terça-feira, 24 de abril de 2018

Ode sonora "Flight from the City" (Johann Johannson)

Ebulição:  líquido em oscilação. Como três traços em ascensão à espera de um quarto traço que não irrompe ou que já nasceu antes de se poder contar.

O ínterim do movimento: a pista livremente vazia. De repente a doída urgência, atravessando aos apanágios da vida caco. O risco é quente e quase tão mortal quanto intenso no centro de uma circunferência que logo se dissipa e faz partir.


Planar não se ouve - se espera. E quem espera, um dia pôde deslizar o desenlace com um frio na barriga, sem saber de outra coisa que não fosse eternidade, sensação e esperança, num circunlóquio de infinitos recomeços, partidas e chegadas. Em meio a tão verdadeiro movimento raiam ponteadas amenidades de fina ternura, de fino silêncio. Irretocável decolar, pelo qual não há palavra que represente.

"Os momentos mais felizes da vida", dirão, com as pedras nos rins.

Um colar de contas jaz em todas essas luzes que isolam o corpo e finalizam a alma. Pena serem elas todas de LED. Onde estão afinal aquelas que iluminam o pomar do planar?


 

terça-feira, 13 de março de 2018

Entupimento

Chegava sempre de surpresa e batia na porta. Mais especificadamente naquela porta com o tapete listrado. Tratava-se de uma república de estudantes, com um corredor de portas feitas para bater. Em cada porta havia uma cor, um costume ajambrado a enfeitar a fachada. Mas sempre, sempre quando alguém no corredor se dirigia na direção dele, a reação não era das mais coloridas. Estar consigo mesmo é uma raridade absoluta num mundo em que os privilégios segregam.
Na maior parte das vezes a permanência dele ali por minutos ou horas à espera daquele mágica abertura de porta lhe trazia uma ansiedade tamanha, mesmo que pensasse (ou quisesse pensar) ao contrário. Isto porque esperar por duas ou três horas não garantia absolutamente nada, por mais que buscasse depositar a atenção em algo, por mais que houvesse chance para flutuar. Mas quando o acaso se deparava com o cotidiano dos fatos magros, o encontro dobrava de tamanho.
Ela sorria com a sola dos pés descalços. O jeito desmazelado e brincalhão lhe serviam de charme próprio. Alguém como ninguém. Há que se dizer que ela tinha um amor especial pela horta localizada no fundo da república, ainda que naquela altura estivesse com o mato alto e abandonada pelos demais vizinhos.
Os desenhos que fazia colava na entrada do quarto. A poesia deixava próxima da cama, bem ao lado do retrato que tinha com a mãe sorrindo ajeitando o bracinho do bebê na camiseta. No retrato havia mais que um sorriso. Havia amor. E ele por vezes se perdia naquela foto, como se ele próprio estivesse ali também, a ser colocado em cima dos joelhos dela.
Certa vez após brincarem com as crianças, se abraçaram por um tempo indeterminado. Parecia que algo havia sido selado entre os dois. A blusa de cor azul bem molhada dela de encontro ao terno amarrotado dele. Ali havia entrega. Ali havia o encanto do instante , o canto do cisne e todas as lendas sonhadas pelos hippies. Talvez não houvesse ciúme que pudesse encaixar naquelas linhas tão alegres e simples.
Uma semana depois, ela disse estar indisposta e que arrumara um novo namorado. E mais: que era ciumento.
……………………………………………………………..
- Estou com a cabeça nas nuvens. Me desculpe…
Eram duas da manhã e o bar está prestes a fechar.
- Já parou para pensar que as imperfeições nos libertam? — retorquiu.
Naquela hora da noite, não havia mais competição pelo tom mais alto de voz. À frente deles, copos semi-vazios e guardanapos marcados pelo líquido escorrido das garrafas deixavam marcas na mesa de plástico. Podia-se, inclusive, ouvir um grilo cantando bem ao longe.
Partiram. Durante o percurso, se não fossem os grilos e o cimento da calçada, poderia dizer que emudeceram. Os pensamentos concentrados em qualquer coisa de especial.
-Imagine você que o olho é um órgão gelatinoso… — disse, acendendo um cigarro e lançando a fumaça lânguida de modo vagaroso — talvez seja o órgão mais sensível do corpo, aquele que faz a conexão entre o exterior e interior. — jogando a gimba no chão — É por isso que precisamos saber ler os olhos.
Olhando para o chão, com a cabeça curvada e não sem antes gaguejar, retrucou:
- Eu tenho muito receio dessas leituras …Eu sou tão esquisita que tenho medo que leiam meus olhos errado…. especialmente se eles demonstrarem o contrário do que estou sentindo. Sabe, é muito difícil demonstrar que se gosta de alguém, assim, sem palavras — esboçou um sorriso amarelo.
- Agradeço a sua sinceridade. A maior parte das pessoas que praticam monólogos ou que tem preocupações em questões morais acreditam na seriedade.
- Não sei o que falar, na real.
Desviaram do exo-esqueleto de um sapo. À distância, galhos retorcidos de maneira sinuosa, tais quais cobras fossem.
- Quando a cabeça fica na nuvem, o que acontece? É possível saber?
A noite estava estrelada. A vontade dele naquele momento era que justos pudessem ser amar, em algum reboco esquecido ou em algum recôncavo que não fosse maior do que três palmas esticadas. Mas antes precisava que os olhos ziguezagueassem de um lado para o outro naquele semblante dela, que pusesse as mãos entre os ouvidos e que se lançasse sobre aquelas águas. Como demonstrou um pouco de insegurança quanto ao momento, meio sem saber o que fazer, foi se deixando levar, acreditando num acaso que fosse mais fortuito. Mas ela não estava lá. E a caminhada misteriosamente se seguiu.
Depois daquele dia, nunca mais soube dela.
………………………………………..
Havia um tempo em que confundia abraços apertados com beijos bem dados. No limbo das indefinições o instante se atravessa de demandas e expectativas que brilhavam, como o frescor de um vegetal indo de encontro ao primeiro feixe de luz e o crepitar interno das frutas.
Atravessa uma ou duas ruas até a fosforescente farmácia. No outro lado da rua, vê a figura se movimentar, a esperar o semáforo funcionar. Aqueles vinte segundos de espera, permitiu que ele resenhasse algum gesto de frustração. Entretanto, um desenho aflitivo se desenha em ambos os lados.
O contato. Finalmente, o contato. Aquele sentir de madureza no corpo. A viagem trepando em galhos na mais alta copa da delicadeza. Balançam frágeis aquele calor e quase tão rápido que nem chega a ser feito de segundos. Desfaz-se o movimento, na retração dos passos. “Demais? E por que seria demais?” ele pergunta.
Primeira cerveja, variáveis sorrisos e uma vontade louca de se preencher silêncios como quem se inebria de si. Passado o horário da chuva, vem a conta. Para ambas as partes, a conta. Ambos pagam e saem. No tropeçar das pernas, entre risos e inconsistências, o silêncio mais uma vez não se coloca. Nervosismo e coisa alguma. No momento final, estertora a palavra num pulo feito de um abraço demorado, apertado.
- Quando vamos nos ver novamente?
Desta vez, o mais mortal dos silêncios. Não é o bastante para o sonho dela. Ela o empurra, sai de perto e diz “adeus”.
Medita com o rabo entre as pernas. A poesia mais uma vez o entope.
-
Já sabia de outros carnavais que a idealização era um prato amargo a se comer e por isso não tarda a começar os trabalhos. Tinha o corpo coberto por tatuagens e uma série de piercings no rosto. A primeira impressão nunca é das melhores. Cabe às palavras, portanto, de fazer esse papel das profundidades. É através delas, aliás, que o chão se constrói pedra sobre pedra.
Estão ali, um diante do outro, mas não sente-se à vontade para beber ou para comer. Ele, por mais sorridente que possa parecer, não está ali. Estava com a cabeça nas nuvens, a fornicar o momento pelas bordas. E assim como as nuvens chegam, elas partem, levando-o consigo uma nova forma de dizer adeus: desta vez sendo ele o primeiro a mencioná-la. Já estava entupido, mas não de poesia.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Anelar

