segunda-feira, 23 de setembro de 2013

das razões de se trabalhar


                                       Afbraak hoek Wijde Steeg, Amsterdam
                                           [George Hendrik Breitner] 
                                                         1908-10

Pela primeira vez em 30 anos de serviço, o chefe do departamento me convidava para cear em sua casa. Morava a sós num apartamento infestado de gatos, todos muito brancos e asseados. Assim que entrei, guiou-me pelo corredor estreito desde o quarto principal, onde havia uma mesa entulhada de papéis circunstanciais. Sentava numa cadeira larga adequada ao corpo, cujo couro das almofadas eram de um azul turquesa que mais tendia para o verde claro. O estofado, como é de se esperar numa casa de muitos gatos, estava completamente desfiado nas bordas, com a espuma a aparecer. O chefe do departamento desfilava ainda de roupão cor de vinho e pantufas vermelhas, os brancos cabelos baixos aparecendo. Pediu para sentar-me também, logo após o primeiro gato subir ao seu colo. Havia uma única cadeira de madeira bem simples com uma pilha de papéis em cima. Ponho-a no chão com o todo cuidado possível. "Não tive tempo", disse esboçando um leve sorriso naquela cara chupada pela velhice.  Permanece alguns segundos em silêncio, massageando os dedos no pelo do animal. Um enorme anel de cristal quadrado reluzia num dos dedos. E depois começou a falar sobre honra, de como seu pai, um mero vendedor ambulante, sofrera para edificar a empresa, a fome que passaram ele e seu irmão no início da guerra, a morte da mãe e a herança do pai. Eu, que havia nascido bem depois daquilo tudo, me perguntava pelo porquê das confissões após tanto tempo em que mal teria tido o momento de olhar para o seu rosto. Por fim, desculpava-se por ter de forçosamente cancelar a ceia, adiando para a próxima vez, por razões financeiras. Entretanto para não ferirem com o código de conduta do bom anfitrião, perguntou se aceitava um vinho. Naturalmente aceitei...era um acontecimento único depois de tanto tempo. Sabe-se lá depois o que aquela relação poderia prover! Ademais, sair de mãos abanando após 30 anos, seria uma terrível surpresa. O vinho, segundo o chefe, era do melhor tipo, da horta cultivada por seu avô, hoje uma fábrica de sabão. O sabor era realmente diferente de tudo que havia degustado até então. Como era um vinho caseiro, não havia rótulo algum na garrafa. O mesmo gato ou algum outro muito parecido continuava no colo à mercê da mão com o anel. Bebia devagar ou quase não bebia. Não parava de articular a boca e os lábios envelhecidos lançando palavras sobre os mais variados e estapafúrdios temas. Eu, unicamente bebia e bebi tanto que comecei a ver coisas. O nariz dele crescendo, enquanto os seus dedos tornavam-se o próprio gato deitado no colo. A voz perdia a consistência, parecendo um chocalho remexido. Levantei imediatamente enquanto o mundo rodava, pedi licença tartamudamente e retirei-me da sala. Acho que cheguei a dizer que não estava me sentindo bem. O fato é que acordei numa cama, suando em bicas como nunca antes estivera. Tive que ir ao banheiro três vezes para vomitar. E só no dia seguinte senti-me melhor, ainda um pouco zonzo. Havia pedido para a minha tia informar ao chefe do departamento que estava bem e ele, imediatamente, ofereceu alguns dias de descanso, o qual cumpri muito bem, indo visitar os amigos no estrangeiro. Havia retomado as atividades, quando recebi um segundo convite para cear na casa do chefe do departamento. Quando havia chegado, desta vez, a casa estava bem diferente da primeira vez. Havia tapetes, um mordomo e uma empregada educadíssimos e o chefe do departamento trajava um terno de primeira linha, apesar de manchado nas golas e com alguns botões sobressaltados. Desculpou-se pelo acontecimento na última vez. A ceia estava pronta na requintada sala de jantar. Não havia sinal algum de gato. Perguntei e ele me respondeu que sua mãe detesta felinos e estava por algum momento visitando a sua cidade, depois da morte do cunhado. A mesa estava bem disposta, com copos de cristais e tigelas chinesas. Algumas postas de carnes e peixes ocupavam metade da mesa, seguidas por vegetais. Sem dúvida, aquela fartura ultrapassava muito aquele drama narrado. Muito educadamente, fiz um elogio ao bom gosto na escolha dos pratos. Ele, entretanto, desmentiu. Disse que aquilo era por causa de sua mãe que chegaria à noite, que nada daquilo teria acontecido se não fosse o mordomo e a empregada, amigos próximos. A garrafa de vinho sem rótulo estava na mesa. E mesmo que ele dissesse se tratar de outra garrafa recusei terminantemente aceitar o vinho, alegando estar indisposto digestivamente, preferindo apenas os alimentos leves daquela mesa. Ainda bem, já que os copos pareciam um pouco sujos por dentro. Havia uma riqueza de vegetais cortados em cubos, cujo sabor transcendia qualquer experiência prévia. O chefe bebia e comia as carnes, tal qual estivesse esfaimado, como se fossem feitas para engolir. Quase nada falava, ao contrário daquela