terça-feira, 5 de setembro de 2017

Ex nihilo

Uma certa pessoa olha o mar. Medita. O vento frio a faz querer desistir. Põe o casaco sobre si, mas minutos após se levanta. No final da tarde, estar em frente para o mar faz com que qualquer sombra tenha um gesto de adeus.

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Quis me contar uma espécie de história sobre um tal coco que despenca da palmeira. Disse então que metáfora melhor não existe, apesar do contraído desejo incidir na revelação do enigma. É que em momentos de ausência, o mínimo do outro é prêmio.

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Um avião libera o cansaço do meu corpo, ao entender que presença é aquilo que vem de encontro quando se quer. Mas esse tipo de remanejo só é possível quando se tem para fora um pouco do corpo pisoteado. Porque não havendo pausa ou intervalo algum nessa dor, há que se encontrar algum lugar para se morar, um lugar que se possa dizer corpo.

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Quanto mais eu vivo, mais me perco. Quanto mais me perco, mais me reencontro. Caso contrário não me perderia mais. Parece lógico, não? Mas talvez tenha que inverter a ordem: encontrar, para então se perder. Se colocar o encontro no lugar da perda, dificilmente terei a sensação de não me encontrar.
parece óbvio também, não?

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Certa vez vi “Girimunho” nascer perante meus olhos. Encarnei um tipo de vida interiorana, de gente lascada em pedra e terminei vislumbrando uma argila de cunho ardiloso. Não se trata de uma indiferenciação. Se limitação é a palavra, a maleabilidade provinha paciência ao gesto e ousadia às ações. Então, por que não espraiar um pouco do mântico? Aliás, como disse a protagonista em tranquila risada ao falar dos peixes que só ela conseguia ver: “a gente não começa e nem acaba. A gente não é nem velho e nem novo. A gente vive”.

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Se os anos pudessem falar pelo que falta, não teríamos pés para ir e voltar.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Ebúrnea

Subia as mãos para cima da cabeça, levando consigo um punhado de cabelo. Com três voltas fazia um coque, expondo o liso do pescoço ao frio que a amordaçava. Depois colocava os cotovelos em cima da mesa e agia, como se saltasse. Tinha que ser precisa naquilo que oferecia. E isso não por profissionalismo. Mas para evitar o risco de cair em tédio. Não, o tédio não poderia lhe possuir de novo, a ponto de recatá-la numa cama 3x4 de insônia e espera.

No entanto, o silêncio a fazia bocejar alto e em bom som. Estava cansada daquele constante arrumar de malas, das viagens imperdíveis por países desconhecidos, da paz em formato de liberdade.

Há de se convir que tinha traços de grande formosura, que conhecia a harmonia e a ambição por perto. Mas aquilo por si só não bastava. Precisava enturpir-se de cigarros e punk rock, para que pudesse dizer de uma hora para a outra, baixinho: “de que adianta tudo isso?”.

Certa vez confessou diante do espelho um segredo. Ao apalpar as bochechas rosadas com a mão suave, observou que as unhas deixavam marcas na pele por alguns segundos. Unhas que faziam doer uma careta no rosto, os lábios de vermelho natural em posição oscular. Ela percebeu o quanto era ridícula e boba. E que a bobeira a salvava de coisa mais grave.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Desencontros

                                                                 still de Muito além do jardim

Amarrota a gola da camisa de brim e já é quase um começo, embora nem sempre haja espaço para o pleno amanhecer: aquele imaginado e idealizado. Às vezes é necessário um cadafalso para fazer-se desperto ou voador. Quem sabe a sorte esteja mesmo na percepção de que as peças nunca estão postas na direção de nosso olhar? Porque quando examinamos mais de perto, vemos que o travessão antecede a sombra, marcando a base de todas as esperas.

Esperam vagabundos, cafajestes, difamadores, cínicos, vaidosos, egocêntricos e plêiade mais. Esperam pelo que possa ser ideal,imortal, prazeroso. Por isso cruzam as mãos umas sobre as outras quando estão sós, tal qual cruzassem os braços sobre o peito. Quiçá soubessem o calor de uma mão sobre o ombro do outro...seria esta a tal noite de núpcias do instante com a eternidade?