Colleen - Everything lay still



Nem chega a rebentar o fôlego e o braço se torna maior que o peito. As forças demasiadas para se aguentar. O dedo tremendo as ventas numa pétala que de tão regulada nela mesma, faz amor a cada invento. Pede, a todo custo o coração por inteiro, em rendados sonhos de plenitude. Não se quer a nenhum momento respirar o cronograma do adeus, principalmente se revestido de um virar de costas.

Os olhos contingentes respondem às mãos penugens sobre poros. Acolhimento. Desabrocha a pétala, num azul solstício de elevação. Um oceano inteiro a atravessar relances de luz. Redomas de vidro, borboletas esmagadas pelo tempo, vestidos prontos para apanhar. Áureos relances em madeira fosca. Tremula o verde sobre o vento. Douradas ramagens.
Arrastar a saia limpa pela terra devassada. Lama para o pé, gracha para a alma. Parte o dedo pela curiosidade rastejante, palma rente ao casco de vegetais nuances. Atravessa a relva no âmago da atenção. Cachoeira ao fundo resvala sobre a pedra. Descanso o tato vez ou outra na linha do horizonte. Sorri abertamente para o mundo. E se rodar precisa, roda baixo, anêmona submersa. Ainda que esvaem as borboletas para o chão e que a folha coletada expresse o seu último perdão, afiada ao sentimento de si, abraçada ao sentimento do mundo, umidece. Transpira o ânimo, aos girassóis da Rússia, aos trigais da França, aos caminhos sem volta. Compilações.

Memórias todas a se estampar, na agulha de uma dor, na consciência de um perdão. As asas batem num só tom, de leve cortina alçada ao vento.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Laboratório 6 - zigue-zague mântico (poemas feitos à 4 mãos)

 Sem título I

Em versos abertos diluo as horas
Do verdume sei assegurar
Infiltrar num horizonte de estribilhos
Sarapatear a solução ao belo mar

Não há saudade que chova às margens
Travesseiros é o que peço!
Que emplumando-se as rochas a fazer canoras
Faz do peixe um deslizado,
Para as palmas crescerem. 

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Sem título II

Estrelas em centelhas já revoltas
Que em contar tempo desperdiçam horas
A vigorar a luz campestre das anêmonas
Náufragos báus regurgitado memórias!