primeira vez onde suas palavras imperavam. Havia apenas o ruído da carne sendo cortada na boca e o molho espraiando pelos lados. De repente, vi no rosto do chefe marcas de sangue pisoteado, como se houvesse se cortado com um alicate toda a extensão da pele. No prato, havia pilhas de panquecas, que não havia avistado como opção na mesa. Na verdade, se tratava, como os meus olhos diziam, de orelhas viradas e postas a tal modo que mais pareciam panquecas. O chefe espetava e abria a boca suja e coberta de baratas que saiam de sua língua, dos ouvidos e andavam em círculos pela cabeça. De novo sentia aquela mesma coisa esquisita de antes. No meu prato, havia salsichas que andavam e não se paravam quietas. Depois percebia se tratar de lacraias. Cospi desesperadamente, empurrei a cadeira e um gato parecia me morder a perna direita. Um rato talvez. Chutei sem pestanejar, lançando pratos e talheres ao chão. Balbuciei como da última vez: "Desculpe" e sai. O mordomo estava com uma cabeleira enorme e não parava de salivar como um retardado. A empregada, nua, andava de quatro como um animal, com as tetas balançando de um lado para outro, como sinos de igreja. No corredor do prédio, fechei os olhos na medida do possível. Escutei sons horrendos impossíveis de se identificar. Fui andando até um bom pedaço, ouvindo a minha respiração apressada, e um bando de vozes numa rua deserta. Deitei e dormi. No dia de seguinte, suava como um condenado. Uma dor horrorosa no ventre. Fui vomitando até o hospital, onde lá o médico diagnosticou como sendo intoxicação alimentar, aplicou umas injeções até que ficasse melhor. Expliquei estranhamente o caso e o médico diz que se tratam de duas causas diferentes para sintomas parecidos. Fiquei com certo receio de perguntar se se tratava de um envenenamento. Voltei para casa e pedi para minha tia mais uma vez solicitar licença ao chefe do departamento. Ele não apenas acatou uma generosa férias de um mês, como passou a enviar um médico toda a semana. Na primeira semana, estava bem. Devido aos últimos acontecimentos, pouco saí de casa e o pouco que fiz foi para visitar os familiares. Ao fim do mês, retornava para o trabalho. Foi aí que recebi uma carta do punho do próprio chefe, desculpando pelo acontecido. Sugeriu então uma ceia em minha casa ou em algum restaurante do subúrbio que não fosse muito caro. Escrevi para ele que aceitaria de bom grado recebê-lo em minha casa. Preparei um bom peito de peru defumado daqueles que somente titia sabia como preparar. Ele chegou quase quarenta minutos atrasado. Se desculpou, alegando nunca ter visitado o subúrbio antes. A mesa estava bem elegante, com as velas postas e os pratos de porcelana alinhados. Dois copos de cristal e um licor trazido da França pela irmã. Comentou que há anos não degustava um licor francês. Depositou sua pequena maleta sobre o sofá e sentou-se. Estava muito bem alinhado, apesar do paletó estar um pouco surrado. Quando olhou para as pinturas expostas nas paredes, imediamente pôs-se a falar sobre história da arte e as pessoas ilustres que tivera a chance de conhecer. As mãos asseadas pousavam sobre a calça. Vez ou outra se utilizava de recursos retóricos para medir o meu conhecimento, terminando a frase com a maldosa colocação: "como o senhor deve saber bem". Mas eu não tinha a menor ideia do que ele falava, além do que achava extremamente entediante. Em vários momentos cogitei retrucar com alguma questão que lhe deixasse imobilizado por alguns segundos,mas talvez por educação não o fiz. Ou talvez por conseguir distrair a atenção em uma coisa ou outra: percebi que sua gravata estava torta e que em sua boca faltava um dente. De fato, ele parecia mais pálido do que da outra vez. Seria por conta do frio? Comecei a servir a refeição. Ele me ofereceu sua maleta, enquanto continuava a falar. Julguei que devesse também servir o vinho. E assim o fiz. Meu estômago estava já ruidoso, naquela altura. Por uma ocasião, pedi licença e fui ao banheiro. Quando voltei, ele continuou a falar sobre imperadores e, em especial, sobre seu avô. Julguei que não estivesse bem de saúde. Havia em seu rosto olheiras monstruosas, como nunca havia visto. Tentei dizer alguma coisa que interrompesse aquele discurso já repetitivo, mas ele não me concedia essa oportunidade. Duas horas se passaram pelo que pude ouvir do badalar do sino. Como era possível falar tanto e não parar um instante sequer para refrescar a garganta? De repente, ouvi um ruído como se alguém estivesse chegado. "Minha tia", pensei. Saí imediatamente do cômodo, sem nada dizer. Quando retornei o chefe do departamento estava calado e parecia olhar fixamente para mim. Fechou a maleta, tomou o vinho de uma só vez e, ainda encarando nos olhos, partiu. Estarrecido com o fato, lembro apenas de ter desejado intensamente aquele peru frio, intocado, que estava sobre a mesa. No dia seguinte, recebi um comunicado dizendo que não precisava ir mais ao trabalho, que eu merecia umas boas e prolongadas férias. Desatei a escrever uma pequena mensagem que enviei logo a seguir. Dizia:  