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Da série "A provação da luz": Notícias de Casa (Chantal Akerman, 1997)





Numa viela aberta, as paredes são becos encardidos e fétidos. Garrafas, latas, caixas de papelão, canetas, cacos de vidro,cacos de vaso, cascas, restos e lastros. A lixeira verde é enorme e acumula esse amontoado de coisas que a cidade produziu e produz. À distância, um carro branco dobra a esquina em direção à câmera. Estamos na "Big Apple", em meados dos anos 70, época dos black power, black panthers, disco music, "Embalos de Sábado à Noite". Época da marginália e da violência estatal; época da corrupção e do crime à queima-roupa. Um tempo que não passou.

É final de tarde. Os faróis do carro iluminam parcialmente as paredes. Para cima e para baixo, a carcaça do veículo segue o ritmo da suspensão. Alguém segura o volante com força. Dobram a esquina quatro homens com sacolas e itens recém-adquiridos. As vestimentas proporcionais ao humor.

Segundo quadro. A câmera captura a total ou quase ausência de movimentação humana. O semáforo pisca o amarelo por repetidas vezes. O vento carrega um pedaço de plástico. Um carro azul surge no ângulo da câmera. No horizonte,começa a se desenhar o poente. O que esperar de uma confissão tão sincera?

Não ausência de uma finalidade discursiva, há apenas uma simples e espontânea maneira de capturar o cotidiano, como Lumière outrora teria feito. Uma voz in off se descortina. Ela é frágil, baixa e educada. Inicia a leitura da carta íntima que recebe de sua mãe. Nela há um emaranhado de afeições e delicadezas em torno de questões que não nos dizem respeito.  Preocupações cotidianas tão triviais e banais que geram simpatia a quem a ouve. E isso porque aquele que vê pela câmera-olho se faz de única testemunha. O privado se mistura ao público, como se indissociáveis fossem.

No metrô carregado de pessoas, próximo a faixa de pedestres, entre um abrir e fecha de sinal, pessoas entrecruzam presenças e ausências. Esse desdobramento das intimidades se dá em variados lugares: na presença de um público aparentemente indiferente ou daqueles que se intimidam pela câmera, tomando a ação distraída da filmagem pelo lado pessoal, tal qual estivessem num desejo por apagamento: por exemplo, a insistência do senhor de roupas verdes que insiste em esconder a palidez.

Por fim, resta na mente, o reflexo das luzes num dia de chuva. O silêncio. A solidão ruidosa de alguém que, afastado de casa, recebe algumas frases de notícias sem conseguir retrucar na mesma moeda. Porque para um estrangeiro o silêncio é revestido de fascínio e medo, pois a rotina daquela cidade faz apagar as pessoas. E apaga porque pensam "bom dia", "boa tarde" ou "boa noite" como forma de, com a educação, tapear que está sendo incomodado, uma vez que seria infinitamente melhor não ter quem pudesse perceber naquele momento. Porque não convém que algo possa atrapalhar seus planos de lucidez e idealidade. A liberdade é assim usufruída, numa tal angústia e ansiedade da existência que garante a normalidade do dia-a-dia.

A cidade é imunda na proporção de indivíduos que precisam pagar pelo que sujam. E nem assim o faz. Na cidade há algo muito mais importante do que o dinheiro circulando em cada esquina. Há o número, a numeração, o incômodo. Incluindo a régua dos estereótipos. O que dizer? Não dizer, passar, como quem não vê nada por estar olhando para onde pisa.

A cidade que é feita de falta precisa ser preenchida pela cor e ornamento. As crianças brincam em meio ao hidrante estourado, o metrô está pichado e a prostituta marca os lábios com batom barato, comprado de um usuário de heroína, num beco. Não há como dizer isso tudo para uma mãe que fala de pudins o tempo todo. Chantal entende certas contradições e certas impossibilidades.

No silêncio onde cada imagem precisa ser negociada há um desejo pelo distanciamento. É preciso que finalmente a cidade diminua de tamanho, para que de pouco a pouco seja vista como uma lembrança, um registro fílmico de uma experiência que passa. Chantal joga Excalibur na água. Avalon floresce em bruma e melancolia. Hora de retornar para o velho enlace. A realidade novayorkiana, afinal, não precisa dela.


 


"(...)Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é."

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa   

terça-feira, 20 de junho de 2017

Da série "A provação da luz": Séraphine (2008)




Seuil, 1914. A lua pôs-se a brilhar lá em cima. É possível ver o reflexo na correnteza de um rio. Noite mística. Séraphine desliza as mãos pela superfície de um pequeno afluente e consegue tocar os poros da vegetação ribeirinha. Solfeja qualquer nota delicada na boca. O gesto é de carícia. Se a mão agarra qualquer coisa, logo solta. A natureza passa por ela e ela passa pela natureza, à revelia de tudo e de todos.

