segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A polpa e o arco:íris


                         

Paraíso: é na veia da verve que as colinas intumescem seu licor. Enoveladas, vagam revestidas pelo cortinado anil das frescas manhãs, numa tal amplitude córrega que suas arestas não cessam de alimentar minerais acesos.
É tempo de girassóis. Tempo de levantar os botões de suas grandes cabeças e lançarem-se (em)à luz, à proximidade holística com os caiaques e caiapós. Daí a preguiça abater todos os poços, naquela surrupiante dolência típica das tardes de fraque, que mesmo cobertas de incensos e heras, jaz adormecida em postes multicores. Cândido desatar de laços febris, por onde desprendem-se mãos pequeninas, manejadoras do mesmo astrolábio que lançará a noite em seu rumo vítreo,coberta de medalhinhas cintilantes.

Dorme, beleza imensa! Dorme enquanto podes. Sede quarto abandonado, janela aberta ao meio-dia, estrela cadente num céu abobadado, nuvem "transpassante" de bocejos simples e singelos. Minha grama, quintal e alegria, sedução mágica de pastos infinitos e perdidos na mais plena imensidão espúmica.

Argamassa das sensações verdadeiras.

Reine soberana em meu coração de giz! Deixe eu lhe desenhar um pouco no canto das páginas quando eu não (es)tiver mais o que sorrir, quando precisar do colírio para aplacar o choro. Sede este impulso sem grades, imensamente imenso, vagaroso como o acalentado instante dentro de outro instante, replicado pelos vigorosos pontões dos sinos expostos em praça pública. Sem mágoas ou desculpas, como o universo que nunca pediu para ser o que é, posto que cama acolchoada para todos os sonhos, paginados de muitas linhas.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

The Wasteland ou a capacidade desarticulada da circulação



Um outro capítulo da série:

Ainda era um início de tarde quando a última nota da disciplina terminava de ser lançada, fechando suas obrigações. Lá fora, um grande clarão como se algo inchado estivesse prestes a explodir. A partir daquele instante, K. haveria tempo para esbanjar da forma que lhe conviesse. Começou com um copo da água, buscado demoradamente na cozinha. Os dedos a contornarem o gargalo da garrafa, sem pressa. Poderia por acidente deixar a água cair no chão só para depois ter de apanhar um pano para secar. Ou então abandonaria o terreno apenas para medir o tempo necessário para que a água evaporasse por ela própria. A longo prazo, prepararia as malas para viagens, não importasse aonde fosse. Tinha dinheiro de sobra para isso. Havia diversificados planejamentos rondando sua cabeça, apesar dele não parecer estar para isso naquele dia. Queria ter o prazer de nada fazer, nada em absoluto, apenas ficar estirado dentro do apartamento, envolvido pelo ritmo demorado das pás curvadas do ventilador de uma brancura encardida de tanto uso. Tinha que limpá-las também, tinha que, poderia se quisesse. Tudo dependia do esforço de alguns músculos. Havia optado por nada fazer naquele instante. Imaginava como deveria estar vestido naquela ocasião, se limparia com força ou delicadamente dissolvendo a sujeira em pano úmido. Levaria as férias inteira executando aquela função, se necessário. Mas não sabia se deveria gastá-la deste modo e até que momento o seu ócio poderia desfazer a encantada surdez. Por trás das janelas, as ruas estavam intensamente recheadas dos mais variados e irritantes ruídos. Com a aproximação da noite, passaria horas angustiantes atrás dos mosquitos que zombavam e zombavam de sua existência.

No entanto, lembrou-se de um encontro combinado com sua mãe, naquela mesma tarde. E assim sendo, K. seguiu sua promessa praticando todos os necessários cerimoniais antes que pudesse sair. Tinha de ir ao banheiro, regar ou pelo menos rebatizar a garganta com água fresca, pentear as poucas mechas assanhadas de cabelo para só depois dizer lançar-se e ser carregado pelos passos que o levassem até o seu destino.

No primeiro átimo de segundo, aquele clarão acobertado pelas cortinas, se revelava como uma criptonita despejada por algum homem insano. Acaso fosse uma mera explosão, ela teria um fim, mas aquela era uma explosão que parecia perpetuar no tempo e espaço. Estava muito calor. Rapidamente sua blusa ganhava uma tonalidade escura nas partes mais diversificadas e encavadas do corpo. "Isto não pode ser real", pensava.Havia algo de muito metafísico naquilo tudo. Aquele balde de tinta dourada que o sol tingia com sua língua parecia carregada de parafusos pontudos que ao tocar friccionava, espremendo o tal líquido escuro ao qual ninguém sonhava trazer consigo, pelos poros. Era algo muito profundo e falso ao mesmo tempo. As pessoas viravam chafarizes ambulantes, untadas por uma máscara espessa e densa. Parecia um enorme teatro ao céu aberto. Do outro lado do muro, um negrume sinistro "tantaleava" como verdadeiros copos d'água, contornando a falaciosa malha afivelada e brilhante de lava que era despejada por aquele ponto tão distante do grande céu azul de apenas três letras chamado sol. Aquele transbordamento auricular curvava ou "corcunizava" os olhares, isentos de melancolia, fatigados por um esgoelar qualquer. O que podiam fazer os sofridos transeuntes se a coroa não era deles?