Andrômedas brincantes
De invento brim,
alegria em musgos na maré

Dançamos de mãos juntas o porvir do amanhã
Exílio de estrela no céu da boca
Arremessando pétalas
à flor da debulhada estação

Descansemos abraçados ao relento
E o fim depois do fim, anuncia o recomeço?

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Ex nihilo

Uma certa pessoa olha o mar. Medita. O vento frio a faz querer desistir. Põe o casaco sobre si, mas minutos após se levanta. No final da tarde, estar em frente para o mar faz com que qualquer sombra tenha um gesto de adeus.

-

Quis me contar uma espécie de história sobre um tal coco que despenca da palmeira. Disse então que metáfora melhor não existe, apesar do contraído desejo incidir na revelação do enigma. É que em momentos de ausência, o mínimo do outro é prêmio.

-

Um avião libera o cansaço do meu corpo, ao entender que presença é aquilo que vem de encontro quando se quer. Mas esse tipo de remanejo só é possível quando se tem para fora um pouco do corpo pisoteado. Porque não havendo pausa ou intervalo algum nessa dor, há que se encontrar algum lugar para se morar, um lugar que se possa dizer corpo.

-


Quanto mais eu vivo, mais me perco. Quanto mais me perco, mais me reencontro. Caso contrário não me perderia mais. Parece lógico, não? Mas talvez tenha que inverter a ordem: encontrar, para então se perder. Se colocar o encontro no lugar da perda, dificilmente terei a sensação de não me encontrar.
parece óbvio também, não?

-

Certa vez vi “Girimunho” nascer perante meus olhos. Encarnei um tipo de vida interiorana, de gente lascada em pedra e terminei vislumbrando uma argila de cunho ardiloso. Não se trata de uma indiferenciação. Se limitação é a palavra, a maleabilidade provinha paciência ao gesto e ousadia às ações. Então, por que não espraiar um pouco do mântico? Aliás, como disse a protagonista em tranquila risada ao falar dos peixes que só ela conseguia ver: “a gente não começa e nem acaba. A gente não é nem velho e nem novo. A gente vive”.

-






-

Se os anos pudessem falar pelo que falta, não teríamos pés para ir e voltar.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Ebúrnea

Subia as mãos para cima da cabeça, levando consigo um punhado de cabelo. Com três voltas fazia um coque, expondo o liso do pescoço ao frio que a amordaçava. Depois colocava os cotovelos em cima da mesa e agia, como se saltasse. Tinha que ser precisa naquilo que oferecia. E isso não por profissionalismo. Mas para evitar o risco de cair em tédio. Não, o tédio não poderia lhe possuir de novo, a ponto de recatá-la numa cama 3x4 de insônia e espera.

No entanto, o silêncio a fazia bocejar alto e em bom som. Estava cansada daquele constante arrumar de malas, das viagens imperdíveis por países desconhecidos, da paz em formato de liberdade.

Há de se convir que tinha traços de grande formosura, que conhecia a harmonia e a ambição por perto. Mas aquilo por si só não bastava. Precisava enturpir-se de cigarros e punk rock, para que pudesse dizer de uma hora para a outra, baixinho: “de que adianta tudo isso?”.

Certa vez confessou diante do espelho um segredo. Ao apalpar as bochechas rosadas com a mão suave, observou que as unhas deixavam marcas na pele por alguns segundos. Unhas que faziam doer uma careta no rosto, os lábios de vermelho natural em posição oscular. Ela percebeu o quanto era ridícula e boba. E que a bobeira a salvava de coisa mais grave.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Desencontros

                                                                 still de Muito além do jardim

Amarrota a gola da camisa de brim e já é quase um começo, embora nem sempre haja espaço para o pleno amanhecer: aquele imaginado e idealizado. Às vezes é necessário um cadafalso para fazer-se desperto ou voador. Quem sabe a sorte esteja mesmo na percepção de que as peças nunca estão postas na direção de nosso olhar? Porque quando examinamos mais de perto, vemos que o travessão antecede a sombra, marcando a base de todas as esperas.

Esperam vagabundos, cafajestes, difamadores, cínicos, vaidosos, egocêntricos e plêiade mais. Esperam pelo que possa ser ideal,imortal, prazeroso. Por isso cruzam as mãos umas sobre as outras quando estão sós, tal qual cruzassem os braços sobre o peito. Quiçá soubessem o calor de uma mão sobre o ombro do outro...seria esta a tal noite de núpcias do instante com a eternidade?

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Da série "A provação da luz": Massa estanque (2016)


MASSA ESTANQUE from Nayra Albuquerque on Vimeo.