Quando o dia começa, Séraphine cumpre as obrigações em silêncio. Foi essa educação que a senhoria lhe ensinou. E para não retrucar a coisa alguma, havia aprendido a esfregar e limpar o chão, as janelas e as roupas. Quem sabe anos, muitos anos havia passado naquelas condições de simplicidade e humildade servil. A senhoria lhe pagava centavos e ela fazia segundo as regras do jogo. Aparentava uns quarenta anos, mas ao certo ninguém sabia direito. Nem mesmo a madre superiora, sua mãe adotiva, talvez soubesse. Séraphine era mais uma, dentre as muitas pessoas que circulam prestando serviços à sociedade. O corpo parecia flácido e moído pelo tempo. Andava revezando os passos de um lado para o outro e talvez, quem saiba, arrastasse os pés no chão, como as pessoas de mais idade costumam fazer. Os olhos azuis, o rosto largo, os cabelos desgrenhados, em referência à cultura européia industrializada do século XIX. O chapéu preto sobre a cabeça, o xale azul a cobrir os ombros e uma cesta na mão direita. Era esse o seu uniforme cotidiano, tipificado na sua condição social. A figura de Grenouille trabalhada por Patrick Süskind em "Perfume" sobe à cabeça:

"Grenouille trabalhava feito um cavalo. Modesto, quase um escravo, efetuava todos os serviços subalternos que Druot lhe ordenava. Mas enquanto ele, aparentemente idiota, remexia, manejava a pá, lavava garrafas, limpava o local de trabalho ou carregava lenha, não escapava à sua atenção nada das coisas essenciais desse ramo de atividades, nada da metamorfose das fragrâncias". p. 186

Discreta e silenciosa, Séraphine não era afeita a conversas. Dizia apenas o necessário, como havia aprendido com a senhoria. E a olhar para o chão. Assim, não se manifestava sobre o caso que o filho tinha com a empregada ou sobre qualquer outra particularidade. Mas Séraphine, assim como Grenouille, não era idiota. De fato, aquilo pouco importava. Ela gostava mesmo era de sair pelo campo, em busca do vento nas folhas das árvores. Tinha um apreço especial pelo vento da árvore que ficava numa elevação. Chegava a subir pelo tronco quase até a copa, só para se sentir inteirada com aquele momento tão seu e de mais ninguém. E mais: fazia de tudo para descalçar as botas, numa espécie de compensação pelas amenidades.

Séraphine é então indicada pela senhoria para atender os novos inquilinos da casa. O andar de baixo é alugado por dois estrangeiros que falam alemão. A casa aparenta não ser muito larga. As paredes descascam, os ladrilhos despencam e o jardim está com a grama alta. Apesar dos apesares, a casa tinha Séraphine por perto, que além de cumprir com as obrigações domésticas, servia a refeição e o chá matinal. Na primeira vez que encontram Séraphine arrumando a cozinha, tomam um susto. Não sabiam que ela estava inclusa no pacote.

A mulher quase sempre viajava e o homem parecia um pouco ocupado na escrivaninha. As pessoas daquela cidade pequena logo suspeitam deles. O que queriam ali naquele povoado? Seriam dois espiões do governo alemão? O dono de um dos estabelecimentos escrutinava ao menor sinal de diferença neles, algo que pudesse segurar o ombro do vizinho para apontar com o dedo bem alto. "Por ali!", seguido por uma horda de pessoas carregando archotes ou lamparinas cidade adentro.     
     
Mas uma coisa eles não sabiam: que Séraphine tinha seus mistérios mais profundos. Ela fazia a coleta de materiais esdrúxulos, experimentava diferentes combinações. Sim, ela se sentia imbuída de uma obrigação secreta e mais forte. E em meio a essa obrigação, não tinha tempo para distrações. Por isso, pendurava um cartão na maçaneta da porta indicando que não quer ser perturbada. 


E justo ali, por trás daquela porta estreita e mal pintada, batia o martelo na certeza dos tons, na simpatia das formas, na reconexão com o mundo. As pastas feitas a partir daqueles substratos eram misturadas com a ajuda de um pincel sobre a superfície do papel ou madeira. Por não ter espaço suficiente em seu cômodo, pintava à luz de velas, no chão. Essa espécie de ritual com a arte lhe garantia um prazer comedido, quase beatífico, fazendo com que compromisso com a obra fosse total, até o último suspiro.

