


"O LIVRO

Costumo chamá-lo simplesmente o Livro, sem qualquer definição ou adjetivo, e, nesta sobriedade e autolimitação, há um suspiro impotente, uma capitulação silenciosa diante da vastidão do transcendente, porque não existe palavra, não existe alusão, que possam reluzir, emitir um perfume, escorrer num frêmito de susto, num pressentimento do que não tem nome, mas cujo primeiro sabor na ponta da língua ultrapassa a capacidade de nosso deslumbramento.
(...)
O Livro...Nalgum lugar, no amanhecer da infância, na primeira alvorada da vida resplandecia o horizonte de sua luz amena.
(...)
Inclinado sobre este Livro, de rosto flamejante como o arco-íris, eu ardia em silêncio entre um e outro êxtase. Ao mergulhar na leitura esqueci-me do almoço. A intuição não me enganou:era o Livro verdadeiro, original sagrado, embora numa humilhação e degradação profundas. E quando ao anoitecer, sorrindo prazerosamente, colocava a papelada numa gaveta mais profunda, cobrindo-a, para disfarçar, com outros livros, parecia-me que estava colocando o arco-íris, que sempre se acendia de novo, passando por todas as chamas e púrpuras, e voltava mais uma vez, sem querer acabar.
Quão indiferente fiquei agora aos outros livros!
Porque os livros comuns são como meteoros. Cada um tem o seu único momento, o momento em que ergue, com um grito, o seu vôo, feito fênix, ardendo em todas as suas páginas. Por causa de um momento desses, por esse único instante, depois nós os amamos, embora já não sejam mais do que cinza. E às vezes, à noite, passamos por suas páginas frias, movendo, como um rosário, com um ruído de madeira, suas fórmulas mortas.
Os exegetas do Livro afirmam que todos os livros aspiram ao Livro verdadeiro. Eles vivem apenas uma vida emprestada, que no momento de ascensão retorna à sua antiga origem. Isto significa que o número de livros diminui, enquanto o Livro verdadeiro cresce.
(...)
Então,a época genial existiu ou não? É difícil de responder. Sim e não. Porque há coisas que não podem acontecer totalmente, até o fim. São grandes e magníficas demais paar caber num acontecimento. Elas tentam acontecer, elas só verificam se o solo da realidade as aguenta. E logo recuam, com medo de perder a sua integridade na deficiência da realização.
(...)
Aqui ocorre o fenômeno da representação e da existência substitutiva. Um acontecimento pode ser,devido à sua origem e seus próprios meios, pequeno e pobre, no entanto, junto ao olho, pode abrir em seu interior uma perspectiva infinita e radiante, porque o ser superior tenta exprimir-se nele e brilha nele violentamente.

Assim, vamos recolher essas alusões, essas aproximações terrestres, essas estações e etapas dos caminhos de nossa vida como fragmentos de um espelho quebrado. Vamos recolher, pedaço por pedaço,aquilo que é uno e indivisível: a nossa grande época, a época genial da nossa vida.
(...)
Será que podemos arriscar a viagem à época genial?
Passamos o nosso medo ao leitor. Sentimos seu nervosismo. Apesar das aparências de animação, nós também temos peso no coração e estamos cheios de angústia.
Portanto, em nome de Deus - entremos, e vamos embora!"

Texto originalmente publicado na revista Estudos Hum(e)anos, no. 63