O curta começa com uma expressão morna tanto sonora quanto visualmente, como se se tratasse de sonhos, mas depois surge um desequilíbrio: as pessoas se estagnam, viram zumbis a céu aberto. E elas marcham, indiferentes, rumo ao nada. Elas estão entupidas de nada e nem espaço chegam a ter para o vazio, para o zero que reconecta um ao outro. E tanto que sangram nas mãos, nas vestimentas e utensílios. Há quem observa a marcha acontecendo do outro lado. Não percebem que é também com eles. 
A visceralidade do noise vai criando tensões bem interessantes. O desfecho é dos melhores, com o vira-lata se alimentando daquilo que sobrou. Experimental, mas bem conciso.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Do amor



                                                         Window Water Baby Moving
                                                                    [Stan Brakhage]
                                                                              1962



1 - partitura "valsa para quatro ventos":


Lô. diz a  _Sim_Não_: Sim

_Sim_Não_ diz a Lô.: Não
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Sim
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Sim
 _Sim_Não_ diz a Lô. : Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô. : Não
Lô. diz a   _Sim_Não_: Não
_Sim_Não_ diz a Lô.: Não
Lô. e _Sim_Não_: São


 (pausa)



 pésjuntos                                                                                               p  e  s    
                  
                          p e s 

                                                                     pésjuntos

                     
                        p e s


                                  p   e   s



                                                              p  e  s


                                                                                                           pés_juntos


juntosèp
                                                           pé_juntos
                                                                                                             


pésjuntos



Refrão: Lo Li Lá Lá Lá Lé Lé Ló Ló / Lo Li Lá Lá Lá Lé Lé Ló Ló




Velada, a valsa se alimenta de prazeres inconsequentes, prazeres que se projetam laminados, de modo a embeber a superfície caiada do corpo-a-corpo. Com que sabor virá?  


 2 - brilho

- Porque assim a força do hoje-agora, futuro não-mais, poderá reagir de maneira favorável a escapar ou pôr chifres onde não se é esperado ter.
- Eu sei. Pareço ter pouco brilho.
- É que ainda falta você cruzar melhor com o acaso. Aí quando se levanta, o brilho aparece. Assim sentado, a sombra aparece.
- Sei...
- Não sabe que o amor suporta o ódio. A felicidade, a ignorância. O encantamento, o erro?
- E eu preciso de tudo, menos de razão. Alguma razão de que mereça?
- Desrazão com uma pitada leve de amor próprio. Nunca chegou a se sentir?
-  Apago a luz, todas as vezes.
- Alguma vez alguém te forçou a querer?
- Nunca sentiu culpa por algo?
- Os anos que te aguardam parecem querer dizer mais.
- Não sirvo para eles.
- E por que perecer pela fragilidade, se teu corpo é janela e porta? Nunca saboreou a profundidade da pele? A transparência do vaso?
-  Por isso desenho. 
- Veja só! Teu brilho está no alcance de suas mãos. Basta arrancar a pesada cortina de teus aventais, para que a luz possa contaminá-la de traços firmes e diagonais.  
- ...

E mais uma vez a alvorada se fazia chance. Se a vida comia do jeito que comia, havia um corpo que respirava à revelia do mundo exterior. Seria ele finalmente possível?


Window Water Baby Moving
                                                                    [Stan Brakhage]
                                                                              1962


3 - dor

Havia me dito que se tratava de algo intratável e inafiançável. Não acreditei. Ao dar um abraço, para além do desânimo que o afetava, percebi o sintoma se deslocar na sua pele vermelha. E isso fez toda a diferença para resolvemos aquele problema de outra forma. Porque a cura não existia, e o tempo não era dinheiro.



One month in the countryside
[Eleni Karaindrou]
"Unreleased recordings" (1990) 


as flores são do tamanho dos passos.
e em cada pétala há uma imagem.
e em cada imagem um ninho
que é possibilidade e átomo.

Espasmos? Não, filosofia de vida.
E como dói. 

4 - crença

Dizem que o tempo é feito de escolhas. Talvez o tempo seja mesmo feito é de diluição. E o que se dilui é a imagem do que se planeja, de cada redoma, de cada cúpula. Pôr abaixo tudo aquilo pelo que se espera, na curva de uma pulsação. Se um corpo é fragilmente sensível a ponto de sentir algo que não se quer, é sinal de resiliência, que não se atingiu ainda a frequência, isto é, que se está à curva da pulsação.

A crença é o que justifica o som no coração. Isso porque o som no coração não é feito de expectativas. Quando a crença é feita de uma lentidão, dá-se o alinhamento das sobreposições. E esse é o segredo que cada coração resguarda.
 

                                       Life in a tin 
                                   [ Bruno Bozzetto]
   
5- lembranças

- Acho que lembro de você.
- Eu não poderia dizer que seja recíproco.
- Deixa pra lá.
-Você está me parecendo alguém agora...
- Já conversamos, não vamos nos repetir. Pule pra próxima.
- Se assim deseja...você não é uma escritora?
- Sério, é uma nova perda de tempo, já que não guarda lembrança. Horas conversando por nada. Eu passo. De qualquer forma, obrigada.  
- Não acho que seja "horas conversando por nada". Até porque se há um hiato, deveria, penso eu, ter alguma vontade em redescobrir, porque é no mínimo curioso. Isso para mim me é maravilhoso, algo como o "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças". Enfim, mas se isso a desagrada, a respeito.
-Parece dispensável demais. Obrigada.
- Não vou mais incomodá-la...agora estou começando a me lembrar de quando sussurrei algo no meio do teu ouvido.
- E se levar um tapa pela invasão? O que faria?
- Foi exatamente o que me disse da última vez. E eu diria algo como "Pensaria que se trata de um caso sério. O que é surpreendente, pois pensava se tratar de algo descompromissado".
- Não me lembro disso ter acontecido.
- E eu diria logo a seguir: "O que fazer se os afetos nos governam? E se é essa a instância do humano?"
- Não me lembro em absoluto. Você está inventando! Adeus.
- E seu dissesse que tenho aqui em mãos um registro do que foi conversado?
- Você teria gravado aquela nossa conversa?
- Ah, então você lembra de mim!
- Você é que não lembrou de mim!
- Na época você disse que teria sido um prazer ter me conhecido.
- Não tenho mais tempo para você. Adeus!
E saía
- Te amo