Pequenos quadros saem desse contrato com o divino. Consegue retratar aquilo que seus pés um dia lhes puseram em contato e borrava, borrava para que pudesse dar espaço a pingentes adornos. Era assim o seu insigne e particular gozo com o mundo das intensidades em cores.

No entanto, Séraphine não podia ficar em paz por muito tempo. Um dia alguém calharia não apenas de saber, mas de dedurar (quem sabe a proprietária a quem devia dois meses de aluguel? quem sabe o pároco da aldeia que nem aparece na estória?). A senhoria ficou logo sabendo e, como tal, foi explicação. Assim ela o fez, com um mistura de surpresa e sorriso nos lábios. Ela poderia finalmente confessar a alguém o seu amor.

- É por um acaso um pessegueiro?
- Uma macieira, senhora.
- Não se parece.
- A meu ver, parece uma macieira - retruca o filho da senhoria.
- Os tons não se parecem com os da macieira. Onde já se viu uma macieira desse jeito?
- A meu ver, é uma macieira - reforça o filho, como em tom de provocação. 
-  Não, não é possível... Seráphine? Ainda está aqui? Volte ao seu trabalho!

E, por fim, escondia o quadro atrás do sofá.

Por alguma razão, alguém calharia também de informá-la que aquele alemão era um famoso crítico de arte. Foi uma festa. A senhoria quis chamar seus amigos particulares ou aqueles que conseguiam reproduzir um gosto em comum e logo veio a ideia de convidá-lo para um jantar. O fato é que não sabiam que o interesse daquele crítico estava em Picasso e na arte moderna, passando ao largo da arte decorativa que tanto agradavam seus olhos. 

Ele não aguentou tanta mediocridade e precisou se retirar.  Na saída bateu os olhos no quadro escondido, sabe-se lá porque. Ficou extático.  E mais extático ainda quando soube que o artista era ninguém menos que Séraphine, a senhora da faxina. É verdade que já havia percebido algo de especial nela, em especial num momento em que ao perceber sua tristeza diz:

- Senhor Orzt, o dia em que você estiver triste, converse com as árvores, os pássaros e as folhas! Logo sua tristeza vai embora. Eu não sei ficar triste. 

No dia seguinte foi ao encalço dela. Tentou uma maior aproximação e ela insistiu nas distâncias. Ela estava ocupada na limpeza. Ele quis mostrar a importância da obra.

- Senhor Orzt, pare de zombar de mim.

Uma pequena sinfonia se estabeleceu entre os dois. Orzt tinha já comprado algumas obras e prometeu exibi-las numa exposição em Paris. No meio desse processo, a guerra começa. Ele precisa retornar para a Alemanha. Havia que cumprir com uma certa obrigação, a mesma que faria com que alguns franceses começassem a lançar ovos podres nas janelas da casa.


Adeus.
Adeus.

De cabeça baixa, Seráphine isola-se na pintura. Seu campo de atuação não se restringe mais ao seu diminuto quarto,mas a espaços destruídos, incluindo a casa da senhoria, agora abandonada por completo. Todos aqueles que alguma vez havia erguido o queixo, aprendia a sentar e a se encolher. 

-- 

13 anos depois, Orzt morava numa casa de dois andares, no sul da França. Dividia o espaço com sua irmã,a quem acompanhava sempre e um rapaz tuberculoso que nas horas úteis pintava.
compartilhava a cama de Orzt, tal qual Tadzio possivelmente teria feito, na cama de Aschenbach.
Tudo com o máximo de discrição para com as três empregadas francesas que cuidavam dos vários cômodos da casa.


Esse tipo de preocupação refletia na condição de vida deles, agora mais abastada. Com o cavanhaque branco, Orzt se mostra preocupado com a saúde do rapaz esguio, bem como com os rumos da autenticidade na pintura contemporânea.

Séraphine era tida como um estilhaço do passado, uma personagem que a belle époque lhe trouxe, silenciada pelas circunstâncias históricas. Ele talvez tenha aprendido que nesse ramo é necessário seguir em frente o ofício, pois a relação humana se dá pela cumplicidade e estavam cúmplices, naquele instante, o rapaz e ele.

