domingo, 19 de junho de 2016

Da série "O Augusto": 2. Mosca na sopa



Unintended Piano Music
[Cornelius Cardew]
Works 1960–70

Intérpretes: 
John Tilbury piano
Michael Duch contrabaixo
Rhodri Davies harpa



 "Uma secreta luz cúmplice da obscura região de omissões e espaços brancos em que o dia a dia consiste"
Viriato Soromenho Marques in: As rotas do amor: Notas de leitura dos Fragmentos de um discurso amoroso. p. 305.


A melancolia lhe desce pelo pâncreas até as pupilas. Intumesce a secura de algum volume labial com a sólida amargura da solidão. E quando se cristaliza em vaidade, vira insumo estomacal, pelo qual anoitece dias na virulência dos abutres. Redondo como o mundo. Redondo, ordinário. Cadafalso moído e, por vezes, remoído.

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Vitupera o glúteo com as mãos nas carnes das ave-marias e nas centenas de pais nossos. Cai mordido pela bênção do prazer inviolável , deixando escorrer tão assim o leite derramado pela pele do amanhecer, sob a promessa de que possa varrer tão logo desejar. 
Isso a que atribui o nome de vida: um papel de bala sendo carregado pelo vento. 

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Na beira da calçada, um assobio. Cercado por ambos os lados, alguém proclama a liberdade em bom tom. Ecoa longínquo o som para as profundezas do anonimato. Quem seria?

Não havia ninguém pelos arredores àquela hora do dia, além daquelas vestes de amianto que nudez não conseguia deslocar.

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Um chamado. O ar espremido sai da boca queimada pelo sol, em caminhos que até a curvadura dos dedos duvidaria.
Como se não bastasse o sopro, gesticula o mesmo sentido: leste para oeste. 

Machista que dói.

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Se por um acaso dissesse à sua pequena filha com os olhos do silêncio, deixaria de sair atrás do que bem machucasse. Mas o mar é vigoroso e faz das luvas garras cabeludas.

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Os rolos de papel sempre estão à sua direita, plenamente encaixados aos abraços e beijos. Como se dissesse, com deboche: "o quê? a perda é humana? deixa eu ver.", com o sorriso preto na boca, a gargalhar.

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Amacia a fala ao dizer coisa ilustre. Cruza a saliva ao apontar a titulação, os números de páginas, como se aquilo fosse o suficiente para a nobreza de espírito. Um pensamento que só faz  enfeitar pelo instrumento de poder e segregação. Imitação sem forma, ideia sem desenho.

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A quem o espera pelo tempo, morre na praia com os seios descobertos e o corpo retalhado em pedaços de luxúria. Choderlos de Laclos + Thénardier + Colin Evans. Circula o desejo, numa espécie de escambo estoicista. Faz preencher as faltas e repõe as falas (ainda que de maneira cronometrada).

Linhas estáveis, formas desossadas: um estereótipo deambulante.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Tremeluzir



Misterio del hombre solo
[Luis Campodónico]           
1961


Recomendação:
3
[Jocelyn Robert]
Cycloïdes
2013


No barco, de volta para casa, Ignácio depositava os resquícios da atenção no lado de fora da janela. Aquelas miniaturas em movimento a pleno breu pareciam à sua sensibilidade um afrodisíaco. Impressionavam como deixavam de ser a cada instante que olhava, dando a impressão de que eram um todo infinito, um brinquedo intocável que fazia vibrar os átomos de sua pele.
 Um avião sobrevoava a embarcação com um estrondo de fazer silenciar os mais cruéis monólogos.






sábado, 4 de junho de 2016

Fremer passado



Still life para violoncelo e fita magnética
[İlhan Mimaroğlu]
 Álbum: Musiques noires - Finnadar Records - 1983 
Intérprete: Charles McCracken.

Aquela parede canta. Na primeira vez que a assisti foi nos anos 90. Tinha o aspecto de um beco sem saída. Um exaustor industrial parecia compor o miolo daquilo tudo. Poderia ser uma usina. Poderia ser um depósito. Tudo devidamente pavimentado e enxugado. Árvore ali, só se fosse espremida, como aquela amendoeira a mostrar galhos de folhas amarelas e ressequidas. À sombra dos muros, sempre à sombra dos muros. Era a forma que a natureza encontrava para continuar respirando à dura pena.

Naquela época costumava usar o espaço gigante do estacionamento para soltar pipa com meu pai, aproveitando que aos domingos não havia carro algum por ali. Quer dizer, talvez existisse um ou outro, mas nada que impedisse de bater minhas sandálias sobre aquele solo comprimido. "Supermercado Três Poderes", era o que lia quando erguia a cabeça para cima. Encostado ao nome, gravetos indicavam o corpo de um boneco, com uma  cabeça que imitava o globo terrestre. O charme dos pés cruzados era o que mais gostava. Pode-se dizer que havia uma certa ironia, naquele charme...

Mas o fato é que aquela parede lá dos fundos cantava! E era agridoce o seu canto, não pela parede em si, mas por compor aquele emaranhado único de resquícios que davam saudade. À frente, uma pequena ponte de concreto conectava aquele espaço a uma região residencial. Sim, pois há um córrego onde o esgoto é despejado logo ali, onde tantas vezes me dispersei nas ondas frívolas...

Uma pintada grade de ferro bloqueia a passagem quando o mercado está fechado. Desnecessária, pois na falta daquela pontezinha, basta caminhar dez minutos a mais para se chegar ao mesmo lugar. Sabe-se lá o quanto as ruas sem saída servem a um morador antigo....   

Vinte anos depois, as cores retomavam àquela parede. Trazem as cores da grade de ferro e nenhuma amendoeira. Finalmente a apagaram com o mata-borrão. Dormirá sobre o solo oco até o dia em que, por si só e esquecida, redescobrirá o caminho da luz, num novo canto redobrado pelo farfalhar.