Escrito em 28.4.2017
Reescrito em 26.12.2017

segunda-feira, 27 de março de 2017

Em contrachance


                                             Berceuse dos elefantes
                                                   [Walter Franco]
                                               Respire Fundo - 1978

Dedos arqueados alquebram-se sobre a taça de vidro. Um (espaço) outro. Presos. Fixos. Amparados pelo vidro gelado. Mas o toque, aparentemente suave, tem a sua pressão. Marca duas fases. Dois começos intermináveis: o de alçar e o de agarrar. E os dedos sobrevêm com a ansiedade e crescem com o medo. O líquido escuro quase nem tem mais peso, mas a mão está ali, a pressionar as digitais contra o vidro, borrando o quase-agora com o calor dos poros e o gesto das pétalas.
Resiliência alçada aos goles, deitada em sonhos de embriaguez    -    soluçada 


de tempos em tempos)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Poema estéril


Kentucky Avenue
Tom Waits
[Blue Valentine]



Bolhas sob a superfície intata do líquido.

Uma bola quicando o mármore claro.

Pés

Pés no chão a percorrer a volta da chave na fechadura

paredes de pastilhas coloridas ao redor

Cortinas alvas transparecendo o decote apertado das janelas

Pende o braço laço
Perdido abraço
a fraquejar
adeus
adeus
adeus
adeus
adeus
adeus

A blusa branca, perfumada
A calça azul, renovada
A gravata, o relógio, o cadarço

Num amasso rotundo
de longas voltas
e rodeios

no meio da parede um prego enferruja
o desejo de dizer:
"Sísifo só trabalha para estragar a vida dos outros"

Uma da tarde. Hora de partir.
Eu me pergunto: "até quando?"

Uma e dez da tarde.
Silêncio e memória.

Partiram as asas
Restaram as dúvidas
Uma vez mais

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

mortificar


                                                         O vale dos lamentos
                                                         [Theo Angeloupolos]


Ele me dizia para parar com aquilo, que não era algo bonito de se ver. E de fato não era nada agradável estar diante daquele rosto amassado, entupido de mentiras e algumas verdades. Mas a única coisa que eu conseguia retrucar era com aquele corte de ponta fina e macia que o discurso metia em lençóis, quase nunca brancos. Forjava-se a limpeza com olhos de quem se quer varrer todo e qualquer vestígio. Ele me dizia para parar com aquilo,pois aquele movimento de pudim resiliente cheirava a naftalina, quase tão seco quanto o pó fino sobre as coisas e as guimbas de cigarro enviuvadas. Ele dizia aquilo porque conseguia perceber o escorrimento da dor,o fincar das estacas sobre a pele, o desejo fragilizado.Ele sabia que ali antes havia recalque à resistência. E isso por si só o enternecia, à troco de beijo no rosto, palavras sortidas, penteadas. Ele me deixava,finalmente, os restos. E que faziam de mim alguém mais branda e sorridente. Mas que hei de fazer com tantas partes? Seria esta a razão de ser do ridículo?  

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 Dois pontos
dois pontos
Como quem não consegue unir
Dois pontos
dois pontos
caídos de sina, restantes de nome
papel mosca anel


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Aquela porta não tinha uma saída propriamente. Inevitável retorno. Se sobra uma janela na lembrança de quando se comia sabonete, é para se gracejar o tempo de quando dava certo. Mas hoje o compromisso tem mãos de distanciamento, dizem, que quando caem tem um peso tal que pode ser lavado em silêncio de cocktail, pelo mesmo humor com que se divertiu, de cigarro, um bando de nomes bem ditos e quase tão bem traçados com dicção plena quanto uma obra exemplar.

No entanto, estive descompromissado o dia inteiro. E o cansaço trouxe o sono das longas horas.


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 Dois mosquitos postos em lados extremos, no bocal de uma mesma entrada de USB. Dois cadáveres de mosquitos, em pose esquálida. O pó dos móveis como que escondia as duas figuras. Estava embaçada a luz, estava arranhado o olhar, só cisco, seja de pernas de inseto,  fiapo de roupa ou pelos humanos. Pisca renitente o título: "Farrapo humano" e ao contrário do que possa aparecer, o título tem seu manto de veludo.

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Até porque preciso que os outros me compreendam: às 3 preciso estar no lugar Y; às 7 pretendo chegar no restaurante e às 9 ainda planejo passar no mercado. As horas compreendem o que não quero deixar de saber. As horas persistem como um vício antigo que não se quer interrompido, mesmo se inoperante. Porque se quer falar de passado posto em gavetinhas para se puxar. Porque se quer falar em relíquias, em genialidades não compreendidas, e que possam merecer premiações, haja visto o público leigo e ignorante, a quem se oferece a cadeira pra se desistir antes da hora.