De repente, numa dobra de jornal, descobre uma tal mostra da prefeitura com artistas locais da cidade.  Naquela mesma manhã ou em dias anteriores, a sua irmã lhe havia recordado. Coincidência? A lembrança se faz oportunidade. Os olhos vão, curiosos. E ele caminha pelo espaço apertado da galeria como se estivesse atrás de algo quente. Foi então que a redescobre tal qual Fênix, mais madura no estilo. Estava claro que era ela naquela parede e que ela havia crescido em aura. Se antes havia um grau de semelhança com a natureza morta, agora havia uma diferença sutil, havia sensação. Imiscuía na forma analogias afetivas de fino púrpura, em curvas acentuadas e polens delicados. Havia substrato ali. Havia vida.

O crítico não tarda a procurá-la, no mesmo local, subindo a escada à direita, no fundo do corredor escuro, porta branca e pequena. Ao abrir a porta, ela não se surpreende, como premeditado estivesse. A santa lhe havia contado tudo! Ela comunica ter abandonado os serviços domésticos por inaptidão. Seu corpo não mais corresponde às demandas exigidas pelo senhorio. Desde aquela exposição, parece estar conseguindo viver da sua obra.

E ele a conduz ao mecenato. A partir daquele momento ela desembesta. Quer o vestido, a casa e o carro.A devoção que ela tinha pela santa era total. A filha da vizinha torna-se amiga e dama de companhia.  As portas todas se abrem, tal qual se tratasse de um pacto com o divino. Interpreta o direito como uma benção, um direito para a fama e importância, usufruindo de uma necessidade que precisa então subir mais, brilhar mais, virar estrela. 


Mas o tempo passa. Já é 1929. Há uma crise mundial em percurso que a santa não conhece. Nesse ínterim, o rapaz adoece novamente. Orzt não consegue mais prometer a ela, logo naquele momento de ascensão! A proprietária que mora no andar de baixo, percebe que Séraphine não tem mais cantado, o que significa que não tem mais pintado. Entretanto, ela a escuta murmurando, cochichando qualquer coisa.

Num domingo qualquer, Séraphine sai vestida de noiva,a distribuir presentes a todos. Leva consigo talheres e castiçais prateados, comprados recentemente para enfeitar a sua ascensão. Já que não há tempo para ascensão, talvez quisesse retribuir àqueles que não a queriam. A cada um. Ela é assim internada num leito coletivo, por onde passa a respirar sob o testemunho de todos, inspecionada por enfermeiras e médicos de plantão.

Séraphine, estrangeira do mundo, está sendo silenciada. Há fantasma e dor por toda a parte. Durante uma noite, alguém se põe a mexer no seu cabelo. Ela grita, ameaça bater,morder e acaba sendo conduzida a uma camisa de força. Sua dor é de uma fissura tamanha, de um vazio como nunca encontrara antes e sob o qual nada é capaz de fazer.

Orzt reconhece tenta ser gentil na escolha de um quarto particular, próximo a uma janela e uma porta. Séraphine, por alguma sorte, assim que adentra o quarto, pensa na porta. E ela se abre. Lá fora, o vento a chama outra vez. A árvore enorme que antes a acompanhava em mistério e sutileza está logo ali, ao seu lado. O dia é branco, imensamente branco.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Da série "A provação da luz": Massa estanque (2016)


MASSA ESTANQUE from Nayra Albuquerque on Vimeo.



O curta começa com uma expressão morna tanto sonora quanto visualmente, como se se tratasse de sonhos, mas depois surge um desequilíbrio: as pessoas se estagnam, viram zumbis a céu aberto. E elas marcham, indiferentes, rumo ao nada. Elas estão entupidas de nada e nem espaço chegam a ter para o vazio, para o zero que reconecta um ao outro. E tanto que sangram nas mãos, nas vestimentas e utensílios. Há quem observa a marcha acontecendo do outro lado. Não percebem que é também com eles. 
A visceralidade do noise vai criando tensões bem interessantes. O desfecho é dos melhores, com o vira-lata se alimentando daquilo que sobrou. Experimental, mas bem conciso.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Do amor



                                                         Window Water Baby Moving
                                                                    [Stan Brakhage]
                                                                              1962



1 - partitura "valsa para quatro ventos":


Lô. diz a  _Sim_Não_: Sim

_Sim_Não_ diz a Lô.: Não
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Sim
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Sim
 _Sim_Não_ diz a Lô. : Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô. : Não
Lô. diz a   _Sim_Não_: Não
_Sim_Não_ diz a Lô.: Não
Lô. e _Sim_Não_: São


 (pausa)



 pésjuntos                                                                                               p  e  s    
                  
                          p e s 

                                                                     pésjuntos

                     
                        p e s


                                  p   e   s



                                                              p  e  s


                                                                                                           pés_juntos


juntosèp
                                                           pé_juntos
                                                                                                             


pésjuntos



Refrão: Lo Li Lá Lá Lá Lé Lé Ló Ló / Lo Li Lá Lá Lá Lé Lé Ló Ló




Velada, a valsa se alimenta de prazeres inconsequentes, prazeres que se projetam laminados, de modo a embeber a superfície caiada do corpo-a-corpo. Com que sabor virá?  