"Do alto da minha ignorância, acho que ficou claro que eu não compreendi o que você quis dizer. Peço desculpas, sei que deve ser frustrante tentar se comunicar com alguém que não te compreende. Agradeço pelas tuas belas palavras. Espero que tenha bons dias e que continue adquirindo conhecimento. Mais uma vez, perdoe a minha incapacidade de compreendê-lo."

E a partir daquele momento nunca mais precisei trabalhar.

domingo, 8 de setembro de 2013

"Con las manos limpias de sangre"


                          
                                                 Casulo - 1995  [Nuri Bilge Ceylan]



UCLA Camarades 2011 - 1. Igor Stravinsky, Double Canon for String Quartet (Raoul Dufy in Memoriam) from Hasom STRINGS on Vimeo.

Intérpetes: Guillaume Sutre e Boryana Popova - violinos
                                  Paula Karolak - viola
                                  Christopher Ann - cello


Recomedação: Alban Berg Quartet


"XXI
(6 de agosto de 1924)

Estoy de acuerdo 
con el sufrimiento;
pecamos,
hemos pecado,
justo es que paguemos
lo que debemos.
Mas, por qué sufre mi perro?,
qué daño está pagando?,
cuál fue su error primero?,
cuál el de sus antepasados?
Bien está que paguemos
el ser racional,
mas él
por qué
tiene que pagar,
por quién?

Los ojos tristes de los animales
ese mirar cansado antes de nacer,
esa angustia
esa ansia
ese quebranto
ese no caber
ese luto inhumano
esa pupila dilatada
esa pena negra
ese ensombrecer
esa perpetua reconvención,
debes tenerlos clavados en el alma,
Gran Yahvé.