O olhar da instituição sorri escuro.
 
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- Como me ausentar da minha mente?

- É o tipo de coisa que você vai tentar descobrir a vida inteira até o momento da sua morte. 

- E se...

- A pertinência da sua resposta está no fato de que o silêncio não existe. A morte cessa a percepção e a mesura. Dali, uma míriade de infinito pode acontecer...se bem que dizem por aí que carregamos pequenas mortes conosco.

-  No final elas se juntam em uma maior?

- A morte é o que proporciona o furo. Assim, morre-se de amor ou de ódio.

- Se eu te dissesse que nesse momento estou menstruada e que me dói o útero e a cabeça lateja, estaria coberta de morte?

-    E de falta, pois as coisas não param de passar.

 - O ideal é não termos ideia disso.

- A ausência abre os caminhos. 

- Mas...então, como me ausentar da minha mente?

- Não está sentindo alguma melhora? 

- Você me cansa.

- Eu te amo. 

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Ao final da noite ela me dizia que doía o útero, que estava exausta do dia tingido a sangue. Aquela discrição, contudo, tinha um silêncio. Descubro o tempo das alergias.

domingo, 8 de janeiro de 2017

O mundo e o eu





O doce que acabei de mastigar tem um sabor especial. É algo um tanto açucarado que prende na boca, como um rótulo que teimam em dizer. Eu era agora o tempo do próprio tempo em mastigação, sem a qual precisava esquecer, caso não fosse possível tomar uma decisão.

A aposta nascia então como um colar de meu uso. As cores virando carteados, quando engarrafadas em vidro. Aquela alegria tinha fundamentação: era quente, profunda e apoteótica.  Mas não seria possível mais a tensão, o movimento do jogo se não houvesse o que ferir. O mais chocante seria que muitas vezes o corte poderia ser abrupto, após minutos de delicadeza e entendimento, como a guilhotina a cair sobre um pescoço liso. O horror do trauma, seguido pelo esquecimento nas cores encapsuladas.

domingo, 11 de setembro de 2016

Alienada

                  Valencia [Henri Cartier Bresson] - 1933


Mesa de bar, na calada da noite. Alguém suspira próximo da parede. Tem uma das mãos segurando a cabeça, como se enguiçada estivesse. Do outro lado do cômodo, a tevê ligada noticiava o mesmo canal de sempre, num looping acabrunhante que resseca qualquer lágrima necessária.


— basta que sejamos todos mal-amados.
 — o que faz para banir a história da sua vida?
 — isso já não será uma preocupação minha.
 — estava pensando em uma criatura humana…
 — morro sem deixar descendentes.
 — é um convite?
 — foi só para se esclarecer. achei que não viria a ser o caso.

Montava assim diálogos em frases coletadas. Às vezes sobrevoava ditos populares,como em Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Era o que queria ler, naquele momento. Mas sentia que, no fundo, lia como quem confere só e ferida, no ferro. E pasma ficava em ter inventado algo tolo.
Quis pedir um doce no balcão e o único que conseguiu comprar foi uma mar-me-la-da, bem soletrada. Assim compunha o vazio que lhe sobrava.

                                               …

 A anônima estranhamente se reconhecia pelas mãos vazias.
  

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um cigarro, me faz favor?


"Processing Unit"
[Jóhann Jóhannsson]
IBM 1401, A User’s Manual
2006


Foi durante o almoço que percebi. Havia passado meses longe de casa e nas vezes em que aparecia, nunca me dava conta. Ele me olhava de frente e sempre com algo mastigado na boca para dizer. Na maior parte das vezes sobre a vida que eu levava.

- Está chovendo estes dias por lá? — enquanto desferia com a colher um corte sobre o inhame.

Geralmente eu desvencilhava com alguma resposta curta ou sorriso tímido. Entre uma mastigada e outra, as bochechas afrouxavam a musculatura do rosto magro, o que, por sua vez, impunha dignidade ao cabelo ralo nas laterais. Não se via muito dos dentes por conta dos lábios curtos enrugarem qualquer coisa de ameixa, qualquer coisa de melaço bem chupado. Pois bem, lá estava ele a cortar o inhame com aquela colher de metal, com olhos bovinos à frente. A parte dura do inhame como garantia de um cotidiano possível, bastando um empurrãozinho com o polegar e o indicador para baixo.

O fato é que enquanto pousava a mão esquerda na mesa, ele não a pousava inteiramente...

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 — Nem dá pra sentir o gosto da folha — ouvi a voz feminina comentar, seguido de um riso nervoso. 

Raspava o fundo do prato com a colher, no quarto ao lado. 
 
No banheiro, a torneira gotejando.
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 Ele havia adormecido minutos atrás com o braço debaixo do travesseiro. Mas se algum barulho escorregasse para debaixo dos pés, era inevitável o suspiro quase tão vago quanto o mundo lá fora:

- Bem, está por aí?

 E lá escapulia o tempo outra vez.