 2 - brilho

- Porque assim a força do hoje-agora, futuro não-mais, poderá reagir de maneira favorável a escapar ou pôr chifres onde não se é esperado ter.
- Eu sei. Pareço ter pouco brilho.
- É que ainda falta você cruzar melhor com o acaso. Aí quando se levanta, o brilho aparece. Assim sentado, a sombra aparece.
- Sei...
- Não sabe que o amor suporta o ódio. A felicidade, a ignorância. O encantamento, o erro?
- E eu preciso de tudo, menos de razão. Alguma razão de que mereça?
- Desrazão com uma pitada leve de amor próprio. Nunca chegou a se sentir?
-  Apago a luz, todas as vezes.
- Alguma vez alguém te forçou a querer?
- Nunca sentiu culpa por algo?
- Os anos que te aguardam parecem querer dizer mais.
- Não sirvo para eles.
- E por que perecer pela fragilidade, se teu corpo é janela e porta? Nunca saboreou a profundidade da pele? A transparência do vaso?
-  Por isso desenho. 
- Veja só! Teu brilho está no alcance de suas mãos. Basta arrancar a pesada cortina de teus aventais, para que a luz possa contaminá-la de traços firmes e diagonais.  
- ...

E mais uma vez a alvorada se fazia chance. Se a vida comia do jeito que comia, havia um corpo que respirava à revelia do mundo exterior. Seria ele finalmente possível?


Window Water Baby Moving
                                                                    [Stan Brakhage]
                                                                              1962


3 - dor

Havia me dito que se tratava de algo intratável e inafiançável. Não acreditei. Ao dar um abraço, para além do desânimo que o afetava, percebi o sintoma se deslocar na sua pele vermelha. E isso fez toda a diferença para resolvemos aquele problema de outra forma. Porque a cura não existia, e o tempo não era dinheiro.



One month in the countryside
[Eleni Karaindrou]
"Unreleased recordings" (1990) 


as flores são do tamanho dos passos.
e em cada pétala há uma imagem.
e em cada imagem um ninho
que é possibilidade e átomo.

Espasmos? Não, filosofia de vida.
E como dói. 

4 - crença

Dizem que o tempo é feito de escolhas. Talvez o tempo seja mesmo feito é de esperas. E o que se espera é o pulso. E para cada pulso, um hiato.Sístole e diástole. Mas acima de tudo, não se tem conhecimento pelo que se espera, uma vez que a frequência não termina. E ela não está num inteiriço que se faz nome. Ela está na curva de uma pulsação. Se um corpo é fragilmente sensível a ponto de sentir algo que não se quer, é sinal de que falta alguma espera.

A crença é o que justifica o som no coração, para além das batidas do coração (tempo das demandas). Isso porque o som no coração não é feito de expectativas. Quando a crença é feita de uma paixão morna, dá-se o alinhamento com aquilo que nenhuma pessoa, livro ou ciência há de saber. E esse é o segredo que cada coração resguarda.
 

                                       Life in a tin 
                                   [ Bruno Bozzetto]
   
5- lembranças

- Acho que lembro de você.
- Eu não poderia dizer que seja recíproco.
- Deixa pra lá.
-Você está me parecendo alguém agora...
- Já conversamos, não vamos nos repetir. Pule pra próxima.
- Se assim deseja...você não é uma escritora?
- Sério, é uma nova perda de tempo, já que não guarda lembrança. Horas conversando por nada. Eu passo. De qualquer forma, obrigada.  
- Não acho que seja "horas conversando por nada". Até porque se há um hiato, deveria, penso eu, ter alguma vontade em redescobrir, porque é no mínimo curioso. Isso para mim me é maravilhoso, algo como o "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças". Enfim, mas se isso a desagrada, a respeito.
-Parece dispensável demais. Obrigada.
- Não vou mais incomodá-la...agora estou começando a me lembrar de quando sussurrei algo no meio do teu ouvido.
- E se levar um tapa pela invasão? O que faria?
- Foi exatamente o que me disse da última vez. E eu diria algo como "Pensaria que se trata de um caso sério. O que é surpreendente, pois pensava se tratar de algo descompromissado".
- Não me lembro disso ter acontecido.
- E eu diria logo a seguir: "O que fazer se os afetos nos governam? E se é essa a instância do humano?"
- Não me lembro em absoluto. Você está inventando! Adeus.
- E seu dissesse que tenho aqui em mãos um registro do que foi conversado?
- Você teria gravado aquela nossa conversa?
- Ah, então você lembra de mim!
- Você é que não lembrou de mim!
- Na época você disse que teria sido um prazer ter me conhecido.
- Não tenho mais tempo para você. Adeus!
E saía
- Te amo