Imersos naquela realidade, os desertos, imperiosos, se proliferavam dentro deles mesmos. No lugar da melancolia, havia o desânimo, a gula e uma indiferença peculiar. Esta salivava por dentro a todo instante querendo tocar mesmo as superfícies ásperas, como se estivessem mortas e gélidas. O importante era um saque bem feito. Descolar dos lábios fechados um semicírculo em formato de pétala, das bordas de algum recipiente cheio; marca indelével de quem furta descaradamente com o próprio corpo.

Todos aparentavam um obscuro e secreto desejo de esfarelamento,pois naquela situação a matéria tornava-se um incômodo enquanto dureza estática. Queriam escorrer como o leito de um córrego escorre, arrastando tudo que estivesse pela frente. "Por que pensar naquilo que resiste e exaure lama até as últimas gotas?" É tão pecaminosa a cena que até moscas verdes mereciam ser atraídas para o processo de ressecamento. Era o deserto que habitava a carne, deixando aquele típico rastro linear e delirante de luz fosca na pele. Expelir para ingerir, ingerir para expelir. No ritmo do coração-pele-língua, os esquecimentos reproduziam-se. "Para que uma memória da areia?". Um dia morto, de folhas "cácticas" de tão estáticas. Nem o vento fazia sua visita desgovernada. Havia apenas o rei sol e ele era o pai da terra que assava vorazmente, apertando as gargantas até o sufocamento e a loucura repentina, ato desesperador de quem deseja saltar de qualquer forma as labaredas devoradoras.

Saltar era o verbo principal naquela cidade. Saltar para não desabar. E assim faziam, saltando partes de si para os lados de um modo diferente do encolhimento em posição fetal dos povos da região glacial. "Eles precisam das faíscas para sobreviver", argumenta K., "e aqui são tantas que não conseguimos lidar sem queimarmos algo. O que pensa Deus disso? Que somos pães para sua manteiga?".

Havia uma desejosa preferência do movimento ao pertencimento. Mover o corpo para saltar a realidade dos dias que desabam, colhendo camadas premiadas de ar a cada ação. Diferentemente dos outros povos do extremo norte e sul que quando não estão em posição fetal, querem saltar para chamuscar algum agrado solitário. Se por alguma bruma qualquer ao pertencimento fossem leais, o esquecimento lhes recobririam cada gesto com um gel apagado de pleno esvaziamento, usuais das famílias desbotadas. Os ninhos de cobra não paravam de nascer.

Após dobrar a esquina da rua da casa de sua mãe, observou algumas pedras costuradas entre os muros que o fizeram lembrar as regiões litorâneas. Como desejou naquele momento ser um pequeno líquen numa pedra de lá! A verdade daquele sol era tão crua, tão desumana...

Tanta nudez castigada na atmosfera daquele local que por pouco poderia pensar que não existia verdadeiramente aquela palavrinha há muito esquecida em seu vigor. À distância muitos diriam se tratar de um paraíso, onde seu povo cantava livre o prazer divino. Amarga ilusão. Mal sabiam o que o maçarico era possível de fazer com a alma daqueles herdeiros de um certo germe nova-iorquino do final do século XIX, embrutecedor de corações humanos.

A razão pela acidez daquele amarelado putrefato para além da simples iluminação estava naquele outro amarelo espoliado e golfado durante gerações em guerras e tecnologias inúteis. Foi isto que, ao longo dos séculos, transformou os dedos sóbrios da mão em punho nebulosamente fechado e ocluso de peso irresponsável.

O que fazer? A única solução era agredir a agressão e perfurar ventos com a ajuda de modernos veículos ou ainda camuflar-se na intensidade esquecida de alguma sombra em determinadas horas do dia. Vender a própria sombra à sombra maior, uma parceria deveras justa apesar de demasiadamente mefistofélica. No fim, todos resistiam como por um milagre, mesmo quando isolados dos “verdumes” maternais. As tais sombras maiores eram almas de suas próprias almas feitas a créditos durante anos a fio e agora se erguiam ao céu empregando suas frontes opacas para o mundo também opaco. K. sabia que este era o fenômeno mais ordinário possível. Até mesmo quem residia naqueles disseminados artefatos claustrofóbicos utilizavam de apetrechos para bloquearem a luz e irradiarem suas antíteses, suas costas. Naquela cidade todos buscam as costas de alguma coisa para terem onde se esconder provisoriamente.