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 Sentado na pedra à beira-mar, não conseguindo fixar a atenção no horizonte, presta a falar:

 — Quando voltará para casa?
 — Quarta. Caso contrário, quinta.
 — E como estão as aranhas lá?
 — Não estão. Você cisma que lá tem aranhas!

 Deixa aberto aquele sorriso que até os olhos frisa. A mesma coisa quando assiste a um filme que o comove; não à toa gostasse dos filmes baseados em fatos reais. Só nestes tipos consegue apontar com os dedos a imaginação e encantar a memória das lutas garrafais. Daí o desgosto pelos desarranjos, sejam eles intestinais ou cerebrais. Com o entorpecimento do corpo ou um braço sobre a cabeça arma a resistência numa desistência muito particular: bastam dez minutos e logo se sabia que não ia bem das pernas.  
Como precisava se agarrar a algo para enfrentar as contradições, absorvia muito depressa. Basta que alguém coloque caraminholas na sua cabeça sobre alguma enfermidade que sentia ou desejava sentir naquele momento, para imediatamente esbranquiçar a boca e fragilizar os movimentos vitais. Criatura em flor, de barro.

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 Nas madrugadas insones, liga a tv, dando início a algum encaixe perfeito. Com os braços esticados, monta e desmonta o mecanismo das máquinas multiprocessadoras, não sem antes empurrar com alguma força até o derradeiro ‘clic’. Caso não funcionasse, encaixa aquele seu óculos de metalúrgico a fim de deitá-la sobre seus pés. Em casos extremos às séries de incursões acidentais, mordia a extremidade das hastes, tal qual os homens maduros em plena reflexão. Só o relógio na parede parecia lhe roubar a lucidez daqueles momentos tão intensos e ao mesmo tempo tão banais. Tudo que precisava fazer era pôr em circuito o tráfego daquela energia e deixar o tempo conduzir as braçadas de seus amanhãs.

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 Naquele dia todos que estavam em casa passaram mal. Quiçá tivéssemos comido algo estragado naquela sopa de legumes. Ele mais uma vez com o braço pendido sobre a cabeça, com o olhar fragilizado e os chinelos a arrastar sobre o chão. Alegava também estar tonto o suficiente para que pudesse ficar deitado. Eis a última coisa que gostava de fazer. Mesmo deitado precisava de algum jeito dar utilidade àquelas mãos calejadas e graúdas, algo que pudesse fazê-lo acreditar no divino das essências, na metafísica das existências, no culhão das metonímias, sem abandonar evidentamente a parte judicativa. Talvez por isso fornicasse nos leites condensados, nos doces de leite, nos doces sobre doces do chocolate caramelizado. E assim sendo concretizava aquilo que o mundo há muito furta.

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 Naquele dia, ele precisava conter a mão esquerda. Do mesmo modo precisava conter algumas dúzias de minutos durante o uso dos mictórios e, principalmente, conter as tonturas desavisadas. Porque precisava trabalhar. Porque não tendo a quem confiar senão a uma pessoa, acreditava no futuro. A relação que podia traçar entre suas verdades românticas, alheias à facebook e ao sistema de moda, tinha o tamanho da curvatura de seu coração nas palmas das mãos. E com tanto afinco que dificulta aquilo que meus olhos contam, como se a luta apenas estivesse começando.

sábado, 23 de julho de 2016

Alguma coisa




"O vazio é um lençol branco", disse. Ela, sem querer acreditar, virou as costas e permaneceu naquele silêncio tão seu. Mais adiante o sol nascia no horizonte com uma clareza que não parecia terrena.
"Talvez a angústia", ela me disse e saiu de cena.

-

A cegonha do amor pode aproximar-se,mas não chega. Pousa no peitoril à espera de um humor que possa salvar. Permanece batendo com o polegar no lábio, sem muito alento. Se reclama das dores do parto, é para dizer que há muito silêncio embrulhado para presente e  os ruídos estão por toda a parte. 

-

Camada pós camada, doura a superfície lisa e quase escorregadia daquele rosto tão desavisado de tudo. Abertos os olhos, o maxilar afrouxa, permitindo o balbuciar de um som rápido e rasteiro, algo em torno de uma dúvida ou de um comentário ingênuo e nem sempre ouvido. Reclama da vida como quem arqueja alguma miséria naquele virar de cabeça. Acusa o trabalho, a dor no pé direito, o mal-estar da azia, só para dizer que o nada importa e que não gosta de arriscar.

 -

Estala o torcicolo pelos dedos que se querem curvos sobre pilhas e mais pilhas de papéis amassados. Instila abertamente uma vontade de se rir daquele mundo, pelo exato desperdício da vida a mostrar o excesso, de modo tão inútil. Como quem referenda um certo desinteresse pelo amanhã, fumega uma velha canção carcomida de indecisões ribeirinhas. Sem querer afirmar o sonho das montanhas em cor, caminha sem se importar a coisa alguma que não seja da ordem de dois sóis.

-

de que adianta o sumidouro, se o desejo não for fome e tesão?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

castelo de cartas



Prelúdio para quarteto de cordas
[Toshiro Mayuzumi]
1967
Interpretação: La Salle Quartet



"Não", disse.