sábado, 29 de abril de 2017

Da série "A provação da luz": Trem de sombras (José Guerín, 1997)

                                                                              Spiegel im Spiegel
                                                                                 [Arvo Pärt]





Principia uma espécie de romantismo entre quatro paredes. Na proa, um homem retém o tempo pela lente da câmera. Sessenta anos depois alguém o revela. E dentro daquele peito, as imagens jorram uma metafísica monumental. Como o entomologista, o capturador retém na gaveta (que alguns chamam de câmara obscura) um presente que não pode passar senão sem alguma nostalgia ou horror. Porque aberta sessenta anos depois, por mais que se imite ou maquie, não é passível de adaptação. Aqui retomamos ao sonho de Muriel que Adolfo Bioy Casares um dia perpetrou.

Em 24 quadros por segundo, disparam olhares, gestos e presenças alveolares. Pulsa a hipnótica luz sobre o relevo esfumaçado da noite. E a partir dali, algo se afigura, como uma revelação: um homem em seu leito de morte a enxergar um despropósito, uma visão meteórica que o faz sorrir, tolamente. “Aquele instante precisa ser capturado”, começa. Esta é a sina do capturador Gérard Fleury, que ao sair de casa em busca da luz necessária, precisa esgotar a experiência, como se cada segundo daquela família precisasse chorar. Ao fim e ao cabo, a luta de Gérard Fleury contra o esquecimento é vã, pois ele próprio desaparece, tal qual fosse uma projeção de alguém. O capturador, sem saber, criou uma Caixa de Pandora, fazendo de si parte integrante da encantada redoma de vidro.

Apesar da deterioração da película, seja pela guerra ou por um destino particular, aquelas imagens parecem fantasmagorias. E frente a ideia da perda, o navegador solitário José Guerin esmiúça as fendas da imagem granulada, intervindo quando bem entende. As imagens adormecidas carregam bons costumes, aquiescida pela bovina moral cristã, onde tudo parece condimentado em cruz e água benta. Ele pode interferir perversamente sobre o que se quis guardar para sempre, ainda que a realidade fosse completamente outra. O tempo de que a imagem fala é de cristal, e é feito de sonho, invenção e melancolia, como nos filmes de Visconti ou nos livros de Proust. Guerín nos mostra uma infância perdida, a agonia da luz, os rendados de uma memória que agora e para muito torna a correr em quem põe-se a observar a ternura envernizada e enxuta do silêncio.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Em contrachance


                                             Berceuse dos elefantes
                                                   [Walter Franco]
                                               Respire Fundo - 1978

Dedos arqueados alquebram-se sobre a taça de vidro. Um (espaço) outro. Presos. Fixos. Amparados pelo vidro gelado. Mas o toque, aparentemente suave, tem a sua pressão. Marca duas fases. Dois começos intermináveis: o de alçar e o de agarrar. E os dedos sobrevêm com a ansiedade e crescem com o medo. O líquido escuro quase nem tem mais peso, mas a mão está ali, a pressionar as digitais contra o vidro, borrando o quase-agora com o calor dos poros e o gesto das pétalas.
Resiliência alçada aos goles, deitada em sonhos de embriaguez    -    soluçada 


de tempos em tempos)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Poema estéril


Kentucky Avenue
Tom Waits
[Blue Valentine]



Bolhas sob a superfície intata do líquido.

Uma bola quicando o mármore claro.

Pés

Pés no chão a percorrer a volta da chave na fechadura

paredes de pastilhas coloridas ao redor

Cortinas alvas transparecendo o decote apertado das janelas

Pende o braço laço
Perdido abraço
a fraquejar
adeus
adeus
adeus
adeus
adeus
adeus

A blusa branca, perfumada
A calça azul, renovada
A gravata, o relógio, o cadarço

Num amasso rotundo
de longas voltas
e rodeios

no meio da parede um prego enferruja
o desejo de dizer:
"Sísifo só trabalha para estragar a vida dos outros"

Uma da tarde. Hora de partir.
Eu me pergunto: "até quando?"