Si les hacers sufrir
por qué no les diste la libertad
de llamarte como te cumple?

El ser hombre se hace fácil
con el correr de los años:
mas el ser animal
temo que no.
Esa desigualdad
tal vez me dé las fuerzas
cuando te vea,
para estarte mirando, frente a frente,
ojo con ojo."

(Samuel Ebronsohn tradução de Max Aub) 

Estava deitado rente ao meio fio.
Jazia adormecido frente ao bueiro.
Permanecia.
Restava. 
Melhor qual fosse, o fato era o mesmo: carros, ônibus, pedestres ladeando-o com pressa alucinante.
Qual fosse o corpo, que significaria?
Cor alguma.  
Quiçá as moscas zumbiam ao redor daquele par de botões arregalados e sem brilho, em plena pasmaceira dominical. Ressecado o negrume do pêlo, retesados os músculos da ação pretérita inconclusa, recalcina(n)do
na sarjeta...
Além daquele desbotamento pútrido, não dava sinais de maceração maior. Talvez por mais debaixo, a terra roncasse os últimos filões de vida orgânica...
Outros floreios.
Cada qual, com o seu desalento.  




Miau.
Miau.
Pacientou-se a ouvir mais.
Miados impacientes, novamente.
Numa terceira vez pareciam cáries langorosas que incomodavam nas noites perdidas de um mês qualquer. Mas para aquilo que miava não era um mês qualquer: era a própria existência explodindo. Irritavam aqueles que precisavam daquela harmonia tórrida e tranquila chamada silêncio.






                                                                                              Silêncio e nenhum pio a mais senão para A Voz inaudita do amanhã. Os ouvidos atentos ao não-ouvir como trombetas ao contrário.
No entanto miava e tinha um pelo macio; cheiro de leite nos bigodes. Miava sucessivamente a madrugada adentro. Era tempo de tempo, subtraído o amanhã e o ontem. 

,sem que nada fizessem. Quando aproximavam era com uma pedra na mão e o bichano tinha plena consciência disso, tanto que tão logo se abrigava num lugar apertado. Mergulharia, se fosse preciso, em qualquer buraco, seja ele qual fosse. Entre a urgência do medo e da fome, o miar se agravava, sacrificando o neauseabundo-melifloente ouvir sossegado, solitário. Tal necessidade intrínseca às vezes machucava, fazendo o amanhã passar mais devagar.

                                                                

Talvez por isso davam a prova do amor no leite, na água e afago,como se dizessem que não era bem assim, que precisava se acostumar com aquele silêncio para poder ser feliz. Sorrie.

Como se pudesse volatilizar a necessidade. No segundo dia, abafavam o já ruído com o travesseiro. Queriam ensinar amorosamente que isso era o sonho da liberdade, aquele nas quais as leis faziam funcionar, tal qual nada tivesse acontecido. Quanto mais miava, mais enchiam-no de comida, enlatados.

Havia uma igreja por perto, havia uma instituição de proteção de animais no papel e um mundo de pessoas em seus apartamentos. Ele, no entanto, desabrigado, livre, miando por cima das dezenas de atuns industrializados. Certa vez afagaram sua pequena cabeça e, como ele acalmou, passaram a prendê-lo, durante a noite, na cisterna. Daí os miados noturnos realmente cessaram. Às vezes se ouvia bem abafado, mas nada que o sono não suportasse.
De pouco em pouco foi sumindo da mente das pessoas como se houvesse ingressado no ambiente familiar, do costume, do banal. Dois meses passaram e não se ouvia miar algum. A porta da cisterna trancada, como d'antes. O vigia noturno, a quem encarregaram de cuidar do bichano disse:
- Ele morreu.
- De que?
- Sumiu.
- Como assim?
- Caiu. Ficou.
Era aquele encostado no meio fio ou um outro? Não houve mais tempo de saber: na manhã seguinte os lixeiros haviam limpado a única evidência restante. O vigia, tão mudo em sua função, seria capaz de lembrar a quem tanto trabalho dera a esquecer?