E do silêncio fez-se ouvir uma respiração demorada e pouco nítida. Diante de si, um rio passava escorrendo pelas pedras. Ele media o movimento de seus desejos no fundo da retina, pulsando um meio-lá-meio-cá que mais parecia nervura sobressaltada. À meio caminho, entre a indecisão e a possibilidade, sopesava os sentimentos com a força das impressões ainda tão frescas. Fora surpreendido com a resposta vinda daquela boca que um dia tantas promessas de amanhã lhe trouxe.

Segurou nos punhos a areia que o mar deixara secar e, distante das ostras e algas marinhas, assentiu, senão com alguma ressalva. Para ele, aquilo não passava de uma pretensão ressequida, cuja privação lhe obsedava.

Absorvia nele um desejo de barro fofo, repleto de raízes claras ziguezagueantes, no qual pudesse despir as cenas da cabeça em volúpias táteis de presenças e caminhos. "Contato sem contrato", dizia erguendo os olhos. Plainava sobre o solo agreste do agora, sem sombra de possibilidade. A partir de agora não poderia mais afogar aquelas delicadezas de vez em quando, na espera pelo silêncio dos amanheceres. Estava decidido. "Não", a palavra calcada em cinza, amortecida pelo entendimento. Finalmente ela pregava o xeque-mate, pondo fim àqueles carteados.



                            Phototheque imaginaire de Shuji.Terayama: les gens de la famille Chien Dieu
                                               [Shûji Terayama]


Macabro o corpo que pula sobre os passos do outro, se fazendo de obstáculo, entrave ou garra.
Que faz do punhado de imagens estilhaçadas, os espaços órfãos e reclusos da existência,
uma redoma de vidro cortante no qual o coração, sem marcapasso, bate, bate, bate em um passado só e bem socado.

domingo, 19 de junho de 2016

Da série "O Augusto": 2. Mosca na sopa



Unintended Piano Music
[Cornelius Cardew]
Works 1960–70

Intérpretes: 
John Tilbury piano
Michael Duch contrabaixo
Rhodri Davies harpa



 "Uma secreta luz cúmplice da obscura região de omissões e espaços brancos em que o dia a dia consiste"
Viriato Soromenho Marques in: As rotas do amor: Notas de leitura dos Fragmentos de um discurso amoroso. p. 305.


A melancolia lhe desce pelo pâncreas até as pupilas. Intumesce a secura de algum volume labial com a sólida amargura da solidão. E quando se cristaliza em vaidade, vira insumo estomacal, pelo qual anoitece dias na virulência dos abutres. Redondo como o mundo. Redondo, ordinário. Cadafalso moído e, por vezes, remoído.

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Vitupera o glúteo com as mãos nas carnes das ave-marias e nas centenas de pais nossos. Cai mordido pela bênção do prazer inviolável , deixando escorrer tão assim o leite derramado pela pele do amanhecer, sob a promessa de que possa varrer tão logo desejar. 
Isso a que atribui o nome de vida: um papel de bala sendo carregado pelo vento. 

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Na beira da calçada, um assobio. Cercado por ambos os lados, alguém proclama a liberdade em bom tom. Ecoa longínquo o som para as profundezas do anonimato. Quem seria?

Não havia ninguém pelos arredores àquela hora do dia, além daquelas vestes de amianto que nudez não conseguia deslocar.

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Um chamado. O ar espremido sai da boca queimada pelo sol, em caminhos que até a curvadura dos dedos duvidaria.
Como se não bastasse o sopro, gesticula o mesmo sentido: leste para oeste. 

Machista que dói.

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Se por um acaso dissesse à sua pequena filha com os olhos do silêncio, deixaria de sair atrás do que bem machucasse. Mas o mar é vigoroso e faz das luvas garras cabeludas.

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Os rolos de papel sempre estão à sua direita, plenamente encaixados aos abraços e beijos. Como se dissesse, com deboche: "o quê? a perda é humana? deixa eu ver.", com o sorriso preto na boca, a gargalhar.

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Amacia a fala ao dizer coisa ilustre. Cruza a saliva ao apontar a titulação, os números de páginas, como se aquilo fosse o suficiente para a nobreza de espírito. Um pensamento que só faz  enfeitar pelo instrumento de poder e segregação. Imitação sem forma, ideia sem desenho.

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A quem o espera pelo tempo, morre na praia com os seios descobertos e o corpo retalhado em pedaços de luxúria. Choderlos de Laclos + Thénardier + Colin Evans. Circula o desejo, numa espécie de escambo estoicista. Faz preencher as faltas e repõe as falas (ainda que de maneira cronometrada).

Linhas estáveis, formas desossadas: um estereótipo deambulante.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Tremeluzir



Misterio del hombre solo
[Luis Campodónico]           
1961


Recomendação:
3
[Jocelyn Robert]
Cycloïdes
2013


No barco, de volta para casa, Ignácio depositava os resquícios da atenção no lado de fora da janela. Aquelas miniaturas em movimento a pleno breu pareciam à sua sensibilidade um afrodisíaco. Impressionavam como deixavam de ser a cada instante que olhava, dando a impressão de que eram um todo infinito, um brinquedo intocável que fazia vibrar os átomos de sua pele.
 Um avião sobrevoava a embarcação com um estrondo de fazer silenciar os mais cruéis monólogos.