Uma e dez da tarde.
Silêncio e memória.

Partiram as asas
Restaram as dúvidas
Uma vez mais

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

mortificar


                                                         O vale dos lamentos
                                                         [Theo Angeloupolos]


Ele me dizia para parar com aquilo, que não era algo bonito de se ver. E de fato não era nada agradável estar diante daquele rosto amassado, entupido de mentiras e algumas verdades. Mas a única coisa que eu conseguia retrucar era com aquele corte de ponta fina e macia que o discurso metia em lençóis, quase nunca brancos. Forjava-se a limpeza com olhos de quem se quer varrer todo e qualquer vestígio. Ele me dizia para parar com aquilo,pois aquele movimento de pudim resiliente cheirava a naftalina, quase tão seco quanto o pó fino sobre as coisas e as guimbas de cigarro enviuvadas. Ele dizia aquilo porque conseguia perceber o escorrimento da dor,o fincar das estacas sobre a pele, o desejo fragilizado.Ele sabia que ali antes havia recalque à resistência. E isso por si só o enternecia, à troco de beijo no rosto, palavras sortidas, penteadas. Ele me deixava,finalmente, os restos. E que faziam de mim alguém mais branda e sorridente. Mas que hei de fazer com tantas partes? Seria esta a razão de ser do ridículo?  

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 Dois pontos
dois pontos
Como quem não consegue unir
Dois pontos
dois pontos
caídos de sina, restantes de nome
papel mosca anel


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Aquela porta não tinha uma saída propriamente. Inevitável retorno. Se sobra uma janela na lembrança de quando se comia sabonete, é para se gracejar o tempo de quando dava certo. Mas hoje o compromisso tem mãos de distanciamento, dizem, que quando caem tem um peso tal que pode ser lavado em silêncio de cocktail, pelo mesmo humor com que se divertiu, de cigarro, um bando de nomes bem ditos e quase tão bem traçados com dicção plena quanto uma obra exemplar.

No entanto, estive descompromissado o dia inteiro. E o cansaço trouxe o sono das longas horas.


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 Dois mosquitos postos em lados extremos, no bocal de uma mesma entrada de USB. Dois cadáveres de mosquitos, em pose esquálida. O pó dos móveis como que escondia as duas figuras. Estava embaçada a luz, estava arranhado o olhar, só cisco, seja de pernas de inseto,  fiapo de roupa ou pelos humanos. Pisca renitente o título: "Farrapo humano" e ao contrário do que possa aparecer, o título tem seu manto de veludo.

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Até porque preciso que os outros me compreendam: às 3 preciso estar no lugar Y; às 7 pretendo chegar no restaurante e às 9 ainda planejo passar no mercado. As horas compreendem o que não quero deixar de saber. As horas persistem como um vício antigo que não se quer interrompido, mesmo se inoperante. Porque se quer falar de passado posto em gavetinhas para se puxar. Porque se quer falar em relíquias, em genialidades não compreendidas, e que possam merecer premiações, haja visto o público leigo e ignorante, a quem se oferece a cadeira pra se desistir antes da hora.

O olhar da instituição sorri escuro.
 
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- Como me ausentar da minha mente?

- É o tipo de coisa que você vai tentar descobrir a vida inteira até o momento da sua morte. 

- E se...

- A pertinência da sua resposta está no fato de que o silêncio não existe. A morte cessa a percepção e a mesura. Dali, uma míriade de infinito pode acontecer...se bem que dizem por aí que carregamos pequenas mortes conosco.

-  No final elas se juntam em uma maior?

- A morte é o que proporciona o furo. Assim, morre-se de amor ou de ódio.

- Se eu te dissesse que nesse momento estou menstruada e que me dói o útero e a cabeça lateja, estaria coberta de morte?

-    E de falta, pois as coisas não param de passar.

 - O ideal é não termos ideia disso.

- A ausência abre os caminhos. 

- Mas...então, como me ausentar da minha mente?

- Não está sentindo alguma melhora? 

- Você me cansa.

- Eu te amo. 

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Ao final da noite ela me dizia que doía o útero, que estava exausta do dia tingido a sangue. Aquela discrição, contudo, tinha um silêncio. Descubro o tempo das alergias.